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A decisão de consumir um medicamento ocorre, na maior parte das vezes, quando os indivíduos estão doentes, sendo, portanto, um gasto que não reflete as preferências pessoais. Especificamente no caso do Brasil a cobertura para medicamentos ainda é escassa nos setores público e privado, de modo que o gasto com medicamentos é financiado em grande medida pelas famílias através do desembolso direto. Nesse contexto, a aquisição de medicamentos pode ser um bom indicativo do acesso a serviços de saúde.

Este capítulo descreve a evolução dos gastos das famílias brasileiras com medicamentos, incluindo o componente não monetário das aquisições. Este estudo verificou um pequeno incremento do valor absoluto do gasto com medicamentos entre os períodos, já considerando os valores corrigidos, nas famílias pertencentes a todos os grupos de renda. Uma explicação é o fato de que a renda média cresceu mais entre os primeiros três quintis de rendimento que nos últimos, e os gastos com medicamentos crescem na mesma direção que a renda.

Quanto ao perfil regional de gasto com medicamentos, observou-se incrementos substanciais do valor médio deste em todas as regiões entre 2002-2003 e 2008-2009. Pode- se citar o caso da região Sul, de 45%, bem acima do crescimento nacional, de 25%. Além disso, verificaram-se também diferenças relevantes do gasto com medicamentos entre famílias com chefes negros e não negros. No período 2008-2009, o gasto médio com medicamentos das famílias com chefes negros foi R$ 55,21. Em torno de 85% destas famílias tiveram registro de gastos com medicamentos. Entre as famílias com chefes não negros, o gasto médio com medicamentos foi R$ 95,2. Cerca de 90% destas famílias tiveram registro de gasto com medicamentos. Fica evidente a diferença de gastos com medicamentos entre esses dois grupos de famílias. Uma explicação razoável é que, como os gastos com medicamentos são elásticos em relação à renda, famílias com chefes negros,

que possuem menor poder aquisitivo, tendem, por isso, a ter menores gastos com medicamentos. Porém, este dado pode estar evidenciando uma restrição de acesso a um grupo populacional e, portanto, servir de subsídio para políticas públicas de ampliação de acesso específicas a esse grupo.

Além disso, observou-se que a composição familiar altera o padrão de gasto com medicamentos. Famílias com idosos têm maiores gastos e maiores acessos a medicamentos, mostrando a importância deste item na cesta de consumo dessas famílias. Esses resultados são importantes para futuros estudos sobre acesso a medicamentos e envelhecimento da população.

Um ponto relevante neste estudo é a análise do componente não monetário dos gastos com medicamentos. Entre os períodos analisados, considerando os valores absolutos corrigidos, houve um incremento considerável dos gastos com medicamentos não monetários de 56% no Brasil. É bem provável que este fato seja decorrido da expansão de programas de assistência farmacêutica dos Governos federal, estaduais e municipais. No entanto, um fato que merece atenção é que os gastos em valores absolutos se reduziram para o estrato mais baixo de renda, de R$ 9,15 para R$ 7,6, uma redução de 17%. Uma explicação razoável indica um menor acesso que este grupo possui e, por conseguinte, menores prescrições de medicamentos. Além disso, pode estar indicando que políticas de assistência farmacêutica não estejam atingindo eficazmente o público alvo, ou seja, população de menor poder aquisitivo.

4 Escala de Equivalência para Crianças e Idosos.

A composição demográfica e o número de membros de um domicílio afetam as decisões de consumo das famílias, uma vez que as necessidades e preferências dos indivíduos são um reflexo das características destas famílias. Crianças e idosos possuem padrões de consumo diferentes dos adultos. Famílias com crianças gastam mais com educação, enquanto famílias com idosos gastam mais com serviços de saúde. Além disso, outro ponto a considerar é a presença de economia de escala, visto que um membro adicional não aumenta necessariamente o consumo dos bens na mesma proporção, seja porque os membros da família se beneficiam do consumo um do outro, seja porque existem bens públicos que podem ser utilizados por todos os membros, sem nenhum custo adicional. Em famílias mais numerosas, por exemplo, roupas e brinquedos dos filhos mais velhos podem ser utilizados pelos filhos mais novos.

Em estudos sobre bem-estar, a família é a unidade de análise natural, na medida em que as decisões de consumo são compartilhadas por todos os membros. A forma mais usual de analisar a distribuição de recursos (como renda ou consumo), entre famílias, é a comparação do valor per capita. A desvantagem dessa métrica é a desconsideração das diferenças demográficas dentro dos domicílios (DEATON, 1997). Para comparar o bem- estar de membros de uma família em relação à outra, o uso de escalas de equivalência possibilita ajustar o consumo ou padrão de vida de um domicilio, incorporando as diferenças de tamanho e composição demográfica.

O objetivo deste capítulo é estimar escalas de equivalência para famílias com crianças e idosos. Tradicionalmente, estimam-se escalas de equivalência para famílias com crianças. Neste trabalho, além da estimativa para famílias com crianças, há também para famílias com idosos. A estimação da escala de equivalência distinguindo as famílias com idosos é importante uma vez que essa composição familiar tem aspectos distintos das famílias com crianças no que tange à despesa com medicamentos, objeto de estudo deste trabalho. O capítulo foi estruturado da seguinte forma. A seção seguinte apresenta a revisão da literatura sobre métodos para estimar escalas de equivalência. Na segunda seção, fazemos

um detalhamento do método de estimativa das escalas de equivalência, escolhido para ser aplicado neste trabalho. Na terceira parte, apresentamos os resultados. Por fim, a última seção traz algumas considerações.

Benzer Belgeler