1 Operasyon Zamanı
ARAŞTIRMA SÜRECİ
3.8. NİCEL ARAŞTIRMA SÜRECİ
Ao utilizar um empréstimo, o artista apenas traduz o sentimento que lhe foi transmitido por uma obra de arte anterior, e é por isso que toda obra, se tomar de empréstimo um argumento, ou mesmo cenas, situações ou descrições, é tão- somente um reflexo da arte, um simulacro, mas não a arte ela mesma.
Se considerarmos o objeto de estudo proposto no projeto da tese de doutorado, acompanhar a vida de Anna Jacintha de São José, Dona Beja, em seu contexto histórico e na transposição para a produção televisiva, podemos dizer que projeto e tese finalizaram. Porém, se levarmos em consideração a maneira como se deu nossa aproximação com Dona Beja, sabendo das muitas formas como outros já o fizeram, e de outras mais, diríamos que nosso projeto foi realizado e o resultado apresentado na forma dessa tese de doutorado.
Durante o tempo em que a Beja nos dedicamos, estabelecemos com ela além de compromisso acadêmico, portanto, de caráter objetivo e racional, uma relação mais delicada, baseada na curiosidade inicial. Tal relação foi, posteriormente, transformada em sentimentos, indo à empatia, sedução, negação, compaixão e ao final, à compreensão, por termos aprendido a apreciar Dona Beja.
Escolhido o percurso de abordagem de nosso objeto: o estudo da personagem real; da memória e sua permanência no processo das muitas traduções culturais feitas da vida de Dona Beja; e a análise das características de construção da telenovela Dona Beija; procuramos percorrê-lo de forma a realizar nosso intuito de aproximação com a personagem histórica e a personagem real de televisão.
Iniciamos mostrando nosso objeto a partir de eventos fundamentais encontrados em registros biográficos de Beja, os quais recolhidos em fontes diversas, possibilitaram-nos apresentar um quadro, uma biografia possível, com traços e contornos da personagem que se veria, mais tarde, transformada em personagem real de televisão.
Dessa imagem, a de Anna Jacintha de São José (Dona Beja): uma biografia possível, caminhamos para os componentes essenciais de Dona Beja, na condição de uma história de vida, aqui sujeita aos caprichos da memória, confrontados com os elementos da historiografia. Esse trecho, ou capítulo sugere o que identificamos como uma passagem da memorialística histórica. Durante a sua elaboração observamos as primeiras variações sobre o tema, criadas na difícil tarefa de “captar o passado”, aqui registrada na Tradução cultural de Beja: história e memória.
Terminada a primeira parte do estudo – compreendendo os dois primeiros capítulos – que a princípio nos parecia de fácil acesso, percebemos sua importância do ponto de vista histórico-cultural. Essa importância pode, também, ser associada ao grau de dificuldade presente em sua realização, e ao grau de realização pessoal e intelectual a nós proporcionada.
Sobrevêm então, na segunda parte – compreendo os dois últimos capítulos –, as dificuldades próprias ao acompanhamento da construção e interpretação de uma personagem, Dona Beja, na tradução cultural dela feita em diferentes épocas e linguagens. Tal
acompanhamento exigia-nos considerações sobre as condições histórico-culturais em que ocorreram as traduções e sobre as características estilísticas de seus autores. Estendemos nossa busca ao tempo compreendido entre a Beja de Totinha e a Dona Beija da televisão e também ao tempo passado antes de Totinha. Pudemos então anotar em A construção e transfiguração da personagem Dona Beja: na pintura, no teatro, no romance e no carnaval, a variedade de papéis representados por ela, os quais resultaram em pistas indicativas das possibilidades temáticas que se interpuseram entre nós e a Dona Beija, personagem da telenovela exibida em 1986 pela Rede Manchete.
Focalizando o tema fundamental de análise, a história de vida de Dona Beja e sua transposição para a televisão em Dona Beija: personagem real de televisão, chegamos às nossas questões iniciais, pautadas na tradução da história de Dona Beja à produção televisiva, com tratamento dos dramas de família e de época.
Portanto, à semelhança de um último capítulo de telenovela, que concentra em seus objetivos o fechamento do que restou de relevante na narrativa, recolhemos os diversos fios que compuseram a trama da nossa história.
Por trazer em seus capítulos as várias traduções de Dona Beja, com momentos, tipos e circunstâncias diferentes desse modelo feminino, compatíveis com visões e condições da sociedade brasileira, antecipamos em cada um deles considerações parciais.
Deixaremos que Dona Beija: personagem real de televisão se encarregue de nossas conclusões finais.
Produzida para atuar sobre a sensibilidade do público a ser conquistado (não nos esqueçamos de que nessa época a Rede Manchete inaugurara recentemente seu núcleo de dramaturgia e investira fortunas nesse projeto), a novela Dona Beija não foi concebida por seus criadores-realizadores com o propósito de se constituir em obra de arte do gênero telenovelesco ou fora dele.
Bastaria que Dona Beija, enquanto novela de época, atingisse o público desejado, tornando-o cativo pelos muitos predicados já vistos e revistos nas cenas-situação, que compuseram o material específico de estudo da telenovela. Por conseguinte, nada que revelasse a intenção própria do artista que, com sua obra, contribui para “modificar uma concepção do mundo, ou seja, para fazer que nasçam novos modos de pensar”84 (Gramsci, 1955, p. 6-7).
84 Tradução para uso desta tese.
Dona Beija, novela bem-sucedida da Rede Manchete, revela o gosto e a ideologia dos repertórios de ficção televisiva seriada, que se integra aos valores impostos pela tradição aos segmentos da sociedade, para quem é previamente destinada.
Em vista disso, apresenta em sua feitura os traços próprios do senso comum, padrão raramente descartado pelas emissoras de televisão, que dependem do mercado pagante (publicidade) e do mercado consumidor (público). Para esses mercados, o senso comum rege a aceitação e o sucesso da empreitada.
* * *
Com a finalidade de demonstrar os comandos e as incorporações do senso comum na telenovela Dona Beija, utilizamo-nos de cenas recortadas da telenovela e editadas no DVD que acompanha este estudo. Dois foram os nossos motivos para assim proceder.
O primeiro tem a ver com a seleção das cenas que, por seu conteúdo, nos pareceram exemplares; o segundo seria o de subsidiar com imagens as observações pensadas para compor esta conclusão. Vejamos primeiro as cenas e após os comentários:
i. Partida de Beija para a Bagagem e sua relação com diamante maior do que o lá achado antes, o diamante “Estrela do Sul”;
ii. A riqueza como antídoto da desgraça causada pelo rapto, segundo o padre; iii. O uso do ritual africano na maldição da mão porca do homem;
iv. A honra e a coragem da Lady Godiva transfiguradas em desonra e em autonomia individual por Dona Beija. A expressão de compromisso de Lady Godiva na defesa da sociedade, transformada em ato pessoal com caráter de desforra de Dona Beija, contra a cidade que não a acolheu depois e não a desculpou;
v. O julgamento do homicídio de Antônio Sampaio, no qual Dona Beija apresenta o álibi em sua defesa: no dia decidira fechar a chácara do Jatobá, por cansaço da vida fácil; segundo ela, como diziam.
Na tradução feita das cenas acima mencionadas podemos ainda destacar as seguintes inversões:
• a maldição da mão porca do homem identifica-se com o álibi da defesa de Beija no
julgamento, com o fechamento do prostíbulo e o cansaço da vida fácil, como ela mesma declara;
• troca da nudez honrada e corajosa de Lady Godiva, fruto de compromisso social, pela
nudez vingativa e pessoal de Dona Beija, que enfrenta a maldição da mão porca do homem através do seu poder ilimitado.
Das incorporações do senso comum na telenovela e das conseqüentes inversões assim inscritas em seu resultado, eficazes tanto para manter o público requerido pela emissora como também proporcionar ao próprio público (...) “os mitos messiânicos que mantêm a esperança numa idade maravilhosa onde todas as contradições e todas as misérias presentes acharão sua solução e seu remédio” (Gramsci, 1955, p. 22), podemos concluir que o senso comum cristaliza-se na telenovela Dona Beija.
Como personagem real de televisão, Dona Beija teve de adequar-se aos parâmetros que regulam o uso eficaz dos dramas de família e de época nas telenovelas, regidos por mecanismos capazes de transformá-los em produto de sucesso.
Se assim não fosse, a verdade poderia ter sido o contrário:
• nem a riqueza e o diamante solucionam o rapto, a morte do avô, a desonra e a rejeição
individuais;
• nem a maldição da mão porca do homem é tão maldita assim, pois o desejo e as mãos
deles a fizeram poderosa econômica e socialmente;
• nem a nudez de Lady Godiva transfere honra à nudez vingativa e particular de Dona
Beija.
Como dizia Pier Paolo Pasolini (1997): “o resultado é que toda a felicidade é completamente falsa: que se difunde cada vez mais e mais uma imediata infelicidade” (p. 54).
E, o certo é que a Beja hoje existente, ou melhor, a que é lembrada para além das fronteiras do Triângulo Mineiro e da memória familiar, é a Dona Beija da Rede Manchete.