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3.2. Fikri İçtima Kurumunun Ceza Hukuku Genel Hükümler Bakımından

3.2.1. Kasten ve Taksirle İşlenebilen Suçlar Arasında Fikri İçtima ve Hedefte Sapma

3.2.1.2. Çok Neticeli Sapma

5.1.4.1 Os abandonos e as vidas dispensáveis

O abandono é questão frequente naquela edição do Profissão Repórter. Embora não seja propriamente um "tema", ele é parte de cada uma das histórias reunidas pelo programa. Em um primeiro momento, acompanha-se um menino aparentemente abandonado pela família e que, depois de reencontrá-la, permanece num abrigo público sem receber a visita da mãe e das irmãs por semanas. Em seguida, a história do pai que tenta lidar com um filho que esteve em tratamento contra a dependência química. Naquele caso, é a própria equipe de reportagem que o abandona, após reconhecer ter acirrado a tensão familiar que havia entre pai e filho. Por último, os meninos abandonados pela família e pelo Estado em Salvador.

Esse abandono recorrente, pelas famílias, pelo Estado e pela própria reportagem, no final das contas, corrobora a associação do crack como problema social ao surgimento de uma classe inteira de usuários como seres dispensáveis, restos de que se pode abrir mão. O

sofrimento daqueles sujeitos não é, na narrativa do programa, ligado somente às consequências fisiológicas do uso do crack. É relacionado, sobretudo, com as situações de abandono: o abrigo cheio de crianças e adolescentes, em sua maioria filhos de pais também entregues às drogas; as ruas dos grandes centros urbanos, lotadas de jovens desassistidos, sem nomes, sem rostos e sem endereço.

A vulnerabilidade dos usuários de crack se torna objeto de interesse das narrativas em função das condições precárias de existência daqueles sujeitos. Trata-se, como dito anteriormente, de uma divisão do sensível na qual esses indivíduos não são contados como vidas, nem ao menos são considerados sujeitos - são o refugo que precisa ser mostrado para que seja evitado a qualquer custo, combatido ou remediado; são a contraface do normativo. Estão vivos, mas não são vidas. Ou são vidas das quais se pode dispor, pois ninguém dá falta delas. Não são vidas passíveis de luto. Por isso a questão central é o abandono, e não a exclusão. Aqueles seres não importam, não são preservados por nada, senão pelo acaso da sobrevivência. Por isso ficam vulneráveis a sofrerem violações (como a violência da internação compulsória ou da própria violência midiática, em busca, a qualquer preço, dos seus testemunhos) ou morrerem.

Em contraposição, poder-se-ia objetar que a própria abertura da narrativa do Profissão Repórter aos testemunhos daqueles sujeitos, materializados em seus corpos e falas, contextualizados por situações e experiências mostradas, confirmaria certa vocação do testemunho como forma de considerar o outro, como gesto direcionado à preservação de determinadas vidas. Nesse sentido, são eloquentes o testemunho emocionado de Caco Barcellos sobre o menino abstinente e sua carência afetiva, a hesitação das repórteres Valéria Almeida e Eliane Scardovelli em aumentar a tensão familiar entre o pai e o filho dependente químico, além do recuo do repórter Raphael Prado e do cinegrafista ante a exaltação dos garotos usuários de crack.

Por outro lado, se em pelo menos dois momentos a própria reportagem reflete sobre o gesto de filmar e prosseguir, não é por acaso que, mesmo após as desistências, as imagens vão ao ar, à custa da intervenção violenta na vida daqueles sujeitos. De certa maneira, dispensá-los da reportagem após dispor deles é, também, um modo de abandoná-los. É torná-los objetos de lamentação, capazes de provocar os espectadores, de estabelecer e romper possibilidades de identificação, demarcando posições para "eles" e para "nós"; e fazer deles objetos de indignação moral, a ponto de suscitar o incômodo de ver a que crianças e adolescentes são entregues e estão sujeitos. Mas também significa dispensá-los como seres sacrificáveis. Uma vez satisfeito o desejo por aqueles testemunhos, por aqueles corpos e falas, segue-se adiante,

rumo a novas histórias, sem nada se poder fazer quanto à preservação daquelas vidas que se produzem apesar de tudo, que se abrem para partilhar do próprio sofrimento.

5.1.4.2 De quem é a obrigação moral?

Na história do menino abstinente, contada pelo jornalista e apresentador Caco Barcellos, o programa não critica ou mesmo tematiza explicitamente a política da internação compulsória - embora retrate cenas violentas, em que o corpo de um adolescente usuário é subjugado à força, amarrado e tranquilizado por calmantes. As condições do abrigo público, aparentemente superlotado, também não são questionadas pela narrativa. Contudo, desde o início, aquele testemunho é enquadrado como motivo de indignação, como um caso de injustiça, que demanda reparação. Indignação pela agressividade com que aquele menino é tratado, mas também pela violência da reação contra os agentes de saúde, médicos e a própria equipe de reportagem; injustiça pela ausência de quem advogue pelos direitos e necessidades daquele sujeito que grita, suplica e agoniza diante da câmera; e reparação pelo modo como o próprio jornalista se sente conclamado a ajudar, procurando pela mãe do menino, desaparecida há anos.

A fala de Barcellos sobre o abraço recebido após a internação do menino e a carência afetiva do garoto chamam atenção para a necessidade de reparação por aquele sofrimento. Entretanto, se há uma acusação ou forma explícita de enquadramento voltado à indignação, ela se realiza contra a própria família do menino: o enredo do programa torna indisfarçável o contraste entre a necessidade de afeto daquele garoto abandonado às ruas, entregue ao uso compulsivo do crack, e as palavras duras da mãe, catalogando as cicatrizes e marcas deixadas pela experiência de drogadição e pela situação de rua no corpo do adolescente. A construção narrativa da indignação como modo de dar sentido àquela situação ganha impulso quando, ao final do programa, Barcellos informa o espectador que, mesmo estando o menino internado há três semanas, a mãe não voltara ao abrigo público para visitar o filho.

A construção da indignação contra os familiares também ocorre, embora em menor escala, com a história do pai que submete o filho à reportagem. Apesar de todo o desespero de Gilson, impedido de internar o filho em uma clínica para controlar a dependência por falta de tratamento voltado a adolescentes, ele questiona a própria atitude de ter participado do programa, expondo o filho àquela visibilidade sem consultá-lo previamente ou sem avaliar as consequências. Ao final daquele trecho, enquanto o pai lamenta a briga que teve com o filho

diante das câmeras e mostra arrependimento por ter aceitado partilhar a experiência pela televisão, são as repórteres, e não ele, que anunciam a decisão de não interferir mais para evitar provocar novas tensões familiares.

A fala do jovem Márcio, já no final da reportagem em Salvador, conecta-se, de certa maneira, a todo o enredo do programa, no que diz respeito à responsabilização pelo sofrimento daqueles sujeitos. Ele mesmo depõe como um sujeito em situação de rua desde criança, abandonado pela mãe e pelo pai, que nem mesmo o reconhece como filho. "Não, não, meu pai, ele não me assume porque minha mãe fazia programa, ele diz que não sou filho dele, enfim, a família não abraça o jovem, perde a atenção dele e ele se perde no mundo", diz o rapaz, interpelado pelo repórter sobre a própria família. Uma vez mais, todo o sofrimento daquele sujeito, que não está explicitamente ligado às drogas, mas diz-se em situação de rua desde os oito anos, é relacionado à ausência e ao abandono familiar.

O testemunho de Márcio acrescenta ainda ao enquadramento de injustiça a responsabilização do poder público pelo abandono daqueles sujeitos. Apesar de o programa não questionar as ações da Prefeitura do Rio de Janeiro quando da abordagem do menino abstinente, o Profissão Repórter não chega a defender que o mesmo seja feito em Salvador. Por outro lado, a convocação de Márcio para que os "grandes" assistam àquelas cenas, vejam a situação dos "menores" usuários compulsivos de crack, atua, de certa maneira, como uma crítica à total ausência do poder público no atendimento e assistência àquelas pessoas.

Esses modos de dar sentido àquelas experiências de sofrimento e drogadição, ao chamarem atenção para o abandono familiar e do poder público, não constroem aquele problema como parte de uma obrigação moral cidadã - que poderia ser, também, do próprio espectador. A postura de centrar a denúncia das injustiças, a convocação à indignação e necessidade de reparação nas famílias e nas instituições políticas não constitui um terreno propício ao partilhamento de uma obrigação moral para com os enjeitados por parte dos espectadores. Por certo, essa ausência de um clamor explícito à ação do espectador - seja ela qual for, desde a doação aos abrigos e projetos, até o próprio questionamento ao poder público - não significa que tais iniciativas sejam desestimuladas. Percebe-se, de certo modo, que fica a cargo do próprio programa assumir essa "obrigação moral" de denunciar, de modo que as ações sejam cobradas somente das famílias e do poder público enquanto instâncias que podem agir diretamente para mudar a realidade daqueles sujeitos. E o testemunho daqueles sujeitos é o mecanismo pelo qual o Profissão Repórter constrói esse enquadramento de injustiça.

5.1.4.3 Sobre falas e corpos, potências e impotências

A despeito de todo o esforço que os repórteres parecem fazer para ouvir o que os usuários de drogas têm a dizer, esses sujeitos nem ao menos são vistos como indivíduos dignos de fala. O lugar de fala específico desses sujeitos se constitui somente como abertura aos testemunhos desejados por aquela ordem de discurso. Logo no início do programa, as falas do menino abstinente se resumem a gritos desesperados, pedidos de socorro e ofensas. O momento de tensão é sucedido de um diálogo rápido, em que o menino pede gentilmente para a equipe se afastar. Em seguida, quando Barcellos, depois de insistir, consegue romper a barreira interposta pelo adolescente e está diante dele para uma conversa, o menino é mostrado ameaçando quebrar o microfone sobre o repórter.

A história de Gilson Monteiro também reafirma esse privilégio da exibição dos corpos sobre a abertura de um lugar de fala. O menino não quer falar, tampouco aparecer. Em oposição ao pai, que parece sempre disposto a conversar sobre a experiência de ter um filho em tratamento contra dependência. A fala do menino só aparece de forma significativa ao final daquele trecho, quando, chateado e trancado no próprio quarto, ele grita, recusando-se a conversar com o pai. Do lado de fora do quarto, filma-se e ouve-se o choro do menino, seguido do arrependimento de Gilson por tê-lo feito passar por aquela situação. A questão que se coloca, nesse caso, é a de que a abertura de um lugar de fala deveria implicar, necessariamente, a abertura para o silêncio, para a recusa da fala, privilégio do qual aquelas testemunhas não parecem dispor.

Não se trata apenas de constatar a ausência ou inexistência de um lugar de fala, mas de indicar que, naquele regime de visibilidade e dizibilidade, a fala reservada aos usuários de crack é uma fala pré-concebida, um lugar pré-definido: trata-se da fala do crack, do adicto, do usuário. A rigor, naquela narrativa, essas são falas que não precisam falar. Elas são significativas pelos sons que emitem, pelas expressões confusas, isto é, pela diferença que é possível estabelecer entre aquelas "falas" e as falas autorizadas, como os depoimentos dos repórteres, do médico, do pai, dos educadores. O caso dos meninos de Salvador é ilustrativo dessa divisão claramente estabelecida: há "falas" e falas. E os usuários são, sobretudo, aqueles sobre os quais se fala, seja porque muito pouco dizem, seja porque aparentam, segundo aquela narrativa, terem muito a dizer sem o poderem por causa dos efeitos fisiológicos da drogadição: a última cena das filmagens na Bahia mostra exatamente o repórter Raphael Prado diante dos dois meninos, no meio da rua, após a sessão de uso de crack e álcool, ouvindo ambos falarem frases sem nexo, simultaneamente e sem interrupção.

Essa divisão sensível e narrativa entre "falas" e falas é, novamente, reveladora daquela assimetria entre jornalistas e sujeitos sofredores, no que diz respeito à distribuição de lugares e papéis no contexto do testemunho. A presença ativa dos repórteres naquelas situações não é mero artifício retórico ou estratégia realista daquela narrativa. Assume-se que aqueles sejam também testemunhas, não apenas autorizadas como necessárias para satisfazer aquela vontade de saber, de ver e de ouvir os testemunhos dos usuários. São eles que conseguem quebrar, por assim dizer, a barreira que separa o mundo dos espectadores do mundo daqueles que são mostrados nas mais diversas situações e experiências de sofrimento ligadas ao consumo de drogas, e especificamente do crack.

Como afirma Rui (2014), ao não conseguirem romper com o elo que conecta o que se diz sobre os usuários e o que eles pensam sobre si mesmos, todos os mecanismos de controle e assujeitamento desses indivíduos são corroborados. De modo análogo, no Profissão Repórter, já não se trata nem da reprodução de outras falas, mas da reprodução da própria impossibilidade de falar. É como se a droga e seus efeitos lhes negasse a possibilidade mesma de falar sobre si, sobre a própria condição e experiência com clareza e consciência. Esse impedimento é precisamente o que reserva a esses sujeitos um lugar previamente determinado, como objetos de uma narrativa que vê neles amostras representativas de um sofrimento que lhes excede, mas que, ao mesmo tempo, é um sofrimento do qual eles podem prestar depoimento.

Até que, em um dos diálogos, travado no contexto das cenas de uso explícito de crack no centro de Salvador, um dos meninos ensaia uma ligeira superação desse bloqueio. Indagado pelo repórter sobre as possíveis alternativas de vida, o adolescente lhe responde, claramente, que a questão com a qual o jornalista está se defrontando não é mero jogo de alternativas. A resposta não apenas rompe com o que o repórter afirma sob a forma de pergunta, como reinstitui o lugar do menino como um interlocutor consciente da própria condição e capaz de questionar o lugar que lhe é atribuído.

Entretanto, nas cenas seguintes, é a própria "química" que fala mais alto, e o menino é mostrado, novamente, sob a euforia comum aos usuários do crack, incapaz de articular frases e seguir dialogando. À vitalidade daquele sujeito, à capacidade de reagir e romper com o que lhe empurra para uma identificação previamente determinada, corresponde apenas um corpo no limite: no limite do que a situação de rua lhe impõe, no limite do que o consumo compulsivo de drogas lhe provoca física e psiquicamente, no limite do que pode ser dito e mostrado sobre si, sem que lhe seja dada uma oportunidade real de responder.