2. MANAGING DISASTER RISKS FOR WORLD HERITAGE SITES
3.2. Understanding Current Risk Management for Bergama as a WHS
Em A lógica das paixões, Gori (2004) apresenta um estudo fecundo das questões oriundas da clínica dos estados passionais. Dentre tantas pertinentes a este trabalho e as quais, no decorrer desta pesquisa, serão referenciadas, enfocaremos dois pressupostos fundamentais de seu estudo. O primeiro se refere à sua concepção da paixão como uma loucura no feminino
e, o segundo, ao estabelecimento da figura da criança morta como representação da paixão. Antes disso, cabe ressaltar uma distinção entre amor e paixão proposta pelo autor.
Embora, neste momento, não seja objetivo deste trabalho se deter nesta discussão da diferenciação entre amor e paixão, embora seja fundamental e, portanto, será abordada em outro momento deste trabalho, interessa ao menos assinalar a consideração efetuada por Gori. Para ele, na metáfora do amor, a parte perdida do que não pôde ser realizado (e não do que se perdeu) no campo do desejo possibilita uma abertura ao desejo sexual, enquanto o que está em causa em todas as figuras da paixão diz respeito mais ao “apetite de morte”, ao desejo puro (Ibidem, p. 81). Acerca da condição passional, ele faz uma referência breve ao conceito de Ferenczi, de “terrorismo passional” que, segundo Gori, é uma raiz por onde se alimentam os representantes da paixão.
Numa perspectiva lacaniana, é possível transpor aquele entendimento entre amor e paixão nestes termos: o desejo está para o amor, assim como o gozo está para a paixão, uma vez que o gozo se compõe do apetite de morte. Essa abordagem é tributária de uma discussão em torno dos conceitos de desejo e gozo, a qual será evocada no decorrer deste trabalho.
Na clínica dos estados passionais, Gori evidencia que, frequentemente, ocorre o surgimento da “sombra da criança morta que torna cativo o ser do sujeito” (Ibidem, p. 82). Isso não se refere efetivamente a um acontecimento numa relação geracional, mas “de uma criança morta cuja sombra recai sobre a infância devastada da mãe, sombra daquilo que ela perdeu ou que permaneceu não simbolizado, não advindo ao campo do desejo” (Idem). Essa “sombra” seria algo que ficou na dimensão do irrealizado do desejo materno. O sujeito em estado passional procuraria obturar tal falta, numa tentativa de realizar um gozo materno.
2.1. Da mãe morta à criança morta:
Embora Gori não faça referência ao estudo de Green sobre a mãe morta e, sim, à psicose branca ou loucura privada, as concepções desses autores permitem inferir algumas aproximações entre as figuras da mãe morta e da criança morta na relação do materno com as loucuras passionais. Antes disso, cabe destacar que Gori sugere a psicose branca como podendo ser um dos caminhos que a paixão pela forma pode assumir, ou seja, um tipo de paixão conformista, “durante a qual o indivíduo se elimina como desejante, isto é, como enlutado” (2004, p. 94). Para ele, isso pode chegar até uma psicose branca ou à loucura privada.
Uma aproximação entre as figuras da mãe morta e da criança morta sugere alguns caminhos acerca de uma abordagem sobre as loucuras passionais. Como é possível de observar, nessas duas figuras converge um elemento mortífero que recai sobre a gênese dos estados passionais.
A partir desses entendimentos e dos estudos da história clínica de Rosa e do conto, O
Homem da Areia, passa-se a examinar uma instância mortífera no campo materno, porém, na direção de um recusado do desejo feminino da mãe. Não se trataria, assim, de um feminino não inscrito no materno, mas, ou como irá ser proposto, de um feminino recusado no campo materno. Na perspectiva desse raciocínio, a citação seguinte de Alonso é precisa. De acordo com a autora, “a falicização do materno, o materno dessexualizado, desfeminalizado, cria um fechamento mortífero que impede o surgimento do feminino também na filha, convertendo seu corpo numa cripta que guarda a mãe” (2011, p. 338).
Também nessa direção de abordagem, Gori (2004) estabelece que, nas paixões amorosas há uma intrínseca relação entre a condição materna, o feminino e a morte. Ele coloca a castração do Outro (materno) no centro dos processos passionais do amor, do ódio e do ciúme e, ainda, concebe as paixões como “uma loucura no feminino” (2004, p. 51). O feminino é aquilo que escapa à evidência. Por isso, o autor usa uma figura: a da “criança morta, natimorta ou abortada que se encontra no centro da lógica passional” (p. 216). Não se trata de um acontecimento, mas de uma verdade subjetiva, de advento na palavra.
Tal como Green, Gori também concebe que uma figura passional como a da criança morta só pode ser apreendida numa relação transferencial. Para este autor, ela vai emergir no momento da análise da lógica passional.
Eles se esclarecem ao serem reportados ao segredo constituído pelo desconhecimento ou pela ignorância das coisas sexuais. Em outras palavras, este lugar e esta função esclarecem-se por serem reportados àquilo que representa para a mulher a criança enquanto significante fálico, enquanto significante depositado sobre uma falta real, mas simbólica. Mas o que representa para a mulher a criança, enquanto significante fálico, corre o risco de nos velar aquilo que para os dois sexos constitui na organização genital a primazia do falo (Ibidem, p. 216)
Para ele, tanto para homens, quanto para mulheres, é ao reconhecimento do feminino do ser que a paixão faz objeção. Uma vez que esse feminino escapa a uma evidência, Gori cria a figura da criança morta como um ponto nodal da gênese das paixões, uma referência do que fica abortado ao representar o feminino. Assim, as paixões emergem como tentativas de “desmentir o que da criança que nunca fomos morreu no campo da
linguagem” (Ibidem, p. 219). Gori lança a pergunta: “Esta criança, natimorta, abortada ou perdida quem, melhor do que as paixões, pode testemunhar sua inconsolável nostalgia?” (Idem). Para ele, as paixões tentam circunscrever a sombra da criança natimorta levada à linguagem, oferecendo-lhe uma carne de fazer nome e sepultura.
Como se oberva, o pensamento de Gori apresenta questões fundamentais ao tema desta pesquisa, assim como a obra da psicanalista brasileira, Regina Zalcberg (2003, 2007). Nesta se pode encontrar outros elementos essenciais para um desenvolvimento que forneça recursos sobre a questão do feminino no materno. Os trabalhos daquela autora, por onde passa necessariamente essa discussão, serão apresentados a seguir.