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Considero que esta pesquisa apresenta caráter qualitativo e de base etnográfica. A pesquisa qualitativa caracteriza-se pela análise de um fenômeno de forma indireta através da “interpretação dos vários significados que o constituem” (MOITA LOPES, 1994, p. 331). De acordo com Patton (2002 apud REYBOLD et al, 2012) a pesquisa qualitativa nos permite compreender que diferentes lógicas podem surgir a partir da abordagem feita diante de uma amostra investigada.

Jorge (2005) nos explica que a pesquisa qualitativa também se caracteriza pelo compromisso com suas consequências políticas. Ampliando essa ideia, a referida autora salienta que os “teóricos críticos acreditam que a pesquisa deve emancipar os sem poder e transformar as desiguldades e injustiças sociais (BOGDAN e BIKLEN, 1998 apud JORGE, 2004, p. 129)”. Isso ressalta a forma como a escolha por uma metodologia qualitativa se adequa aos fundamentos teóricos utilizados na fundamentação desta pesquisa.

Tais fundamentos referem-se ao conceito de letramento crítico e seu papel de ressignificação do ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras. Considero que o LC proporciona a emancipação dos aprendizes e busca por reflexão e atuação dos mesmos diante dos atuais problemas educacionais e políticos (FREIRE, 1970; CERVETTI; PARDALES; DAMICO, 2001; LARSON & MARSH, 2005).

De acordo com Denzin e Lincoln (2005), a pesquisa qualitativa visa a compreender as razões e motivações subjacentes a um fenômeno; prover “insights” do contexto de um problema; fomentar ideias ou hipóteses para futuras pesquisas qualitativas e desconstruir ideologias prevalecentes. Além disso, ela permite uma sistematização dos fenômenos sem que haja exclusão de outras possibilidades (REYBOLD et al, 2012). Esse tipo de pesquisa nos ajuda a entender que algumas escolhas são deliberadas e projetadas durante o processo de pesquisa, ao passo que outras são espontâneas e provocadas pelas circunstâncias, sem deixar

de lado todos os elementos do contexto. “Para o investigador qualitativo, divorciar o ato, a palavra ou o gesto do seu contexto é perder de vista o significado” (BOGDAN & BIKLEN, 1999, p. 48). Além disso, os dados são interpretados de forma indutiva, não havendo uma intenção de se confirmar uma hipótese pré-estabelecida, mas antes, entender os múltiplos significados que vão emergindo dos dados analisados. Em outras palavras, na pesquisa qualitativa, os dados é que guiam a pesquisa e não o contrário. (DENZIN e LINCOLN, 2005).

Logo, o processo torna-se muito mais importante do que apenas os resultados. Não menos importante, na pesquisa qualitativa, não há restrições explícitas sobre o

que pode ser considerado um “dado” (DÖRNYEI, 2007) o que significa que o pesquisador precisa saber o que pode ser aproveitado dentre inúmeras informações coletadas. Conforme Flick (2012, p. 12) nos lembra: “a situação de pesquisa é concebida mais como um diálogo, em que a sondagem, novos aspectos e suas próprias estimativas encontram o seu lugar”. Contudo, o diálogo proporcionado entre os dados e pesquisador “com frequência requerem muito tempo e só é possível generalizar os resultados para as massas amplas de uma maneira muito limitada” (FLICK, 2012, p. 13).

Além disso, adoto como formato para a presente pesquisa, o “estudo de caso de base etnográfica”. Entendo que um “estudo de caso” trata primeiramente da complexidade e particularidade de um grupo de pessoas que estão inseridas em um processo referente a uma comunidade, organização e ou instituição. (DÖRNYEI, 2007; BROWN E RODGERS, 2002). Brown e Rogers (2002) nos explicam que muitos estudos de caso são também “estudos do desenvolvimento” 4

que abrangem um estudo do contexto, status, e interação entre os indivíduos, grupos, bem como uma “investigação de parâmetros e sequências de crescimento e mudança em função do tempo” (BROWN E RODGERS, 2002, p. 21).

Com relação à base etnográfica que caracteriza esse estudo, de acordo com Harklau (2005), uma pesquisa com esse teor permite ao observador enxergar um evento com os olhos de quem está dentro de um fenômeno. Hornberger (1994 apud DÖRNYEI, 2007) observa que a etnografia é ideal para gerar hipóteses iniciais e proporcionar uma visão holística do processo (por meio da observação de várias aulas) sem deixar de levar nada em consideração gerando

uma inter-relação de todos os componentes de um escopo maior. Hornberger (1994 apud DÖRNYEI, 2007, p. 133) defende que o valor da pesquisa etnográfica reside no fato de que

Essa abordagem permite, na verdade, a garantia do contraste e da comparação entre o que as pessoas dizem e o que as pessoas fazem em um determinado contexto e através dos contextos para chegar a uma representação mais completa do que está acontecendo (...) É através da comparação e contraste dessas dimensões que uma descrição realista e multifacetada começar a surgir

Outro aspecto importante é que o olhar etnográfico permite ao pesquisador não apenas observar as pessoas durante a realização de suas atividades cotidianas, mas, também participar, até certo ponto, dessas atividades, experienciando a visão de dentro e de fora do contexto pesquisado (SPRADLEY, 1980). Destaco dentre as características da base etnográfica, o fato de que a etnografia “envolve o estudo da cultura/características de um grupo em seu contexto real” (NUNAN, 2003, p. 55).

É importante destacar que, na tentativa de se observar uma determinada cultura, o observador comumente “esbarra” na questão da interferência que sua presença pode causar alterando a realidade que se quer descrever, havendo dessa forma certo dilema (NUNAN, 1995) que embora presente, não invalida a riqueza das observações feitas.

Baseado nos princípios acima, desenvolvo as seguintes formas de coleta de dados: observação de aulas, elaboração e aplicação de questionários para alunos da turma e pro- fessores, realização de entrevistas semiestruturadas com o professor participante, sessões de reflexão interativa com grupo focal (PESSOA, 2002), síntese e organização de princípios para desenvolvimento de atividades com perspectivas críticas e elaboração de atividades com perspectivas críticas, conforme descrito na seção 3.

3. 2. Caracterização do Contexto de Pesquisa

Para essa pesquisa qualitativa, optei como contexto, para a coleta de dados, uma turma de aceleração do Projeto Acelerar para Vencer (PAV) de uma escola pública da rede estadual de ensino de Minas Gerais, localizada em Belo Horizonte. Para uma melhor contextualização desta pesquisa, achei relevante explicar três aspectos. Primeiramente, o porquê no interesse genuíno na coleta de dados em uma escola pública. Em segundo lugar, descrevo a escola pública utilizada no contexto de pesquisa. E, em terceiro lugar, apresento os participantes envolvidos na pesquisa.

3.2.1. Pesquisa qualitativa na escola pública: por que sim?

Considerando que, de acordo com o Censo Escolar (2012), no Brasil, a escola pública possui mais de nove milhões de alunos matriculados é imprescindível que a reconheçamos como um espaço legítimo para se aprender uma língua estrangeira . De acordo com Bernardo (p. 97, 2007)

Se o ensino de uma língua estrangeira é dever da escola, e se grande parte das escolas oferece exclusivamente o inglês, e ainda se, no caso dos alunos das camadas populares, a escola pública é o único lugar de aprendizado desse idioma, é de se esperar que seu ensino seja eficaz e significativo para eles.

Diante dessas considerações, acredito que é preciso que as pesquisas em linguística aplicada tenham uma perspectiva crítica no sentido de resgatar a ideia da escola pública como espaço privilegiado de realização de pesquisas. Além disso, pesquisas realizadas na escola pública podem reforçar a ideia de que ela é um local adequado para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras reafirmando o compromisso delas no cenário educacional. Infelizmente, o ensino de línguas estrangeiras na escola pública apresenta, conforme constatado em muitas pesquisas, um “quadro desolador” (WALKER, 2003, p 47; ASSIS-PETERSON; COX, 2008; DIAS, 2006).

Cabe ressaltar, ainda, que a aprendizagem de uma língua estrangeira está sempre cercada de valores sociais e prestígios que são oportunizados por meio dessa aprendizagem (MOITA-LOPES, 1996). Isso significa que pesquisas realizadas na escola pública podem contribuir para a melhoria do ensino e aprendizagem da língua estrangeira para muitos alunos do sistema público de ensino para os quais, segundo os PCN, a aprendizagem de uma LE “é uma possibilidade de aumentar a autopercepção do aluno como ser humano e como cidadão (...) de maneira que ele possa agir no mundo social” (BRASIL, 1998, p. 15).

Não podemos nos esquecer que a escola pública é um espaço comum de implantação de várias políticas públicas, como por exemplo, as de aceleração da aprendizagem. Essas políticas têm desdobramentos sobre a escola, o professor, o aluno e o ensino /aprendizagem da língua inglesa. Considero que uma pesquisa qualitativa na área de linguística aplicada, contextualizada na escola pública, pode permitir uma investigação científica com potencial de reflexão crítica e descobertas que podem ser benéficas para esse contexto e especialmente em se tratando do ensino/aprendizagem de inglês de alunos na escola pública em uma turma de aceleração.

3.2.2. A escola pública onde os dados foram coletados

A escola onde esta pesquisa foi realizada está situada na região norte de Belo Horizonte. Nessa pesquisa chamarei essa escola de Dionísio. A escola Dionísio possui ensino fundamental (6º ao 9º ano) e médio (1º ao 3º ano). As turmas de ensino fundamental são ofertadas durante os turnos da manhã e da tarde, ao passo que o ensino médio é ofertado no turno da manhã e no turno da noite. Nesta escola, há turmas do projeto Acelerar para Vencer (PAV) desde 2009. Dionísio é uma das raras escolas na região que oferece a oportunidade de alunos “acelerarem seus estudos”, oferecendo turmas de PAV. Contudo, nos últimos dois anos a escola tem se limitado a oferecer apenas turmas de PAV 2 (8ª e 9ª ano).

A escola, fundada há 43 anos, passou por uma reforma na infraestrutura para sua ampliação e readequação nos últimos três anos. A direção de Dionísio é composta pela mesma equipe há quase três anos devido à reeleição ocorrida no ano de 2011. Relativamente à sua infraestrutura, a escola possui vários recursos pedagógicos e didáticos (sala de multimeios, laboratório de informática, mini-auditório, biblioteca). A escola disponibiliza, na sala dos professores, seu projeto pedagógico, lista de materiais presentes na escola, informes organizados em categorias (administrativa, sindicato, avisos...). A escola mostra-se limpa e organizada na maior parte do tempo.

A escolha pela realização da pesquisa nessa escola foi feita tendo em vista que se trata de um local onde o pesquisador havia ministrado aulas por cinco anos. Logo ele conhecia bem a direção, as equipes pedagógica e administrativa, bem como os alunos dessa instituição. Toda a comunidade escolar mostrou-se interessada e colaborou muito com o pesquisador durante sua estadia para a realização da pesquisa na escola.

Benzer Belgeler