A ética só é possível no encontro dos seres humanos. O encontro é marcado por mudanças, por transformações, pois nenhum ser humano se manifesta completamente ao outro. Está na linha do mistério, da transcendência afirmada por Levinas, por mais que nos aproximemos do outro, este está para além. Não é possível conhecê-lo plenamente. Todo conhecimento do outro se dá de modo incompleto. Por isso, as relações também se fazem neste paradoxo, entre o que é o desejado e o possível. Assim, nos diz Levinas (2008, p. 38): “o modo como o Outro se apresenta, ultrapassando a ideia do Outro em mim, chamamo-lo de facto, de rosto. [...] É, pois, receber de Outrem para além da capacidade do Eu; o que significa exactamente: ter a ideia de infinito. Mas isso significa também ser ensinado”. E continua no seu texto dizendo que a relação com o outro é uma relação não alérgica, é uma relação ética.
O ser para o outro é também uma aprendizagem afetiva, realizada a partir da vivência. Como expressa Sobral, a relação com seus filhos trouxe um dos maiores ganhos com as transformações na sua vida afetiva. De poder expressar amorosidade e acolher também o amor dos seus filhos. Para Levinas, este amor paterno é a expressão do amor que deveria existir entre todos os humanos, de estar totalmente juntos e totalmente separados. Cada um com sua singularidade. É esta singularidade, no entanto, que favorece o amor e a relação entre nós seres humanos. Na entrevista concedida a Poirié (2007, p. 99), Levinas comenta sobre esta relação
de filialidade, onde o filho é o mais próximo do eu e ao mesmo tempo é totalmente outro, uma relação “que é precisamente a filialidade - o outro fosse aqui eu e eu um outro”.
Segundo Levinas (2008, p. 37-38), “O infinito no finito, o mais no menos que se realiza pela ideia do Infinito, produz-se como Desejo. Não como um desejo que a posse do Desejável apazigua, mas como o Desejo do Infinito que o desejável suscita, em vez de satisfazer.” Portanto, o elemento presente nesta conexão entre o eu e o outro é o desejo. Desejo que não é satisfação de necessidades, que depois de saciado, termina. O desejo proporciona o encontro com o outro, como força de forma insaciável, de modo inesgotável. Por isso é visto como infinito, pois transcende o conceito, está na linha do sentir e do sentir para além de toda tematização. Desejo é descrito por ele como bondade, gratuidade, dom.
De acordo com Pelizzoli (2008, p. 286-287), o Desejo em Levinas está na inversão de um sujeito-identidade, centrado na força do ego, que se reconhece no saber e poder, na busca das satisfações de suas necessidades para a vivência da bondade. Inversão em vista do outro. O ser torna-se bondade, preocupado com o outro. “O Desejo pode ser encarado como um sentimento primordial ou compaixão, num sentido espiritual e ético, acompanhante da afecção do eu pela alteridade”. Ele diz que “Só há rosto quando abro minha consciência e meu ser emocional para ver o invisível, ou seja, entregar ao Desejo do Outro não-objetivável; estabelecer uma relação sem posse, sem apego, mas mesmo e justamente por isso, amorosa”.
A emergência de um viver e conviver numa religação com a vida, pela experiência de pertencimento à Terra, e pelas relações de alteridade com o outro se tornará possível com a consciência da realidade do presente e pelo perguntar em qual viver queremos conservar, por isso em que precisamos mudar.
Maturana e Yáñez fala que no tempo presente temos a grande oportunidade de olhar e sentir o sofrimento e a dor na antroposfera e na biosfera, e fazer alguns questionamentos como estes: Como estamos fazendo o que estamos fazendo? Como o conhecimento científico com a promessa de bem-estar para a humanidade gerou tanta dor e sofrimento? A busca de respostas nos possibilita uma mudança na sensorialidade íntima, e uma reflexão que amplie nossa consciência para ver os modos de vida que geramos, inspirados no controle, na eficiência, na perda da confiança, na aspiração do poder. Geramos um mal-estar, dor e sofrimento em todas as dimensões do conviver. Esta é a era de perceber e aceitar a responsabilidade de saber que somos nós que com nossas cegueiras éticas e ecológicas geramos tanto mal-estar. Somos nós que geramos dores e somos nós que também geramos as
alegrias e os prazeres. Ampliando nossa consciência, vamos reencontrar com os fundamentos psíquicos de nosso existir como humanos, que estão no conviver, no amar "como seres primariamente amorosos, desde o início de nossa linhagem, na conservação de uma geração a outra de nosso viver e conviver biológico-cultural Homo sapiens-amans amans" (MATURANA; YÁÑEZ, 2009, p. 46).
É na recuperação do sentir a emoção básica de seres amorosos, que é o amar, que podemos desencadear as éticas a partir uma nova ótica, estabelecendo uma outra lógica diferente da cultura onde estamos imersos, do controle, competição, poder, e negação do outro, para um viver e conviver, onde a religação e a alteridade sejam experiências cotidianas no comover com a presença do outro, e não apenas princípios a serem seguidos .
5 MOTIVAÇÕES, TRANSFORMAÇÕES E VINCULAÇÃO AFETIVA
A construção deste capítulo foi organizada a partir das entrevistas em três eixos de reflexão: motivações, transformações e vinculação afetiva, em vista de compreender os significados da experiência dos sujeitos envolvidos com a Biodanza. Os sujeitos fazem uma reflexão da experiência vivida nas sensações corporais, na percepção destas sensações e no sentido destas sensações. Trata-se também da reflexão da pesquisadora que se sente envolvida com o fenômeno, e deixa emergir sua reflexão também em meio às sensações corporais e psíquicas, numa relação de empatia no grupo e com cada sujeito. Todo o texto foi construído em torno dos significados das vivências da Biodanza. Portanto, é a reflexão dos sujeitos, a partir da intencionalidade de cada um e também da intencionalidade da pesquisadora, que deseja compreender a prática da Biodanza, na construção das éticas da vida desses praticantes deste sistema. Assim, tentamos compreender as motivações, as transformações e a vinculação afetiva, a partir do que cada sujeito tem registrado internamente da Biodanza, nas sensações corporais, da percepção destas sensações, no dar-se conta, tomar consciência e a reflexão do que já foi vivido, buscando seus significados existenciais.
Quais são os motivos que levam as pessoas a iniciarem a Biodanza? O que move uma pessoa a uma determinada ação que pode representar um contexto, uma realidade pessoal, ou uma tendência do momento, ou uma possibilidade de apostar em dias melhores para o seu existir? Em busca de compreensão do fenômeno em estudo fomos na direção de perceber os motivos que levam as pessoas a iniciarem a Biodanza. Perpassa, em todos os depoimentos, a ênfase nas mudanças, nas transformações, como uma direção que todas as pessoas dão em suas vidas. Que transformações são estas? Por que as pessoas têm tanta necessidade de mudanças? Estas respostas vêm através do eixo da vinculação afetiva, das mudanças nas relações em vista de uma vinculação. Ir até a Biodanza, permitir mudança e estabelecer uma vinculação afetiva é uma tentativa de resposta para a miséria afetiva de nosso momento atual. Uma busca que faz mudar o estilo de vida, sair da miséria afetiva, para uma vinculação amorosa, com repercussão nas relações consigo, com o outro e com o meio.
Imagem 9 - O contato com o outro. Vivência do I Congresso Internacional de Educação Biocêntrica e XXI Encontro Nordestino de Biodanza, João Pessoa-PB, 2010
Fonte: Foto de Valu Ribeiro-2010