Muitos autores trabalham extensivamente na tentativa de definir as categorias semânticas dos diferentes tipos de verbos (tanto simples como derivados) das línguas naturais em uma perspectiva lexicalista (RAPPAPORT HOVAV; LEVIN, 1998; HALE; KEYSER, 2002; RIO- TORTO, 2004; PEREIRA, 2007, etc.). Em umas das propostas mais influentes, Rappaport Hovav e Levin (1998) sugerem, primeiramente, uma teoria para tratar os possíveis significados disponíveis para os tipos de verbos. Tal representação é construída com base em duas tipologias: uma tipologia dos predicados primitivos, tais como ACT, CAUSE e BECOME, que são o componente estrutural da proposta, e uma tipologia da denotação das constantes em <STATE>,
“Para estas teorias, a construção de estrutura funcional eventual a partir da concatenação de um predicado à derivação é responsável pela atribuição de papeis eventuais aos participantes do evento, e por consequência, porque podemos hipotetizar a construção de diferentes estruturas de evento sobre uma única entrada verbal, podemos ter o fenômeno de alternância verbal. A ideia é que, se tomarmos um verbo que alterna entre uma leitura atélica/télica e uma leitura de accomplishment (ver exemplos (3a,b) e (4a,b) versus (3c,e) e (4c,e)), as diferentes interpretações
<PLACE>, <THING> e <MANNER>, que são o componente idiossincrático (definidas como raízes em Rappaport Hovav e Levin (2010)). Da composição desses elementos, resultam os possíveis tipos verbais. Em seguida, as autoras formulam regras canônicas de realização para expressar de que modo as categorias ontológicas das constantes definem como irão se integrar em um determinado template. Para elas, o pareamento de uma constante com um template é o que determina a estrutura de evento do verbo.
A seguir, apresentamos o inventário de templates e as regras propostas. Vejamos que as autoras também sugerem uma correspondência entre os templates e as classes aspectuais de Dowty (1979)/Vendler (1967).
(115) Inventário de templates de estrutura de eventos
a. [x ACT <MANNER> ] (atividade)
b. [x <STATE> ] (estado)
c. [BECOME [x <STATE> ]] (achievement)
d. [[x ACT<MANNER> ] CAUSE [BECOME [ y <STATE>]]] (accomplishment)
e. [x CAUSE [BECOME [y <STATE> ]]] (accomplishment)
(116) Regras de realização de constantes a. Manner (Maneira) → [x ACT <MANNER>]
(e.g. jog, run, creak, whistle...)64
b. Instrument (Instrumento) → [x ACT <INSTRUMENT>] (e.g. brush, hammer, saw, shovel,...)
c. Placeable object (Objeto alocável) → (x CAUSE [BECOME [y WITH <THING> ]]] (e.g. butter, oil, paper, tile, wax,...)
d. Place (Local) → [x CAUSE [BECOME [y <PLACE> ]]] (e.g. bag, box, cage, garage, pocket,...)
e. Internally caused state (Estado internamente causado) → [x <STATE>] (e.g. bloom, blossom, decay, flower, rot, rust, sprout,...)
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Não traduziremos os exemplos porque é fato que nem sempre a tradução de um verbo corresponde à estrutura eventual daquele verbo na língua fonte.
f. Externally caused state (Estado externamente causado) → [[x ACT] CAUSE [BECOME [y <STATE> ]]]
(e.g. break, dry, harden, melt, open,...)
Uma primeira diferenciação deve ser notada: há constantes que são argumentos dos predicados, como <STATE>, <PLACE> e <THING> e outras que modificam um predicado, como <MANNER> e <INSTRUMENT>. Essas últimas podem ser entendidas como maneiras de realização daquele predicado (tal diferenciação é representada pelo subscrito). Veremos como essa ideia foi incorporada estruturalmente em Embick (2004) e Marantz (2012) adiante.
A realização sintática do template de estrutura de evento se constrói em três passos descritos de a a c a seguir:
a. Condição de identificação do subevento: cada subevento na estrutura de evento deve ser identificado por um núcleo lexical (ex. um V, A ou P) na sintaxe;
b. Condição da realização argumental: a) deve haver um argumento XP na sintaxe para cada participante na estrutura de evento, b) cada argumento XP na sintaxe deve estar associado com um subevento na estrutura de evento;
c. Regras de Ligação: dentro de uma tradição que remonta ao Princípio de Projeção e ao Critério Temático de Chomsky (1981), as autoras sugerem que a realização dos argumentos é mediada por um mecanismo de interface definido em vagos termos como um conjunto de regras de ligação. As próprias autoras afirmam que uma teoria de ligação ainda precisa ser melhor formulada, como se nota no seguinte trecho: “Nothing, however, hinges on our use of linking rules, and we acknowledge that the best formulation of a linking theory is still a matter of debate”65. (p. 114)
Em relação às alternâncias verbais, estas são explicadas, basicamente, pelo fato de uma constante poder se associar a mais de um tipo de template, o que, nesse caso, levaria a um significado diferente. O exemplo é o do verbo sweep que pode realizar os seguintes templates, sendo que um deles é sempre o mais básico. Nesse sentido, as alternâncias são direcionadas.
(117) a. Terry swept. = [x ACT]
b. Terry swept the floor clean. = [[x ACT] CAUSE [BECOME y <STATE>
Além disso, pode haver uma articulação de templates que levam a formação de eventos complexos a partir de subeventos. Por exemplo, a partir da articulação de um template nucleado por BECOME e de um template nucleado por ACT por meio do predicado CAUSE, obtem-se um verbo causativo de mudança de estado (John opened the door) (como em (115)d). Se somente o subevento mais interno for expresso sintaticamente, obtemos uma estrutura intransitiva (The door opened). Em oposição a isso, um verbo com uma ELC causativa pode sofrer decausativização, processo em que o constituinte que expressa semanticamente a causa não é expresso sintaticamente.
Vemos que um modelo como esse tem um alto poder descritivo e um léxico completamente especificado. Além disso, há a necessidade de um mecanismo rico de interface entre léxico e sintaxe. Um problema que nos preocupa neste tipo de análise é a falta de preocupação com a morfologia verbal. Diversas línguas apresentam verbos complexos no âmbito da derivação em que se apresentam partes discretas de significado que podem corresponder aos primitivos sugeridos por essa teoria, mas tal fenômeno não é salientado. É comum, por exemplo, que em diversas línguas o operador CAUSE seja realizado por um afixo causativo que propicia alternâncias verbais66 (HASPELMATH, 1993:91). Abaixo, extraído de Cyrino-Lazzarini (ms) 67 , temos o exemplo do indonésio, que apresenta um produtivo processo de causativização morfológica com o prefixo me-.
(118) Indonésio
a. Tutup ‘fechar (intransitivo)’
b. Me-nutup ‘fechar (transitivo)’ Cyrino-Lazarini (ms:17)
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Adiante, apresentaremos uma discussão sobre direcionalidade da derivação e também abordaremos casos em que a versão intransitiva é a mais marcada.
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Lazzarini-Cyrino (ms) discute a forma como, em uma mesma língua, diversos padrões de marcação morfológica podem ser encontrados. Mais especificamente, aponta que, a depender do verbo, a versão marcada da alternância pode ser a causativa (transitiva), a anticausativa, uma alternância lábil ou mesmo uma modificação da raiz. O autor sugere que as línguas tendem a conceitualizar os eventos em dois tipos de perfis, absoluto ou energético, mas afirma que nenhuma língua pode ser taxativamente classificada como exclusivamente pertencente a um desses perfis.
Ainda, outras línguas apresentam morfemas que corresponderiam ao predicado ACT. O turco apresenta um produtivo processo de formação verbal por meio da adição do verbo auxiliar etmek (‘fazer, performatizar’) a substantivos em tempos ativos68. Alguns exemplos abaixo:
(119) Turco
a. telefon etmek
telefone ‘fazer’ ‘telefonar’ b. kaybetmek
perda‘fazer’ ‘perder’ c. affetmek
perdão‘fazer’ ‘perdoar’
Uma teoria que se preocupa com esses fatos deve estabelecer uma relação entre a morfologia e os primitivos semânticos.
3.3.2. Decomposição sintático-lexical (HALE; KEYSER, 2002): templates sintáticos e