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3. OMBUDSMANIN KURAMSAL VE KAVRAMSAL TEMELLERİ

3.9. Ombudsman Kurumuna İlişkin Türler

Desde o ano de 2003, o sistema penal do Estado do Rio de Janeiro ganhou o

status de Secretaria de Estado, denominando-se Secretaria de Estado de

Administração Penitenciária (SEAP/RJ). Dessa forma, foram criadas duas subsecretarias: a Subsecretaria de Unidades Prisionais, na qual são alocados os inspetores penitenciários, e a Subsecretaria de Tratamento Penal, que comporta o quadro técnico da administração penitenciária, tais como os de serviços de educação, classificação, saúde, serviço social, psicologia e assistência jurídica (DAHMER PEREIRA, 2006).

Ressalte-se que as prescrições da Organização das Nações Unidas, ONU, da qual o Brasil é signatário, preveem tanto regras mínimas para tratamentos e proteção dos presos como código de conduta para funcionários responsáveis pela aplicação das leis.73 A legislação brasileira, tendo como instrumento central a chamada Lei de Execução Penal - LEP (1984), garante “o direito do preso a Assistência e o dever do Estado em promovê-la em diferentes dimensões” (DAHMER PEREIRA, 2006, p. 270).

73Segundo Tânia Maria, os textos mais importantes da ONU seriam: Regras Mínimas para o

Tratamento dos Reclusos (1955); Os Princípios Básicos relativos ao Tratamento dos Reclusos (1987); “Código de Conduta para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (1989) (DAHMER PEREIRA, 2006, p. 268-270).

No que se refere à disciplina, a Lei de Execuções Penais (LEP) define os seus objetivos de controle por meio de punições e concessões de regalias descentralizadas a critério da direção prisional.74

No caso do Estado do Rio de Janeiro, em 1986 foi elaborado um Código de Ética para a carreira de “Inspetor Penitenciário”, baseada em 3 (três) categorias ético-morais: alteridade, responsabilidade e compromisso, presentes implicitamente nas ações de custodia, “tais como proteger, cuidar, zelar pela integridade física e psicológica do outro — o preso — ainda que tangenciando ações repressivas e coercitivas” (DAHMER PEREIRA, 2006, p. 271).

Para a autora citada, as ações de custódia são, formalmente, o objetivo central dos Inspetores Penitenciários, porém, para compreendermos as práticas concretas desses profissionais, no que diz respeito à violação das normas legais, é necessário entender que elas transitam, constantemente, entre um plano normativo (ou moral) e outro factual (ou da moralidade). Sob o prisma dessa abordagem, o ambiente prisional concreto criaria uma “moralidade”; ou seja, “normas de fato” , que seriam fruto das “normas legais” mescladas com as informalidades da “lei” não escrita.75 Esta última seria uma facilitadora do “poder discricionário”, que passaria a ter “força de lei” (DAHMER PEREIRA, 2006, p. 271-272).

Esse seria o motivo do porquê nos deparamos, na nossa pesquisa de campo no Talavera Bruce, com algumas regras seguidas à risca, sem que algum funcionário saiba explicar a sua origem; ou seja, sem qualquer regulamentação formal e justificativa defensável, a não ser com o intuito de amedrontar, de forma arbitrária, as internas. Por exemplo: presa não usa roupa colorida; só vai ao pátio ou ao serviço social com camisa branca ou com a verde do TB, e

74 Vale lembrar que, diferentemente da maior parte da legislação penal, a citada lei propicia ao

diretor de cada prisão uma extensa possibilidade de incentivos de criação de normas internas específicas para premiar as presas consideradas de bom comportamento.

75 Ressalte-se que essa “lei de fato”, mesclando normas legais com o que se denominava, na

época, como “costumes”, era bastante comum nos governos locais, durante o período imperial brasileiro. Ver, a respeito, o clássico livro, de Maria Sylvia de Carvalho Franco, intitulado Homens Livres na Ordem Escravocrata, especialmente o cap. 3: “O Homem, a Administração e o Estado (FRANCO,1997).

jamais usa preto (neste caso, para não se esconder), não pode usar touca, etc..

Um exemplo interessante foi o caso de uma “faxina”, recentemente admitida, que, na hora do almoço, ficou conversando com outra, no pátio, quando ali passou o novo diretor, que “não estava num dia bom” e mandou J. para a “tranca”:

Eu estava esperando abrir o Serviço Social, pois vocês estavam no almoço, aí eu fui ali na frente (pátio) abaixei para ajeitar minha sandália quando ele chegou: “Que vocês estão fazendo aqui? Pra tranca agora!”

Chamou os guardas pra me carregar para a tranca, fiquei lá quarta, quinta, só saí na sexta quando chegou o bonde (quatorze presas do Bangu 7). A “prova de silêncio” estava cheia e aí elas tiveram que ir para a tranca, mas o Diretor depois até me pediu desculpas, disse que eu estava no lugar errado, na hora errada, mas pra eu ficar tranqüila que não ia dar em nada não. Acho que não vai botar no “livro.76

São os exercícios discricionários de poder e essas “normas” de fato que passam a ter “força de lei”, que são encontrados não apenas no Talavera Bruce, mas, também, em outros estabelecimentos penitenciários:

tem muitos jogos que são feitos. Entra a relação de convivência já viciada do dia-a-dia, entra os favoritismo. Aqui tem muito jeitinho... Algumas infrações disciplinares para uns, vão para o castigo,levam tranca, para outros não! A norma é elástica também..” (Técnico de uma área profissional, 32 anos, 10 de serviço), (apud DAHMER PEREIRA, 2006, p. 272).

Em relação aos procedimentos formais, é importante descrever as Comissões Técnicas de Classificação (CTCs), das quais participam funcionários do setor de classificação, que fazem o interrogatório das internas na presença de uma assistente social e, se for possível, também da psicóloga. Esse procedimento tem o objetivo de formalizar e trazer a termo situações de infração ou indisciplina envolvendo internas dentro do Sistema Penitenciário.

76 Esse livro contém informações sobre o comportamento das presas, que se classifica em:

Fui convidada a presenciar várias CTCs; não havendo qualquer constrangimento, por parte dos funcionários, com a minha presença; ao contrário, um deles chegou até a me perguntar se eu gostaria, também, de interrogar uma presa. Educadamente, eu disse que preferiria apenas assistir aos procedimentos formais.

Esse fato merece algumas reflexões, ainda que exploratórias. As CTCs são instrumentos importantes não só para reiterar, formalmente (em relação as que cometeram infrações internas), as relações de dominação vigentes, mas, também, para quebrantar os ânimos das demais presas no que diz respeito a possíveis atos de resistências futuros.

Ressalte-se que as sessões das CTCs são eventos regulados formalmente, colocando, portanto, alguns limites aos micropoderes dos inspetores, ao prescrever, por exemplo, a presença de uma assistente social ou de uma psicóloga, que, devido às peculiaridades de seus respectivos trabalhos, partem de alguns pressupostos profissionais diferentes dos primeiros. Mesmo assim, as sessões de interrogatórios envolvendo atores extremamente assimétricos, aliadas a preconceitos não-reflexivos por parte dos inspetores sobre diferentes dimensões cognitivas das presas (gênero, sociabilidade, violência, etc.), não raro tornam tênue a fronteira entre legalidade e arbitrariedade, como se verá mais adiante.

Em função das considerações acima, ao iniciar o trabalho de campo, jamais imaginei que teria a oportunidade de assistir diretamente a uma sessão das CTCs. Aliás, inicialmente, cheguei a pensar em buscar recriar esse contexto por meio de entrevistas qualitativas com presas que tivessem participado das mesmas, já que eu partia do pressuposto de que as informações dos inspetores sobre o tema seriam de pouca valia.

Uma questão a ser respondida é sobre o porquê de somente eu ter sido convidada a presenciar esses eventos como, inclusive, foi-me oferecida a oportunidade de participar de um CTC como “interrogadora”?

Ressalte-se, como mencionado anteriormente, que minha postura como pesquisadora — tanto em relação as presas como aos diferentes tipos de funcionários e autoridades — foi sempre de “ouvir muito”, ser cuidadosa nas perguntas, falar pouco e evitar expressar qualquer posição valorativa explícita77.

Isso tudo para reafirmar que o convite para participar desses eventos não se deveu a qualquer identificação explícita com as autoridades penitenciárias. Acredito que uma possibilidade de explicação desse comportamento estaria numa cultura de incorporação como forma de cooptação não-reflexiva do “outro”. Isso significa que, caso você seja aceito como igual e participe das atividades comuns do grupo, tanto os seus “benefícios” como as suas “responsabilidades” passam a ser iguais às dos demais envolvidos.

Entretanto, isso somente seria possível se essa incorporação fosse realizada através de eventos e rituais considerados legítimos; ou seja, na verdade, dei- me conta de que — diferentemente do que imaginava — os inspetores sempre acreditaram que as CTCs nada tinham que pudesse ser considerado abusivo ou discricionário.

A CTC é chamada, pelas presas, de “disse que”78. É comum ouvir-se uma

presa afirmar que já foi para o “disse que”. Em um procedimento disciplinar desse tipo, após uma “geral” na galeria C, foram encontrados um celular da operadora TIM, um chip da operadora de telefonia celular Claro, duas baterias

e um carregador. Eis, a seguir, parte do interrogatório feito por um funcionário a uma presidiária, no qual se percebe que o “disse que” é uma forma de acusação (ou delação), em que se instaura um jogo de divisão e conflito entre as presas:

Funcionário: — A comunicação é verdadeira? Presa: — Sim

77 Evidentemente, seja por “ato falho” ou por falas “não reflexiva”, sempre é possível escapar

posições valorativas. Entretanto, o importante é que essa posição de afastamento relativo do meu objeto de estudo esteve sempre presente durante todo o período do trabalho de campo.

Funcionário: — Como você adquiriu? Presa: — Nada tenho a declarar

Funcionário: — Quanto tempo permaneceu com o aparelho? Presa: — Desde abril

Funcionário: — Você emprestava o aparelho para outras pessoas? Presa: — Sim

Funcionário: — Você ficava perto delas quando elas ligavam? Presa: — Não Senhor.

Funcionário: — Você tem conhecimento que tem responsabilidade penal por esse tipo de transgressão?

Presa: — Tenho.

Funcionário: — Há envolvimento de funcionários na entrada desses aparelhos?

Presa: — Não sei dizer. Funcionário: E do seu? Presa: — Também não sei

Funcionário: — Para que fim usava o aparelho? Presa: — Exclusivo para falar com a família.

Seu olhar é de incerteza, preocupação, humilhação. Começa a roer suas longas unhas bem pintadas. Lê o termo, usando os óculos, que pediu emprestado ao funcionário, e assina. “V...”. Em seguida, diz: “— Eu só ia pedir para minha “tranca” ser em dias alternados, porque eu faço pré- vestibular.”.

Mais um caso de CTC, ao qual pude assistir, em que uma presa desacatou uma inspetora:

Funcionário: — Você veio aqui porque tem uma parte disciplinar. Presa: — Pode dar parte, uma a mais, uma a menos, não faz diferença, tenho sete anos de cadeia pra tirar. Eu falei que ia tocar fogo no mato.

Funcionário: — Então a comunicação é verdadeira em parte, que nem tudo ocorreu como consta na comunicação, declara que não chamou o funcionário “B...”. para brigar “homem a homem”.

Presa: — Eu disse: “O senhor vai me bater”? Também xinguei Dona “F”. de demônio, de capeta, mas ela que começou. Eu desrespeitei, mas não falei palavrão.

Funcionário: — Declara que não falou palavrões nem para funcionários nem para suas companheiras, “disse que” realmente chegou a chamar de diabo e capeta.

Presa: — Se ela tivesse falado comigo na humildade.

O funcionário aconselha a presa a ser mais maleável, mas ela vai direto para a “tranca”.

Outro caso que presenciei: houve uma apreensão de 140 (cento e quarenta) trouxinhas de maconha; então, chamaram a interna acusada pelas outras de seu cubículo. Nova CTC e novo “disse que”:

Funcionário: — Onde estava a maconha? Presa : — No lixo.

Funcionário: — Mas você confessou.

Presa: — Fui pressionada. Eu não dei depoimento porque só vou falar com o Juiz (chora). As polícia, as outras presas ficaram me olhando aí eu assumi. A funcionária que tava de “plantão” me mandou ir pra “má lugar”.

Funcionário: — O que é isso?

Presa: — Me mandou ir pra “porra” e o SOE falou que eu ia levar uma coça.

Nesse caso, seja por motivos de dívidas, seja por outros tipos de constrangimentos com as colegas de cela, a presa foi pressionada a assumir, sozinha, uma infração grave (mercado de droga ilícita). Frente a uma situação em que o inspetor, mais uma vez, sente que os culpados lograram escapar, sem ele nada poder fazer, e que vai ser obrigado a punir a pessoa escolhida pelo grupo de presas, sente-se cansado e desconfortado com essas pequenas derrotas.

Nesse momento, o funcionário olha pra mim e começa a falar: “— O Lula só beneficiou vagabundo, nós trabalhadores... faltava um ano para eu me aposentar, mudou a lei e agora eu tenho que ficar mais sete”.

O discurso do funcionário parece ser uma queixa sobre o seu próprio aprisionamento. Em outro momento, ouvi uma funcionária, que ia sair de licença, dizer que saíra sua ”LC” (liberdade condicional) e outra, ao voltar de férias, dizer, debochadamente, que ”fecharam sua cadeia”.

A situação dos funcionários é também repleta de dificuldades. Além de ficarem, diariamente, em um ambiente onde todas as paredes são de cor cinza, não há papel higiênico nos banheiros; cada funcionário leva o seu na bolsa. Da mesma forma, o café, que tomam durante a jornada de trabalho, e o copo de beber água são custeados pelos próprios funcionários.

Presenciei uma situação em que uma presa tinha sido agredida pela companheira; bastante machucada, recusava-se a fazer exame de corpo de delito e as inspetoras de segurança estavam nervosas e gritavam com a presa: “— Você tá pensando que vai cuidar da cútis, minha filha?! Não vai pro dermatologista não!”. Depois, essa inspetora me relatou como eram tensos aqueles momentos nos quais ela tinha que agir e ficava com tanta raiva, que colocava as mãos nos bolsos, para não acabar agredindo alguma presa.

Essa sensação parece ser recorrente em outros estabelecimentos penais do Estado, nos casos de fortes conflitos entre presos e funcionários, como sugere o depoimento de um Inspetor registrado por Tânia Maria Dahmer Pereira:

Quando o preso usa de violência contra o funcionário, eu acho que , a partir daí, está aberto ao funcionário a usar do mesmo jeito, o guarda tem o direito de fazer dobrado. Porque o preso não pode fazer. Afinal de contas, a gente não pode esquecer que o guarda é um cidadão honesto, que está ali trabalhando em prol da sociedade; e o preso não, o preso é exatamente o contrário (41 anos de idade, dezoito anos de serviço). (DAHMER PEREIRA, 2006, p. 272)

A autora chama a atenção, informando que prevalece a ideia corrente, entre os inspetores, de que a violência pode ser respondida com violência e não apenas através do instrumento legal do “uso da força” prescrito pelo código de ética e pelas legislações pertinentes (DAHMER PEREIRA, 2006).

Ressalte-se, entretanto, que relações discricionárias não ocorrem sempre com fortes embates, mas está presente também em ações de cooperações entre funcionários e presas.

É relevante mencionar algumas dessas relações ambíguas estabelecidas entre funcionárias e presas. Começo citando, a título de exemplo, os casos da psicóloga que adorava a massagem corporal feita por uma presa venezuelana, bem como o da agente de segurança que entrou na sala do serviço social com os cabelos molhados, em companhia de uma presa que iria lhe cortar os cabelos.

Uma estagiária disse o seguinte:

— Ninguém tem boa vontade pra fazer nada aqui [mencionando um bordado que encomendou para sua blusa], tudo tem que trocar, só faz se eu fizer o processo de visita delas. Vê se pode?

A fala da estagiária — que incorporou, possivelmente, de forma não-reflexiva, as normas de relações entre funcionários e presas acima — nos revela, como foi mencionado anteriormente, que a “troca direta” de favores não pode ser aceita, pois fragilizaria o funcionário ao assumir que estava praticando uma ilegalidade. É necessária a utilização da “troca ampliada”, na qual cada um qual espera que, cooperando, vá, no futuro, receber, aparentemente, de forma “natural”, a boa vontade do outro, mas que nunca pode ou deve ser associado, diretamente, à prestação de um favor anterior.

As relações entre funcionários e presas são ambíguas, havendo, concomitantemente, cooperação e competição, ainda que sejam bastante assimétricas a favor dos primeiros. A existência de sujeição e de assujeitamentos, — como, por exemplo, no caso de algumas “faxinas” — não significa falta de resistência. Essas resistências não, necessariamente, têm um caráter axiológico, mas são formas de interceptar certo funcionamento regular de poder ou de desviá-lo do seu sentido original.

Como mencionamos anteriormente os castigos e privilégios são modos de organização das prisões. Entretanto, esses conceitos não são um rebatimento mecânico do significado dos mesmos na chamada “sociedade livre”. Assim, os “privilégios” na prisão “não são iguais as prerrogativas, favores ou valores...(da “sociedade livre”), mas apenas ausência de privações, que comumente as

pessoas não esperam sofrer” (GOFFMAN, 2007:52), (o grifo e os parênteses são nossos)

Isso significa que a díade “castigos e privilégios” é um componente central das prisões no mundo contemporâneo, o que varia bastante é a forma de regulação

de cada um desses pólos desse sistema de controle do preso, bem como o modo de interação dos mesmos. No caso brasileiro, essa normatização começa pela Constituição Federal, e regulamentada por uma Lei Federal, a LEP – Lei de Execuções Penais, que vem sofrendo modificações ao longo dos anos, sendo que leis estaduais regulamentam nos seus territórios a legislação federal.

No caso do estado do Rio de Janeiro, isso é feito através do Decreto Estadual Nº8897 de 31 de Março de 1986, que regulamente o Sistema Penal Estadual, e vem sendo atualizado (não necessariamente em prol dos presos), através de leis ordinárias e decretos do governo estadual. Como ocorre também em outros estados, no caso do Rio de Janeiro há uma considerável descentralização de poder para as direções das diferentes “Unidades Prisionais”.

No nosso ponto de vista, este poder discricionário generalizado no Sistema Prisional não é fruto nem de “conspiração” nem tampouco de uma “estratégia” de uma estratégia ou planejamento reflexivo dos governantes. Acreditamos que essa maior autonomia foi ganhando força, através de um aprendizado prático nas relações e negociações com os presos.Em suma, os especialistas da área foram interiorizando que para administrar (leia-se controlar) em um universo complexo e tenso como esse é necessário maior flexibilidade e poder de decisão para o Diretor.

Para Lembruger o forte poder discricionário dos Dirigentes Penitenciários é a principal causa da existência de mudanças periódicas abruptas nas formas de relacionamento entre autoridades e presos ao longo da trajetória de cada Unidade Prisional, como ocorreu no Talavera Bruce ao longo de sua história (LEMGRUBER, 1999).

Se isso é verdade, ou seja, se tem ocorrido mudanças abruptas ao longo da trajetória do Talavera Bruce, isso significa que os diretores variam bastante na forma de usar esse “poder discricionário”, Em suma, se há alguns que privilegiam as negociações e o uso das “regalias” para garantir maior controle, outros preferem priorizar o lado repressivo.

Sem negar a influência da rotatividade de Diretores no dia-a-dia da penitenciária, acreditamos que as práticas e hábitos passados influenciam, ou colocam limites para as alternativas de mudanças. Em suma, sem negar a importância do perfil do diretor, isso não significa aleatoriedade total, pois não se pode esquecer só a influencia das diretrizes gerais da SEAP/RJ. e do DESIPE, como, também, o papel da chamada “path dependence

(dependência de trajetória) ou “retornos crescentes” (increasing returns) de

cada “Unidade Prisional”. A trajetória institucional do Talavera Bruce, enquanto penitenciária diferenciada as demais- independentemente do que isso significa de positivo e negativo para os diversos atores envolvidos – acarreta uma cadeia de causalidades que influencia o presente e consequentemente afeta em termos de “custos e benefícios” (institucionais, políticos, econômicos etc.) as alternativas e escolhas futuras. Em outras palavras, path dependence não

significa apenas que a história e o passado contam, mas sim que, nas palavras de Souza (2003: 134-140), quando uma instituição adota um determinado caminho, os custos de mudá-lo são muito altos. O conceito de path dependence nos mostra que mudanças significativas e regime conduzirão a

CAPÍTULO 3