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OLGU 10: MY, 55 yaşında erkek hasta, ypT2N0, Adenokarsinom İlk evreleme uT3N0, mT3N0,
OBJETIVOS, HIPÓTESES E METODOLOGIA
3.1 Objetivos
Este estudo tem como objetivo geral uma melhor compreensão dos sistemas de
demonstrativos em línguas românicas, mais especificamente, da posposição de
demonstrativos em português e em espanhol, uma vez que não estão ainda bem
explicados, na literatura acadêmica atual, todos os fatores que favorecem a utilização
desse tipo de construção, nem quais são os possíveis matizes semânticos expressados
por ela. Além de serem relativamente raras as suas ocorrências, a posposição dos
demonstrativos manifesta-se de maneira diversa, tanto sintática quanto semanticamente
nas duas línguas.
São objetivos específicos do presente estudo:
a) coletar ocorrências de posposição de demonstrativos em português e em
espanhol em textos dos sécs. XIII/XIV ao XX, através da utilização de corpora
eletrônicos;
b) classificar esses dados recolhidos segundo critérios morfológicos, sintáticos,
semânticos e pragmáticos previamente estabelecidos, baseados, sempre que
necessário, em metodologias e conceitos de pesquisas anteriores;
c) realizar uma comparação entre os dados obtidos sincrônica e diacronicamente
em cada uma das línguas, incluindo o âmbito de suas variantes internas como
português brasileiro x português europeu e espanhol latino-americano x
espanhol europeu, estabelecendo os padrões de uso específico das construções
com demonstrativos pospostos;
d) apresentar um estudo comparativo entre essas duas línguas românicas em
questão, de modo a testar se os fenômenos se desenvolvem de maneira
semelhante ou díspar;
e) testar as hipóteses aventadas sobre os usos das construções em análise.
3.2. Hipóteses de trabalho
As hipóteses apresentadas na seção 2.4 (p. 36-37) são aqui rearticuladas e
remodeladas na forma de hipóteses de trabalho: são elas que guiarão o tipo de análise a
ser feito na presente pesquisa. São elas:
(a) Hipótese 1: A PAD e a PND são construções derivadas de um processo
de gramaticalização. O exame do contexto de surgimento dessas construções e de seu
comportamento linguístico ao longo dos séculos permitirá avaliar o processo de
modificação desse comportamento, processo em que uma estrutura tenderá a apresentar,
p. ex., perda de liberdade sintática. Especificamente para a PND existe a hipótese de
que sua gênese no português tenha acontecido em função de reanálise de orações
exclamativas, como aventa Cambraia (2009, p. 24), sugerindo que
a estrutura com demonstrativo posposto derive de reanálise de estruturas em que predicativo (substantivo) e sujeito (demonstrativo) aparecem em contato e nessa ordem (como em exclamações), as quais acabam por ser interpretadas como um só sintagma nominal – partindo de exemplo com a frase Que
homem este! extraída d’Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871) de Júlio Dinis
(1839-1871), pode-se propor o seguinte trajeto de reanálise: [[Que
homem][este]] > [Que [homem este]] > [Homem este].
(b) Hipótese 2: A gênese da PAD e da PND decorre da necessidade de
exprimir funções comunicativas específicas para as quais não haveria reservada na
língua uma estrutura específica. Para confirmar tal hipótese, é necessário examinar e
identificar quais são essas funções comunicativas e verificar se haveria algum outro
recurso desempenhando-a. Como no presente estudo se trabalha apenas com as
construções com posposição, não será possível testar plenamente esta hipótese, mas o
exame das funções comunicativas das construções com posposição poderá oferecer
dados para, em pesquisas futuras, a hipótese ser efetivamente testada.
(c) Hipótese 3: A PAD no espanhol deve expressar função comunicativa
diferente da PND nessa mesma língua, mais especificamente, a PAD é empregada
quando há grande distância referencial e a PND quando há há pequena distância
referencial.
3.3 Metodologia
Fillmore (1992, p. 35) apresenta, com bom-humor, os dois “tipos” de linguista
existentes, classificados de acordo com a maneira com que eles selecionam os seus
dados para a realização das análises dos fenômenos linguísticos: o “linguista de
poltrona” e o “linguista de corpus”:
A linguística de poltrona não tem uma boa reputação em alguns círculos linguísticos. Uma caricatura do linguista de poltrona é algo assim: ele senta-se em uma cadeira macia e profunda, com os olhos fechados e as mãos cruzadas atrás da cabeça. De vez em quando ele abre os olhos, e de repente começa a gritar: “Uau, que fato interessante!”. Pega o lápis, e escreve alguma coisa. Então ele passa em torno de algumas horas excitado por ter chegado ainda mais perto de saber como é a língua. (Não há ninguém exatamente assim, mas existem algumas aproximações). A linguística de corpus não tem uma boa reputação em alguns círculos linguísticos. Uma caricatura do linguista corpus é algo assim: ele tem todos os fatos principais que ele precisa, na forma de um
corpus de aproximadamente um zilhão de palavras correntes, e ele vê seu
trabalho como o de derivar fatos secundários a partir de seus fatos principais. No momento ele está ocupado determinando as frequências relativas das onze partes do discurso como a primeira palavra contra a segunda de uma sentença. (Não há ninguém exatamente assim, mas existem algumas aproximações). Estes dois não falam muito um com o outro, mas quando o fazem, o linguista de corpus diz ao linguista de poltrona: "Por que eu deveria pensar que o que você me diz é verdade?" E o linguista de poltrona diz ao linguista de corpus: "Por que eu deveria pensar que o que você me diz é interessante?"24
A proposta fundamental do funcionalismo, apresentada por Givón (2001, p. 18),
considera que é de extrema importância para um estudo linguístico a análise do contexto
(sintático e semântico-pragmático) e das pressões de uso em que cada uma das referidas
variantes aparece, uma vez que “os vários tipos de oração – variantes estruturais –
encontrados na gramática de uma língua, (...) seriam formas diferenciadas de
codificação gramatical dos conteúdos semântico-proposicionais em diferentes domínios
24
No original: " Armchair linguistics does not have a good name in some linguistics circles. A caricature of the armchair linguist is something like this. He sits in a deep soft comfortable chair, with his eyes closed and his hands clasped behind his head. Once in a while he opens his eyes, sits up abruptly shouting, ‘Wow, what a neat fact!’, grabs his pencil, and writes something down. Then he paces around for a few hours in the excitement of having come still closer to knowing what language is really like. (There isn’t anybody exactly like this, but there are some approximations). Corpus linguistics does not have a good name in some linguistics circles. A caricature of the corpus linguist is something like this. He has all of the primary facts that he needs, in the form of a corpus of approximately one zillion running words, and he sees his job as that of deriving secondary facts from his primary facts. At the moment he is busy determining the relative frequencies of the eleven parts of speech as the first word of a sentence versus as the second word of a sentence. (There isn’t anybody exactly like this, but there are some approximations). These two don’t speak to each other very often, but when they do, the corpus linguist says to the armchair linguist: ‘Why should I think that what you tell me is true?’ And the armchair linguist says to the corpus linguist: ‘Why should I think that what you tell me is interesting?’"
funcionais discursivo-pragmáticos”
25. Assim, para se realizar uma análise funcional,
deve-se pensar como o linguista de corpus,
que tenta entender a linguagem, e por trás da língua a mente, observando cuidadosamente extensas amostras naturais da mesma e, em seguida, com
insight e imaginação, construindo entendimentos plausíveis que abrangem e
explicam essas observações. Qualquer pessoa que não seja um linguista de
corpus neste sentido está, na minha opinião, perdendo muito do que é relevante
para o empreendimento linguístico. (CHAFE 1992, p. 96)26
Dessa forma, é imprescindível a utilização de dados extraídos de situações reais
de uso da língua, e não introspectivos, a fim de se obter todas as informações
necessárias sobre os possíveis fatores que impulsionam a ocorrência de uma dada
estrutura e também de que se possa apreender muitos aspectos que poderiam passar
despercebidos à intuição do linguista, mesmo sendo ele falante nativo da língua em
estudo. O método mais adequado para o estudo da posição dos demonstrativos é, por
conseguinte, através de um corpus que contenha ocorrências dos demonstrativos
pospostos e antepostos em produções reais, permitindo assim a busca de padrões
(regularidades) nessas ocorrências, não se baseando apenas em fatores formais (como
aspectos morfológicos e sintáticos), mas também em funcionais (como aspectos
discursivo-pragmáticos).
Portanto, decidiu-se realizar, neste trabalho, um estudo tanto sincrônico como
diacrônico, baseado em corpora de língua portuguesa e espanhola, utilizando o Corpus
do Português
27e o Corpus del Espanhol
28, ambos organizados por Mark Davies, da
Universidade de Brigham Young, nos Estados Unidos. A escolha desses corpora se deu
pela sua amplitude com relação ao número de palavras e com relação à faixa de tempo
que cobrem, uma vez que abrangem, respectivamente em português e espanhol, em
torno de 45 milhões e 100 milhões de palavras em textos dos sécs. XIV ao XX, no caso
do português e do XIII ao XX, no caso do espanhol, além de possuírem também, para o
último século que possuem, registros de textos orais.
25No original: “The various clause-types – structural variants – found in the grammar of a language, (...)
are nothing but differential grammatical packaging of propositional-semantic contents in different discourse-pragmatic functional domains.”
26 No original: “linguist who tries to understand language, and behind language the mind, by carefully
observing extensive natural samples of it and then, with insight and imagination, constructing plausible understandings that encompass and explain those observations. Anyone who is not a corpus linguist in this sense is, in my opinion, missing much that is relevant to the linguistic enterprise.”
27
Disponível no endereço eletrônico: http://www.corpusdoportugues.org.
28