Nesta subseção, retomamos algumas propostas de classificação semântica de verbos derivados e simples para, primeiramente, avaliar se essas seriam suficientes para tratar de nossos dados e, então, se necessário, sugerir mudanças e propor uma nova classificação. Elencamos duas propostas: Pereira (2007) e Cançado e Godoy (2012). Em vez de retomar cada um dos trabalhos em forma de resenhas completas, iremos apresentar uma introdução com os comentários gerais a esses trabalhos seguida de uma tabela que sumariza a classificação semântica (em termos de Estruturas Lexicais Conceituais-ELCs), as propriedades argumentais dos tipos verbais e as correspondências entre as propostas apresentadas e discutidas. No próximo capítulo, abordaremos cada classe tentando mostrar em que medida as categorias propostas englobam os dados abordados nesta tese, com foco em dois aspectos: no tipo de raiz envolvida na formação e na realização dos afixos.
Pereira (2007) faz uso da semântica lexical para apresentar uma proposta de decomposição semântica para os verbos derivados. Segue o modelo de Levin e Rappaport Hovav (1998), Lieber (1998), Farrel (1998) e Plag (1999), sugerindo que:
“os significados verbais são representados como uma estrutura hierarquicamente organizada de primitivos semânticos básicos de tipo verbal, traduzidos como como AGIR, CAUSAR, IR PARA/DE e MODO, e
seus argumentos, os quais podem ser semanticamente especificados como Coisas, Lugares ou Propriedades” (p. 117).
Nesse modelo, os verbos que pertencem a uma mesma classe semântica devem conter uma estrutura decomposicional comum, mas diferem com relação às constantes preenchidas lexicalmente. Por exemplo, uma ELC como em (221) abaixo se associaria a todos os ‘verbos causativos de mudança de estado’ (p. 115):
(221) [[x AGIR] CAUSAR [y IR PARA [] ESTADO]]
(222) Exemplos:
a. Engordar: [[x AGIR] CAUSAR [y IR PARA [gordo] ESTADO]] b. Emagrecer: [[x AGIR] CAUSAR [y IR PARA [magro] ESTADO]] c. Limpar: [[x AGIR] CAUSAR [y IR PARA [limpo] ESTADO]]
O primeiro passo do autor é sugerir uma classificação semântica relacionada às bases dos verbos derivados, definindo os primitivos a que pertencem os argumentos das constantes (conforme tabela a seguir). Vemos que, em princípio, a semântica da base pode ser equiparada à semântica da raiz.
Papel semântico da base Verbos heterocategoriais
a. Resultativo alisar, fraquejar, actualizar, falsificar, aveludar... liso, fraco, actual, falso, veludo...
b. Tema/Objecto encerar, atapetar, arborizar, gradear, esladroar... cera, tapete, árvore, grade, ladrão...
c. Fim/Alvo ou Origem engarrafar, hospitalizar, crucificar, espipar... garrafa, hospital, crucifixo, pipa...
d. Instrumento apunhalar, aplainar, esporear, esfaquear, varejar... punhal, plaino, espora, faca, vara...
e. Modo/Maneira serpentear, capitanear, coxear, gaguejar, fiscalizar... serpente, capitão, coxa, gago, fiscal...
Tabela 13. Papeis semânticos das bases em Pereira (2007:24).
Primeiramente, vejamos que a classificação das bases denominadas de resultativas (em a.) (liso, fraco, atual, falso, veludo) é equivocada. Essa bases não são resultativas em si, mas são raízes que denotam propriedades de estados que podem fazer parte de uma estrutura de evento verbal que denota algum tipo de resultado decorrente da mudança sofrida pelo argumento interno, como demonstramos acima. Quando usadas fora de uma estrutura verbal, não implicam, necessariamente, nenhum resultado, como nos exemplos a seguir. Assim, o resultado não está na base ou, em nossos termos, na denotação da raiz, mas na estrutura verbal e na relação com o argumento interno.
(223) Meu cabelo é liso. (224) Não gosto de café fraco.
(225) Compre uma revista mais atual. (226) Este é um diamante falso. (227) Não uso roupa de veludo.
Segundo o autor, as bases inseridas na tabela 13, de a. a e., quando incorporadas nos diferentes tipos de ELCs, geram verbos de diversos tipos semânticos (p.125-126). Apesar de atentar para a realização morfológica dos afixos dentro de cada classe semântica, não há uma tentativa concisa de investigar em que medida os afixos podem corresponder ou realizar os primitivos semânticos das ELCs. As classes sugeridas são as dispostas na tabela seguinte. A classe denominada Modal não contém verbos com prefixos.
Classe Semântica Paráfrase Exemplos
Locativo ‘pôr em Xb’
‘tirar de Xb’
Engarrafar, hopitalizar, hastear, crucificar Espipar, esventrar
Ornativo ‘prover com Xb’
‘tirar Xb de’
Encerar, atapetar, arborizar, gradear Esladroar, espulgar
Resultativo ‘tornar Xb’
‘transformar em Xb’
Alisar, fraquejar, actualizar, falsificar Acardumar, aveludar, caramelizar, coisificar
Instrumental ‘ferir/afetar com Xb’ Apunhalar, aplainar, esporear, varejar
Performativo ‘fazer/realizar/produzir Xb’ Guerrear, festejar, frutificar, bolorecer
Modal ‘agir como/de forma Xb’
‘exercer as funções de Xb’
Serpentear, fanhosear, gaguejar, vigarizar Fiscalizar, capitanear, pastorejar
Tabela 14. Classificação dos verbos heterocategoriais em Pereira (2007:145).
Cançado e Godoy (2012) apresentam uma proposta de classes verbais para o PB que se baseia em dois modelos teóricos de naturezas distintas. As autoras representam os verbos em um nível semântico-lexical, assim como Pereira (2007), seguindo os pressupostos da Semântica Lexical por meio de ELCs. No que denominam nível sintático-lexical, utilizam as estruturas de Hale e Keyser (2002) para propor a representação dos argumentos associada a tais ELCs. Assim como em Pereira (2007), a interface entre a estrutura semântico lexical e a estrutura argumental (sintática) não é direta; ela deve ser mapeada por algum mecanismo do tipo de regras de ligação. O trabalho se mostra interessante porque revela a preocupação em desvendar quais aspectos semânticos são importantes para a projeção dos argumentos na sintaxe e quais são supérfluos. Esse aspecto mostra que esse trabalho apresenta um avanço em relação aos demais na interface sintaxe (especialmente estrutura argumental) e léxico, além de que se propõe a descrever especificamente o PB. Retomam a divisão de Verbos de Resultado e Verbos de Maneira propostas em Rappaport-Hovav e Levin (2010) e renomeiam os verbos de resultado como verbos de mudança, que apresentam algumas subclasses. Contudo, como veremos nas críticas delineadas
na apresentação de cada subtipo semântico, a representação sintática de verbos derivados, por exemplo, fica demasiadamente simplificada e a descrição morfológica não é abordada.
Olhando a tabela a seguir, observamos que Pereira (2007) apresenta uma mesma ELC para verbos Locativos, Ornativos e Instrumentais e representa os argumentos com variáveis cuja opcionalidade é marcada pela presença de parênteses. Cançado e Godoy (2012) discutem os verbos de mudança (de estado, lugar e posse), não enfocando verbos do tipo Instrumental e Performativos (Alvo/Fonte).
Pereira (2007) Cançado e Godoy (2012) Resultativos
(avermelhar)
ELC:
[[X AGIR] CAUSAR [Evento YCoisa/Propriedade
IR PARA ZCoisa/Propriedade]]
EA: (x), y
1. Verbos de Mudança de Estado
(Acarretamento e Alternância causativo-incoativa)
i. causativos/agentivos (quebrar)
[[X (ACT)] CAUSE [Y BECOME <STATE>]] - aceitam passivização
- aceitam indeterminação do sujeito - aceitam se “intransitivizador”
ii. estritamente causativos (preocupar)
[[X] CAUSE [Y BECOME <STATE>]] - não aceitam passivização
iii. incoativos (amadurecer)
([X] CAUSE) [Y BECOME <STATE>] - não aceitam passivização
- não aceitam indeterminação do sujeito - não aceitam se “intransitivizador”
Locativos (engavetar)
2. Verbos de Mudança de Lugar (engavetar)
[[X ACT] CAUSE [Y BECOME] IN <PLACE> - não permitem alternância incoativa
- permitem alternância média (BASSANI, 2009) - com se = interpretação “medial”
Ornativos (apimentar)
3. Verbos de Mudança de Posse (apimentar)
[[X ACT] CAUSE [Y BECOME] WITH <THING> - não permitem alternância incoativa
- permitem alternância média (BASSANI, 2009) - com se = interpretação reflexiva
i. Locatum ii. Benefactivos Instrumentais
(apedrejar)
-
Performativos (Alvo/Fonte) (empilhar)
[X FAZER BASE EM YCoisa] EA: x, (y)
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