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Retomando o discutido na seção primeira deste trabalho, a AD francesa situa-se num campo de debate que envolve as condições de produção do discurso e as relações existentes entre ele e a ideologia. Pêcheux (1966) retoma o conceito de AIE (ALTHUSSER, 1985) para afirmar que os AIE são o local e o meio para que a ideologia seja propagada a fim de interpelar o indivíduo em sujeito.

Relacionando o conceito de ideologia com os estudos de representações sociais, Sousa Filho (2003) argumenta que a ideologia pode ser pensada em termos de um conjunto de representações cuja função é assegurar as condições simbólicas da reprodução das relações de produção dominantes nas sociedades. Para o autor, as representações podem ser definidas como a menor parte da ideologia, constituindo-se no veículo pelo qual a ideologia circula na sociedade. Nas palavras do autor:

Como materialização da ideologia em sua menor parte, as representações se tornam visões e práticas duradouras de sujeitos que estão investidos de crenças que as adotam para conceber o mundo, a si próprios e os outros, embora desconheçam a história dessas mesmas crenças e práticas. Através das representações, a ideologia é capaz de significar para cada um o que se é e significar como se deve conduzir em consequência (SOUSA FILHO, 2003, p. 80).

Ao se pensar a ideologia como um conjunto de representações (SOUSA FILHO, 2003), assume-se que identificando as representações sociais que o sujeito tem do mundo, por meio das marcas linguísticas que se repetem dentro das formações discursivas, inicia-se o processo de reconhecimento da ideologia que interpela o indivíduo em sujeito. Dessa forma, torna-se tangível analisar a inscrição do outro, ou o interdiscurso, no discurso do sujeito, e consequentemente se reconhecem valores e ideias circulantes em dada sociedade. Essas ideias têm influência direta na identidade do sujeito, uma vez que aquilo que o sujeito acredita é aquilo que o faz agir ou não agir,

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direcionando sua relação com o mundo e o modo como se percebe na sociedade.

Nesta seção, ressaltei o papel das representações sociais na constituição da subjetividade dos sujeitos a partir dos mecanismos de ancoragem e objetivação propostos por Moscovici (1984; 2003), Jodelet (1990; 2001). Retomo, também, os conceitos de núcleo central e sistema periférico propostos por Abric (2003) e considerados por muitos teóricos como elementos essenciais da representação. Ao término da seção, estabeleço uma relação entre ideologia, representações sociais e a AD francesa por meio dos estudos de Sousa Filho (2003).

Na seção seguinte, discorrerei sobre o conceito de identidade e o relacionarei com os estudos de representações sociais, assim, objetivando compreender como as identidades dos sujeitos desta pesquisa transformaram- se na sua relação com as línguas que os constituem.

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Identidades

O senhor... mire e veja: o mais

importante e bonito, do mundo, é

isto: que as pessoas não estão

sempre iguais, ainda não foram

terminadas

– mas que elas vão

sempre mudando.

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SEÇÃO 3

Identidades

Nesta seção, discuto o conceito de identidade. Na seção primeira, descrevi como a AD francesa reflete o percurso histórico, social e cultural do sujeito, revelando quais discursos que perpassam a sua identidade diante da materialização da sua linguagem. É importante ressaltar que parto da premissa de que a identidade se forma ao longo do tempo e por meio de processos inconscientes, uma vez que o processo de identidade é constituído ao decorrer da vida do sujeito e orientado por vários interdiscursos que se revelam a partir da produção discursiva.

Na segunda seção, discuti o conceito de representações sociais, uma vez que, nas formações discursivas produzidas pelos sujeitos, há marcas linguísticas que revelam as representações que o sujeito tem do mundo.

A bem da verdade, não se pode desprezar o fato de que a identidade, conceito discutido nesta seção, também se constitui a partir das representações que um grupo ou sociedade possui em torno dele mesmo. A esse respeito, Woodward (2000, p.17) argumenta que:

A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeito. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simbólicos tornam possível aquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar.

Desse modo, entender como os bilíngues desta pesquisa, falantes de português e inglês, percebem-se e percebem as línguas que os constituem é essencial para entender como captam essas referências e são por elas afetados na construção de suas identidades.

Somando-se a isso, Shotter e Gergen (1989) afirmam que nossas identidades são construídas através de nossas práticas discursivas com o

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outro. A esse respeito, Moita Lopes (1998) esclarece que os indivíduos têm suas identidades construídas de acordo com o modo que se vinculam a um discurso – o seu próprio e o discurso dos outros. Logo, pode-se dizer que não há construção identitária desvinculada do discurso. Portanto, a identidade do sujeito bilíngue constrói-se nas diferentes práticas discursivas em que ele se engaja e pelas quais se relaciona com o outro. Nesse sentido, apoio-me em Moita Lopes (2002) para afirmar que o indivíduo se constitui em um movimento de vai e vem da percepção e da representação do outro sobre ele mesmo.

Para subsidiar esta discussão, resgato da literatura construtos teóricos defendidos por autores pós-modernos, como Hall (2005), Bauman (2005), Norton (1995) e Coracini (2003; 2007). Recorro também a outras áreas de conhecimento para melhor compreender minhas questões de pesquisa. Busco esteio no psicólogo social Ciampa (1984; 1990; 2004), que entende a identidade como um construto social e, a partir disso, desenvolve os conceitos de pressuposição da identidade (CIAMPA, 1990), mesmice (CIAMPA, 1984) e mesmidade (CIAMPA, 1990). Retomo também o conceito de estigma do sociólogo Goffman (1988), que reflete acerca do processo constitutivo da identidade de sujeitos que se distinguem dos outros. Atrelado a esse conceito, resgato a noção de preconceito linguístico, difundida no Brasil, por Bagno (2002).

Benzer Belgeler