• Sonuç bulunamadı

O conceito de identidade tem sido amplamente discutido e, ao mesmo tempo, problematizado nos últimos anos, por estudiosos de diversas áreas e a partir de diferentes linhas teóricas. Coracini (2003) enfatiza que vivemos em um momento privilegiado de questionamentos de tudo que parece preestabelecido e justificado, sendo, em meio a tantos questionamentos, que o sujeito procura reconhecer-se e encontrar uma explicação de sua própria condição. A compreensão do sujeito – da pessoa, do ser, do homem/mulher, etc. – sempre foi uma temática instigante, pois, afinal, o ser humano (pre)ocupa-se com ele mesmo na tentativa de responder à célebre pergunta: Quem somos nós?.

61

Porém essa pergunta não pode ser dissociada de onde estamos, de onde viemos, para onde vamos? Sobre esse ponto, aliás, é preciso salientar que conhecer o humano não é expulsá-lo do universo, mas sim situá-lo. Historicamente, é possível localizar que, toda vez que uma mudança epistemológica ocorre, torna-se preciso também ver o homem na história e (re)conceitualizar o sujeito para que ele se conscientize sobre o modo como o conhecimento estrutura a mente humana. Hall (2005) contribui para esta discussão ao conceitualizar a noção de sujeito em consonância com os diferentes períodos históricos:

a) sujeito do iluminismo: o sujeito do iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo "centro" consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo - contínuo ou "idêntico" a ele - ao longo da existência do indivíduo. b) sujeito sociológico: a noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e autossuficiente, mas era formado na relação com outras pessoas importantes para ele, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos, a cultura, dos mundos que ele habitava.

c) sujeito pós-moderno: o sujeito pós-moderno torna-se fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. À medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, o sujeito é confrontado por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis e com cada uma das quais se identifica ao menos temporariamente. A identidade do homem pós- moderno é definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro dele, há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que essas identificações são continuamente deslocadas.

Neste cenário, emerge também o processo de globalização, quebrando antigos paradigmas e reforçando algumas características desse momento

62

histórico. O fenômeno, que “tende a desenraizar as coisas, as gentes e as ideias” (IANNI, 1999, p. 94), interfere diretamente na conceptualização da identidade e na fragmentação do sujeito, além de atingir as diversas relações sociais nos mais variados níveis e afetar o modo de ser e agir da sociedade, na qual agora vigoram dualidades como global/local, coletivo/individual, micro/macro e concreto/abstrato. Somando-se a isso, Bauman (2005) acrescenta que a noção de identidade herdada da Modernidade naufraga em um contexto fluido em que verdades, outrora inquestionáveis, são postas em xeque e nascem novas formas de sociabilidade sob os auspícios da globalização no mundo capitalista contemporâneo. Para o autor, na contemporaneidade, a tônica recai no individualismo, na solidão e na exclusão gritantes nos mais diversos contextos sociais. A partir desse mesmo prisma, Coracini (2003) salienta que, ainda que os defensores deste fenômeno neguem, a globalização pretende a centralização e a homogeneização de tudo e todos, o que contribui para a caracterização de uma crise da identidade, provocada, em grande parte, pela ideologia da globalização.

Neste estudo, o conceito de identidade é concebido a partir da concepção de sujeito pós-moderno apresentada acima. De acordo com Hall (2005), a identidade de um sujeito é formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais este é representado ou interpelado nos sistemas culturais que lhe rodeiam. Frente a esta postura teórica adotada, pode-se considerar que a identidade do sujeito se constrói na/através da linguagem e, por isso, não se pode falar em identidades fixas; as identidades estão sempre em estado de fluxo.

Não é à toa que Bauman (2005) assevera que a constituição identitária deve ser considerada um processo contínuo de redefinir-se e de inventar e reinventar sua própria história, pois a identidade, como afirma Coracini (2007), tem sua existência no imaginário do sujeito que se constrói nos e pelos discursos imbricados que o constituem. Porém é importante salientar que, apesar da identidade ser tratada como um processo ficcional, pois, como salienta Bauman (2005), a inventamos, não se deve desmerecê-la, visto que, por meio desse processo, o sujeito revela como se posiciona no decorrer de sua história.

63

Neste mesmo universo conceitual, Norton (1995) também defende a concepção de uma identidade múltipla e suscetível a mudanças. Para esta autora, o termo identidade refere-se ao modo pelo qual as pessoas compreendem sua relação com o mundo, como tal relação é construída através do tempo e do espaço e como essas mesmas pessoas entendem suas possibilidades para o futuro. Para Norton (1995), a noção de identidade está intimamente ligada aos desejos de reconhecimento, afiliação e segurança. A autora completa que a língua constitui e é constituída pela identidade do sujeito, que, por intermédio dela, negocia a noção do “eu” em meio a ambientes diferentes e em pontos distintos no tempo. A autora afirma ainda que, ao falar, os aprendizes não estão apenas trocando informações com o interlocutor: eles estão constantemente organizando e reorganizando o senso de quem são e de como se relacionam com o mundo. Durante esse processo, os aprendizes estão envolvidos na construção e na negociação de suas identidades.

Em consonância à concepção defendida por Norton, um dos estudiosos brasileiros mais significativos do conceito identidade, Ciampa (1990), defende que a identidade é um constructo social resultante da relação dialética entre o sujeito e a sociedade. Nessa relação, de acordo com o autor, o sujeito é configurado não apenas como personagem, mas também como autor de sua própria história. Essa configuração, salienta Ciampa (1984), ocorre uma vez que não se pode isolar, de um lado, todo um conjunto de elementos biológicos, psicológicos e sociais que podem caracterizar um indivíduo9; e de outro lado, a

representação desse sujeito como uma duplicação simbólica que expressaria sua identidade. Dessa forma, há uma interpenetração desses dois aspectos, o que impossibilita a separação da identidade pressuposta e a representação desse indivíduo.

9 Como explicitado na nota de rodapé número 4, da página 20, este estudo tem como base teórico-metodológica a análise de discurso de linha francesa que faz uso da denominação sujeito. Na AD francesa, o sujeito difere do indivíduo por estar em uma relação de assujeitamento e de pertencimento a uma memória discursiva. A partir dessa perspectiva, emprego o termo sujeito em minhas perguntas de pesquisa e também no decorrer desta dissertação quando o assunto tratado for discutido a partir da análise de discurso de linha francesa. Nesta seção, no entanto, recorro a outras áreas de conhecimento para melhor compreensão de minhas questões de pesquisa, uma vez que a linguística aplicada converge em um processo transdisciplinar de produção de conhecimento (MOITA LOPES, 2006). Desse modo, busco esteio na psicología social (CIAMPA, 1984; 1990; 2004), na sociología (GOFFMAN, 1988) e na filosofía (HABERMAS, 1976) para me aprofundar na discussão do conceito identidade. Esses autores, em suas diferentes áreas de conhecimento, fazem uso da denominação indivíduo (e não sujeito, como na análise de discurso francesa), uma vez que não se remetem a questão do assujeitamento e da memória discursiva. Sendo assim, opto por manter a denominação indivíduo utilizada pelos autores. Porém mantenho o termo sujeito em minhas perguntas de pesquisa, pois utilizarei os conceitos desenvolvidos por esses autores, dentro da perspectiva que me proponho, a AD francesa.

64

Sendo assim, faz-se fundamental entender que sempre há a

pressuposição de uma identidade (CIAMPA, 1990), isto é, sempre, existe

uma predicação atribuída ao indivíduo pelo outro, ou seja, há uma nomeação de atributos individuais nas relações que se dão no âmago de uma estrutura social. Trata-se, então, de uma identidade que é dada, atribuída, outorgada e mediada pelo outro. Assim, de acordo com essa pressuposição, o sujeito, como ser social, é um ser-posto (CIAMPA, 1990), uma vez que carrega em si o conhecimento compartilhado socialmente e as expectativas dos outros no que se refere ao modo como um determinado indivíduo deve agir e ser.

A partir da pressuposição da identidade, Ciampa (1990) compreende a identidade como um processo de metamorfose permanente, uma vez que pressuposta e posta, a identidade é reposta, o que Ciampa (1984) denomina como mesmice. Em outras palavras, a mesmice é a reposição da identidade pressuposta por meio de ritos sociais ou pela reposição de personagens estereotipados. Isso equivale a dizer que mesmo quando a identidade é percebida como estática – parecendo não sofrer modificação alguma – ela está sendo transformada à medida que, por meio de ações, o indivíduo “repõe” aquilo que a sociedade “põe” como certo, isto é, aquilo que as normas sociais e a ideologia dominante estabelecem ser o mais adequado, criando, como afirma Ciampa (1990), a identidade mito que apenas reproduz o social sem questionamento e/ou responsabilidade por parte do indivíduo com relação à sua identidade.

Opondo-se à mesmice, ou ao ser-feito-pelo-outro, como argumenta Ciampa (1990), a mesmidade, ou o ser-para-si é a superação da identidade pressuposta, ou seja, o indivíduo emancipa-se de valores estigmatizantes e preconceituosos impostos pela sociedade e/ou apropriados por ele, possibilitando um agir mais livre e criativo para realização de suas metas e desejos. Assim, o indivíduo sai do movimento de reposição e busca o outro; “outro” que também é ele, isto é, o “outro” que se quer ser pela superação da identidade pressuposta.

65

Ciampa (1984) alerta para o fato de que essa nova identidade necessita de reconhecimento social. Esse novo conteúdo identitário do Ego precisa ser reconhecido pelo Alter para que esse sentido pessoal se estabilize como significado socialmente compartilhado, o que permite que se desenvolva uma nova rede intersubjetiva.

Sob esse mesmo prisma, Ciampa (1990) afirma que a identidade é a articulação entre a diferença e a igualdade: o outro designa o eu, da mesma forma que a identidade do indivíduo é também “determinada pelo que não é ele, pelo que o nega” (CIAMPA, 1990, p.137). Essa identificação e diferenciação não podem ser apreendidas à margem dos sistemas de significação social vigentes. O autor prossegue salientando que ter características e comportamentos apontados pela sociedade como indesejáveis pode suscitar sanções e reprimendas, o que remete à ideia de que a construção da identidade não ocorre de forma harmoniosa ou equilibrada, mas é fruto de um jogo de poderes, em que a dominância dos grupos hegemônicos aponta o socialmente valorizado e influencia a constituição da identidade.

Benzer Belgeler