I. BÖLÜM
2.2. Motivasyon Kavramı ve Başlıca Boyutları
LTI. A língua do Terceiro Reich293 de Victor Klemperer compõe-se de textos escritos a partir de 1933. Foi organizado em livro e publicado em 1947 graças a um primeiro momento de euforia antinazista. Contudo, apesar de constantes reedições, nunca chegou a ter grande divulgação provavelmente porque a crítica de uma língua em tempo de ditadura questionava aspectos do regime da República Democrática Alemã.294
292
KLEMPERER, Victor. LTI. La língua del Terzo Reich. Taccuino di un filologo. Firenze: Giuntina, 2008. Victor Klemperer era originário de uma família burguesa judaica que estava completando o processo de assimilação e integração na Alemanha. Apesar de o pai ser rabino, ele sentia-se, no entanto,e acima de tudo, alemão. Com a chegada do nazismo, em 1935 foi excluído da profissão que exercia desde 1919, como professor de literatura francesa na cidade de Dresden. Conseguiu escapar à deportação para o campo de extermínio graças à mulher, Eva Schlemmer, à qual o livro é dedicado e que provinha de uma rica
família “ ariana”. Mesmo tendo tido a sorte de evitar a deportação, Klemperer e sua mulher foram
obrigados a deixar sua casa e morar em um dos edifícios destinados aos judeus. Juntos sofreram anos de perseguições, humilhações, proibições, ameaças, dificuldades, juntamente com o pavor constante da deportação. A partir de 1942 Klemperer foi destinado ao trabalho forçado durante 10 horas por dia numa fábrica. Somente após o conflito ele pôde retomar sua profissão na Alemanha Oriental, onde decidiu permanecer.
293 Por praticidade, a partir de agora utilizaremos apenas a abreviação LTI mesmo para a obra de
Klemperer.
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Primo Levi observou a existência de vocábulos pertencentes ao jargão tanto do velho exército prussiano e do Lager alemão quanto do Gulag soviético (com todas as devidas distinções entre todas as experiências e entre o sistema nazista e o sistema soviético). Neste caso, trata-se de uma nova linguagem peculiar: “ um Lagerjargon, subdividido em subjargões específicos de cada Lager, e estreitamente aparentado com o velho alemão das casernas prussianas e com o novo alemão dos SS. Não espanta que se mostre um paralelo ao jargão dos campos de trabalho soviéticos, vários de cujos termos são citados por Soljenitsin: cada um deles encontra seu correspondente exato no Lagerjargon. A tradução alemã do Arquipélago Gulag não
Com as leis raciais hitlerianas e à medida que Klemperer foi proibido de desenvolver seus estudos filológicos, este racionalista, interessado no século do Iluminismo, não pôde mais expressar-se no trabalho ou nas pesquisas científicas, e assim a língua daquele tempo tornou-se seu interesse favorito.295
Primo Levi e Victor Klemperer (1881-1960) compartilharam várias décadas da história européia, a perseguição nazista por serem de origem judaica, o destino de sobreviventes e de testemunhas. Além do mais, o filólogo alemão e o escritor-químico italiano possuíam outras características em comum, como uma grande lucidez e a capacidade de observação dos fenômenos humanos que os cercava. E ainda: eram judeus- não judeus, ou seja, indivíduos mais identificados com a nação do que com o judaísmo. E, se existia algum vínculo com a tradição judaica, foi após o nazismo que se ligaram de uma forma mais forte a esta segunda identidade. Como escreveu Jean Améry, a perseguição nazista colocou quem era de origem judaica, mas sem a prática da tradição religiosa, na condição inconciliável - outra aporia - da “obrigação e impossibilidade de
ser judeu”. 296
Além disso, Klemperer e Levi manifestavam um humanismo profundo, a fé na razão e na herança iluminista e ambos acreditaram na tarefa de testemunha. Suas obras não foram desde logo valorizadas: no caso de Levi, como já mencionamos, a primeira obra narrativa foi re-descoberta com mais importância quase dez anos após a primeira edição; e, no caso de Klemperer, LTI foi publicado em 1947, porém sem sair das fronteiras da Alemanha Oriental, e somente quinze anos depois de sua morte alcançou o Ocidente. Ambos procuraram identificar os mecanismos perversos a seu redor, tentando entender, gravando na memória, para um dia poderem testemunhar. As palavras, de certa forma, os ajudaram a sobreviver emocional e mentalmente.
Para a observação específica dos fenômenos da linguagem, Klemperer desfrutou de sua formação de filólogo e Levi do particular interesse pelos acontecimentos linguísticos,
deve ter apresentado muitas dificuldades; ou, se apresentou, não foram terminológicas.” (LEVI, Os
afogados e os sobreviventes, p.85)
295
KLEMPERER, LTI, p. 28
entrelaçado à sua formação científica de químico. Klemperer e Levi compartilharam, portanto, a perspicácia do olhar científico e a necessidade de testemunhar. A narração testemunhal, a partir de uma vivência individual, pretende- se fazer porta-voz de um evento coletivo catastrófico, analisando-o, tentando compreendê-lo, transmitindo aos leitores seus mecanismos e seu funcionamento.
O título irônico do livro de Klemperer simula a mania da época de usar siglas bombásticas297. LTI, Língua Tertii Imperii, portanto, funciona como paródia e, ao mesmo tempo, como SOS, como “legítima defesa”298 ou uma “haste para permanecer em
equilíbrio”299
, constituindo um conjunto de anotações estimuladas pela urgência de testemunhar:
Nas horas do desgosto e do desespero [...] quando o coração se recusava a funcionar, sempre me ajudou esta exortação feita a mim mesmo: observe, estude, imprima na memória os acontecimentos, amanhã as coisas aparecerão diferentes, amanhã você sentirá de maneira diferente: grave a forma com a qual as coisas se manifestam e operam. E logo este convite, a me colocar acima da situação conservando minha liberdade interior, sintetizou-se numa fórmula misteriosa e sempre eficaz: LTI!LTI! 300[trad. nossa da ed. italiana]
Este aspecto da sobrevivência através do exercício da observação e projetando o resgate no testemunho posterior também aparece em Primo Levi. O escritor afirmou que um dos fatores determinantes, além da sorte e de outras circunstâncias que nunca deixou de
narrar, foi a vontade não apenas de sobreviver (como era para a maioria), mas “de
sobreviver com a finalidade precisa de contar as coisas que tínhamos visto e
suportado”301. A motivação assume um caráter de “resistência”, que não inclui uma ação
297 KLEMPERER, LTI, p.25 298 Ibidem 299 Ibidem 300 Ibid., p.26
301 "Forse mi ha aiutato anche il mio interesse, mai venuto meno, per l'animo umano, e la volontà non
de cunho político, mas baseia-se na evidência de que sobreviver, ou seja, viver, era a única forma de resistir ao extermínio, pois “justamente porque o Campo é uma grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais; até num lugar como este, pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso
depoimento.” 302
A necessidade de testemunhar devolve ao frágil sobreviver um sentido de dignidade e humanidade, o gesto futuro reforça a vontade fragilizada.
Robert Antelme relata a mesma tenacidade de sobreviver como “resposta” ao projeto criminoso da solução final: “Não devemos morrer, nisso está a verdadeira finalidade da
luta. Pois, cada morte é uma vitória do SS. ”303
Já vimos os vários motivos para “falar” ilustrados por Levi 304 e sua forte intenção testemunhal fundamentada na observação atenta, no olhar desprendido do cientista e ao mesmo tempo envolvido do futuro escritor.
Klemperer, por sua vez sacrificou horas preciosas de sono para poder anotar, toda madrugada, antes do trabalho na fábrica, suas observações:
Naquele tempo não permiti que nada me fizesse desistir da minha idéia, toda manhã eu levantava às três e meia e quando começava o trabalho já havia anotado os acontecimentos do dia anterior. Dizia a mim mesmo: é com seus ouvidos que você escuta, você escuta o cotidiano, justamente o dia a dia, o que é corriqueiro, comum, humildemente anti-heróico. E afinal, desta maneira eu me agarrava à minha haste de equilíbrio[...] 305 [trad. nossa da ed. italiana]
cose a cui avevamo assistito e che avevamo sopportate.” (LEVI, Opere I., p. 201, tradução nossa. Trata-se
da “Appendice” a SQU, acrescentada pelo escritor à edição escolar de 1976)
302 LEVI, p.39
303 ANTELME, p. 75, tradução nossa
304 Citação apresentada parcialmente no capítulo 1, na p.36: “Aqueles que experimentaram o
encarceramento (e, muito mais em geral, todos os indivíduos que atravessaram experiências severas) se dividem em duas categorias (...): os que calam e os que falam. Ambos obedecem a razões válidas [...]. Falam porque , em vários níveis de consciência, percebem no (ainda que longínquo) encarceramento o centro de sua vida, o evento que, no bem e no mal marcou toda suaexistência. Falam porque sabem ser testemunhas de um processo de dimensão planetária e secular. Falam porque (cita um ditado ídiche) „é bom narrar as desgraças passadas‟ ”. (Os afogados e os sobreviventes,p. 127)
Mais tarde, quando a guerra e as perseguições terminaram, o filólogo perguntou-se o que fazer de tantas páginas de diário. Um dia, falando com uma mulher que tinha sido colocada na cadeia durante o nazismo, Klemperer quis conhecer o motivo do aprisionamento. Ela respondeu: “por umas palavras”. E foi assim que ele teve uma iluminação entendendo que seu livro ia nascer “não por vaidade, mas por umas
palavras”.306
A língua oferece a “salvação” do testemunho, e novamente ela dá testemunho de si própria.