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National Context of Disaster Risk Management for Cultural Heritage

2. MANAGING DISASTER RISKS FOR WORLD HERITAGE SITES

2.4. National Context of Disaster Risk Management for Cultural Heritage

Na vertente que nos interessa, ou seja, examinar como, num estado passional, estão em causa processos psíquicos relacionados a representações de experiências fantasmáticas, propriamente a relação com o materno, incidindo em reedições relativas ao sexual, precisamente sobre o feminino, verificaremos, inicialmente, os trabalhos de Green (1980/1988). Dois textos desse autor serão destacados, pois são estudos em que apresenta sobre essa discussão, a saber: As paixões e suas vicissitudes (1988a) e A mãe morta (1988b).

No que se refere ao primeiro, trata-se de destacar a concepção do autor sobre loucura e sua relação com a paixão, enquanto o segundo busca examinar as proposições acerca da gênese das paixões.

As considerações de Green (1980/1988a) acerca da posição freudiana frente à loucura, assim como a própria concepção de loucura que o autor propõe, são oportunas neste estudo. Ele evidencia os casos clínicos apresentados em Estudos sobre a histeria, de Freud, concebendo que este ficou cego à loucura. Uma das razões é de que a psicanálise nasceu da neurose, dado que Freud considerava não analisáveis as neuroses narcísicas. Juntamente com isso, Green acredita que, se Freud não se interessou pelo pensamento de seu contemporâneo, Clérambault, criador da Erotomania ou Síndrome de Clérambault (1921/2009), isso se deve ao fato de que estava implícito que os delírios são fruto da paixão reprimida. Entretanto, o que ficou reprimido tem suas consequências.

Freud abandonou o “polo da paixão”, que se chamava loucura histérica (folie

hystérique) e deixava seu vestígio no ataque. Para Green, esses histéricos não eram mais neuróticos que psicóticos e, sim, eram loucos. Para ele, a histeria está sempre associada à questão do Eros. Como dissemos anteriormente, é de interesse, nessa abordagem de Green, que, tanto na neurose quanto na psicose, está contida uma loucura e de que, nesta, há um “polo da paixão”.

Antes de caracterizá-la como uma desordem da razão, dever-se-ia, pelo contrário, enfatizar o elemento afetivo, apaixonado, que modifica a relação do sujeito com a realidade, elegendo um objeto parcial ou total, tornando-se ligado mais ou menos exclusivamente a ele, reorganizando sua percepção do mundo em seu redor e lhe dando uma aura única ou insubstituível pela qual o ego é cativado e alienado [paixões do eu?]. Uma representação interna obsessiva, superestimada, é formada ao redor do objeto que justifica o estado interno do sujeito (1980/1988a, p. 226).

A partir dessas observações de Green, indicando que ficou reprimido na obra freudiana acerca da loucura precisamente esse polo da paixão na loucura, mencionará, em alguns momentos da obra de Freud, concepções acerca dos delírios e alucinações. Também é oportuno indicar que neste texto, Vicissitudes da paixão, ele referencia o termo “loucura erótica”, apontando a existência de uma relação com a mãe que atuaria tanto nas perversões quanto nas histerias. Um desenvolvimento acerca disso se encontra em A mãe morta (1980/1988b), contemporâneo daquele.

Nesse estudo de Green, de numerosas referências na literatura psicanalítica, é apresentada a existência de uma condição passional primordial, fundante e estruturante do

psiquismo. Trata-se de uma “loucura materna normal”, em que ocorre uma entrega absoluta da mãe ao bebê, este numa condição de objeto onipresente: “Se as relações amorosas posteriores nos demonstram essa loucura em pleno vigor, deve-se supor que a loucura já deve ter estado lá desde o início e primeiramente na mãe” (Ibidem, p.164)20.

Por outro lado, a inexistência dessa posição de incondicionalidade materna causa comprometimentos na constituição do psiquismo da criança. A metáfora da mãe morta serve para demonstrar essa situação de desamparo absoluto. Trata-se de uma “imago que se constitui na psique da criança, em conseqüência de uma depressão materna” (Ibid., p. 239). De uma fonte de vitalidade na criança, a mãe se transforma numa figura distante, átona, quase inanimada. Uma vez que esse complexo da mãe morta é uma revelação da transferência, Green assinala que isso aparecerá também na vida amorosa dos sujeitos.

Em tais casos também é demonstrada a existência, em algum momento, de um estado de loucura. De acordo com o autor, por trás do complexo da mãe morta e do luto branco da mãe, “vislumbra-se a louca paixão de que ela é e continua sendo objeto, que faz de seu luto uma experiência impossível. Toda a estrutura do sujeito visa a uma fantasia fundamental: nutrir a mãe morta, para mantê-la num perpétuo embalsamento” (1988b, p. 261). O sujeito se encontra absorto num luto de um objeto morto presentificado. Há, portanto, uma paixão pela morte, ou melhor, por um estado mortífero.

Nessas abordagens de Green são concebidas duas posições maternas que afetam diretamente a formação psíquica: de um lado, o excesso materno, numa doação absoluta ao seu filho. Ele assinala que um estado amoroso enlouquecido é a reatualização desse momento constitutivo da subjetividade. De outro lado, há uma impossibilidade absoluta de qualquer investimento materno no infante, inclusive, há uma inversão dessa lógica. Uma vez que a mãe está totalmente apagada, “morta”, o sujeito é quem investe para não enterrar a mãe, nutrindo seu embalsamento. Entretanto, parece haver nas duas situações elementos de morte, que se poderia aproximar da concepção de gozo materno, ou seja, em nenhuma daquelas posições

20 Sobre o excesso de presença do Outro materno, referenciamos o estudo de Khel (2009) sobre as depressões. Ela sustenta que o recuo depressivo do sujeito, no campo do desejo, se deve ao excesso da presença do Outro materno, executando um curto-circuito entre necessidade e satisfação. Para argumentar a constituição da depressão enquanto uma posição subjetiva no fantasma, Kehl apresenta com precisão a configuração edípica nas depressões, indicando, também, a recorrência de novas modalidades de dissolução do Édipo em nossos tempos. A “escolha” pela posição depressiva se definiria no segundo tempo do Édipo, momento em que o pai aparece como aquele que priva a mãe do falo e frustra a satisfação infantil. Um comprometimento desta lógica produziria um recuo da criança à entrada na rivalidade fálica, o que significaria “recusar a entrada da dimensão conflitiva que marca a vida psíquica do neurótico” (p. 261).

tem lugar a dimensão do desejo, produzido por uma falta. Nas duas situações, não se criam espaços de ausência necessários para estabelecer um jogo de ausência e presença.

Como se percebe, essas abordagens de Green, dada a riqueza dos elementos que contêm, evocam elementos importantes para o estudo dos fundamentos de estados passionais. É certo que não se trata de uma transposição do complexo da mãe morta a fenômenos passionais, mas é possível encontrar alguns dispositivos daqueles conjugados em enlouquecimentos da paixão. Por exemplo, pode-se sugerir que condições maternas mortíferas, ou estados de morte do desejo e de anestesia desejante, são tributárias em loucuras passionais. Também, sugere-se que certos “embalsamentos maternos” se encontram em muitos casos daquelas psicopatologias.

Uma questão importante a ser extraída dessa condição da mãe enquanto morta-viva é a suspensão do feminino nesse materno. Isso é fundamental às considerações sobre a recusa do feminino no materno como um dispositivo constitutivo em enlouquecimentos passionais. Na vivência de tais estados, pode estar em causa uma das formas de atualização daquela condição.

Juntamente com isso, esse aspecto da “mãe inanimada”, de Green, está muito próximo do mecanismo do autômato, tal como indicado na análise d’ O Homem da Areia. Essa inanição aparece tanto na opacidade do olhar da mãe de Natanael, como no discurso racionalista de Clara, e na boneca Olímpia. Isso tudo compõe o próprio automatismo do jovem passional em que vai nutrindo a própria morte. Neste conto, mais que no caso Rosa, aparece essa face mortífera da paixão.

Nessa vertente de raciocínio, os estudos de Gori (2004) são imprescindíveis para compor elaborações sobre as relações intrínsecas entre morte e paixão. Uma morte que pode advir da suspensão do feminino no materno, ou seja, sem aquela inscrição, há o encontro com um gozo do corpo materno.