A introdução do conceito de paisagem cultural, desenvolvido pela UNESCO desde o
início dos anos de 1990, apresenta-se como uma ideia inovadora que vai de
encontro a uma nova abordagem ao tema patrimônio decorrente da própria
ampliação desse conceito – ela combina os aspectos materiais e imateriais do
conceito de patrimônio, desempenhando assim um papel inovador. Essa nova
abordagem do patrimônio propicia a proposição de novas estratégias integradas de
intervenção. (CASTRIOTA, 2009. p. 259-279).
A definição do conceito de paisagem cultural passa a valorizar as interrelações entre
o homem e o meio ambiente, entre o natural e o cultural, entre os componentes
materiais e imateriais.
A Convenção do Patrimônio Mundial, de 1992, passou a incluir a categoria da
“paisagem cultural”, na 16ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizado em
Santa Fé, Novo México (EUA). Como comenta Castriota (2009, p.260):
Com isso a Convenção vai ser o primeiro instrumento legal internacional a reconhecer e proteger tal tipo complexo de patrimônio – focada na interação entre natureza e cultura e, ao mesmo tempo, ligado também intimamente ás maneiras tradicionais de viver.
O conceito de paisagem cultural foi definido pela UNESCO, em 1999, nas Diretrizes
operacionais para a implementação da Convenção do Patrimônio Mundial:
Paisagens culturais representam o trabalho combinado da natureza e do homem designado no Artigo I da Convenção. Elas são ilustrativas da evolução da sociedade e dos assentamentos humanos ao longo do tempo, sob a influência das determinantes físicas e/ou oportunidades apresentadas por seu ambiente natural e das sucessivas forças sociais, econômicas e culturais, tanto internas quanto externas. Elas deveriam ser selecionadas com base tanto em seu extraordinário valor universal e sua representatividade em termos de região geocultural claramente definida, quanto por sua capacidade de ilustrar os elementos culturais essenciais e distintos daquelas regiões.36
Em 2007, no Seminário Semana do Patrimônio – Cultura e Memória na Fronteira,
realizado em Bagé-RS, foi produzida a “Carta de Bagé” ou “Carta da Paisagem
Cultural”, que apresenta a definição de paisagem cultural no artigo 2°:
A paisagem cultural é o meio natural ao qual o ser humano imprimiu as marcas de suas ações e formas de expressão, resultando em uma soma de todas os testemunhos resultantes da interação do homem com a natureza e, reciprocamente, da natureza com homem, passíveis de leituras espaciais e temporais;
Ainda nesse seminário foi reforçada a pertinência de operações de intervenção e
preservação que recaem sobre todos os bens culturais, considerando que esse
conceito abarca um misto dos conceitos de patrimônio material e imaterial, além do
patrimônio natural.
Esse seminário trouxe de volta a discussão a respeito da paisagem cultural e, em
2009, a Chancela da Paisagem Cultural Brasileira, é instituída e regulamentada pela
Portaria n° 127, de 30 de Abril de 2009, publicada pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.
Segundo Castriota (2009, p.262), com a promulgação dessa portaria, “também em
nosso país começa a se institucionalizar uma das ideias mais ricas que entraram no
campo do patrimônio nos últimos anos e que tem trazido significativos avanços
conceituais e metodológicos à área”. E, ainda citando Castriota (2009, p.269):
36 UNESCO. Operational Guidelines for Implementation of World Heritage Convention. Paris: World
Conservar as paisagens culturais é um dos desafios mais complexos com os que se depara a área do patrimônio hoje. Se a sua conceituação já se mostra uma tarefa difícil, tal dificuldade se aprofunda quando se passa para a formulação de estratégias para o tratamento dessa categoria especial de patrimônio.
Esse é mais um instrumento de preservação do patrimônio cultural e de gestão
territorial, que vai de encontro às novas perspectivas de proteção do patrimônio
cultural, perspectivas essas geradas pela ampliação desse conceito.
A chancela é um ato administrativo que atribui valor a uma porção do território
nacional. Esse instrumento considera as relações entre as categorias cultural (ou
seja, o construído) e natural e, como tal, propõe o chancelamento – selo de
reconhecimento e legitimação_ da paisagem (meio físico) e da cultura (relações
sócias, econômicas e simbólicas). Nesse sentido, espera-se de ela acabe por
estimular “o turismo, a manifestação das culturas locais, o artesanato, o cultivo da
terra de forma tradicional, entre outras atividades que preservem os valores culturais
e ambientais chancelados”
37.
Neste instrumento o termo Paisagem Cultural Brasileira está definido no Artigo 1º:
“Paisagem Cultural Brasileira é uma porção peculiar do território nacional,
Representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual
a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores” [grifo nosso]
38.
Esse conceito teve sua gênese no conceito de paisagem cultural introduzido na
geografia, no início do século XX, onde o termo paisagem natural se referia a
paisagens transformadas pela ação humana, isso tudo em oposição ao termo
paisagem natural. Nesse sentido, é importante ressaltar que as paisagens culturais
são elementos dinâmicos, que se modificam no tempo tanto pela influência de
fatores naturais, quanto pela ação do homem, ou seja, o contexto cultural onde ela
se insere.
No entanto, no campo do patrimônio, segundo Vasconcelos (2012, p.56):
37 VASCONCELOS, 2012, p.62.
a questão não é mais que elementos culturais estão presentes na paisagem, mais sim, que paisagens são dotadas de valores culturais e naturais dignos de serem reconhecidos e protegidos pelas políticas públicas. Portanto, apesar de toda paisagem ser cultural, só algumas delas merecem ser patrimonializadas.
A definição de paisagem Cultural expressa na Portaria n° 127 é propositalmente
ampla e teve por objetivo abarcar o maior número de contextos culturais, dentro da
diversidade presente no território brasileiro.
Esse instrumento apresenta um procedimento inovador na medida em que, através
da chancela, não só declara uma porção peculiar do território nacional como
Paisagem Cultural, mas também propõe mecanismos de preservação dessa
paisagem que incluem a participação de diversos agentes, todos eles possuindo
alguma relação com a paisagem cultural chancelada. Este não é um instrumento
meramente declaratório, mas se propõe a ser um instrumento de gestão territorial
compartilhada. No capítulo IV, inclusive, os artigos 4º e 5º destacam a necessária
participação de diversos agentes:
Art. 4º. A chancela da Paisagem Cultural Brasileira implica no estabelecimento de pacto que pode envolver o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada, visando a gestão compartilhada da porção do território nacional [grifo nosso] assim reconhecida.
Art. 5º. O pacto convencionado para proteção da Paisagem Cultural Brasileira chancelada poderá ser integrado de Plano de Gestão a ser acordado entre as diversas entidades, órgãos e agentes públicos e privados envolvidos [grifo nosso], o qual será acompanhado pelo Iphan.
Mais que destacar a necessária participação de diversos agentes, esse instrumento
preconiza a coordenação da ação desses diferentes agentes a partir de um plano
único de gestão – “nada melhor que o diálogo e a cooperação entre os atores
envolvidos no processo da chancela para conciliar o desenvolvimento econômico e
cultural com a preservação patrimonial”
39Carlos Henrique Rangel
40destaca justamente a importância da participação desses
diversos agentes, e da necessidade de instrumentos complementares para a
garantia da preservação da paisagem cultural:
39 VASCONCELOS, 2012, p.63.
40 RANGEL, Carlos Henrique Rangel. Belo Horizonte, MG. Entrevista concedida a Flávia de Assis
Meu problema com a paisagem cultural é isso: ela é apenas um titulo, porque ela precisa que o parceiro queira. A paisagem cultural, o município tem que concordar, ela não é igual ao tombamento. Tem que haver concordância. E se amanhã aquele prefeito muda e o outro que entra não quer mais manter a chancela ou cumprir as salvaguardas, as medidas para que aquela paisagem continue sendo o que é, acabou. E não tem impedimento, não tem punição, não tem nada. Na verdade a paisagem cultural vai ter que, talvez ser vinculada a outras proteções, ao registro e ao tombamento. Ela sozinha ela não vai segurar. [Flavia: então talvez ela tenda a se transformar numa gestão dessas outras formas de preservação, de salvaguarda]. Isso mesmo, ela pode ser uma forma de gestão, até mesmo das áreas de entorno dos bens. Então eu acho que a gente ainda vai avançar, mas eu acho que ainda vai demorar um pouquinho. [grifo nosso]
Weissheimer (2012, p.2), refletindo sobre a eficácia deste instrumento destaca que:
Sua eficácia está baseada no estabelecimento de um pacto entre os principais entes, públicos e privados, que atuam sobre o território selecionado e, consequentemente, a efetiva preservação das paisagens culturais se dará pelo cumprimento dos compromissos assumidos por cada uma das partes no momento da pactuação. Até o momento, parece residir aí um dos principais pontos nevrálgicos de aplicação da chancela – a definição das ações e atribuições de cada signatário e a assinatura de um pacto entre parceiros. [grifo nosso]
Esse é um instrumento que deve ser entendido como complementar aos demais já
existentes. Nesse sentido, cabe observar quais são os fatores que definem a
singularidade do sítio a ser chancelado, e utilizar dos instrumentos de proteção
existentes – tombamento (no caso de a singularidade se dar pela existência de bens
materiais relevantes), registro (se as manifestações imateriais se sobressaírem na
definição da singularidade do sitio)
– para garantia da proteção do patrimônio
cultural da paisagem chancelada. Este aspecto é ressaltado no artigo 2º desse
instrumento:
Art. 2º. A chancela da Paisagem Cultural Brasileira tem por finalidade atender ao interesse público e contribuir para a preservação do patrimônio cultural, complementando e integrando os instrumentos de promoção e proteção existentes, nos termos preconizados na Constituição Federal.
Weissheimer (2012, p.5), sintetiza a reflexão a respeito da Chancela da paisagem
Cultural Brasileira da seguinte forma:
A chancela é, muito além de um selo ou uma forma unilateral de reconhecimento, um convite à congregação de esforços em prol de um objetivo pretensamente comum, que é a preservação do patrimônio cultural em sua máxima expressão.
A chancela prevê, assim como a abordagem ampla do conceito de paisagem cultural, a flexibilização na forma de tratamento e efetivação do pacto.
(...). Essa medida também teve como objetivo permitir a atuação nos mais diversos contextos sociais, econômicos e também políticos encontrados em todas as regiões do país.
Contudo, parece residir no próprio delineamento do pacto e, mais ainda, na sua formalização e efetivação, a principal dificuldade para colocar a chancela em prática. [grifo nosso]
Um ponto que pode gerar descrédito com relação à eficácia desse instrumento é a
inexistência de previsão de punição para a descaracterização de uma paisagem
chancelada, exceto a perda do uso do certificado. No entanto, a paisagem
chancelada está sujeita à Lei nº 9.605/1998, que dispõe sobre sanções penais e
administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente,
conforme artigos 62 e 63:
Art. 62. Destruir, inutilizar ou deteriorar:
I - bem especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial;
II - arquivo, registro, museu, biblioteca, pinacoteca, instalação científica ou similar protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.
Parágrafo único. Se o crime for culposo, a pena é de seis meses a um ano de detenção, sem prejuízo da multa.
Art. 63. Alterar o aspecto ou estrutura de edificação ou local especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial, em razão de seu valor paisagístico, ecológico, turístico, artístico, histórico, cultural, religioso, arqueológico, etnográfico ou monumental, sem autorização da autoridade competente ou em desacordo com a concedida:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.
Outros fatores podem ser apontados como elementos que demonstram a fragilidade
desse instrumento: falta de interesse da população e do poder público, pouca
familiaridade com esse instrumento jurídico, falta de um maior detalhamento de
como se proceder (da forma de operacionalizar, do que deve ser apresentado
enquanto documentação, etc) para operacionalização do processo de
chancelamento de uma paisagem. (Vasconcelos, 2012)
Mas todos esses pontos podem ser entendidos na medida em que esse é um
instrumento novo e que, com o passar do tempo e com o início dos requerimentos
para chancelamento de paisagens culturais, essas questões podem ser
solucionadas, ou pelo menos minimizadas – o IEPHA pode elaborar documentos
que detalhem o processo, a população e o poder público (após verem resultados
positivos obtidos com o chancelamento de territórios) podem passar a se interessar
por esse instrumento jurídico. Segundo Vasconcelos (2012, p.70):
a chancela da paisagem cultural brasileira tem um grande potencial ainda a ser explorado pelo Iphan. À medida que esta for sendo empregada nas políticas nacionais de preservação patrimonial, suas fragilidades tendem a serem sanadas, se não completamente, ao menos em parte.