Como já foi bem explicado, a ratio decidendi de uma decisão é o fundamento que está por traz dela, aquilo que é usado para fazer com que um juiz ou um Tribunal decida determinada questão.144 Neste sentido, após a leitura minuciosa sobre os votos de cada um dos
Ministros da Suprema Corte do Brasil, é possível entender quais foram os fundamentos usados por cada um deles para que gerasse a improcedência da ADPF nº 186/DF nesta decisão de 2012.
A primeira pergunta a ser respondida é a seguinte: houve uma única Ratio Decidendi por detrás dos votos dos Ministros? A questão a ser vista é que mesmo que tenha sido identificado uma votação final unânime, em que nove dos onze Ministros votaram de forma favorável ao sistema de cotas, isso não significa que haja uma única ratio decidendi.145 É
142 STF, 2012a, p. 230-231. 143 Ibidem, p. 231.
144 SHAUER, op. cit.
possível entender que todos os Ministros identificaram o mesmo problema, isto é, a necessidade de cotas raciais para ingresso em Universidades é importante para ajudar na diminuição das desigualdades históricas entre negros e brancos. Porém, não há uma Ratio
decidendi única neste Tribunal, veja o trecho abaixo de um artigo feito em que houve a
mesma conclusão:
[...] o reconhecimento de um mesmo problema não significa que todos seguirão a mesma linha de raciocínio e fundamentação das decisões individuais. Apesar de tratar-se de uma decisão final unânime, decretando a inconstitucionalidade do decreto, não se pode dizer que se trate de uma ratio decidendi única.146
A afirmação feita acima pode ser comprovada pelo fato de que a maioria dos Ministros encontraram o mesmo problema desenvolvido no voto do Relator Ricardo Lewandowski. Os exemplos são os de Rosa Weber “subscrevo todos os fundamentos esposados com brilhantismo no voto do eminente Relator”147; Cármen Lúcia “início também, como os
demais, elogiando o brilhante voto do Ministro Ricardo Lewandowski”148; Joaquim Barbosa
“não tenho nada mais a acrescentar ao exaustivo e excelente voto do Ministro Lewandowski”149; Cezar Peluso “o voto do eminente Ministro Relator foi, deveras, exaustivo.
A rigor, seria, pois, desnecessário acrescer-lhe qualquer consideração”150; Marco Aurélio “Em
síntese, acompanho o pronunciamento de Sua Excelência”151e Ayres Brito “Eu acompanho o
magnífico voto, lapidar voto, modelar, do Ministro Ricardo Lewandowski”152.
Assim sendo, a grande maioria dos votos trouxe como base ideia já discutida neste trabalho acerca da igualdade material. Segundo eles, os negros são minorias que ao longo da história do Brasil permaneceram a margem da sociedade. Dessa maneira, para os Ministros do STF a política de cotas se consubstanciaria na ideia de igualdade substancial, uma vez que, levar-se-ia em consideração o direito a diferença. Assim, tratar-se-ia os “desiguais de forma de desigual” na medida que eles se afastam da lei, isto é, a mera ideia antiga de igualdade formal não resolveria o problema da segregação social aplicada aos afrodescendentes do Brasil.
146 VOJVODIC, loc. cit. 147 STF, 2012a, p. 130. 148 Ibidem, p. 131. 149 Ibidem, p. 154. 150 Ibidem, p. 155. 151 Ibidem, p. 219. 152 Ibidem, p. 220.
Outros argumentos trazidos na maioria dos votos dos magistrados, foi o fato de que a cor negra, isto é, o fenótipo (e não biológico) atribuído aos afrodescendentes seria o fator que traria um preconceito arraigado na cultura brasileira ao longo de toda a história. E por isso, as Universidades teriam total autonomia dada pela Constituição, no art. 207, para instituir um sistema de cotas baseado unicamente no critério cor. Conforme foi entendido por alguns dos Ministros do Supremo que participaram da ADPF 186, os negros desde a origem da biografia brasileira estariam abaixo da sociedade branca e por isso, seria necessária uma atitude positiva do Estado para que este quadro fosse modificado.
Dito isso, para Ricardo Lewandowski e Rosa Weber, suas rationes defendiam que as cotas só poderiam ser constitucionais, enquanto fossem provisórias, isto é, utilizadas por um tempo limitado na medida em que fossem desaparecendo estas desigualdades raciais no Brasil.
Por fim, é de suma importância ressaltar que houve entre os votos analisados, a maioria teve grande diferença de rationes, inclusive, o Ministro Gilmar Mendes que possuiu uma linha argumentativa completamente diversa da trazida pelos demais. Esse magistrado foi Gilmar Mendes, que por meio de um voto bastante extenso deixou claro que, consoante ao seu entendimento, as cotas que se baseiam num critério apenas racial, não são as melhores opções. Para ele, tal critério seria melhor de viesse e conjunto um critério de “pobreza”. Porém, as cotas raciais implementadas como um método de experimentalismo poderiam ser de grande valia para o país, e por isso, também votou pela inconstitucionalidade da ADPF. Diante de todo o exposto, é possível afirmar que não houve uma única ratio no STF no julgamento da ADPF nº 186/DF.
3 LEI Nº 12.990/2014: A NOVA LEI DE COTAS É COMPATÍVEL COM A DECISÃO DA ADPF Nº 186/DF DO STF?
Brancos monopolizam inteiramente o aparelho do Estado e nem sequer se dão conta da anomalia que isso representa à luz dos princípios da Democracia. Por diversos mecanismos institucionais raramente abordados com a devida seriedade e honestidade, a educação de boa qualidade é reservada às pessoas portadoras de certas características identificadoras de (suposta ou real) ascendência europeia, materializando uma tendência social perversa, tendente a agravar ainda mais o tenebroso quadro de desigualdade social pelo qual o país é universalmente conhecido. No domínio do acesso ao emprego impera não somente a discriminação desabrida, mas também uma outra de suas facetas mais ignominiosas – a hierarquização –, que faz com que as ocupações de prestígio, poder e fama sejam vistas como apanágio os brancos, reservando-se aos negros e mestiços aquelas atividades suscetíveis de realçar-lhes a condição de inferioridade.153
O trecho acima foi retirado de um livro acerca das políticas afirmativas do ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Tal premissa explicitada pelo magistrado pode ser confirmada através de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que os negros ainda são o grupo com maior índice de desemprego; com o menor nível de escolaridade e com maiores níveis de subempregos quando comparados com a população branca.154 Ademais, em uma pesquisa feita em janeiro deste ano, demonstra-se que
os negros ainda recebem apenas 59% das dos salários recebidos pelos brancos.155
Desta feita, de acordo com Douglas Belchior, membro da Coordenação Geral da União de Núcleos de Educação Popular para Negras(os) e Classe Trabalhadora (Uneafro Brasil), “O jovem negro tem, hoje, oportunidades que seus pais não tiveram, mas isso não significa que elas sejam iguais”.156 Neste sentido, resta claro que cabe ao Estado atuar
ativamente por meio de políticas públicas para erradicar este problema de desigualdade racial que acompanha o país desde a era da escravidão e persiste até os dias atuais.157 Dessa
maneira, este capítulo será feito para que haja uma análise minuciosa da Lei nº 12.990/2014,
153 GOMES, op. cit., p. 12.
154 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IBGE. Indicadores de cor ou raça, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego, março de 2009. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme_nova/marco2009.pdf>. Acesso em: 01 mai. 2016.
155 DIFERENÇA..., op. cit.
156 CHARÃO, Cristina. O longo combate às desigualdades raciais. IPEA, 2012. Disponível em:
<http://www.ipea.gov.br/igualdaderacial/index.php?option=com_content&view=article&id=711>. Acesso em: 01 mai. 2016.
157 HERINGER, Rosana. Desigualdades raciais no Brasil: síntese de indicadores e desafios no campo das
afim de que seja possível saber se a Ratio Decidendi da maioria dos votos dos Ministros na ADPF nº 186/DF seria capaz de resolver também a necessidade de cotas raciais em concursos públicos no Brasil.
3.1 ANÁLISE DA LEI Nº 12.990/2014
Reserva aos negros 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União.158
A Lei nº 12.990, é uma lei federal composta por seis artigos, que foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff, em 9 de junho de 2014. No art. 1º da referida lei, consta descrito que se reserva 20% do total de vagas de cargos e empregos de concursos públicos para negros no âmbito da administração pública federal (direta e indireta). Tal porcentagem não se aplica a todo e qualquer concurso de nível federal, mas tão somente aqueles que oferecerem a partir de 3 vagas. Além disso, caso haja um número vagas fracionado, este será elevado para o número imediatamente superior, ou para o imediatamente inferior, caso a fração seja maior ou menor de 0,5, respectivamente.159
O art. 2º dita para quais pessoas a lei é dirigida, considerando como cotistas as pessoas que se declararem negros e pardos160. Atente que o critério aqui utilizado é o da
autodeclaração apenas, isto é, a pessoa deve se considerar negra ou parda. Dessa maneira, cada candidato negro ou pardo que se interesse pela vaga deverá se declarar no momento da inscrição, conforme os requisitos admitidos pelo IBGE. É importante destacar também que, caso seja descoberto que um desses candidatos tenha burlado este sistema, haverá um
158 BRASIL, 2014. Nota: Ementa da Lei nº 12.990/2014.
159“Art. 1º. Ficam reservadas aos negros 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos para
provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União, na forma desta Lei. § 1º A reserva de vagas será aplicada sempre que o número de vagas oferecidas no concurso público for igual ou superior a 3 (três). § 2º Na hipótese de quantitativo fracionado para o número de vagas reservadas a candidatos negros, esse será aumentado para o primeiro número inteiro subsequente, em caso de fração igual ou maior que 0,5 (cinco décimos), ou diminuído para número inteiro imediatamente inferior, em caso de fração menor que 0,5 (cinco décimos). § 3º A reserva de vagas a candidatos negros constará expressamente dos editais dos concursos públicos, que deverão especificar o total de vagas correspondentes à reserva para cada cargo ou emprego público oferecido”. (BRASIL, 2014, online).
160 “Art. 2º. Poderão concorrer às vagas reservadas a candidatos negros aqueles que se autodeclararem pretos ou
pardos no ato da inscrição no concurso público, conforme o quesito cor ou raça utilizado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. (BRASIL, 2014, online).