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Para se compreender mais profundamente os princípios que regem as variações

tipológicas na gramática, Givón (2001, p. 23) salienta que é insuficiente o

desenvolvimento de uma análise meramente sincrônica dos fenômenos linguísticos,

uma vez que é também de fundamental importância o acompanhamento do processo

diacrônico de gramaticalização envolvido no surgimento dessas variações. Sendo assim,

apenas a observação histórica pode trazer à tona as verdadeiras causas do surgimento de

formas inovadoras nas línguas, já que os processos de mudança ocorreriam de forma

gradativa até chegarem ao momento em que se fixam, como explicitado por Castilho

(1997, p. 31) em sua definição de gramaticalização:

o trajeto empreendido por um item lexical, ao longo do qual ele muda de categoria sintática (= recategorização), recebe propriedades funcionais na sentença, sofre alterações morfológicas, fonológicas e semânticas, deixa de ser uma forma livre, estágio em que pode até mesmo desaparecer, como consequência de uma cristalização extrema.

Givón (1971, p. 413)

lança o lema “a morfologia de hoje é a sintaxe de

ontem”

15

, e cria uma escala de etapas de gramaticalização seguida pelas línguas,

conhecida como “ciclo funcional de Givón” (GIVÓN, 1979, p. 209), que, numa

perspectiva diacrônica, estabelece que o início deste fenômeno se daria a partir do

âmbito pragmático e seguiria acontecendo até o desaparecimento da forma, conforme o

esquema a seguir:

Discurso > sintaxe > morfologia > morfofonêmica > zero

Sendo assim, é no discurso que se iniciam as mudanças, confirmando o princípio

funcionalista de que o uso da língua é o fator principal para moldar a gramática.

O termo gramaticalização é também definido por Hopper & Traugott (1993, p.

18) como “a mudança pela qual itens lexicais e construções aparecem em certos

contextos linguísticos para desempenhar funções gramaticais e, uma vez

gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funções gramaticais”

16

, ou seja, é o

processo pelo qual um elemento ou construção sai do âmbito lexical para fazer parte da

gramática.

O processo da gramaticalização seria, portanto, “uma evolução em que unidades

linguísticas perdem em complexidade semântica, significância pragmática, liberdade

sintática e substância fonética”

17

conforme defendem Heine & Reh (1984) apud Hopper

& Traugott (1993, p. 94).

Outro fato importante ligado à gramaticalização é o conceito de reanálise, em

que a percepção da relação e ordem dos constituintes no eixo sintagmático é alterada,

conduzindo ao surgimento de novas funções para certas estruturas, por meio da

chamada abdução ou inferência.

Brinton & Traugott (2005, p. 99) também apresentam uma definição para a

gramaticalização, considerando-a como

15 No original: “Today’s morphology is yesterday’s syntax.”

16 No original: “the change whereby lexical items and constructions come in certain linguistic contexts to

serve grammatical functions and, once grammaticalized, continue to develop new grammatical functions”.

17

No original:"an evolution whereby linguistic units lose in semantic complexity, pragmatic significance, syntactic freedom, and phonetic substance".

uma mudança na qual em certos contextos linguísticos os falantes usam partes de uma construção com uma função gramatical. Com o passar do tempo, o item gramatical resultante pode tornar-se mais gramatical adquirindo funções mais gramaticais e expandindo suas classes-hospedeiras.18

Uma estrutura considerada inovadora se transforma, ao longo do tempo, em uma

estratégia linguística específica e se fixa como uma construção. As construções são

definidas por Goldberg (1995, p. 4) como

as unidades básicas da linguagem. Padrões frasais são considerados construções se a sua forma ou significado não é estritamente previsível a partir das propriedades de seus elementos presentes ou de outras construções existentes na língua.19

Para Givón (2001, p.19), as construções são “instrumentos de codificação

gramatical que sinalizam funções pragmático-discursivas”.

20

Assim, formas que não

possuem nenhuma sistematização de sua utilização, mas que exercem certa função na

comunicação, por serem inúmeras vezes repetidas, acabam resultando em expressões

sintáticas fortemente ligadas, não podendo mais ter uma variação sintagmática, como a

alteração da ordem dos seus componentes, tornando-se menos livre sintaticamente e

mais simples.

Goldberg (1995, p. 67) entende que os “aspectos pragmáticos das construções

envolvem detalhes de sua estrutura informacional, incluindo tópico e foco, além de

aspectos estilísticos da construção tais como registro”

21

e, além disso, propõe que as

construções de uma língua mantêm relações entre si, reinterpretando a hipótese do

isomorfismo de Givón, em que cada forma linguística serviria ao desempenho de uma

função diferente, a partir de quatro princípios:

I. Princípio da motivação maximizada: Se uma construção A é

sintaticamente relacionada a uma construção B, então o sistema da

construção A é motivado de tal modo que se relaciona semanticamente

com a construção B. Essa motivação é maximizada.

18 No original: “Grammaticalization is the change whereby in certain linguistic contexts speakers use

parts of a construction with a grammatical function. Over time the resulting grammatical item may become more grammatical by acquiring more grammatical functions and expanding its host-classes.”

19 No original: “(…) the basic units of language. Phrasal patterns are considered constructions if

something about their form or meaning is not strictly predictable from the properties of their component parts or from other constructions.”

20 No original: “the grammatical coding instruments that signal discourse-pragmatic function”.

21No original: “Pragmatic aspects of constructions involve particulars of information structure, including

II. Princípio da não-sinonímia: Se duas construções são sintaticamente

distintas, elas devem ser semântica ou pragmaticamente distintas. Este

princípio se subdivide em: (a) Corolário A: Se duas construções são

sintaticamente distintas e semanticamente sinônimas, então elas não

devem ser pragmaticamente sinônimas; e (b) Corolário B: Se duas

construções são sintaticamente distintas e pragmaticamente sinônimas,

então elas não devem ser semanticamente sinônimas.

III. Princípio da força expressiva maximizada: O inventário de construções é

maximizado para propósitos comunicativos.

IV. Princípio da economia maximizada: O número de construções distintas é

minimizado o máximo possível, dado o Princípio III.

Benzer Belgeler