Gosling et al. (2009) encontraram uma relação entre a PAR e a estrutura da vegetação. Segundo esses autores, a floresta ombrófila apresenta PAR total maior que a floresta estacional semidecídua, e esta, por sua vez, possui PAR maior que a savana arborizada. Concluíram que essa diferença no influxo polínico dos diferentes tipos de vegetação é associada à maior produção polínica em ambientes com estrutura florestal. No estudo aqui apresentado também foram encontradas diferenças na PAR dos três tipos de vegetação estudados, as quais podem ser também correlacionadas às estruturas desses tipos de vegetação. Dessa forma, a PAR no ambiente florestal (2461 grãos.cm-2.ano-1) é superior à PAR do ambiente arborizado transicional (1476 grãos.cm-2.ano-1), e essa última é superior à PAR da área de campo (593 grãos.cm-2.ano-1).
A seguir é apresentada uma discussão sobre a composição taxonômica do sinal polínico de cada tipo de vegetação sob estudo. Inicialmente foi realizado um levantamento sobre a ocorrência dos diferentes táxons constituintes da chuva polínica nos ecossistemas estudados. Foram utilizados o trabalho de Jesus e Rolim (2005), relativo à florística e fitossociologia da mata de tabuleiro da Reserva Natural Vale, e o estudo de Ferreira et al. (2014) sobre a florística e fitossociologia do Nativo da Gávea, ponto G no presente estudo. Foram também utilizados os levantamento florísticos expeditos realizados nos pontos G, B e JV, além de informações coletadas nas exsicatas do herbário da Reserva Natural Vale.
5.2.7.1 Campo
As principais características da precipitação polínica no ambiente de campo (coletores G1 e G6) são a baixa PAR (593 grãos.cm-2.ano-1) e as frequências relativamente altas de ervas terrestres (31%), principalmente Poaceae (14%), Cyperaceae (10%) e Asteraceae (5%) (Figura 11). Com exceção de Melastomataceae/Combretaceae e Myrtaceae, a maior parte dos grãos de pólen de árvores e arbustos na precipitação polínica do campo é provavelmente originada da vegetação circundante (área arborizada e floresta), contribuindo para a diluição do sinal dos tipos herbáceos. Gosling et al. (2009) relataram valores baixos de PAR em tipos abertos de vegetação e a diluição do sinal das gramíneas pelo influxo de grãos de pólen da vegetação circundante.
Figura 11 – Tipos indicadores da precipitação polínica moderna dos ambientes estudados. Valores em porcentagem. O símbolo + indica presença
5.2.7.2 Área arborizada
A precipitação polínica na área arborizada adjacente ao campo nativo apresenta alta frequência de Byrsonima (25%) (Figura 11). Isso provavelmente não é resultado de superepresentação em poucos coletores, pois metade dos coletores instalados nesse ponto apresentou altas porcentagens desse táxon (Figura 10). A frequência de Byrsonima na área arborizada mostrou-se muito maior que na floresta (3%), apesar da presença de espécies desse gênero também no ecossistema florestal.
Outros táxons representativos da precipitação polínica da área arborizada são Lundia, com frequência de 2%, Doliocarpus (1%) e Araliaceae (1%). De acordo com informações do herbário da Reserva Natural Vale, espécies do gênero Lundia, embora possam ocorrer na mata de tabuleiro, estão normalmente associados aos campos nativos, restingas e capoeiras.
Doliocarpus é um gênero encontrado no Nativo da Gávea (FERREIRA et al., 2014). Espécies
da família Araliaceae podem ser encontrados também em ecossistema florestal (JESUS; ROLIM, 2005), mas no presente estudo a frequência de Araliaceae na área transicional foi muito mais significativa que na área de floresta.
5.2.7.3 Floresta
Urticaceae/Moraceae apresentou maior frequência no ambiente florestal (12%), onde espécies pertencentes a esses táxons estão presentes (Figura 11). No entanto, Urticaceae/Moraceae apresenta frequências relativamente altas também no campo (7%) e na área arborizada (4%), muito embora espécies dessas famílias não tenham sido encontradas no levantamento florístico e também não sejam relatadas por Ferreira et al. (2014) para o Nativo da Gávea. Nesses dois ambientes a PAR média apresenta baixo valor quando comparado com a PAR da floresta (campo = 44 grãos.cm-2.ano-1; área arborizada = 52 grãos.cm-2.ano-1; floresta = 228 grãos.cm-2.ano-1). Isso sugere o transporte de grãos de pólen das florestas circundantes, onde esse tipo polínico está presente. Gosling et al. (2009) encontraram superepresentação da família Moraceae em seu estudo realizado na Bolívia, sugerindo que grãos de pólen dessa família são transportados a longa distância. Portanto, o tipo polínico Urticaceae/Moraceae parece ser um bom indicador da vegetação florestal na região da mata de tabuleiros de Linhares, no entanto seu sinal deve ser interpretado com cautela, pois frequências menores que 10% podem indicar uma distância maior da mata de tabuleiro em relação ao local estudado.
Alguns tipos exclusivos da precipitação polínica no ambiente florestal representam espécies geralmente restritas às matas de tabuleiro (Andira/Bowdichia/Dalbergia, Banara,
Caryocar, Chrysobalanaceae, Eriotheca, Garcinia, Macrolobium, Moldenhawera, Pachira, Pleurisanthes, Pseudobombax, Salacia, Sapium, Schoepfia, Senefeldera, Sloanea, Stephanopodium e Sterculia). A maior parte desses tipos apresentou frequência inferior a 1%,
e alguns (Caryocar, Macrolobium, Pseudobombax e Sapium) apresentaram contagem de apenas 1 grão. Outros (Andira/Bowdichia/Dalbergia, Garcinia e Sloanea) foram superepresentados em alguns coletores. No entanto, a estreita relação desses táxons com o ambiente florestal sugere que eles possam ser utilizados, juntamente com outros táxons presentes no conjunto polínico, como indicadores da floresta de tabuleiros da região de Linhares.
Os tipos polínicos Celtis, Chrysophyllum, Ficus, Glycydendron, Guettarda,
Hydrogaster, Rinorea, Rourea, Sapotaceae e Virola também ocorreram na precipitação
polínica fora do ambiente florestal, no entanto, na maioria das vezes apresentam frequências maiores na chuva polínica da floresta. Se considerarmos que a maioria das espécies representadas por esses tipos sejam árvores e arbustos ocorrentes somente na floresta, podemos também considera-los bom indicadores do sinal polínico de mata de tabuleiro, muito
embora ocorram normalmente em baixas frequências (≤ 1%).
Os tipos Crepidospermum/Protium, Eschweilera, Malpighiaceae, Pera, Simarouba,
Swartzia e Vismia, representam espécies que podem ocorrer também fora do ambiente
florestal da mata de tabuleiro, no entanto, ainda em áreas com representativa presença de árvores e arbustos, tais como capoeiras e áreas transicionais como aquela estudada no entorno
no Nativo da Gávea. A maior parte desses táxons apresentou frequências baixas (≤1%) no
ambiente florestal e foi ausente na precipitação polínica da área de campo (Eschweilera, Malpighiaceae, Swartzia e Vismia). Outros apresentaram frequências maiores na precipitação polínica da floresta, mas também ocorreram, em menor frequência, na precipitação da área arborizada do ponto G (Crepidospermum/Protium, Pera e Simarouba).
Por fim, o tipo polínico não identificado 4CPeq apresentou frequência bastante alta (3%) no ambiente florestal. Embora superepresentado em um único coletor, a ausência desse tipo nos coletores localizados fora da floresta e a sua presença em vários coletores do ambiente florestal, sugere que ele possa ser utilizado como indicador da precipitação polínica da mata de tabuleiro.