Após ter delineado sobre o princípio da gestão democrática, faz-se necessário agora, discorrer sobre o outro grande princípio, ou seja, a autonomia.
Na relação autonomia e projeto político-pedagógico, esses termos surgem pela primeira vez na Lei de Diretrizes e Bases n° 9394/96 vinculados num texto legal, embora segundo Almeida; Caldeira; Ribeiro42(1998):
42
ALMEIDA, A.M.F.P.M; CALDEIRA, A. M. A; RIBEIRO, R. Textos para estudos e tarefas. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Formação Continuada de Educadores – Delegacia de Ensino de Avaré, 1998.
O tema da autonomia pode ser visto desde o manifesto dos Pioneiros, mas, sempre mereceu escassa atenção e quando havia alguma, ela não ultrapassava o nível de uma reivindicação de maior liberdade regimental. No máximo, reivindicava-se maior liberdade dos professores com relação ao diretor e da escola com relação a outras instâncias administrativas. Mas afinal de contas, liberdade para que? Essa é uma questão fundamental e somente a resposta a essa indagação poderá situa-la nos seus devidos termos, pois a autonomia da escola apenas ganha importância se significar autonomia da tarefa educativa[...]
Neste caso de pesquisa, não se pode confundir autonomia da escola com a existência de um Regimento próprio, pois como já fora explicado anteriormente, as escolas municipais de educação infantil possuem, até o presente momento, o mesmo Regimento Escolar, o qual foi elaborado por técnicos da Secretaria Municipal da Educação e as normas estabelecidas são seguidas por todas as escolas.
Não se trata de um documento construído em parceria com a equipe escolar, como é o caso do projeto político-pedagógico. O regimento escolar é apenas uma condição administrativa, proveniente da Secretaria Municipal da Educação, para as tarefas essenciais da escola. E, um projeto, como disse Castoríadis43 (apud ALMEIDA; CALDEIRA; RIBEIRO, 1998) é a “intenção de uma transformação do real guiada por uma representação do sentido dessa transformação e levando em conta as condições dessa realidade”.
O que acontece é que, como o regimento é um documento único e a realidade das escolas é singular, muitas vezes tornam-se inviáveis algumas normas estabelecidas de forma generalizada.
Acredito que, tendo como base não somente este documento, mas a legislação educacional pertinente à educação infantil, toda escola faça o seu projeto político-pedagógico, único, singular e referente à sua realidade, ao seu contexto e ao momento histórico presente, pois várias intervenções e modificações se farão necessárias durante os anos. Assim, penso que se dará a gradativa construção da autonomia nas escolas.
A palavra autonomia vem do grego e significa autogoverno. Nesse sentido, uma escola autônoma é aquela que governa a si própria.
No âmbito da educação, o debate moderno em torno do tema remonta ao processo dialógico de ensinar contido na filosofia grega, que preconiza a capacidade
43
ALMEIDA, A.M.F.P.M; CALDEIRA, A. M. A; RIBEIRO, R. Textos para estudos e tarefas. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Formação Continuada de Educadores – Delegacia de Ensino de Avaré, 1998.
do educando buscar respostas às suas próprias perguntas, exercitando, portanto, sua formação autônoma.
Para Barroso (1997): “A construção de projetos está intimamente ligada à própria construção da autonomia. Somente organizações autônomas têm a capacidade de produzir projetos próprios”.
Ainda segundo Barroso44(1997):
O conceito de autonomia está etimologicamente ligado à idéia de autogoverno, isto é, à faculdade que os indivíduos (ou organizações) têm de se regerem por regras próprias. Contudo, se a autonomia pressupõe a liberdade (e capacidade) de decidir, ela não se confunde com a “independência”. A autonomia é um conceito relacional (somos sempre autônomos de alguém ou de alguma coisa) pelo que sua ação se exerce sempre num contexto de interdependências e num sistema de relações. A autonomia é também um conceito que exprime um certo grau de relatividade: A autonomia é, por isso, uma maneira de gerir, orientar, as diversas dependências em que os indivíduos e os grupos se encontram no meio biológico ou social, de acordo com as suas próprias leis.
Para que efetivamente ocorra a construção do projeto político-pedagógico com sentido de autonomia também construída, faz-se necessário segundo Barroso45 (1997), ter claro alguns fundamentos que possibilitem subsidiar todo esse processo. Esse autor destaca que essa construção se dá de acordo com “cinco grandes princípios: legitimidade, participação, liderança, qualificação e flexibilidade”.
Em relação à legitimidade, enquanto “transferência de competência de órgãos de administração central e regional do Estado para órgãos de gestão das escolas”, Barroso46 (1997) relaciona esse processo ao movimento da descentralização que “obriga a existência de um órgão (com forte participação local) independente da tutela e com legitimidade própria para exercer determinadas competências e gerir certos recursos que até aí pertenciam à administração central ou regional”; a desconcentração “que pressupõe que, em relação a certas matérias, os órgãos de governo da escola (nomeadamente ao nível de gestão executiva) decidem por delegação da tutela e, nesse sentido, são dependentes” e o
44
ALMEIDA, A.M.F.P.M; CALDEIRA, A. M. A; RIBEIRO, R. Textos para estudos e tarefas. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Formação Continuada de Educadores – Delegacia de Ensino de Avaré, 1998, p.21.
45
Idem.
46
profissionalismo docente “que leva a reservar, no domínio técnico-pedagógico uma área própria de competência para os professores e seus órgãos representativos”.
Isso significa, segundo o autor, que do ponto de vista formal, deve haver a co-existência de três tipos de órgãos, baseados em legitimidades diferentes: os órgãos de participação comunitária, cuja base de legitimidade é o direito de participação do cidadão no controle social do serviço público de educação e que deve exercer poderes descentralizados.Os órgãos técnicos de gestão, cuja base de legitimidade é a qualificação e a escolha para o exercício dos respectivos cargos. Estes órgãos exercem poderes delegados quer por outros órgãos de gestão da escola, quer pela própria administração. E os órgãos técnico-pedagógicos, cuja base de legitimidade é o saber especializado dos professores no domínio técnico- pedagógico e que exercem um poder profissional.
Um outro fundamento destacado por Barroso47 (1997) o da participação, significa, segundo o autor, “a diminuição da dependência vertical das escolas, em relação à administração central e regional, que constitui um dos elementos essenciais da sua autonomia, e deve ser acompanhada de uma maior integração horizontal na comunidade local”. Esta integração pressupõe, além do envolvimento dos pais e da comunidade escolar, também a sua co-responsabilidade no processo educacional, o que naturalmente exige o estabelecimento de normas de conduta para a participação direta entre os membros integrantes do processo.
A questão da liderança é tratada por Barroso48 (1997) da seguinte maneira: “se a autonomia exige participação, ela exige, também o desenvolvimento do ‘sentido de gestão’ na organização e funcionamento da escola e a emergência de formas explícitas de liderança (individuais ou coletivas) capazes de empreenderem as mudanças que a autonomia obriga”. Essa liderança não pode ser vista como incompatível com a participação, pois é uma de suas condições e sendo assim tem um papel fundamental na organização da autonomia, quer seja enquanto mobilização social dos diferentes atores ou na regulação dos complexos processos de ajustamentos de interesses, idéias e de estratégias à construção de um projeto comum.
47
ALMEIDA, A.M.F.P.M; CALDEIRA, A. M. A; RIBEIRO, R. Textos para estudos e tarefas. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Formação Continuada de Educadores – Delegacia de Ensino de Avaré, 1998, p.21.
48
Da mesma forma, Barroso49(1997) salienta a importância da qualificação enquanto fundamento para que se possa construir a autonomia. É necessário que os membros melhorem os seus conhecimentos sobre o funcionamento e sobre as regras e estruturas que fazem parte da escola. Esta aprendizagem organizacional (da e pela organização) constitui, segundo o autor: “um instrumento necessário para que os atores de uma organização conheçam o seu próprio campo de autonomia de um modo como está estruturada, condição para fazer das ‘autonomias individuais’, ‘autonomias coletivas’”. Além disso, torna-se necessário, qualificar todos os que desempenham cargos de gestão e em particular os que desempenham funções de gestão de topo. Para isto, sugere-se a formação em serviço, a qual deve ser estendida aos funcionários da escola e aos membros do conselho da escola, para que possam desempenhar corretamente as suas funções.
Por fim, João Barroso adota como princípio a flexibilidade dos “modelos” de gestão escolar, “em função das características dos estabelecimentos de ensino e das suas comunidades, mas no respeito inequívoco de grandes princípios e normas gerais, comuns a todos eles”. Esta flexibilidade é necessária para permitir margens de ajustamento nas práticas de gestão, ou de direção de escola, e faz parte do próprio conceito de autonomia, enquanto modo de autogoverno.
Na presente realidade estudada, isto é, na Emei “Florípes Silveira de Souza”, apesar de a escola não possuir verba própria, não possuir ainda a A.P.M. registrada em cartório, o que possibilitaria o repasse de verbas e conseqüente autonomia financeira e a documentação ser solicitada pela Secretaria Municipal da Educação, para onde a diretora deve apresentar e entregar os documentos burocráticos com prazos estipulados e a unidade escolar ficar atrelada a subordinação deste órgão municipal, ou seja, tem que ter a permissão dessa Secretaria para executar muitas de suas ações, acredito que tenha sido possível legitimar o trabalho coletivo na escola, como é possível verificar durante a descrição sobre a construção deste trabalho de pesquisa.
Quanto a participação, a liderança, a qualificação e a flexibilidade, também concordo com o autor quando este afirma que é necessário a maior participação da comunidade local, dos professores, dos funcionários, dos alunos e dos pais destes.
49
ALMEIDA, A.M.F.P.M; CALDEIRA, A. M. A; RIBEIRO, R. Textos para estudos e tarefas. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Formação Continuada de Educadores – Delegacia de Ensino de Avaré, 1998, p.23.
Tem que haver maior integração entre todos os envolvidos no processo educacional da unidade escolar, pois todos são responsáveis pelo avanço ou estagnação deste processo.
Durante o processo de construção de autonomia, surgem as lideranças, capazes de empreender as mudanças necessárias e há também a mobilização social dos diferentes atores visando à construção de um projeto comum.
Em relação à qualificação, esta é responsável pelo aumento do conhecimento dos membros participantes do processo de mudança organizacional. É um importante instrumento para que os atores, neste caso de uma escola, conheçam o seu próprio campo de autonomia. E como não poderia deixar de ser, tem que haver a flexibilidade, em função das características dos estabelecimentos de ensino e de sua comunidade, a qual permite os ajustes necessários nas práticas de gestão escolar, bem como na realidade estudada onde o objetivo é construir democraticamente, com todos os parceiros responsáveis pela qualidade de ensino da Emei “Florípes Silveira de Souza”, o tão sonhado projeto político-pedagógico.