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3.5. Afganistan Hakkında Genel Bilgiler

3.5.4. Nüfus ve Etnik Gruplar

É o ciclo extático do amor da Trindade Santa que se revela a partir da encarnação de Jesus na vida do mundo e na vida da Igreja. Ontologicamente estamos ligados a Deus pela realidade da existência. Então, a religião será a expressão mais natural da vida humana. Nisto se compreende a necessidade de Deus se revelar; a necessidade da encarnação de Jesus, o nascimento da Igreja e dos sacramentos.

4.1 A Santidade de Deus

Na profissão de fé judaica, no Shemá Israel73, encontramos o princípio

monoteísta que nos permite a compreensão teológica da identidade de Deus: “Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4). O único, é Santo, ama o seu povo, a humanidade, e lhe pede amor e temor para andar em seus caminhos (cf. Dt 10,12), na santidade. Somente quem ouve o Senhor e entra em seu caminho descobre a sua santidade e o seu Ser deificador74.

A santidade de Deus é oferecida e partilhada aos homens, pois Deus quer- lhes fazer participantes de sua natureza, não obstante seu Ser de mistério, pois homem algum o viu face a face e continuou a viver. Deus se oferece ao homem para deificá-lo, tornando, assim, possível a comunhão entre o humano e o Divino75. A aliança do Senhor com o seu povo é uma prova evidente de que a iniciativa amorosa de Deus é oferecida aos humanos em promessa e cumprimento. Relação de fidelidade. O Senhor não se diminui em santidade ao querer estabelecer uma relação responsável com o homem76. Nesta relação de desiguais, Criador-criatura,

73

“O Shema‘ Yisra’el é a confissão de fé mais importante do povo judeu, composta de três bênçãos e de alguns versículos bíblicos. [...] ”. DI SANTE, C. Liturgia Judaica: fontes, estrutura, orações e festas. São Paulo: Paulus, 2004. p. 29-30.

74Cf. ZUBIRI, X. Naturaleza... Op. cit. p. 463.

75 O fundamento da comunhão humana com Deus é a deificação. Somente deificados por Ele

podemos participar de sua santidade. O pensamento que justifica esta realidade é que Deus não faz comunhão a não ser com “deuses”, portanto, com os humanos deificados. (cf. EVDOKIMOV, P.

L’Ortodossia. Op. cit. p. 70).

76

“O homem é responsável por seus atos, e Deus é responsável pela responsabilidade do homem. Ele que deu a vida precisa ser o legislador. Ele divide nossa responsabilidade. Ele espera para registrar nossos atos por nossa lealdade à Sua lei. Deus pode se tornar um parceiro em nossos atos”. HESCHEL, A.J. Deus em busca do homem. São Paulo: Editora Arx, 2006. p. 133.

Divino-humano, o homem é convidado a se elevar à natureza divina, sendo deificado pelo amor divino.

A nossa idéia mesma de Deus já contempla a sua graça, para participarmos dele mesmo. Ou seja, para nós, somente podemos “pensar” Deus numa relação pessoal de intimidade77. Israel é uma nação santa (cf. Ex 19,6), um povo consagrado ao Senhor seu Deus. Desta afirmação: o Senhor é santo, ele nos santifica; surge a Lei da santidade (cf. Lv 17-26). Deus chama o seu povo à santidade: “Sede santos, pois eu sou santo” (Lv 19,1). Uma santidade que vai além dos ritos religiosos litúrgicos. A Santidade pertence somente a Deus. Ela designa o brilho de sua potência, a perfeição de seu Ser78. Só ele tem poder de conceder a sua santidade àqueles que Ele chama para viver em sua presença79. Esta é a proposta da “Aliança” que, sendo da vontade de Deus e da sua santidade, convida o homem a compartilhar com ele o seu ser. Quando o homem estabelece com Deus o encontro amoroso, nasce comunhão entre o divino e o humano: a deificação. A pessoa de fé é aquela, portanto, que acolhe esta dádiva de Deus em sua vida humana. A compreensão primária da realidade deste mistério, o ser de Deus, do qual somos chamados participar, será sempre mistério, segundo a expressão de Zubiri.

Nem sequer a inteligência humana de Cristo, nem na terra nem no céu, é capaz de tê-la. Porque para ter uma visão compreensiva do que é a Trindade, teria que ser o próprio Deus uno e trino. Agora, a inteligência humana de Cristo não é o próprio Deus uno e trino; estava hipostaticamente assumida no Verbo [...]. Porém a inteligência humana de Cristo, por muito mais perfeita que seja que a minha, é tão criada e tão criatura como a minha. Disto não há dúvida nenhuma80.

77 Por exemplo: a expressão: “Eu sou Santo”, diz o Senhor Deus (Lv 11,44s; 19,2; 20,26; 21,8),

exprime a natureza e a propriedade de Deus, enquanto único Santo. Tal afirmação, contudo, é capaz de tocar o homem (cf. Lv 21,8), como o carvão ardente toca Isaías (cf. Is 6,7). Essa propriedade investe todo o domínio ético a partir de suas raízes, a partir de seu fundamento. Garante-lhe sua condição no respeito do singular, do nome próprio que assinala, na rede dos parentescos, o santuário de cada ser (cf. Lv 18). A comunicação-revelação daquele que é o Único, o Santo, pode ser chamada amor: Deus ama Israel (cf. Dt 4,37; 7,8; Os 11,1) e o convida a amá-Lo. O encontro humano com a santidade do Deus bíblico pode vir a ser prova, tremor, medo. Mas não há por que temer. Pois é sempre Ele que se oferece à experiência de amor. Embora continue sendo sempre mistério, Deus anda conosco como andou com Enoco e Noé (cf. Gn 5,24; 6,9), e está em nossa companhia (cf. Gn 6,8).

78

“É no próprio texto de suas Escrituras que o cristianismo encontrou a sugestão de um pensamento

de Deus como ser: ‘Eu sou o ser’ (Ex 3,14). [...] Contemplando em Deus, o ser é imutabilidade e eternidade”. LACOSTE, J-Y. Ser. In Dicionário Crítico de Teologia.Op. cit. p. 1647. Mas é este Ser

que chama, ontologicamente, à existência o que não existia, do nada tudo cria e permanece conosco porque se dá gratuitamente: Ele é Ser de Amor. Cf. ZUBIRI, X. Naturaleza ... Op. cit. p. 463-465.

79 Cf. AUNEAU, J. Santidade: (A. Teologia Bíblica). In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1608. 80 ZUBIRI, X. El Hombre y La Verdad. Op. cit. p. 37.

Por isso, a nossa comunhão com Deus não se dá de qualquer jeito ou sob qualquer condicionamento humano, mas em mistério. É pela doação de si mesmo que ele nos busca para que haja, de fato, realidade de comunhão, ou seja, somos divinizados pela sua graça, mesmo antes da comunhão, que transforma o nosso ser. A prática religiosa que exprime, num ato de diálogo, a comunhão com Deus, nos revela claramente que somos dependentes de meios e canais “sacramentais” que favoreçam esta comunhão. Por isso não há religião sem lugar sagrado, sem palavra, sem rito, sem reunião de pessoas (comunidade), sem símbolos, gestos e tempo marcado (calendário), no qual se dá o momento da celebração da Aliança, que é sempre atualização de uma “Aliança” fundante de comunhão. Temos um exemplo da santidade do “lugar” na teofania da Aliança. Moisés faz a experiência de que o lugar onde o Senhor está é uma terra santa (Ex 3,5; cf. Js 5.15). Libertador de seu povo, o Deus do Êxodo revela-se “esplendoroso em santidade” (Ex 15,11). O povo deve se santificar para ir ao seu encontro na montanha do Sinai (Ex 19,10)81. Será na afirmação da santidade de Deus que o povo bíblico finca raízes para a proclamação da fé, expressada, sobretudo, em oração e culto. Isto porque Deus se revela. Se os textos do Deuteronômio e os de sua influência afirmam mais a santidade de Israel, os textos sacerdotais tendem mais à separação frente ao profano (Ex 19,12s.20-25). “Que se trate da construção do santuário ou da instalação dos sacerdotes, eles enfatizam os graus de participação na santidade de Deus”82.

Também os profetas irão afirmar a Santidade de Deus. Em particular, Isaías na afirmação: “O Deus três vezes santo” (Is 6,3)83, que irá entrar em nossa liturgia cristã. O Deus santo é um Deus transcendente que se deixa aproximar. Os profetas fizeram evoluir a compreensão da santidade num sentido mais moral. Consagrar-se a Deus exige um engajamento fiel e resoluto, consciente das rupturas necessárias84.

81 Cf. AUNEAU, J. Santidade... In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1609.

82 AUNEAU, J. Santidade... In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1609. “O sentido da grandeza

e da santidade de Deus, a segurança de que ele quer fazer seu povo participar de sua santidade faz parte da herança que os cristãos receberam de Israel. Pelo dom de sua vida, Jesus ofereceu a todos, indistintamente, uma participação na santidade de Deus que ultrapassa as divisões e as separações da antiga aliança”. AUNEAU, J. Santidade... In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1609.

83 A santidade de Deus é um tema central da pregação de Isaías, que chama muitas vezes o Senhor

de “o Santo de Israel” (1,4; 5,19.24;10,17.20;41,14.16.20). Esta santidade de Deus exige do homem que ele mesmo seja santificado, quer dizer, separado do profano (Lv 17,1ss), limpo do pecado (Is 6,5- 7), participante da “justiça” de Deus (Is 1,26s; 5,16s). Cf. Nota “j” referente a Isaias 3,6, Bíblia de

Jerusalem.

Mas será no Apocalipse 4,8 que encontramos a expressão litúrgica da santidade de Deus: “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus todo-poderoso, ‘Aquele-que-era, Aquele- que-é e Aquele-que-vem’” (Ap 4,8). Somente participando da natureza de Deus poderemos, deificados, cantar a liturgia do culto eterno.

4.2. A Santidade de Jesus

Por alguns títulos que Jesus recebe e é nomeado no NT, já podemos imaginar o quanto é decisivo para a fé cristã a compreensão da santidade de Jesus, enquanto Filho de Deus. “Ora o Deus cristão é um Deus pessoal, cuja transcendência não proíbe a proximidade e que aparece na história como ‘Emanuel’, ‘Deus conosco’”85. Se a identidade de Jesus é expressa, na maioria dos textos, pela comunidade pós-pascal, como o Messias, o Cristo, “em contrapartida, ‘Filho do Homem’ aparece, com freqüência, em suas falas”86 e não tanto da comunidade. Por isso Jesus se associa várias vezes a este título: “Filho do Homem” (cf. Mc 2,10; Lc 7,34s; 9,58; 12,8s, 17,26-30; Mt 19,28). Ele se apóia neste título para “perdoar pecados” (Mc 2,10), estabelecendo uma relação que se completará no Reino (cf. Lc 12,8s) e, não obstante a sua fragilidade existencial, ele é o Filho do Homem (cf. Lc 9,58).

A relação de Jesus com seu Pai, na expressão “Filho de Deus”, não é tranquila nem de fácil aceitação. A narrativa evangélica nos faz descobrir que Jesus é “Filho de Deus” no rebaixamento e na acolhida de sua finitude: “é a passagem pela morte que é o sinal verdadeiro de sua filiação divina sob o signo da onipotência (cf. Mc 8,27-33; Mt 16,13-23)”87. Contudo, Jesus se refere ao seu Pai (Abba) como

expressão de uma nova compreensão do Ser de Deus: É o divino na relação com o humano88.

85 BEAUCHAMP, P. Deus. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 528.

86“Jesus emprega Filho do Homem em terceira pessoa como se ele fizesse falar um outro que ele

mesmo: ‘O Filho do homem veio não para ser servido, mas para servir’. Esse título (que permite evitar os dois termos ‘Filho de Deus’ e ‘Messias’) não é uma criação das primeiras Igrejas, mas remonta ao próprio Jesus”. CARREZ, M. Filho do Homem. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 736.

87 CUVILLIER, E. Filiação. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 737-738.

88 Para aprofundar o tema da filiação divina de Jesus, como se apresenta em nosso “Símbolo de fé”,

nos ajudam os escritos de Paulo (cf. Gl 4,4; Rm 1,3.3.9; 1Cor 1,18-25), de João (cf. Jo 1,18; 3,16- 18.35s; 5,19-30; 12,16.23.28; 13,31s) e a carta aos Hebreus (cf. Hb 1,2.8; 5,1-8; 7,3; 7,28). Pois a Igreja primitiva foi elaborando uma compreensão progressiva deste título de Jesus, bem como a sua relação com Deus.

A relação de Jesus a Deus faz-se entender na diferença. Jesus tomou lugar entre os judeus que prestam um culto a Deus. Quando o chamam “bom”, lembra que só Deus é bom. Ao morrer, gritou: “Meu Deus, meu Deus” (cf. Jo 20,17b). O Pai, designado como Deus, em resposta (Hb 5,7) ressuscitou Jesus (Atos 3,14s), exaltou-o (Atos 5,31), o fez Senhor e Cristo (Atos 2,36), Chefe e Salvador (Atos 5,31; cf. Rm 1,4 “estabelecido Filho de Deus”)89.

A filiação divina de Jesus se dá numa originalidade ímpar e numa relação que pode fugir às nossas categorias racionais de compreensão. Como vimos acima, no Shemá Israel, a profissão de fé no Deus Único, também aqui, se pode estabelecer o mesmo paralelo e afirmar a unicidade da filiação divina de Jesus. “O caráter da filiação de Jesus é único (monogenès), Deus tem em Jesus ‘seu próprio Filho (Rm 8,32), seu ‘Filho bem-amado’”90. O “Único Filho” na relação mútua que estabelece com o “Único Pai” revela sua santidade. “Eu e o Pai somos um só” (Jo 10,30). “É somente a maneira de ser de Jesus que revela, em plenitude, a condição de Filho de Deus, e assim, a ‘condição divina’ (Fl 2,6)”91.

Em antecipação já nos perguntamos: haverá fundamento mais sólido para a experiência da graça sacramental que esta relação mútua entre Jesus e o Pai92, em vista da nossa deificação? Sem dúvida alguma, Jesus foi revelando-se como Filho de Deus para os seus seguidores mediante as suas atitudes existenciais. “Sua vida foi uma existência para seu Pai e seus irmãos, ‘pro-existência’ [...]; o mesmo será com sua morte à qual ele mesmo dá o sentido, instituindo a ceia eucarística”93.

Frente à realidade de Jesus, sua santidade filial e relacional com o Pai, o mistério da Encarnação foi cada vez mais se revelando e adquirindo sentido de fé para a vida da comunidade cristã94. Inicia-se o tempo histórico da revelação do

89 BEAUCHAMP, P. Deus. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 527.

“O Pai de Jesus é portador em si mesmo de um mistério de doação e de alteridade, em que se enraíza outro tipo de alteridade, a criação na qual a teologia reconhece muito cedo um novo sinal de transcendência”. BEAUCHAMP, P. Deus. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 528.

90 BEAUCHAMP, P. Deus. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 528.

91 BEAUCHAMP, P. Deus. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 527. Cf. SESBOÜÉ, B.

Cristo/Cristologia. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 481.

92 A teologia encontra no mistério sacramental, revelado em Cristo, a sua raiz. Ela fala “acerca” de

Deus como Ele se nos dá em Cristo. Ela fala a “partir” de Deus que se nos dá em Jesus Cristo: realidade sacramental - mistério revelado é deificante. Neste mistério que transforma radicalmente a nossa existência inteira, nosso ser inteiro que opera a nossa deificação e união sacramental com Cristo: pelo Batismo e pela Eucaristia. (Cf. ZUBIRI, X. Naturaleza,... Op. cit. p. 461).

93 SESBOÜÉ, B. Cristo/Cristologia. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 481. 94

“Aquele que se dizia ‘o Filho’ em um sentido absoluto, e que se comportou filialmente até à morte, a comunidade cristã o confessa como “Filho de Deus”. SESBOÜÉ, B. Cristo/Cristologia. In Dicionário

mistério de Deus no mistério de Cristo. Celebrar este mistério a partir do ponto focal da Páscoa será a missão da Igreja de todos os tempos e lugares. Aonde chegar o anúncio da Santidade de Jesus Salvador, o Cristo, Filho do Homem, Filho de Deus, aí se celebra a Páscoa de Cristo.

A oração de Jesus se dirige ao “Pai santo” (Jo 17,11), e ele pede a seus discípulos que rezem para que o nome do Pai seja santificado (Mt 6,9; Lc 11,2). Ele é aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo (Jo 10,36); ele é o “santo de Deus” (Mc 1,24), o “santo servo” de Deus (Atos 4,27). O Espírito Santo está em ação desde a concepção de Jesus (Lc 1,35). Investido pelo Espírito Santo em seu batismo (Lc 3,22), ele caminha na plenitude do Espírito (Lc 4,1)95.

A Santidade de Jesus se mostra ainda em sua atitude orante. Ele se consagra à oração e nos deixa a oração como meio de santificação. Entre as fórmulas de oração, a ação litúrgica sacramental irá ocupar, para nós, sem dúvida, o lugar central. Ela já está presente no NT e depois na vida da Igreja.

4.3. A Santidade do Espírito

Para falar da santidade do Espírito (designado ‘rouah’ no AT) só é possível na relação com o Pai e com o Filho, ou na relação com a criação e, em particular, com o homem. Por isso é comum falarmos do Espírito referindo ao Espírito do Senhor, Espírito de Deus. O caráter imaterial do Espírito é tomado para significar a circulação, a comunicação da intimidade. O Espírito é difundido (cf. Is 32,15; 44,3), Ele enche, faz viver (cf. Ez 37). Ele é Santo, ele santifica. Aproxima-se da Sabedoria quando se torna uma presença permanente ligada a um eleito, ou um povo (cf. Is 11,1s; Pr 1,23; Sl 51,8.13; Sb 1,6; 7,7.22ss; 9,17)96. Mas, contudo, será o Espírito Santo que revela aos homens o sentido da criação, das promessas, da aliança, até a consumação escatológica do mundo. “O Espírito Santo tem como uma de suas

95 AUNEAU, J. Santidade. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1609. “O NT conhece um único

salvador histórico, Jesus de Nazaré, não tanto por causa da significação literal de seu nome (Yehoshoua ou Yeshoua, ‘o Senhor salva’), mas porque todo o processo de salvação está ligado a ele como seu protagonista indiscutível: ‘Não há nenhuma salvação a não ser nele, [...] nenhum outro nome [...] que seja necessário à nossa salvação (Atos 4,12). O título que pertence tão fundamentalmente a Deus (cf. Lc 1,47: ‘Deus, meu salvador’) é agora atribuído de maneira predominante a Jesus (16 x; cf. 1Jo 4,14: ‘O Pai envia seu Filho como o salvador do mundo’)”. PENNA, R. Salvação: (A. Teologia Bíblica). In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 1594.

funções próprias executar a criação [...]. E uma de suas obras é a deificação do homem”97. Se Ele deifica é porque é Deus.

O substantivo grego pneuma, usado no NT para designar Espírito Santo, entre vários significados que se possam atribuir, o sentido teológico é dominante: é o Espírito transcendente de Deus e de Cristo. O Espírito é Santo ou de Santidade, sempre em relação a Deus Pai ou ao Filho Jesus. Esta inter-relação se expressa na vida da comunidade cristã, lugar privilegiado à sua manifestação98. “O Espírito age enfim de maneira central no cumprimento da existência cristã”99.

Em Lucas, a pregação inaugural em Nazaré (cf. Lc 4) liga o dom do Espírito e a proclamação do Evangelho à pessoa de Jesus (cf. Lc 8). Mas só quando Jesus for exaltado o irá transmitir aos crentes seguidores (cf. Lc 24,49; Atos 1,8; 2,33) e à Igreja (cf. Atos 2) na fundação da primeira comunidade cristã o Espírito Santo. “Tornando-se parte constituinte do terceiro período da história da salvação, o Espírito já não é, propriamente falando, uma grandeza escatológica, mas um elemento do tempo penúltimo”100. Sem a presença ativa do Espírito a Igreja não pode celebrar liturgicamente os mistérios de Deus revelados em Cristo.

A abertura humana ao dom da fé só acontece por iniciativa de Deus: obra do Espírito Santo101. É Ele que move o coração humano para acolher o Batismo (cf. Jo 3,6) após a conversão. O Espírito Santo é derramado sobre a Igreja (cf. Rm 5,5). Por Ele, a Igreja realiza dons extraordinários. O Espírito impulsiona a Igreja ao anúncio querigmático. “O Espírito determina o caminho da Igreja e a guia. Garante assim a continuidade da última fase da história da salvação”102. Na linguagem de João é o Espírito Paráclito, Espírito de verdade, que irá conduzir a realidade histórica à parusia e à glória definitiva.

Aqueles que o Espírito anima são filhos de Deus (Rm 8,14). A hora de Jesus introduz os irmãos na filiação que é a sua. A especificidade do dom do Espírito, proposto aos homens, significa e faz que os “irmãos” são ao mesmo tempo “filhos” [...] além de herdeiros, e continuadores

97 ZUBIRI, X. Naturaleza... Op. cit. 490.

98 Cf. ZUMSTEIN, J. e DETTWILER, A. Espírito santo. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p.

651.

99 ZUMSTEIN, J. e DETTWILER, A. Espírito santo. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 651. 100 ZUMSTEIN, J. e DETTWILER, A. Espírito santo. In Dicionário Crítico de Teologia. Op. cit. p. 652. 101

“A obra redentora de Cristo é uma condição indispensável para a obra deificadora do Espírito Santo [...]. A obra redentora do Filho se refere à nossa natureza; a obra deificadora do Espírito Santo se endereça às nossas pessoas”. LOSSKY, V. A Immagine e Somiglianza di Dio. Op. cit. 1999. p. 149.

de Jesus ao longo da história, e mais que discípulos (Jo 6,45; 16,12s): respiram da mesma vida-verdade que ele tinha recebido; é pela liberdade que participam da condição de filho desse Jesus a quem chamam “Mestre e Senhor” (Jo 13,13). Essa dimensão, ainda inacabada da condição filial dá, ou dará, toda a sua dimensão à obra divina103.

Fora desta comunhão trinitária, obra do Espírito Santo, é impensável, teologicamente, o mistério da Igreja enquanto comunidade dos deificados em Cristo. 4.4. A Santidade da Igreja

Por viver no cotidiano da Igreja, o cristão pode “falar” sobre Deus e de sua possível experiência de fé. Só posteriormente tem-se a reflexão teológica como discurso sobre Deus fundamentado no querigma pascal, litúrgico, doxológico. A partir disso, então, devemos buscar o ponto constitutivo da Igreja, enquanto manifestação de Deus, pelo Espírito, na pessoa de Jesus Cristo. O teólogo só pode ser pessoa de fé. Para usar uma expressão dos Padres São Gregório de Nissa e Evágrio, citados por Paul Evdokimov: “Teólogo é aquele que sabe rezar”104. Neste sentido o teólogo deve ser praticante de uma religião e não mero especulador