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A macroeconomia estuda os mercados em conjunto, isto é, estuda os mercados de modo agregado. É a área da economia responsável por mensurar a atividade econômica de um país. A Contabilidade Nacional é o instrumento utilizado para realizar essa mensuração e o faz por meio do princípio contábil das partidas dobradas. Entre os conceitos básicos a partir dos quais é desenvolvida a Contabilidade Nacional, estão os conceitos de produto e renda.

A produção é a principal atividade econômica a ser medida, uma vez que refletirá a capacidade de satisfação das necessidades dos membros da sociedade. Assim, o primeiro passo para avaliar-se o desempenho de um país é medir o seu produto. Este corresponde a soma daquilo que foi

produzido em um país durante determinado período de tempo. [...] A partir do produto,

podemos avaliar o crescimento econômico de um país. (GREMAUD; VASCONCELLOS; TONETO JÚNIOR, 2002, p. 50).

A produção de um país envolve produtos e serviços para serem consumidos pela sociedade (consumo final) ou utilizados na produção de outros bens e serviços (consumo intermediário). Assim, para evitar o problema da dupla contagem, o produto do país inclui apenas os bens e serviços destinados ao consumo final ou utiliza o conceito de valor adicionado. O valor adicionado em determinada etapa de produção é “a diferença entre o valor bruto produzido nessa etapa (igual a vendas mais acréscimo de estoques) e os consumos intermediários” (SIMONSEN; CYSNE, 2007, p.147).

O cálculo do produto nacional por meio da soma dos produtos e serviços finais obterá o mesmo valor do cálculo pela soma dos valores adicionados em todas as etapas da produção. Para explicar o conceito de valor adicionado, Yoshioca (1998, p. 3) apresenta o exemplo exposto na Tabela 4.

Tabela 4 – Exemplo de valor adicionado ao longo da cadeia produtiva

FONTE: YOSHIOCA; 1998, p.3.

Estágio da Produção Vendas Aquisições Valor Adicionado

Proprietário de terras (vende árvores) 50 0 50

Proprietário de madeira 100 50 50

Produtor de mobília 200 100 100

Varejista (vende mobília) 250 200 50

O exemplo estuda o processo produtivo de um móvel. O processo todo gerou riqueza econômica de $250, mas é possível identificar a parcela gerada por cada etapa do processo. A produção se inicia no cultivo da árvore que fornece a madeira e termina com a venda da mobília, no varejo, para um consumidor final. Percebe-se que, em cada etapa da produção, existe um acréscimo de valor. Nota-se ainda a igualdade entre a soma dos valores adicionados em todas as etapas e o valor das vendas na última etapa da cadeia produtiva.

A adição de valor justifica-se pela necessidade de custear os esforços de produção ou venda envolvidos em cada etapa. Supondo a produção de mobília extremamente artesanal, sem utilizar nenhum outro recurso além da madeira, ainda será necessário um esforço de transformação da madeira em mobília, isto é, será necessário trabalho, que deve ser remunerado, por isso a mobília tem maior valor que a madeira: existe adição de valor. Portanto, uma empresa gera mais riqueza quanto maior o valor que consegue adicionar aos seus produtos.

A produção envolve matéria-prima (bens e serviços de consumo intermediário) e fatores de produção. São considerados fatores de produção: terra, capital e trabalho (GREMAUD; TONETO JR., 2007, p. 202). Ainda no caso do produtor de mobília, suponha que a empresa depende apenas do capital investido pelo proprietário e do trabalho do artesão responsável por transformar a madeira em mobília. Como no exemplo de Yoshioca (1998), o valor adicionado pelo produtor de mobília foi $100, capital e trabalho devem ser remunerados com essa quantia total. Mas qual a proporção da distribuição entre os fatores de produção? O proprietário pode ficar com 90% e pagar apenas $10 para o artesão, ou pode dividir meio a meio, depende do acordo realizado entre as partes.

Tem-se, então, o conceito de renda: remuneração dos fatores de produção. Salários, juros, lucros e aluguéis remuneram, respectivamente, trabalho, capital de empréstimo, capital de risco e propriedade física de bens de capital. Para evitar a dupla contagem, são considerados na Contabilidade Nacional apenas juros e aluguéis pagos a pessoas físicas, pois quando pagos a pessoas jurídicas, tais valores são contabilizados nos lucros das empresas (SIMONSEN; CYSNE, 2007, p. 147).

Por conseguinte, o produto nacional pode ser mensurado pela ótica do produto ou pela ótica da renda (e ainda pela ótica do consumo). “A igualdade entre produto e renda decorre do fato

de que o valor adicionado em cada etapa produtiva corresponde justamente à remuneração dos fatores envolvidos naquela etapa” (GREMAUD; TONETO JR., 2007, p. 205).

A Ilustração 6 mostra o fluxo circular da atividade econômica de uma sociedade. Paulani e Braga (2007, p. 21) explicam que as linhas contínuas representam o fluxo de bens e serviços e as linhas pontilhadas representam o fluxo monetário e ainda explicam a numeração da figura:

1. as famílias cedem às empresas os fatores de produção de que são proprietárias e, em troca,

recebem das empresas uma renda, ou seja, uma remuneração sob a forma de dinheiro;

2. as empresas combinam esses fatores num processo denominado processo de produção e obtêm,

como resultado, um conjunto de bens e serviços;

3. com a renda recebida em troca da utilização, na produção, dos fatores de que são proprietárias,

as famílias compram das empresas os bens e serviços por estas produzidos;

4. as famílias consomem os bens e serviços.

Ilustração 6 – Fluxograma empresas-famílias

FONTE: PAULANI; BRAGA, 2007, p. 21.

O esquema básico apresentado ainda não inclui investimentos, depreciação, a participação do governo e as transações com outros países, importações e exportações. Esses fatores são indispensáveis no cálculo do produto nacional e serão mais bem explicados no capítulo 5. O conceito de valor adicionado usado na elaboração da DVA é o conceito econômico apresentado. Se todas as entidades produtivas do país elaborassem essa demonstração, a soma da riqueza gerada seria o produto nacional. Entretanto existem diferenças metodológicas no cálculo do valor adicionado pelo IBGE e no cálculo da DVA. Isto é, a metodologia contábil de cálculo do valor adicionado apresenta algumas diferenças da metodologia econômica.

Empresas 2 Famílias 4 Renda despendida ($) Salários e Lucros ($) Fatores de produção (Trabalho e capital material)

Bens e Serviços Finais 1

De Luca (1996) faz uma conciliação das duas metodologias e apresenta todas as diferenças. Apesar da alteração no modelo de cálculo do PIB pelo IBGE em 2000, quando foi incorporada a estrutura de matriz insumo-produto recomendada pela ONU, os conceitos por trás da metodologia mantiveram-se os mesmos. Portanto, o trabalho de De Luca manteve-se válido também.

A base de mensuração é um dos principais pontos a ser conciliado. O conceito de valor adicionado utilizado na economia adota o conceito de produção. Em geral, a Demonstração do Valor Adicionado apresenta o valor adicionado em função das suas vendas. Para conciliar, a própria contabilidade da empresa pode dar as informações necessárias para o cálculo do valor adicionado a partir do valor da produção.

Outros itens tais como a produção distribuída gratuitamente, as participações dos empregados nos lucros, juros nominais e receita e despesa de aluguel, também merecem atenção especial pois têm tratamentos diferenciados. Merecem atenção ainda, os itens como por exemplo, a provisão para devedores duvidosos, que é registrada pela Demonstração do Valor Adicionado e não possui orientação específica por parte do IBGE no sistema de contas nacionais brasileiro. (DE LUCA, 1996, p. 147).

A Demonstração do Valor Adicionado pode ser resumida na equação apresentada por Morley (1979, p. 619): R T Div I W Dep B S− − = + + + + (1) onde: S = Vendas

B = Aquisição de materiais e serviços Dep = Depreciação W = Salários I = Juros Div = Dividendos T = Tributos R = Lucros retidos

O lado esquerdo da equação mostra a formação do valor adicionado, e o lado direito mostra como o valor adicionado foi distribuído entre os stakeholders. A equação (1) expressa a distribuição do valor adicionado líquido, como é utilizado no Brasil. Também existe DVA que apresenta a Depreciação (Dep) como distribuição de valor, conforme equação (2). Neste caso, o lado esquerdo mostra o valor adicionado bruto e o lado direito, sua distribuição. A questão da depreciação será discutida no item 2.3 deste capítulo.

Dep R T Div I W B S− = + + + + + (2)

Devido à identidade macroeconômica entre produto e renda, a formação do valor adicionado pode ser calculada pelo método aditivo ou pelo método subtrativo. Nas equações apresentadas, o método aditivo é exposto do lado direito (soma da remuneração dos fatores de produção), e o método subtrativo é exposto do lado esquerdo (diferença entre vendas e aquisição de materiais e serviços de terceiros). A possibilidade de calcular o valor adicionado pelo método aditivo viabilizou o estudo da DVA em países que não têm como prática a elaboração e divulgação dessa demonstração, como os EUA (veja os trabalhos de Riahi- Belkaoui, por exemplo).

Com isso, explica-se a igualdade das duas partes da DVA: formação do valor adicionado e distribuição do valor adicionado. A seguir, será discutida a estrutura da DVA com foco nos pontos mais divergentes com relação às demonstrações expostas em outros países.

Benzer Belgeler