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Diferindo do conceito geopolítico, que associa “território” à base física de um Estado, sobre a qual ele exerce soberania, na Psicologia Ambiental a definição de território tem origem na Etologia, e se relaciona ao sentimento de posse de uma pessoa ou grupo em relação a um local (condição que pode ser respaldada legalmente, ou não). De acordo com Carr et al. (1992), o comportamento territorial está diretamente ligado ao uso do espaço, assumindo funções sociais (como símbolo de status e elemento da identidade) e físicas (lugar de atividades) voltadas para o atendimento das necessidades psicológicas básicas, bem como das necessidades cognitivas e estéticas.

A territorialidade atua como um importante organizador do comportamento e da vida no nível do indivíduo, das relações interpessoais e da comunidade; suas funções só são bem compreendidas se forem considerados parâmetros como tempo de ocupação do local, sentimento relativo a ele, propriedade e exclusividade de seu uso (conforme as regras da cultura em questão) (Pinheiro & Elali, 2011, p. 151).

Sob essa perspectiva, a organização do espaço físico implica a delimitação de uma área que pode ser geograficamente localizada, demarcada e personalizada. Isso

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permite a distinção de uma entidade social no espaço de outra e evoca a possibilidade de defesa contra estranhos, reforçando o sentido de controle e responsabilidade sobre o lugar (Bonnes & Secchiaroli, 1995).

A territorialidade faz parte do sistema com o qual o indivíduo ou grupo regula sua privacidade; por seu intermédio, pode-se definir os níveis de privacidade desejado a partir das relações com a presença de outras pessoas em um área delimitada. Permite, também, o estabelecimento de regras de funcionamento social (explícitas ou informais), o sentimento de posse, de exclusividade, de pertencimento e de segurança, além de estar associado à definição da identidade pessoal, ao reconhecimento do status, ao sentido de lugar e à estabilidade social (Altman & Chemers, 1989).

Os limites e fronteiras do território de cada pessoa ou grupo são definidos pela utilização de elementos físicos ou simbólicos (objetos, sinais ou símbolos reconhecidos socialmente naquele contexto). Segundo Bonnes e Secchiaroli (1995), é possível identificar a demarcação dos territórios a partir de três elementos: marcas (símbolos físicos), atitudes (preferências e satisfação) e comportamentos que se inter-relacionam e se apoiam em uma área territorial específica. Portanto, fatores culturais, sociais, individuais e físicos influenciam o comportamento territorial, os quais modelam o significado ou a imagem de um lugar a partir das definições e sentimentos dos indivíduos e do grupo em relação ao espaço.

A delimitação e uso de um território cria a necessidade de personalização e defesa do espaço contra possíveis invasões, já que, ao invés de ser dedicada ao usufruto coletivo, a área é considerada exclusiva de alguém, condição que deve ser reconhecida e respeitada. Esse uso privativo, no entanto, não pode ser confundido com maior ou menor necessidade de privacidade, embora, em algumas situações estes dois entendimentos possam se aproximar. Para diferenciar os conceitos de privacidade e

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territorialidade é essencial entender que enquanto a privacidade é menos dependente do lugar, pois está focada especificamente nos limites (físicos e sociais) da relação entre o eu e o outro, na territorialidade a importância do ambiente físico é inquestionável, já que o foco do conceito está no controle (físico ou simbólico) do espaço.

Nos diferentes espaços públicos existentes em uma cidade há inúmeros recortes territoriais, de modo que em um mesmo local pode haver várias divisões e muitas atividades tendem a coexistir ou até se sobrepor. Uma praça, por exemplo, comporta o território do grupo de futebol, dos donos de cães, dos cães, dos idosos, dos pais com crianças, das crianças com bicicletas, etc. Nessa mesma praça, uma quadra de esportes pode, dependendo do dia e do horário, tornar-se sucessivamente, território do time de basquete, das praticantes de ginástica feminina, dos meninos do futebol de salão, do clube de idosos, dos trocadores de figurinhas, da capoeira, da feirinha de antiguidades, entre outros. Por sua vez, a demonstração de controle de um território por parte de um grupo ou por um indivíduo no uso do espaço público restringe a liberdade dos demais, podendo surgir conflitos entre os direitos territoriais daquela comunidade, e os direitos de todos ao usufruto do espaço (Carr et al., 1992).

Refletindo-se nas condições de convívio social no espaço físico, o comportamento territorial pode suscitar consequências positivas e negativas, tendo como elementos que o expressam: 1) a forma de organização socioespacial de grupos e indivíduos; 2) o tipo de caracterização da individualidade e da identidade de um grupo; 3) a existência (ou ausência) de conflitos dentro comunidade ou com elementos externos a ela; 4) a moderação do estresse; 5) o impedimento ou facilitação de processos sociais como o planejamento, antecipação dos comportamentos dos outros, engajamento em atividades; 6) o favorecimento (ou a resistência) para realização de funções e satisfação

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necessidades da vida diária que exigem o uso de um espaço seguro e adequado (Altman & Chemers, 1989; Bonnes & Secchiaroli, 1995).

Considerando a centralidade psicológica que um território pode apresentar na vida do usuário e a duração da ocupação deste espaço Bonnes e Secchiaroli (1995) classificam os territórios em três tipos: primários, secundários e públicos.

Territórios primários: estão associados à identidade do indivíduo, exercem importância central no cotidiano e ocupam grande parte de seu tempo. Exemplificam essa categoria os ambientes da casa, a personalização dos espaços domésticos e o modo como estes refletem características pessoais dos moradores.

Territórios secundários: situam-se nas imediações de um território primário, são menos exclusivos e funcionam como uma transição entre o domínio público e privado. Representam esta categoria a calçada frontal a uma determinada casa, com relação aos moradores da mesma, o espaço de uma praça de bairro para população próxima, e locais semipúblicos de uma vizinhança, como a quitanda ou a padaria. Estes espaços estão mais sujeitos a desentendimentos e conflitos, uma vez que subentendem formas de apropriação do lugar, que podem ser mais ou menos pacíficas por partes de grupos que o frequentam rotineiramente. Uma forma de diminuir as possibilidades de disputas pelo território é a demarcação nítida com o uso de elementos físicos, mensagens ambientais ou por normas (ou acordos tácitos) de acesso e funcionamento.

Territórios públicos: espaços de uso temporário aos quais grandes quantidades de pessoas tem livre acesso, como de uma praça pública localizada em área central da cidade, a biblioteca pública, a mesa de um restaurante, bancos de ônibus, entre outros. Em áreas públicas, um dos modos de garantir o reconhecimento de um território é o uso de marcadores territoriais; é o que acontece, por exemplo, quando uma pessoa deixa o

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casaco na cadeira do cinema enquanto vai comprar pipoca, ou deixa seu caderno aberto sobre a mesa da biblioteca enquanto se ausenta para procurar um livro na estante.

O território secundário é de especial interesse para os objetivos desse estudo, pois nesse âmbito se estabelecem as relações entre o nível do indivíduo e da sociedade, entre a residência e a vizinhança. Esta compreensão corrobora o entendimento de Rofé (1995) ao afirmar que o mecanismo territorial no nível da vizinhança é intermediário e possibilita a integração urbana, fazendo a ponte entre as dimensões pessoal e pública, permitindo a integração dos moradores locais à cidade como um todo à medida que identidade local se desenvolve. Nesse sentido, o comportamento territorial influencia a ocorrência das interações sociais e atua na construção da identidade do grupo, sendo portanto, a base para o estabelecimento da inter-relação de diferentes grupos que ocupam um ambiente residencial em comum (Altman & Chemers, 1989).

Benzer Belgeler