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I. BÖLÜM

2.5. Eğitimde Motivasyon

Não é possível escolher a própria língua de origem.349 Derrida, no entanto, radicaliza as consequências da falta de opção, partindo da narração de sua história linguística, sendo esta a sede de um trauma.

Para o filósofo argelino – de origem judaica - a cesura aconteceu com a ablação de uma língua proibida (o idioma árabe e o berbere) em prol do francês, língua de cultura, da lei, língua imposta por outros, num contexto colonial.

Aquilo que digo, aquele que digo, este eu [je] do qual falo, em uma palavra, é alguém - segundo o que lembro, bem ou mal - a quem foi interditado o acesso à língua não francesa da Argélia (árabe dialetal ou literário, berbere etc.). Porém, este mesmo eu [je] é alguém a quem, de outra maneira, dissimulada e perversa, o acesso ao francês também foi interditado. Através de uma interdição que, por isso mesmo, proibía o acesso às identificações que permitem a autobiografia apaziguada, as

“memórias” no sentido clássico. 350

[trad.nossa]

348 Calcagno segue observando que Dante, ao escrever, dedicou uma atenção primorosa à palavra, assim

como Levi procura as palavras certas e precisas para transmitir sua experiência ou contar suas histórias. Calcagno encontra um paralelismo entre o ato do escritor e o do químico: o escritor, como o químico, é o Adão que dá realidade às coisas ao nomeá-las. Nisto, o crítico vislumbra a perspectiva judaica que considera a escrita como um ato criador, fundador de vida. Comentários em CALCAGNO, Giorgio.Dante, dolcissimo padre. In VV.AA.Al di qua del bene e del male- La visione del mondo di Primo Levi. Atti del Convegno Internazionale, Torino, 15-16 dicembre 1999.Milano: Franco Angeli, 2000, pp.167-174

349Étienne Balibar explicita desta forma: “Toute ´personnalité´ est construite avec des mots, dans lesquels

s‟énoncent le droit, la généalogie, l‟histoire, les choix politiques, les qualités personnelles, la psychologie. Mais la constuction linguistique de l‟identité est par définition ouverte. Aucun individu ne ´choisit´sa

langue maternelle, ne peut en changer à volonté. ” (BALIBAR Étienne, WALLERSTEIN Immanuel. Race, nation, classe; les identités ambigües. Paris: La Découverte, 2007, p.134)

350 “Ce que je dis, celui que je dis, ce je dont je parle em un mot, c‟est quelcun, je m‟en souviens à peu

près, à qui l‟accès à toute langue non française de l‟Algérie (arabe dialectale ou littéraire, berbère, etc.) a

été interdit. Mais ce même je est aussi quelcun à qui l‟ accès au français, d‟une autre manière, apparemment détournée et perverse, a aussi été interdit. ” (DERRIDA, Le monolinguisme de l‟autre, pp.56-57)

O próprio francês, primeira e única língua, não alcança o estatuto de língua materna, pois provém de uma capital distante e estrangeira e não da mãe, por sua vez, mutilada de sua língua materna 351.

Sua língua pertence a uma pátria longínqua, deslocada, “ailleurs”352, além das fronteiras de sua terra natal, um lugar “non pas étranger, mais étrange”353(não estrangeira, mas estranha). Ao mesmo tempo, a língua “local” de parte da população, familiar pela proximidade, permanece estranha-estrangeira gerando o sentimento contraditório do

Unheimliche: “eis o estranho e o inquietante, do outro como o próximo mais próximo.

Unheimlich. Para mim foi a língua do vizinho.354

De diversa forma, para Primo Levi a fratura ocorre diante do iídiche, o idioma dos judeus que ele não conhece e que coloca em questão seu pertencimento ao mundo judaico. Para ele a língua do vizinho e ao mesmo tempo unheimlich é o iídiche, a língua percebida como estrangeira e próxima, necessária e inacessível (no entanto, é uma língua que

consegue “dizer” o indizível, como vimos com a personagem de Hurbinek).

No Lager a identidade de grupo resulta extremamente dependente do idioma comum. O encontro entre judeus do leste e do oeste europeu revela-se extra-ordinário pelo choque da diferença e, como vimos no caso de Levi, pelo desamparo de não pertencer nem à comunidade judaica majoritária de língua iídiche.

A experiência individual, em Derrida, permite um ponto de vista crítico que devolveria o testemunho de uma condição universal, pois “alguns indivíduos, em determinadas situações, atestam os traços de uma estrutura todavía universal, revelam-na, a indicam-na, trazem-na à tona „mais em carne viva‟, mais em carne viva como usa-se dizer e porque

351“ma mère, elle-même, ne parlait pas plus que moi [...] une langue qu‟on pût dire “pleinement”

maternelle”. (Ibid., p.65)

352

Ibid., p.72

353 Ibid., p.73

354“Voilà l´étrange et l´inquiétant, de l´autre comme le prochain le plus proche. Unheimlich. Pour moi ce

isto se diz sobretudo de uma ferida.” 355Qualquer um poderá, então, dizer: “Eu só tenho

uma língua, e não é a minha” (Je n´ai qu´une langue, ce n´est pas la mienne)356

, sendo o caráter alienante próprio da língua. Segundo Derrida ninguém possui uma língua “por natureza” e a apropriação de um idioma pode resultar apenas numa escolha de posse, senão de imposição num processo de colonização.357 A língua é uma Lei, a manifestação de um poder, minha língua é sempre a língua de outrém.

O discurso sobre a língua torna-se testemunho da própria história linguística; testemunhar

através da mesma língua em questão determina uma condição de “refém universal”358

, pois quem fala o faz de dentro dela, onde habita, mas onde é também prisioneiro. Entretanto, é esta condição específica que permite ao filósofo construir a reflexão sobre o

“monolinguismo do outro”, esta única língua que nos ocupa e nos constitui, que

habitamos a força, sem escolha, sem saída e que é de outrem.

Trata-se de uma condição de exílio, sem dúvida, que expõe o indivíduo a uma instabilidade ou fragmentação psíquica. “Ser franco-maghrebino, sê-lo „como eu‟, não é sobretudo, sobretudo não é um acréscimo ou uma riqueza de identidades, atributos ou nomes. Na realidade, isto denunciaria, em princípio, um transtorno da identidade.”359 A identidade sofre uma limitação, pois a afasia implica uma inévitavel alteração sobre como pensar a memória; segundo Derrida, a proibição ao acesso de uma língua-mãe

proibiu ao mesmo tempo o acesso às identificações “que permitem a autobiografia

apaziguada, as „memórias‟ no sentido clássico”360. Em que língua, então, escrever memórias e testemunhar? Além disso, outras interrogações surgem em âmbito

355“certains individus, dans certaines situations, attestent les traits d´une structure néanmoins universelle, la

révèlent, la donnent plus à vif, plus à vif comme on le dit et parce qu´on le dit surtout d´une blessure ” [...] (Ibid., p.40)

356 Ibid., p. 13

357 Ibid., pp.45-48, passim 358 Ibid., p.40

359“Être franco-maghrébin, l´être ´comme moi´, ce n´est pas, pas surtout, surtout pas, un surcroît ou une

richesse d´identités, d´attributs ou de noms. Cela trahirait plutôt,d´abord, un trouble de l´identité” (Ibid., p.32)

psicanalítico: “Este transtorno da identidade facilita ou inibe a amnésia? Será que aguça o desejo de memória ou desespera o fantasma genealógico? Reprime, recalca, libera? ” 361 A questão da estruturação do sujeito através de sua história linguística ocupa os autores Amati-Mehler, Argentieri e Canestri, os quais desenvolvem sua reflexão a partir das experiências de indivíduos multilíngues. Em A Babel do inconsciente esta última pergunta traça uma das pistas principais da indagação: ser habitado por diversas línguas seria uma deficiência, um obstáculo ou uma riqueza? Do ponto de vista psicanalítico, o problema envolve a relação entre linguagem e inconsciente já que, ao longo das sessões de análise, uma língua estrangeira pode ajudar o sujeito a revelar ou a ocultar eventos e emoções vivenciados na língua de origem362. “Uma segunda língua representa uma forma

de defesa para garantir certo grau de afastamento emocional e de controle. ”363

. Portanto

“às vezes, uma nova língua representa uma tábua de salvação, um refúgio para ´renascer´. Outras vezes, pode ser um expediente para mutilar o próprio mundo interno.”364

Por outro lado, um indivíduo monolíngue pode também vivenciar a Babel,dentro de si :

Podemos especular se, mesmo no interior da mesma língua, cada evento de comunicação [...] não

comporta sempre um ato incognoscível de “tradução”e interpretação [...] Tanto mais que [...] no interior da mente de cada um de nós podem conviver áreas psíquicas estrangeiras”entre si,

veiculadas por vezes pela língua, outras vezes apenas por diferentes contextos linguísticos, em uma dimensão de potencial incomunicabilidade. 365

Uma tese próxima é expressa por Steiner em After Babel: “todo modelo de comunicação

é, ao mesmo tempo, um modelo de tra-dução”. 366

Isto equivale a estabelecer algum “grau ” de fragmentação e de estranhamento em todo ser humano (pelo menos na civilização moderna) que - podemos deduzir - alcançaria

361 AMATI-MEHLER et alii, A Babel do inconsciente, p.37 362 Ibid., p.74

363 Ibid., p.81 364 Ibid., p.138 365

Ibid., p.33

uma radicalização ou seu total desvelamento num contexto externo extremo como a Babel de Auschwitz.

Um capítulo inteiro de A Babel do inconsciente - “Do mundo dos poetas: o

estranhamento como profissão” - é dedicado aos escritores habitados por diversas

línguas, para os quais a consequente experiência de “exílio” ou “salvação” vem à tona de maneira iluminadora. Hector Bianciotti e Elias Canetti representam dois exemplos opostos de relacionamento com esta multiplicidade: a fragmentação, a divisão, a dispersão em Bianciotti; a vitalidade, o resgate do amor materno para Canetti; enquanto para Tzvetan Todorov, bilíngue francês-búlgaro, “era impossível fazer dessas duas metades um todo: ou era uma, ou era a outra.”367, pois mudar de língua significava

“mudar de interlocutor”.

A ligação entre conhecimento das línguas e salvação remete a Elias Canetti, para o qual

“o banho multilinguístico e multicultural”368

apresentou-se sob um signo positivo e vital, correspondente ao contexto familiar judaico-espanhol e sócio-cultural búlgaro.

Se a língua é o símbolo da comunidade (talvez o mais poderoso369 ) e o signo através do qual se identificam seus membros que, falando a mesma língua, se reconhecem como fazendo parte do mesmo grupo, do mesmo povoado ou da mesma nação370, torna-se evidente como a situação de um judeu de língua alemã pudesse criar uma ruptura interna à identidade nacional-linguística durante o domínio nazista. Embora não se trate do

interdit de Derrida, para os sobreviventes germanófonos como Jean Améry ou na experiência de Paul Celan a violência de uma imposição, ainda que de outro timbre, cria a fratura insanável de uma língua que não pode ser mais percebida como própria. Neste caso, mais do que apropriação passiva ou cúmplice de uma Lei, verificou-se a expropriação de uma parte de si e o conflito interno para justamente se distanciar da identificação com o opressor. De qualquer maneira ocorreu a perda de uma relação

367 AMATI-MEHLER et alii, A Babel do inconsciente. p.91 368 Ibid., p. 217

369 BEREMBLUM, A invenção da palavra oficial, p. 20

370 SIGUAN apud BEREMBLUM, ibid., p. 21. Segundo Beremblum, na história da constituiçao das nações

a língua revestiu uma função de identificação com a nação e “doit se confondre avec la nation, s‟enraciner

límpida com seu idioma, transformado em linguagem das SS e dos Kapos e, como mostra Klemperer, numa escala maior, em língua de todo território do Terceiro Reich. No caso de Victor Klemperer, conforme vimos, o sofrimento pelo trauma da língua poluída levou à anotação diária de exemplos da nazificação do idioma com a finalidade de limpá- lo e devolvê-lo à Alemanha liberta. Com sentimento análogo de resgate, Ruth Kluger re- encontraria uma relação criativa e de confiança com a língua mãe, já percebida durante a

permanência em Theresienstadt, em território tcheco, como língua “errada” e língua “do inimigo”, antes de ser tranferida para Auschwitz, onde o estranhamento perdurou diante das deturpações semânticas da língua “nazificada”.371

O espaço-tempo de Auschwitz é nitidamente recusado, por sua vez, como marca que a testemunha carrega como se determinasse uma nova origem. Vale a pena citar as palavras de Kluger transmitindo com amarga e aguçada sabedoria a impossibilidade de expelir o corpo estranho e, ao mesmo tempo, a tenacidade em considerá-lo separado de si:

Não pertenço àquele lugar que vi com os olhos, senti com o nariz e temi como nunca [...] E, no entanto, esse lugar torna-se para todo aquele que sobreviveu uma espécie de local de origem. Também em relação a mim, as pessoas que querem dizer algo importante a meu respeito mencionam que estive em Auschwitz. Mas não é tão simples assim, pois não importa o que vocês possam pensar, não venho de Auschwitz, eu venho de Viena. Viena não pode ser posta de lado, ela se percebe pela minha linguagem; Auschwitz, porém, era tão estranho para mim quanto a lua. Viena é uma parte de minha estrutura mental e fala através de mim, enquanto Auschwitz foi o lugar mais despropositado onde jamais estive e a lembrança que eu tenho de lá permanece na alma como um corpo estranho, como um projétil de chumbo que não pode ser extirpado do corpo. Auschwitz foi apenas um acaso monstruoso. 372

Há, aqui, uma afirmação de proveniência, onde dizer a origem significa ligá-la à linguagem e, por extensão, à identidade. Viena é a casa, Auschwitz um planeta outro. Quem fala através do sujeito é Viena; Auschwitz não pertence à ordem daquilo que fala pela boca de um ser humano, mas é algo que se extirpa, se extrae com violência ou permanece como uma invasão, o Unheimliche monstruoso e assustador que se opõe à

371

KLUGER, Paisagens da memória , p.85

Heim, Heimat. A linguagem revela, portanto, um pertencimento claro, o alemão de Kluger não coincide com a língua do nazismo, e não apenas por ela vir de outra região geográfica, outra nação (a Áustria) e sim por ela vir de uma nação, uma geografia

humana.

É necessário precisar que em alemão existe também o termo Vaterland (literalmente a terra do pai) que costuma indicar a nação como entidade política, distinta e separada das outras nações. Uma Heimat– o solo, a comunidade cultural e linguística -pode coincidir com a Vaterland ou pode ser nela contida ou ainda ultrapassar suas fronteiras; por outro lado uma Vaterland pode aumentar até as dimensões de um império e perder suas qualidades positivas de Heimat.373 Enquanto a tendência do debate intelectual em épocas de nacionalismos exacerbados era salvar o conceito de Heimat e olhar com desconfiança para a idéia de Vaterland, Améry, também austríaco e “experiente sem-pátria” preferia a Heimat, declarando no entanto: “rejeito a sutil distinção entre Heimat e Vaterland e creio que minha geração poderá dificilmente renunciar às duas coisas, que afinal são uma

só.”374

E acrescentava: “meu país tornou-se para mim totalmente estranho quando no dia 12 de março 1938 privaram-no de sua autonomia estatal e foi anexado ao Reich

alemão.”375

Améry relata como, já durante o exílio na Bélgica, antes da deportação, lia os jornais em alemão com “um profundo asco”; para ele “modificou-se o conteúdo profundo de cada palavra alemã e no fim, a língua mãe tornou-se, apesar de tudo, tanto hostil quanto os que

a falavam em volta.”376

A ferida, portanto, pode permanecer aberta e o estranhamento encobrir a linguagem. Um sentimento parecido encontra-se em Paul Celan, de língua alemã, nascido numa província

da Romênia.“A língua pode se tornar estrangeira para quem a fala [...] Celan testemunha

uma dupla cesura, a do indivíduo em relação a sua língua e a do indivíduo em relação a

373 AMÉRY, Intellettuale ad Auschwitz, p.103 374 Ibid., p.102, trad. nossa da ed. italiana 375

Ibid., p.103

seu co-locutor, dupla ferida infligida pela história.”377 Uma língua perdida, como uma mãe, como uma pátria, que depois da Shoah permanece, como observa Rosana Kohl Bines, “fatalmente atrelada ao universo da barbárie”378. Nas palavras do poeta, “ela, a língua, foi preservada, sim, apesar de tudo. Mas teve que atravessar sua própria falta de respostas, teve que atravessar um mutismo espantoso, atravessar as mil trevas dos

discursos assassinos.”379

Primo Levi, que como italiano percebeu a dificuldade de compreensão e de interação na Babel caótica de Auschwitz, se dá conta também da vivência dos falantes em alemão e relata o sentimento de mutilação da linguagem, comum a todos, italianos e alemães, em formas diferentes. Referindo-se a Mayer-Améry o escritor descreve uma situação que poderia se adaptar ao caso de Klemperer e de outros:

Também Améry-Mayer afirma ter sofrido em razão da mutilação de linguagem que mencionei [...]: no entanto, ele era de língua alemã. Sofreu com isso de modo diferente de nós, aloglotas, reduzidos à condição de surdos-mudos: se me for lícito, de um modo mais espiritual do que material. Sofreu com isso porque era de língua alemã, porque era um filólogo amante de sua língua: como sofreria um escultor que visse deturparem ou amputarem uma estátua dele. Assim, o sofrimento do intelectual era diferente, neste caso, daquele do estrangeiro inculto: para este, o alemão do Lager era uma linguagem que ele não compreendia, com risco de sua vida; para aquele, era um jargão bárbaro, que ele compreendia mas lhe esfolava a boca se tentava falá-lo. Um era deportado, outro, um estrangeiro na pátria. 380

Se os falantes de idioma alemão encontraram-se exilados em sua própria língua, ou perderam-na381, por períodos, mais ou menos longos e em graus diferentes, cada

377 NOUSS, A.. Dans la ruine de Babel: poésie et traduction chez Paul Celan. La Revue TTR . Le festin de

Babel / Babel´s feast . Vol. IX, n. 1 p.25.

378 KOHL BINES, Rosana. Para ouvir Celan. Poesia sempre, Rio de Janeiro, n. 28, p.234, Ano 13/2008, 379 CELAN apud NOUSS, op.cit., p.25

380 LEVI, Os afogados e os sobreviventes, p.115-116

381“ [...] privados de suas propriedades, de suas casas, de seu patrimônio – ou mesmo só de seu modesto

emprego – e ainda de sua terra, dos campos, das colinas, de um bosque, do perfil de uma cidade, da igreja na qual tínhamos celebrado a crisma. Nós também perdemos tudo isso e, ainda mais, perdemos os seres humanos: o colega de escola, o vizinho, o professor. Eles transformaram-se em delatores, em carrascos, na melhor das hipóteses conformavam-se a uma embaraçada espera. E perdemos a língua.” (AMÉRY, Intellettuale ad Auschwitz, p.86, trad. nossa da ed. italiana)

prisioneiro - e, mais ainda, cada prisioneiro judeu - foi testemunha da fratura que Derrida

expressou no axioma “Eu tenho apenas uma língua e não é a minha.”

Da condição do indivíduo monolíngue descrita por Derrida – desprovida de possibilidades de enraizamento e de ponto de partida (“há apenas uma língua de chegada”) – surge um nexo entre falta de palavra (afasia) e escrita como preenchimento de um vazio, como discurso possível onde algo impede de falar.

O monolingue de quem falo fala uma língua da qual é privado. O francês não é a sua. Por ser privado, portanto, de toda língua, e não tendo outros recursos – nem o árabe, nem o berbere, nem o hebraico, nem qualquer uma das línguas dos antepassados -, e por este monolinguismo ser, de alguma maneira, afásico (talvez ele escreva porque é, de alguma maneira, afásico), ele encontra-se então jogado na tradução absoluta, uma tradução sem pólo de resistência, sem língua de origem, sem língua de partida. Para ele há apenas línguas de chegada. 382 [trad. nossa]

Como foi dito, a reflexão de Derrida abrange uma dimensão coletiva, pois toda cultura é, segundo o filósofo, originariamente colonial.383

Em Primo Levi, todavia, a contradição insinua-se na fronteira entre o dizível e o indizível do Lager - mais do que numa cesura intrínseca à língua materna-, enquanto a escrita supre a afasia de Hurbinek (e, por extensão, dos “afogados”) e é movida, portanto, de alguma forma, tanto por uma condição afásica, quanto para diminuir seus riscos. O

“eclipse da palavra”, para Levi, sempre foi “um sintoma infausto”384

.

382“Le monolingue dont je parle, il parle une langue dont il est privé. Ce n‟est pas la sienne, le français.

Parce qu‟il est donc privé de toute langue, et qu‟il n‟a plus d‟autres recours – ni l‟arabe, ni le berbère, ni l‟hébreu, ni aucune des langues qui auraient parlé des ancêtres -, parce que ce monolinguisme est en

quelque sorte aphasique (peut- être écrit-il parce qu‟il est en quelque sorte aphasique), il est jeté dans la traduction absolue, une traduction sans pôle de rérérence, sans langue originaire, sans langue de départ. Il

n‟y a pour lui que des langues d‟arrivée ” (DERRIDA, Le monolinguisme de l´autre, p .117)

383

Ibid., p.68

A escrita traça um percurso de individuação, ou, por sua vez, torna-se possível a partir do

próprio processo já encaminhado, pois em princípio “quem escreve já deve saber dizer

eu”. 385