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As reservas de petróleo se encontram apenas em bacias de rochas sedimentares, que se distribuem de forma bastante irregular pelo mundo. Esta irregularidade na distribuição e no acesso às reservas (mar ou terra) é responsável por estruturas de custos diferentes entre as regiões produtoras. No Mar do Norte, por exemplo, o custo de produção de um barril de petróleo é 100 vezes superior ao mesmo barril extraído num campo no Oriente médio. As discrepâncias entre os custos de produção entre as várias regiões produtoras proporcionam rendas diferenciais, que, segundo Alveal (2001), permitem que produtores, como os do Mar do Norte, se mantenham na atividade.

A heterogeneidade, originada pela maior eficiência ou escassez dos recursos produtivos naturais e não renováveis, permite, às empresas que os possuem, usufruírem de uma renda equivalente à diferença entre o valor residual destas empresas e o do concorrente marginal. Essa renda pode ser ricardiana ou schumpeteriana. Dessa forma, as assimetrias entre as estruturas de custos de produção afastam o setor petrolífero do modelo de concorrência perfeita16.

As rendas ricardianas foram explicadas por David Ricardo (1996), como sendo a porção do produto da terra paga ao seu proprietário pelo uso das forças originais e indestrutíveis do solo. Estas estão associadas a diferentes níveis de retorno obtidos pelas

15 Cartel das Sete Irmãs

16 No modelo de concorrência perfeita, a receita marginal (RMg) é igual ao preço (P), e este se iguala ao custo marginal (CMg), neste ponto o lucro econômico é igual a zero (P = CMg).

condições de fertilidade do solo, ou seja, o cultivo em terras mais férteis proporcionava maior renda que as marginais. Este conceito não se aplica apenas aos recursos produtivos limitados, como as terras, referindo-se também, àqueles que apresentam oferta limitada pela lenta capacidade de expansão (menor que a demanda). Neste caso, de acordo com Peteraf e Barney (2003), são chamadas de “quase rendas” (quasi-rents).

Considerando que as reservas ou campos produtores de petróleo são como as terras do modelo ricardiano, os maiores níveis de retorno seriam dados pelas diferenças de produtividade, pela qualidade do óleo extraído e pela posição ou a localização geográfica das jazidas. As rendas ricardianas podem ser, então, divididas em: renda de produtividade, qualidade e de raridade.

As rendas schumpeterianas ou tecnológicas dizem respeito ao ganho ocasionado pelo aumento da produtividade como consequência de inovações de processo de produto. Essas rendas podem ser superadas pela concorrência, uma vez que são baseadas em ideias, conceitos, novas formas de organização e design, que podem ser aperfeiçoados, apesar do grau de dificuldade. Segundo Schumpeter (1997), à medida que novos concorrentes são atraídos pelos ganhos do mercado, a inovação é copiada por eles, e atinge-se, novamente, uma situação de equilíbrio entre receitas e despesas para todas as firmas da indústria, até o surgimento de mais uma inovação.

Na indústria petrolífera mundial, os ganhos ou rendas díspares gerados pela atividade estão relacionados, principalmente, ao setor à montante (upstream). Estas rendas podem ser: ricardianas (raridade, qualidade e produtividade), schumpeterianas (tecnologia), ou ainda o reflexo de uma estrutura de mercado oligopolizada. No intuito de explicar rendas petrolíferas, Chevalier (1986) apud Souza (2006) formulou uma teoria específica para a exploração de petróleo. Segundo essa teoria, a renda petrolífera seria o somatório das rendas de monopólio, de raridade e das chamadas rendas diferenciais. Estas últimas são resultado do menor custo de exploração das jazidas e dividem-se em quatro categorias: rendas minerais, tecnológicas, de posição e de qualidade.

A renda gerada pelo poder de monopólio é consequência da manipulação de preços acima dos custos marginais (mark up). Quanto maior o poder de monopólio e quanto maior a escassez (raridade) do produto, maior será a renda gerada. De acordo com a teoria microeconômica, as restrições à concorrência permitem aos produtores auferirem uma margem de lucro acima daquela que seria praticada sob o modelo de concorrência perfeita (PINDYCK; RUBINFELD, 2010).

A indústria petrolífera se utiliza, como já discutido anteriormente, de barreiras à entrada de novas firmas concorrentes. A ausência de substitutos próximos para o petróleo (no curto e médio prazo) torna a sua demanda menos elástica em relação à variação dos preços. Por tanto, esta indústria é, pelas suas próprias características estruturais, pelas características de seu produto, seu desenvolvimento e sua internacionalização, um oligopólio.

A renda de raridade, por sua vez, relaciona-se à escassez do petróleo, bem como, a dispersão geográfica das jazidas e se configura em uma vantagem comparativa para os países produtores. No caso dos países da OPEP, é considerada a mais importante vantagem comparativa na produção de petróleo (MARTIN, 1992).

Das quatro categorias que compõem as rendas diferenciais, as rendas minerais, são as mais relevantes, uma vez que, no mercado petrolífero, as diferenças de concentração, qualidade e condições geológicas de cada tipo de jazida são determinantes de estruturas de custos de extração bastante heterogêneas, e, consequentemente, rendas distintas.

A renda de posição é determinada pela localização ou posição geográfica do campo de extração. A maior ou menor proximidade deste com os centros consumidores podem gerar rendas diferentes, uma vez que o custo de transporte sempre compromete aqueles que estão mais distantes.

A renda de qualidade do óleo está relacionada à sua densidade, que é medida em relação à água e classificada pelo padrão internacional API (American Petroleum

Institute). Quanto maiores os graus de API de um óleo, mais leve ele será, como o

petróleo do campo de Brent, no Mar do Norte, que é referência internacional de qualidade, por apresentar 30 a 35 graus de API. Este tipo de óleo registra melhores coeficientes técnicos para o refino chamados pela indústria de “nobres”, por possuírem maior valor e menor concentração de poluentes.

O domínio ou o acesso à tecnologia também desencadeiam rendas distintas para a indústria petrolífera, isso ocorre à medida que o progresso técnico permite encontrar novas oportunidades de exploração, reduzir custos, aumentar a produtividade dos recursos e minimizar os riscos. As rendas tecnológicas determinadas pelos diferentes estágios de tecnologia, conhecimento e acúmulo de experiências, são resultado do esforço inovativo na atividade.

Nelson e Winter (1977) demonstram, em seu modelo, as repercussões das inovações tecnológicas na estrutura industrial. Segundo eles, as empresas que têm um

direcionamento estratégico adequado aos padrões de concorrência vigentes apresentam melhor desempenho em relação aos seus concorrentes. Isso possibilita aumentar o

market share e, por conseguinte, recuperar rapidamente os gastos em pesquisa e

desenvolvimento (P&D).

Nesse sentido, a indústria do petróleo tem investido, especialmente, no segmento upstream, em inovações de métodos, de técnicas e de organização industrial. O resultado foi um rápido aumento das reservas, que, só na década de 1980, cresceram três vezes mais que o consumo (ALVEAL, 2003 apud CAMPOS, 2007).

Essas novas reservas, descobertas em distintas regiões (principalmente no Mar do Norte, Golfo do México, África Ocidental e Brasil), podem apresentar diferença de custos de produção, propiciando às majors a apropriação de rendas geradas em regiões com menor custo relativo. A garantia do acesso a elas tem sido assegurada, notadamente, por meio de fusões e aquisições ou cooperação. A concentração industrial, ocasionada por tais estratégias, tem reforçado as barreiras à entrada de novas firmas nesse mercado e a reorganização geográfica da produção (CAMPOS, 2007).