Do ponto de vista geopolítico, em regra, a maioria dos países produtores de petróleo apresentam elevadas reservas, pouca tecnologia de ponta, reduzida base industrial, mercado consumidor pouco expressivo e instabilidade política. Ao contrário, os países consumidores registram baixo nível de reservas, avanços tecnológicos, base industrial consolidada, estabilidade institucional e mercado consumidor expressivo (MACHADO, 2012).
Por isso, é possível verificar, então, que a indústria do petróleo já nasceu internacional, à medida que a busca por novos campos de exploração desencadeou uma dispersão geográfica da produção. Esta dispersão, por sua vez, acelerou as transações comerciais entre os países produtores e consumidores de petróleo.
A busca por novas áreas de exploração foi o elemento decisivo, tanto para o processo de internacionalização, quanto para os de integração vertical ou horizontal. A busca por matéria-prima e pelos diferenciais de renda petrolífera tem determinado os fluxos de comércio (importação e exportação) e de investimento, em decorrência da expansão das plantas de produção e refino. Como consequência das estratégias adotadas diante das suas próprias características, a indústria do petróleo, segundo Mathias (2008), tornou-se a única indústria energética global.
A internacionalização dessa indústria se expressa de duas formas: a primeira, adotada pelas majors, como forma de ampliação do mercado, acesso e controle das reservas. Já a segunda, utilizada pelos países produtores que nacionalizaram suas indústrias de petróleo, como forma de inserção no mercado mundial (MATHIAS, 2008). Independente da forma, o aumento das trocas internacionais, diante da crescente importância do petróleo para a economia mundial, foi possível graças aos seguintes fatores:
A melhoria dos meios de transporte, que, segundo Tisuani (1996), reduziu o custo e tempo das operações.
A melhoria nos mecanismos de comunicação.
A organização e a consolidação dos mercados de petróleo: spot, futuro e derivativos, que permitiram o movimento de integração financeira.
A elevação da escala mínima de eficiência das plantas industriais, com a conquista de novos mercados19.
A liberalização do comércio exterior.
Na Figura 10, a seguir, um indicador evidencia a importância do comércio internacional para a indústria petrolífera, trata-se da razão entre o total comercializado e a produção total de petróleo. Os resultados revelam que é alta a participação do comércio internacional no total de petróleo produzido, principalmente a partir dos anos 1980, quando este indicador se mostra sempre superior a 41% (1987) e atingindo o máximo de 68% (2007), ano que antecede a crise financeira internacional. Já a tendência de queda a partir de 2008, deve-se aos efeitos da crise mundial e ao aumento da produção petrolífera dos EUA.
Figura 10 - Participação das Exportações de Petróleo na Produção Total - 1965 a 2010
Fonte: Elaboração própria a partir do Statistical Review of World Energy, 2011.
Os principais fluxos comerciais líquidos são ilustrados na Figura 11. De forma esquemática, é possível verificar os movimentos de importação e exportação de petróleo, suas origens e seus destinos. Os dados mostram a importância da região do Oriente Médio, que participa das exportações para todas as regiões. O que corrobora os dados apresentados anteriormente sobre a produção e reservas dessa região.
Ao se avaliar em conjunto, importação, exportação, consumo e produção, pode-se verificar que os EUA e a China são países produtores e importadores de petróleo. A China importa grande parte do seu petróleo da Ásia do Pacífico, das Américas do Sul e Central e da África, e os EUA sobretudo do Canadá, da Europa, México e Américas do Sul e Central.
Figura 11 - Fluxo Comercial de Petróleo (milhões de toneladas) - 2010
Fonte: BP Statistical Review of World Energy, 2011
A dependência chinesa com relação ao petróleo importado ficou em torno dos 55% do seu consumo doméstico, em 2011, o que representa, aproximadamente, 9% das importações mundiais de petróleo. Tamanha dependência pode ser atribuída a dois fatores principais: o primeiro diz respeito à tentativa de reduzir da participação do carvão (71%) na sua matriz energética, e o segundo refere-se ao vigor da economia chinesa nos últimos anos. Diante destes números, a China influencia tanto o mercado mundial, quanto a formação dos preços internacionais do petróleo (ANP, 2012).
Os EUA, que assinalavam uma tendência de aumento da dependência em relação ao petróleo importado, decorrente da alta taxa de maturidade dos seus campos de exploração, descobriram novas reservas em 2009 e 2010, em cada uma das cinco maiores áreas produtoras de petróleo bruto e condensado do país (Texas, no Golfo do México Federal Offshore, Alaska, Califórnia e Dakota do Norte). As novas descobertas
EUA Canadá México
A.do Sul e Central Oriente Médio África Ásia do Pacífico
e o aumento de 25% na produção de óleo (Tight oil, extraído de um tipo de rocha sedimentar de formação calcária – shale), fizeram com que o país reduzisse em um terço as suas importações líquidas (EIA, 2012).
Países com produção pouco expressiva, como o Japão e a Índia, também têm revelado grande dependência das importações, que, no caso da Índia, segundo a EIA, poderá chegar a 91,6% do seu total consumido em 2020. Isso, mesmo considerando que este país dispõe de certa diversidade de fontes energéticas, e o petróleo representa 23% da sua matriz energética (EIA, 2012).
A elevação do consumo nas economias emergentes e a crescente preocupação destes países com o abastecimento energético desencadeou a estratégia de ampliação da capacidade de refino. Os Estados Unidos (20%), juntamente com a China (8,7%), Rússia (6,3%), Japão (5,2%) e Índia (3,4%) respondem por 43,5% da capacidade mundial de refino. Os fluxos comerciais de petróleo bruto e derivados começam a se modificar. Mais petróleo passa a circular nos países produtores, que irão refinar mais que nos países consumidores. Surgirão, então, uma nova logística, uma nova geopolítica e novas perspectivas, o que reforça a reorganização geográfica da produção e altera os fluxos comerciais e de investimentos da indústria petrolífera mundial.
Na verdade, as modificações dos fluxos de comércio e investimento estão relacionadas não só à preocupação pela segurança energética, devido ao aumento do consumo, como também aos efeitos deste consumo no nível mundial de preços do petróleo. Para compreender melhor essa relação, faz-se necessário o entendimento da formação do preço mundial do petróleo, como será exposto a seguir.