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As manifestações de junho de 2013 aconteceram concomitantemente ao desenvolvimento desta pesquisa e as primeiras entrevistas, algumas semanas depois do seu refluxo. Os eventos daquele mês já ficaram marcados na história brasileira: poucos são os que não se depararam, aos menos através dos meios de comunicação, com os grandes atos públicos que atingiram todos os estados do país, com maior ou menor intensidade, inicialmente contra reajustes nos transportes públicos107, os gastos excessivos para a realização da Copa do Mundo de 2014, por melhorias na educação e saúde públicas, ou contra a corrupção e os governos de plantão em todos os níveis. Nossos entrevistados foram impactados pelo momento de maneira especial: mesmo na condição de beneficiários de um programa do governo do PT, quase todos se declararam a favor dos protestos. As motivações para esse apoio se resumem, principalmente, na precariedade dos serviços públicos, mas recorrentemente, a causa dela é a corrupção e a má gestão dos recursos. Cabe indagar de que maneira esses jovens se relacionaram com os protestos, já que não se sentiram suficientemente motivados para enfrentar o receio dos pais ou as obrigações cotidianas para efetivamente sair às ruas e demonstrar insatisfação.108 Como as

aqueles que ressaltam 'a autoexpressão e qualidade de vida'. Seria uma transição intergeracional, realizada conforme os que já são socializados em um ambiente de classe média, livres do fardo material das gerações anteriores, vão se tornando maioria, provocando mudança profunda na maneira de enxergar a política por parte dos cidadãos”.

107 O MPL tem sua origem em outras duas grandes manifestações populares contra reajustes em tarifas dos transportes públicos: a “Revolta do Buzu”, que ocorreu em Salvador em 2003, e a “Revolta da Catraca”, em 2004. Segundo o movimento, a perspectiva aberta por esse processo que alcançou a vitória na capital catarinense deu origem ao MPL, “uma tentativa de formular o sentido presente naquelas revoltas, a experiência acumulada pelo processo popular, tanto em sua forma como em suas motivações. Surge então um movimento social de transportes autônomo, horizontal e apartidário, cujos coletivos locais, federados, não se submetem a qualquer organização central. Sua política é deliberada de baixo, por todos, em espaços que não possuem dirigentes, nem respondem a qualquer instância externa superior” (MOVIMENTO PASSE LIVRE, 2013, p.15).

108 André Singer (2013) destaca três momentos distintos para as manifestações. Na primeira, o leitmotiv foi o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus, metrô e trens metropolitanos na capital paulista, sob a condução do MPL. De cara, nota-se a concepção fundamentalmente basista do movimento em contraposição ao centralismo das organizações de juventude tradicionais. As primeiras manifestações tiveram o perfil do movimento e se assemelharam muito aos protestos organizados pelo movimento em anos anteriores, com a pauta voltada a questão do direito ao transporte. A partir do dia 11, o governador Geraldo Alckmin anunciou o endurecimento da repressão na manifestação seguinte. Neste dia, com cerca de 20 mil pessoas na rua, a Polícia Militar reprimiu manifestantes, transeuntes, jornalistas, fotógrafos. As cenas de violência trouxeram a simpatia da população para as manifestações que, a partir dali se tornariam de massas. A sequência dos protestos é marcada pelo início da Copa das Confederações, o que leva o protagonismo para as cidades que receberiam os jogos (Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Salvador e Belo Horizonte). Afugentados pela

manifestações estiveram no caminho do lulismo até a recondução de Dilma em 2014, junho do ano anterior foi determinante para a formação política dos estudantes prounistas entrevistados nesta pesquisa, e a partir delas se revelam posições ideológicas que vão além daqueles dias de comoção popular.

Tabela 3 – Escolaridade dos manifestantes

Faixas São Paulo

17/06 São Paulo 20/06 Rio de Janeiro 20/06 Oito capitais 20/06 Belo Horizonte 22/06 Mais baixa 1%

(Fund.) 2% (Fund.) 14% (Médio incompleto) 8% (Médio incompleto) 4% (Fund.) Intermediári

a 22% (Médio) 20% (Médio) 22% (Médio completo / Superior incompleto) 49% (Médio completo / Superior incompleto) 31% (Médio) Alta 77%

(Superior) 78% (Superior) 34% (Superior completo) 43% (Superior completo) 66% (Superior) Total 100% 100% 100% 100% 100%

Fonte: Singer (2013), com base no Datafolha (São Paulo), Plus Marketing (Rio de Janeiro), Ibope (oito capitais) e Innovare (Belo Horizonte)

Nessa conjuntura sui generis que pareceu envolver a todos, as estudantes de Pedagogia percebem que as manifestações de junho tiveram sua razão e o protesto contra o reajuste das tarifas do transporte público, legitimidade. Mas não era o lugar para elas. Enquanto moradoras da periferia, responsáveis pela manutenção da casa, pela saúde dos filhos, pelas obrigações com a igreja, elas não se sentiam parte daquilo que muitas delas expressam como algo pouco familiar e distante de sua realidade. Márcia, de 34 anos, moradora do Capão Redondo e eleitora de Dilma, quatro meses depois dos acontecimentos demonstrava certa confusão quando se expressava sobre os acontecimentos e a diversidade de pautas que surgiram. Black blocs, o caso dos manifestantes que retiraram cães de um laboratório farmacêutico em São Roque (SP), e a

magnitude das manifestações que, naquele momento, não vislumbrava um fim, o governo e a prefeitura de São Paulo decidem revogar os aumentos das passagens. Na comemoração marcada para o dia 20, cerca de 1,5 milhão de pessoas se reúnem em mais de 100 cidades. Neste momento, o repúdio aos partidos de esquerda atinge o seu ápice, com a infiltração de grupos nacionalistas de extrema-direita puxando o coro e, em grande número, os adeptos da política pós-materialista – era comum observar grupos carregando cartazes contra a PEC 37 ao lado de ativistas LGBT contrários ao pastor Marco Feliciano, então presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e pastor evangélico, na avenida Paulista no dia da “comemoração” pela revogação do reajuste.

participação dos partidos se misturam em um veredito de que o ato da população teria sido sequestrado pelos políticos.

O que você achou das manifestações que aconteceram em junho?

Assim, em determinados momentos eu achei que realmente era a população, né? Que tava fazendo a manifestação, achei que algum momento eles devem, a população deve ter realmente se unido pra fazer o protesto com relação a gota d’água que foi o aumento de novo da tarifa dos ônibus, da passagem. Mas já tá uma coisa meio banalizada no presente momento, né? Criou-se meio que um grupo que adora entrar em qualquer manifestação que a população queira fazer pra reivindicar algum direito dela e pra quebrar tudo, entendeu? Parece que para denegrir toda e qualquer manifestação que você queira fazer. Então, que nem a manifestação que teve pra defesa dos animais lá que estava sendo maltratados – dizem que estavam sendo maltratados. Mas assim, pra manifestação que teve o que eles tinham que entrar no meio e quebrar tudo de novo? É uma manifestação pacifica! Estavam pedindo, de repente, até que... diz que tá escrito isso na lei que é permitido usar os animais. Mas não são seres vivos? Por que a gente tem que usar, não tem outras formas? Eu acho que tem outras formas de fazer as experiências. E as pessoas utilizam toda e qualquer manifestação e leva pro lado negativo. Que nem, os políticos botaram suas bandeiras no meio, tanto que a população sentou o pau em quem tava com a sua bandeira lá defendendo o seu partido pra querer puxar voto, né? Se você assiste agora esses horários políticos safados que tão aparecendo na TV, tá falando sobre isso. Você tá sempre colocando um jovem falando e falando que tava lá na manifestação e não sei o quê. E como é que esse jovem foi parar naquele partido, não é? (Márcia, 34 anos)

Vitória, de 18 anos e evangélica da Igreja Universal, acredita que “eles lutaram e viram mudanças”, se referindo aos manifestantes. Cida, de 23 anos e mãe de um filho, vê nos “quebra- quebras” o risco de que, novamente, os pobres paguem pelo prejuízo. Ou seja, mesmo que elas vejam nos protestos algo legítimo e até necessário, se colocam em um lugar exterior, o que eventualmente pode fazer com que paguem o preço da ousadia alheia.

Eu não participei e nem participaria. Cada um tem uma disposição diferente, eu não tenho essa disposição, mas se eles lutaram e viram mudanças. Se eles continuarem a fazer, pacificamente, tudo bem, não tenho nada contra.

Mas você acha que elas são justas? Exatamente, justo.

Quando você via o que estava acontecendo, no que você pensava?

Porque eles estavam muito incomodados e eles, assim, a revolta deles, eles querem mudança urgente, né, então eles estão fazendo isso pra realmente... eu acho que eles querem mudar logo. Foi o que aconteceu, né? Em pouco tempo alguma coisa aconteceu, eles pararam tudo. (Vitória, 18 anos).

*

E as manifestações de junho, você era a favor?

As manifestações eu era a favor, agora o vandalismo não, claro. Porque quanto mais quebra-quebra eles fazem, mais vai doer no nosso bolso, porque daí o Haddad queridinho aumenta tudo e tudo cai em cima de nós, é sempre assim, é sempre a culpa do povo, sempre em cima do povo, não tem jeito, não tem como escapar, nunca que o prefeito vai tirar do bolso dele pra arcar, até parece. Nada! Aumenta tudo, conta de

luz, conta de água, tudo... aumenta tudo! Para poder arcar com os prejuízos. Esses vândalos vão, quebram tudo, não têm noção do que fazem, sabe lá fazer o protesto direito, saem quebrando tudo e a culpa é nossa. Eu em casa sem fazer nada e vou ter que pagar, vou ter que arcar com os quebra-quebras. (Cida, 23 anos)

Entre os tecnólogos, nota-se uma aproximação com algumas tendências ideológicas presentes nas ruas, especificamente o afastamento dos partidos e a denúncia da corrupção e da

precariedade dos serviços públicos. Com exceção de Luís Otávio, timidamente contrário, todos

os outros apoiaram firmemente as manifestações, com maior ou menor grau de clareza sobre as pautas, mas todos motivados por certo incômodo difuso com a situação do país e na maneira como ela incide em suas possibilidades. As justificativas para não participar diretamente são similares: obrigações com a faculdade ou com o trabalho. Assim, sabem que a necessidade de valorizar o currículo, se manter no Prouni e ainda dar conta das tarefas cotidianas os fazem pensar duas vezes antes de faltar à aula ou ao trabalho.

Rodolfo foi o único da minha etnografia a efetivamente participar das manifestações. Como identificamos no segundo capítulo, ele é o estudante entrevistado que mais se aproxima da classe média tradicional, o que deve ser influência para o seu engajamento neste caso. Colega de Luís Otávio no campus Vergueiro e morador da Vila Mariana, ele tem uma opinião sofisticada sobre as dificuldades essenciais que os protestos tiveram a partir da segunda fase, e acredita que o sucesso do reajuste das tarifas do transporte foi resultado da liderança do MPL, pois “eles deixaram claro, depois da manifestação que eles fizeram, que eles não queriam o aumento das passagens. E acabou. As manifestações, a parte útil que causou efeito é isso, todo o resto é 'várzea' [bagunça]”. Enquanto exceção, Rodolfo é o ponto máximo da politização descoberta em junho e, a partir das suas posições, as demais vão se diluindo. Rodolfo serve, aqui, de parâmetro para a comparação com os prounistas que não se mobilizaram.

Eu participei de um [protesto] pra ver como estava rolando. Foi engraçado. Foi depois que conseguiram o cancelamento do reajuste, depois que voltou pra 3 reais [a manifestação do dia 20]. Como eu tive oportunidade de ir lá, eu fui numa que atravessou a [avenida] 23 de Maio, até a prefeitura. A prefeitura estava fechada, não tinha ninguém lá. Aí eu falei para o meu amigo: “cara, a gente não vai fazer nada aqui porque não tem ninguém lá dentro. Vamos voltar pra Paulista”. Chegando lá a galera curtindo a [avenida] Paulista porque estava parada. Então você tinha pessoas de grupos sociais e de tribos culturais fazendo as suas próprias reivindicações. Tinha galera que tinha bandeiras socialistas brigando com o pessoal, os outros falando assim “sem bandeira, sem bandeira”, e outros falavam, “sem violência”. Eu não lembro de bandeiras de partidos nessa manifestação, não tinha bandeira de partido. Mas essa bandeira do socialismo, o pessoal não gostava porque o movimento não era de uma linha política, era de pessoas que tinham exigências. Aí então ficou engraçado isso, ficou meio misturado. Não teve violência em lugar nenhum, que eu vi. Não teve nada demais, foi só um monte de gente na rua fazendo barulho. Teve uma marchinha aí, o pessoal atravessando a 23 de Maio, mas foi simplesmente... enfim, não deu em nada.

Foi meio que aquele fim da festa, né?

E você acha que as manifestações são importantes?

Então tipo, eu sou a favor porque nós não conseguimos ir facilmente a uma seção e falar “olha, vamos conversar hoje sobre os problemas das calçadas, porque está apertado demais para os cadeirantes”. Não vai rolar. Tipo, é muito difícil que aconteça. Falta espaço de tempo pra isso, esse esforço. Então eu acho importante essas manifestações por esse sentido. É um jeito de você manifestar uma vontade popular em uma voz. Mas aí que está. Pra ser uma voz, todo mundo tem que falar a mesma coisa. Se é pra fazer reforma na calçada, então vamos todos gritar “reforma da calçada, reforma da calçada” até a reforma ser feita. Entendeu? Então essa é uma ferramenta importante, só que o pessoal tem que aprender a usar. É aí que apareceu um troço curioso, que a gente vê em outras pessoas, em outras mídias. O pessoal descobriu uma ferramenta nova e ainda o pessoal não está sabendo como utilizar. Eu sou a favor. E o que é mais interessante é ver ela surgindo na internet também. Tem alguns grupos. Eu tive oportunidade de verificar um desses grupos, só que na própria organização deles você vê exatamente o que acontece nas manifestações. Por exemplo, o Anonymous. Eu fui verificar como era em 2009 a proposta dele. Isso um pouco antes das manifestações. Eu queria verificar como eles estavam funcionando por dentro. Antes era legal, era utópico, todo mundo queria mudar a sociedade. Beleza. Cresceu, inflou, aí todo mundo começou a puxar a própria crise política, o próprio estilo cultural, a própria restrição socioeconômica. Então você tinha aqueles grupos de direita, só de esquerda, socialista. Tinha fascista no meio também, não dava pra dizer que não tinha, tinha até essa galera assim. Estava todo mundo misturado. E ninguém estava, de fato, fazendo o que era proposto, que era assim “somos todos pessoas querendo melhorias”. Não, somos um grupo de anarquista que quer revolução. Sim, mas eu diria que assim, você tem que ter uma sociedade muito madura pra enfrentar. (Rodolfo, 22 anos)

Rodolfo naturalmente consegue ter um panorama mais completo das manifestações em relação aos seus colegas entrevistados nesta pesquisa, tendo participado de pelo menos uma delas. Mas assim como a maioria dos participantes, até aquele momento, nunca tinha estado nas ruas em um protesto. De acordo com pesquisa Ibope divulgada no dia 23 em São Paulo, 46% deles nunca tinham ido às ruas. Entre os demais entrevistados, a vontade até surgiu, mas não foi adiante. Jéssica achou os protestos importantes, lamenta não ter participado, mas foi impedida pela mãe, assustada com a violência. A aversão aos políticos até aqui se manifestava com veemência, influenciada pelo ambiente de revolta instalado com as manifestações.

Qual era o motivo da revolta, na sua opinião?

No caso dessa revolução da condução, dos 20 centavos, foi revolta mesmo. Porque falam: “poxa, a gente já paga por aquilo”. O negócio continua a mesma coisa, não está melhorando, melhora bem pouco. E você ainda vai continuar pagando mais por aquilo? Para onde está indo esse dinheiro? Eu acho que foi revolta do pessoal mesmo, não foi nem questão... ah, eu não tenho condições. Não, eu tenho condições, mas isso não está certo. (Jéssica, 24 anos)

As duas pontas de insatisfação que parecem ter se unido em junho de 2013 são o incômodo difuso com os serviços públicos e a inoperância dos governantes, mediadas pela corrupção do sistema. Esta é uma questão que tem tomado a atenção dos estudiosos do tema: a

rejeição aos partidos e aos políticos sugere, para Singer (2103, p.39), “uma compreensão de que os problemas postos só poderão ser resolvidos com gastos sociais do Estado, como pensa a esquerda, quanto uma adesão à noção contrária, defendida pela direita, de que só o combate à corrupção (da esquerda) pode levar a uma maior produção de riqueza”. Já para Marcos Nobre (2013), os protestos foram motivados pela rejeição à blindagem em torno do sistema político- partidário, que ele chamou de pemedebismo109. Para o filósofo, junho de 2013 representou a rejeição da blindagem pemedebista, mas não de maneira unificada, como no impeachment de Fernando Collor, e sim contra inúmeros aspectos do sistema político, o que, para ele, pode representar uma demanda por aprofundamento da democracia.

Você se lembra em quem votou nas últimas eleições?

Cara, eu já estava bem desiludido, eles colocaram uma escola [seção eleitoral] extremamente longe da minha casa e eu votei num cara que era pra vereador, alguma coisa assim, ele era o Papai Noel. Falei: pô, Papai Noel, vamos votar no Papai Noel! Mesmo sabendo que isso aí, pô, isso não é correto, mas dane-se, o cara não vai ganhar mesmo.

Não ganhou?

Não, não ganhou. Comercial dele lá, a propaganda dele, acho que tinha dois segundos. Porque é ridículo, eu não votaria nesse Serra, todos os caras aí, tudo maior falcatrua do caramba. Não dá mais. (Ricardo, 28 anos)

*

Você tem uma posição política? Você já parou para pensar nisso? Nunca parei pra pensar.

Você tem simpatia por algum partido?

Não, nunca. Não é uma coisa que eu quero pra mim. Você nem, tipo, nunca parou para analisar?

Não, esse negócio de política não é comigo, não. Não me agrada muito, não. (Lúcia, 22 anos)

A indisposição de nossos entrevistados com o sistema político-partidário corrobora o argumento de Singer (2013) da exigência de gastos sociais e em parte a tese de Nobre (2013). A menção à corrupção do sistema político é recorrente entre os entrevistados, indicando que, mesmo quando identificam problemas estruturais e de investimento em educação, saúde e transporte, os estudantes entrevistados tendem a atribuí-los à má gestão dos recursos e à

109 Segundo o filósofo, “essa blindagem do sistema político contra a sociedade tem uma história. Sua forma primeira e mais precária foi a unidade forçada contra a ditadura militar (1964-1985), que veio a repercutir de maneira importante na maneira como se deu o processo político, o PMDB, impôs como indispensável a união de todas as forças “progressistas” para derrotar o autoritarismo. Com exceção do PT, todos os partidos participaram da eleição indireta de janeiro de 1985, no chamado Colégio Eleitoral, controlado pelas forças da ditadura” (NOBRE, 2013, p.5).

desonestidade dos políticos. Ricardo, por exemplo, crítico da Rede Globo e eleitor de Luciana Genro e depois Dilma, vê nos políticos brasileiros o principal obstáculo para a solução dos problemas sociais do país.110

O que te levaria a ir para a rua?

O que me levaria a ir pra rua é saber que os caras gastam sei lá quantos milhões a mais dando dinheiro para os salários deles [dos políticos], salário e luxo deles, e a gente passando aperto aí no metrô, todo dia, é briga, a população se sujeitando a ser assaltado ou morrer, tipo, indo na esquina de casa, e os caras de boa lá, no luxo, né, ferrando com toda a população. Isso sim me faria ir pra rua, acho que o povo deveria mesmo ir pra rua, mas por causa disso, tipo, cansar mesmo e fazer isso todo dia, parar mesmo o Brasil, não só ficar falando.

Qual você acha que é o maior problema do Brasil?

Eu acho que é... o que causa todos os outros problemas seria a corrupção e também eles não quererem que as pessoas aprendam, porque aí fica muito mais fácil de manipular a população. (Ricardo, 28 anos)

A ideia de que os políticos manipulam o povo e o fazem através da manutenção da “ignorância”, surge em certos momentos das entrevistas quando pergunto sobre as causas de determinados aspectos da cultura política brasileira. Na fala de Ricardo e em outras declarações de entrevistados (como a de Fernanda, que explorei acima), a conexão entre corrupção e educação deficitária aparece na sugestão de que a fiscalização do poder não é possível de ser exercida por pessoas que não puderam “aprender”. Assim, para os políticos é necessário manter a população ignorante, supostamente para que não tenham autonomia e, portanto, condições de analisar as opções eleitorais: esta linha de raciocínio leva ao ideal de que apenas a educação pode resolver os problemas mais profundos do país.

A educação é solução, no caso?

A educação, deveria melhorar a educação, mas melhorar de verdade, não fazer o que eles fazem no estado colocando uma cartilha pro professor só ensinar o que eles