O Programa Universidade para Todos (Prouni) é um projeto do governo Lula que vem tendo continuidade na gestão Dilma Rousseff. Seus beneficiários já atingem mais de 1,4 milhão em todo o Brasil, e esses estudantes são uma parcela do eleitorado brasileiro que progrediu economicamente nos 12 anos de governo petista até 2014. A partir do conceito de lulismo formulado por André Singer (2009), em que uma parte expressiva da população pauperizada, a nova classe trabalhadora que atingiu a formalização e o acesso ao consumo, aderiu ao projeto hegemônico representado pelo ex-presidente Lula, abordei o Prouni como parte de um arcabouço político e institucional do que chamo aqui de modo de regulação, ou seja, “o conjunto total de relações e arranjos que contribuem para a estabilização do crescimento do produto e da distribuição agregada de renda e de consumo num período histórico e num lugar particulares” (Harvey, 2008, p.118). Para isso, analisei os aspectos políticos e institucionais que estão na origem da formulação da política pública e de como ela se insere no modo de regulação, procurando uma chave de interpretação com autores como Singer, Ruy Braga e Francisco de Oliveira.
Iniciei meu percurso analisando o contexto histórico em que se insere o Prouni, desde a constituição contemporânea das classes no Brasil como resultado das políticas recentes do lulismo, e na medida de sua importância para o mercado de trabalho e para o sistema educacional. Vejo o lulismo como momento especial e marco do processo de expansão do ensino superior, tendo como perspectiva embrionária as análises de Reginaldo Prandi e as pesquisas mais recentes que vinculam este aspecto ao modelo de desenvolvimento que vige no país, sobretudo com as análises de Adalberto Cardoso, de Álvaro Comin e de Márcia Lima, sobre a concomitância do trabalho e da escola no padrão recente de inserção dos jovens na economia e o papel do Prouni.
O modo de regulação articula as demandas do mercado de trabalho com as prioridades das políticas educacionais, levadas a cabo pela hegemonia lulista. Sua legitimidade abriu condições para a expansão ou introdução de programas sociais que aumentaram seu alcance com o correr dos anos de governo petista. A educação foi um setor especialmente atendido, com a inauguração do Prouni, com a reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o aumento espetacular de recursos destinados ao financiamento público estudantil através do Fies. Há ainda o Pronatec, que debutou já no governo Dilma.
demanda reprimida de jovens excluídos do ensino superior e, ao mesmo tempo, aquecendo o setor empresarial de educação, cuja estagnação foi revertida pelas políticas dos governos Lula. Diferentemente do Bolsa Família, no entanto, o Prouni foi desenhado para atender ao que alguns economistas chamam de “nova classe média” ou “nova classe C” a partir de critérios de renda: um grupo que conseguiu alguma mobilidade dentro da complicada estratificação social brasileira com a valorização do salário mínimo, o aumento da formalização e da expansão do crédito, permitindo a essas pessoas situadas entre as classes trabalhadora e média-baixa um conforto material que não lhes era acessível. O precariado, portanto, surge na cena brasileira colocando novas questões: apesar da formalização e do baixo índice de desemprego registrado no país, 95% desses empregos criados na era Lula pagam até 1,5 salário mínimo (POCHMANN, 2012).
Como um projeto que incentiva a “fuga para a frente” e que frustra promessas educacionais, escolhi os estudantes beneficiários do Prouni na periferia da capital paulista para entender como ele é visto e sentido na realidade concreta de jovens trabalhadores e para qual lado a ideologia deles se articula com os fatores que fazem parte de suas vidas e se manifesta em relação à política. Me apoiando no trabalho realizado pelos sociólogos Stéphane Beaud e Michel Pialoux (2009) na cidade industrial de Sochaux sobre o retorno à condição operária, traçamos um paralelo com o caso francês, onde a política de massificação do ensino médio provocou um processo de “desoperariação” das classes baixas e de enfrentamento geracional com a identidade operária. De modo que fui àqueles diretamente beneficiados pelo Prouni, através de uma incursão etnográfica em uma universidade privada de massas, o que demonstrou ou reverteu uma série de pressupostos assumidos.
O trabalho de campo desenvolvido nesta pesquisa deu ao pesquisador a oportunidade de vislumbrar um universo conhecido apenas pelas descrições da mídia e de entidades e organizações estudantis. Acima de tudo, conhecer aqueles que estão efetivamente no dia a dia dessas instituições, acompanhar o ambiente em que estão inseridos e mapear quem são, de onde vem, como se comportam e como entendem os diversos aspectos que cercam o cotidiano de uma parcela da população instalada nas margens de uma metrópole da periferia do capitalismo como São Paulo. É lá que as instituições de ensino superior (IES) privadas “recrutam” a maioria de seus alunos e os inserem em uma lógica que se baseia na prestação de serviços e na sua arquitetura espacial moldada nos marcos da “cidade de muros” descrita por Teresa Caldeira, tão evidente nos shoppings centers.
instituição em nada se assemelha a uma visão idealista de condição de estudante, onde a universidade é central para a formação do indivíduo. As condições materiais dos entrevistados, em sua maioria jovens, por si dificultam uma relação que se paute menos pelo formato cliente- empresa, mas o desinteresse é resultado também da expectativa criada por eles, a obtenção do diploma que lhes é exigida para manter condições competitivas de disputa no mercado de trabalho, o que não necessariamente é resultado do bom desempenho. As aulas se arrastam para um grande número de estudantes pouco interessados e o professor se desdobra para manter condições mínimas para o ensino.
Encontrei ali duas categorias de estudantes, alunos de Pedagogia e da área de tecnologia, que ajudaram a construir um interessante contraste que pode ajudar a pensar a política na juventude da metrópole. O caso das estudantes de Pedagogia ilustra um momento derradeiro na história política brasileira: a herança da construção democrática e do projeto do trabalhador representado pela formação do Partido dos Trabalhadores, em 1980. Como parte flutuante e marginal desse processo, essas estudantes manifestam um petismo já diluído pelo tempo, mas que ainda preserva um elemento ideológico importante para o ideário das classes trabalhadoras do país, o antagonismo entre ricos e pobres e a noção de desigualdade social, associado aos processos de espoliação urbana, luta por moradia e luta pela universalização de direitos. A opção pelo magistério já revela uma escolha baseada na vocação e no ofício de professora como uma sobrevivência do projeto do trabalhador que ainda se mantém razoavelmente seguro. Disputadas pelo lulismo de um lado, e pelo conservadorismo popular por outro, o ressentimento com promessas não cumpridas as levam a aderir a candidatos populistas de direita no plano local, enquanto a questão material (e a manutenção de políticas como o Prouni) as mantém fieis ao lulismo, garantindo sua adesão à reeleição da presidente Dilma Rousseff.
Outra realidade encontrei entre os estudantes de cursos de tecnologia. Estes futuros trabalhadores do setor de serviços têm preocupações materiais, mas a apatia e o distanciamento dos partidos desses setores conectados às redes sociais os aliena da política, vista com extrema desconfiança. Diferentemente das alunas de Pedagogia, eles não demonstram apego ao carisma de Lula, e com um histórico curto de participação política através do voto por conta da idade mais baixa, não conseguem estabelecer comparações com os governos anteriores. Há, portanto, um divórcio entre a vida material (deles) e a política: o ideário neoliberal vitorioso que impõe o privado sobre o público, o discurso do mérito e a competição no mercado de trabalho por vagas de pouco prestígio faz parecer que, em relação à condução da economia, tanto faz o governo, pois a situação de inflação relativamente estável e baixo nível de desemprego com o
qual lidam desde o início da vida adulta naturalizam-se, ressaltando para esse público outras bandeiras.
O diálogo que esta fração consegue com a demanda de esquerda por melhores serviços públicos e, ao mesmo tempo, com o combate à corrupção do partido do governo é espelhada nas opiniões sobre as manifestações de junho de 2013. Apoio majoritário e o mais importante, a ideia de que corrupção, serviços públicos ruins e falta de educação são lados do mesmo problema: a má qualidade da política praticada no Brasil e em suas instituições. O sentimento difuso de que o país não lhes dá condições de competir no mercado de trabalho e fugir de empregos instáveis mesmo com a posse de um diploma emerge na insatisfação desses jovens que representam uma maioria silenciosa presente na periferia da metrópole. A adesão de alguns deles à reeleição de Dilma mostrou, por outro lado, a resiliência do lulismo, mostrando como o Prouni é importante como mecanismo de ativação das preocupações materiais, no caso, o temor de que um governo da oposição afetasse o programa. Mesmo quando a desigualdade preocupa relativamente menos, como no caso dos tecnólogos entrevistados para esta pesquisa, ela influencia decisivamente nas suas visões de mundo e na sua postura política. O discurso do mérito ganha força e ele se vê intrinsecamente conectado com o discurso político.
De modo que o “reformismo fraco” teorizado por Singer parece entrar em uma fase decisiva entre o esgotamento ou a renovação, processo que já se mostrou relevante nas manifestações e na proposta da “nova política” com a qual uma parte da juventude trabalhadora chegou a se identificar de maneira efêmera. Se a negação ou a subalternização da luta de classes é o elemento estruturante da política oferecida por Marina Silva e Luciana Genro, seu relativo sucesso – a ex-ministra teve cerca de 20% nas duas eleições em que participou – indica que a polarização tradicional ainda não deixou de refletir o conflito distributivo instalado na sociedade, mas encontra dificuldades de convencer quem já não acredita na sua centralidade. Meus entrevistados flertaram com posições pós-materialistas no primeiro turno das eleições de 2014, quando todos, com a exceção de um único eleitor de Dilma, optaram por Marina, Genro, ou anularam seu voto. Aqui, a bússola penderia para uma nova polarização, notada na atitude de parte dos manifestantes de junho de 2013: o conflito entre aqueles que querem mais mercado e aqueles que preferem mais Estado (SINGER, 2013).
Em várias entrevistas do grupo de tecnólogos, a demanda por educação de qualidade se mostrou uma necessidade prioritária para o país, mas associado ao senso comum de que a baixa qualidade do voto é resultado de capacidade cognitiva limitada dos mais pobres. Outras insatisfações demonstradas com as condições de vida não encontram meios para que essas
reações sejam canalizadas para a participação política. Pelo contrário, o senso comum é uma fortaleza resistente e que, com o PT no poder, parece se manter. As políticas públicas voltadas para a juventude podem desequilibrar esse jogo no curto prazo, mas em alguns anos saberemos se o efeito ideológico da superação do velho petismo não jogará para o outro lado. Nesta pesquisa, busquei entender uma parte desse problema e encontrei tendências que estão manifestas para os dois grupos: para as alunas de Pedagogia, um sério risco de que a vulnerabilidade social e o ressentimento com as potencialidades da política (e da construção democrática em estado de letargia) as façam aderir a soluções populistas de direita (o que já acontece em eleições municipais), e que até o momento em que escrevo, tem no lulismo uma âncora que ainda não as deixou desgarrar.
A resposta para qual lado se inclina a nova classe trabalhadora, sobretudo os jovens do estrato que identificamos a partir das entrevistas com estudantes que buscam um currículo que seja competitivo no disputado e rotativo mercado do trabalho informacional, é umas das grandes incógnitas suscitadas pelo lulismo e pelo seu modo de regulação. Fernando Henrique Cardoso (2011) já afirmara que existe “toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas a TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de 'classe C' ou de nova classe média” e que está, segundo o sociólogo e ex-presidente da República, “ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada da internet”. Como vimos em vários exemplos, estar conectado à internet é uma faca de dois gumes quando se trata de sistematização das informações e reflexão política. Portanto, o processo só pode ser positivo se, aliado ao poder de difusão e mobilização das redes sociais estiver um projeto político que dialogue com essa juventude.
Na condição de vida das periferias brasileiras, apesar de alguma melhora nas últimas décadas, “virar doutor”, como sugere o ex-presidente, une a ideologia do velho bacharelismo nacional a uma ambição que ainda é para poucos. Procurar o vínculo do voto e suas razões, pondo em relevo a tese de Singer (2012) de que o lulismo, com suas políticas sociais, consistente reajuste do salário mínimo, acesso ao crédito e inserção do “subproletariado” no mundo do consumo, conjunto de medidas que teria consolidado o realinhamento eleitoral que colocou os pobres em sintonia com o PT, em uma metrópole como São Paulo, politicamente complexa, mas não imune a estas consequências era objetivo desta pesquisa. A formação e reprodução das classes pela perspectiva sociológica mostrou-se adequada para entender os
meandros desse processo. A pesquisa empírica que desenvolvi nesta dissertação mostra que a renovação do lulismo ou seu esgotamento dependerá do quanto ele será capaz de dialogar com a juventude trabalhadora das grandes cidades, onde a disputa com o conservadorismo popular e as saídas pós-modernas já começou.