B. Ġç Hukuk Bakımından Sonuçları
2. Olağanüstü Kanun Yolları
A mudança na direção da aula provocada pelo professor veterano foi crucial. Agindo, ele problematizou a idéia inicial dos licenciandos, na qual a construção de conceitos que se faz tendo por base um diálogo conduzido. A revelação de que Laura já sabia a resposta “correta” confirmou o engano inerente ao pacto estabelecido por eles desde o planejamento das aulas.
A intervenção do professor veterano mostrou que era possível ir além da apropriação do conceito matemático clássico e explorar caminhos desconhecidos. O fato de ter acolhido e enfrentado o desafio proposto por Laura, provocou uma investigação de um conhecimento novo que estava emergindo. Aquele de que entre a realidade concreta da vida e a teoria construída pelos cientistas existe uma distância impossível de vencer. Daí o papel da imaginação. Daí a fecundidade de uma verdadeira investigação em sala de aula.
Os licenciandos entraram no processo com uma percepção da prática docente que foi se ampliando a partir de um questionamento da proposta que estavam encaminhando. Em princípio, quando foi alterado o padrão de relacionamento com o conhecimento escolar, eles consideraram que não haveria uma continuidade razoável do encaminhamento da aula, mas que os alunos ficariam confusos devido a uma valorização de um pensamento em desacordo com os cânones da matemática escolar. Não tinham, portanto, incorporado em seu leque de opções a possibilidade de seguir, e até reforçar, o raciocínio de um aluno contrário às crenças do professor. Contudo, a análise dos acontecimentos permitiu que se constatasse que a assunção da proposta errada frutificou em novos conhecimentos acerca de como os alunos interpretam determinadas definições teóricas e da luta que empreendem na tentativa de ajustar suas próprias crenças àquilo que devem admitir como a forma correta de interpretar a realidade.
Portanto, a atividade oportunizou, para os licenciandos, um alargamento do seu espaço de manobra. Essa experiência foi um ponto de partida na formação dos iniciantes. A condução de uma aula mais dialogada, na qual as idéias dos alunos não servem apenas para reforçar o que o professor quer ensinar, dependerá ainda de muito tempo de exposições a situações semelhantes, ou do fortalecimento do habitus necessário para que isso seja feito com naturalidade.
Por outro lado, mesmo apostando no diálogo com as idéias dos alunos, os professores veteranos somente tiveram uma dimensão mais profunda do que ocorreu nas discussões posteriores às aulas. O depoimento dos alunos demonstrou que é preciso muito tempo e
trabalho intelectual para compreender determinadas idéias há muito estabelecidas na matemática formal e que podem parecer simples para os adultos familiarizados com o assunto, que tendem a esquecer o esforço que empreenderam enquanto estudavam.
Aplicando o conceito de fertilização ao ambiente do primeiro episódio apresentado, constato que havia já alguns elementos facilitadores de uma maneira de ensinar dialógica. A escola tinha por princípio incentivar inovações pedagógicas e a professora de matemática se mostrou bastante aberta ao compartilhamento de aulas, processo que ela mesma não havia experimentado anteriormente. Estudando em tal ambiente, os alunos, na minha percepção, sentiam-se seguros de expor suas idéias, mesmo sabendo que estariam contrariando o que seria considerado correto do ponto de vista do ensino formal. Laura assumiu sem restrições que tinha interesse de contrariar o que, para ela, estava estabelecido e ela não podia compreender. Além disso, a relação entre todos os professores envolvidos se desenvolveu de maneira amistosa e colaborativa.
Verifico que o compartilhamento de aulas contribuiu para a fertilização do ambiente porque cada professor se posicionou conforme suas crenças enquanto as aulas se desenrolavam e, posteriormente, na avaliação do episódio selecionado. Como foi destacado, as diversas atuações dos professores geraram tensões que serviram como elementos para discussões e reflexões de todo o grupo. A exposição e a análise dessas tensões favoreceram um maior esclarecimento do que ocorreu, esclarecimento que foi emergindo à medida que cada participante apresentava sua própria forma de entender os acontecimentos.
Para os propósitos desta tese, esse episódio serve como uma referência quando pensamos em um ambiente escolar aberto, onde os educadores acreditam que aprende-se com a exposição e confronto de idéias. Nos ambientes onde predomina o que aqui estamos denominando de ensino tradicional, o trabalho centra-se na exposição de conteúdos curriculares e os alunos são treinados a reproduzir o que lhes é ensinado conforme as expectativas dos professores. Nessa abordagem, o conhecimento é tratado como algo estático, que existe na mente daqueles que se esforçam por adquiri-lo.
Considero que Laura se opôs a uma aprendizagem alienada quando tentou contrariar o que seria o conceito oficial de tangente. Com sua atitude, ela estava se recusando a reproduzir uma idéia que não compreendia. Essa postura seria bastante audaciosa em um ambiente pouco acolhedor. É significativo o fato de que a aluna defendeu de maneira muito tímida seu desenho quando foi questionada pelos licenciandos. Parece que ela sabia que seria difícil argumentar em favor de uma posição considerada errada pela matemática convencional. Laura somente se explicou na reunião de avaliação do episódio. Se essa interpretação estiver
correta, verificamos que, mesmo em ambientes que procuram favorecer uma educação mais dialógica, o enfrentamento de conhecimentos prestigiados é penoso. Imagine-se então a dificuldade de contrapor ao que está estabelecido em ambientes nos quais os conhecimentos curriculares são normalmente considerados inquestionáveis.
Essa seria uma descrição mais próxima do tratamento dado ao conhecimento escolar na escola Sandoval de Azevedo, palco dos episódios que serão apresentados e analisados a seguir.