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I. BÖLÜM

2.4. Motivasyon ve Öğretim Tasarımı

Desde o começo de SQU, correspondente à narração da chegada a Auschwitz, o leitor toma conhecimento de inúmeras palavras alemãs, nem sempre acompanhadas da tradução do autor:

Häftling: aprendi que sou um Häftling. Meu nome é 174.517. (p. 25)307

Então, só resta o hospital, mas entrar no hospital com o diagnóstico “dicke Füsse” (pés inchados) é

sumamente perigoso [...] (p.33)

Esta será, então, a nossa vida. Cada dia, conforme o ritmo fixado, Ausrücken e Einrücken, sair e voltar (p. 34)

Para mim não há necessidade de um exame minucioso; de imediato sou declarado Arztvormelder, que não sei o que quer dizer e este não é o lugar onde pedir esclarecimentos [...] amanhã, porém, em vez de ir ao trabalho, deverei reapresentar-me aos médicos para a visita definitiva: Arztvormelder significa isso. (p. 46);

A uns cem metros está o Bloco 23; leio Schonungsblock, quem sabe o que quer dizer. (p.47)

306 Ibid., p. 354

307 Lembramos que em alemão o som correspondente ao número 174.517 é “hundert vier und siebzig

Mas além do efeito de “desconhecido”, de estrangeiro, a linguagem do Campo confirma a

intenção de humilhar e aniquilar. Levi nos oferece várias imagens do efeito que palavras cruéis tem sobre o tradutor da ocasião. Um exemplo está no episódio de um homem idoso que precisa de um suporte para uma hérnia :

Eu nunca tinha visto velhos nus. O Sr. Bergmann usa um cinto herniário; pergunta ao intérprete se deve tirá-lo e o intérprete vacila. O alemão compreende, porém; fala sério ao intérprete indicando alguém; o intérprete engole seco e traduz: - O sargento diz que o senhor tire o cinto e que receba o do Sr Coen. Nota-se que as palavras saem amargas da boca de Flesh; foi este o jeito do alemão de rir de nós. 308

Em outro momento o idioma alemão volta a ter um sabor correspondente à maldade de quem o usa:

Abre-se a porta, entra um alemão, é o sargento de antes; fala brevemente, o intérprete traduz: - O sargento mandou ficarem calados, isto não é uma escola rabínica. Vê-se que as palavras, estas palavras maldosas, que não são dele, fazem repuxar a sua boca, como se ele cuspisse um bocado nojento. 309

Por isso, segundo o autor, judeus investidos da tarefa de tradutor são os primeiros a perceber o gosto insuportável da língua destrutiva e a violência de ter que usá-la.

Esse Flesh que, contra sua vontade, concorda em traduzir para o italiano frases alemãs geladas, e que se recusa a verter para o alemão as nossas perguntas, porque sabe que não adianta, é um judeu alemão de uns cinquenta anos [...]. É um homem retraído e calado, pelo qual sinto um espontâneo respeito, porque compreendo que começou a sofrer antes de nós. 310

308 Levi, p. 21 309

Ibid., p.22

A amargura que brota das palavras e das intenções parece um prelúdio à falta de linguagem dos sobreviventes, uma vez que esta sofreu o processo de desumanização e alcançou uma dimensão monstruosa.

A imagem do veneno é presente em Levi como efeito nefasto e duradouro da experiência de Auschwitz. Sua influencia é percebida após a libertação e pouco antes de retornar à terra natal, quando a consciência da gravidade e do horror das coisas vividas começava a projetar uma sombra nos dias futuros da vida retomada.

Quanto de nós foi corroído, apagado? Retornávamos mais ricos ou mais pobres, mais fortes ou mais vazios? Não sabíamos; mas sabíamos que na soleira de nossas casas, para o bem ou para o mal, nos esperava uma provação, e a antecipávamos com temor. Sentíamos fluir nas veias, junto com o sangue extenuado, o veneno de Auschwitz: onde iríamos conseguir forças para voltar a viver [...]? 311

A nazificação da língua significou um envenenamento da linguagem, como Klemperer ilustrou com a metáfora mais recorrente do veneno: “A língua nazista [...] impregna as palavras e as formas sintáxicas com seu veneno, ela submete a língua a seu terrível sistema, ela ganha com a língua seu meio de propaganda mais poderoso, o mais público e o mais secreto. ”312

Trata-se de um agente poluente de alta toxicidade; o paralelismo é ainda mais explícito, na descrição do funcionamento concreto do arsênio: “E o que acontece se esta língua for constituída por elementos tóxicos [...]? As palavras podem ser como minúsculas doses de

arsênio: são engolidas sem prestar atenção, parecem não ter efeito, e , todavia, depois de um tempo, o efeito tóxico manifesta-se. 313

Por isso, Steiner expressa suas dúvidas sobre a possibilidade de despoluição das palavras:

“perguntei-me [...] se a língua alemã sobreviveu à época hitleriana, se as palavras

311 LEVI, A trégua, p.356 312

KLEMPERER, LTI, p.33, trad. nossa da ed. italiana

envenenadas por Goebbels e usadas para organizar e justificar Belsen serviriam novamente às necessidades da verdade moral e da percepção poética.”314

O efeito a longo prazo deriva de seu insidioso poder de infiltração: “„Língua que cria e pensa por você...‟.Veneno que você ingere inconscientemente e que terá seu efeito.”315 Uma das características da LTI é, de fato, o funcionamento dirigido ao inconsciente. A consequência se manifesta num fato dramático que não podia escapar ao filólogo: a LTI

espalhou-se e penetrou em todos os meios, todas as tipologias de pessoas, até entre os judeus como um fenômeno coletivo incontrolável. Nisso reside o efeito tóxico: numa poluição que se estende por todo lugar, toda casa, todo meio do território alemão. “O

veneno está em toda parte: dissolvido na água potável da LTI não poupa ninguém.” 316 A descrição da LTI salienta episódios onde pessoas simples e cordiais tropeçam em expressões antissemitas ou de reverência ao nazismo sem se darem conta, onde a língua

se revela parecida a uma “ droga que, assimilada, embaçava o pensamento317. No fim

da narração de pequenas circunstâncias, Klemperer conclui: “Nenhum deles era nazista, mas intoxicados eram todos. “318

A língua “nazificada” observada por Klemperer não constitui uma nova língua, e, sim,

um alemão contaminado por aspectos que alteram sua qualidade, seu estatuto de língua de cultura iluminada, sua transparência, sua capacidade de ser a língua de todos e de aceitar em si as expressões plurais de uma comunidade humana. Trata-se de um idioma poluído, intoxicado, danificado, rebaixado à língua de um regime totalitário, cuja finalidade é de se impor e desestimular o pensamento individual.

314 STEINER, Linguaggio e silenzio, p. 122, trad.nossa 315 KLEMPERER, LTI, p.85 trad. nossa

316 Ibidem., p.124 317

Ibid., p. 126

A intervenção do nazismo não foi a de inventar uma grande quantidade de palavras novas - apesar de introduzir termos menos usados de derivação latina319 ou de criar alguns neologismos -, mas consistiu principalmente numa inversão de sentidos e manipulação da realidade. Como anotou o autor de LTI: “O nazismo muda o valor das

palavras e sua frequência.” 320 A humilhação é obtida com a escolha de determinadas expressões, destinadas a outros significados que, através de uma alteração proposital se moldam segundo a nova ideologia. Dois exemplos já vistos em Levi: Stück (pedaços, peças) no lugar de “pessoas”, usado pelos nazistas nos Campos: Wieviel Stück?

perguntou o sargento, e o cabo [...] respondeu que as „peças‟ eram seiscentas e cinquenta321; e fressen (o ato de comer dos animais), usado pelos próprios prisioneiros no lugar de essen (comer):

De vez em quando o Kapo passa entre nós e chama: - Wer hat noch zu fressen? (Quem deve comer ainda?)322 Realmente, fressen não é bem “comer”. “Comer” é comer como gente, sentados à mesa, religiosamente: é essen. Fressen é comer como bichos, mas o Kapo não fala assim por escárnio. Comer assim, de pé, a toda a pressa, prendendo o fôlego, queimando-nos a boca e garganta, é, realmente, fressen; é esta a palavra certa, a que costumamos dizer.323

Note-se o tom misto de amargura e ironia em aceitar o jargão “fressen” considerado mais preciso e aderente ao ato de comer dos prisioneiros; ao mesmo tempo, a atitude conciliante e pacata perante um termo que poderia soar como uma ofensa, nos revela o quanto os pontos de referências estejam alterados e como isto se reflete na linguagem. Como no caso dos vocábulos “frio”, “fome”, “sede” 324 os significados diferentes denotam realidades distantes, do mundo livre e do Lager, assim a expressão corriqueira

319 Por exemplo, liquidieren ou discriminieren. Sobre as palavras de origem latina vejam-se as pp. 313-314

de LTI, op. cit.

320 Ibid., p. 33

321 LEVI, p. 14. São estas as primeiras palavras alemãs de SQU. 322 Explicação entre parênteses inexistente em italiano.

323

Ibid., p.76

“comer” não representa o comer dos Häftlinge. E se faltar a palavra italiana, “porque

fazer acrobacias?”: uma palavra estrangeira mais expressiva pode muito bem preencher a

lacuna, sugere o escritor.325 Parece-nos interessante confirmar o que deriva deste posicionamento e que verificamos no capítulo anterior: Levi consegue colocar a Babel a serviço da clareza e da precisão, isto é da transmissão e da interação.

Este sentimento face à corrupção da língua alemã foi experimentado por outros escritores, principalmente pelos sobreviventes. Para a austríaca Ruth Kluger os provérbios e ditados alemães não se livram da conotação sarcástica e maligna com a qual se deparou quando criança, nos diversos campos de concentração por onde passou:

Hoje todos conhecem a frase “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta), lema de uma ironia assassina.

Havia outros provérbios semelhantes nas vigas de nosso galpão. “A PALAVRA É DE PRATA, O SILÊNCIO É DE OURO” era um deles. Melhor ainda: “VIVA E DEIXE VIVER”. Um grupo que

viera num transporte anterior, e que não existia mais, tivera de elaborar esses aforismos. Eu os contemplava diariamente, enojada com sua absoluta pretensão à verdade, uma pretensão que esta realidade desmascarava como mentira total. Desde então, provérbios alemães representam um horror para mim, não consigo ouvir um só deles sem imaginá-lo na viga de um barracão de campo de concentração e desvirtuá-lo imediatamente com uma observação depreciativa.326

Nojo e horror nascem diante da mentira que ocultava o extermínio por trás das palavras sobre a vida; mas também depois de muitos anos, na existência livre, o efeito tóxico prolonga-se nas veias da linguagem, através de uma memória inapagável.

Especial atenção merece a palavra organização com seus derivados. Klemperer descreve seu uso por parte das autoridades nazistas e sua gradativa corrupção. “Organização” substitui o conceito de “sistema”, por ser a primeira palavra associada, segundo o filólogo, a algo de inconsciente, ou emocional, que se encontra no “centro da alma do

povo germânico”, enquanto um “sistema” evidencia o pensamento racional que o embasa

e constrói. 327 Aos poucos a linguagem coloquial apodera-se do termo “organização” e ela

325 LEVI, A un giovane lettore. In L‟altrui mestiere, p. 236 326

KLUGER, Paisagens da memória , p.109

327 KLEMPERER, LTI, p. 132-133 No Terceiro Reich surgiram dezenas de organizações justamente para

aparece para designar a idéia de um trabalho bem feito, distribuído entre membros de um

grupo por um “organizador”; numa segunda fase, por volta de 1943, a palavra “organizar” já “havia-se tornado ambígua” porque se aproximava a “trapacear”, “enganar”, “arranjar”.328

E de fato, organisieren, na experiência de Levi e de todos os

sobreviventes dos campos de extermínio, se referia à “conquista” de objetos úteis ou

comida, num ambiente onde era proibido possuir qualquer coisa, até um fio de linha, mas onde tudo era fundamental à sobrevivência. Portanto, uma casca de batata encontrada

num lixo ou uma blusa tirada de um companheiro morto era algo “organizado”.

Organizar: o ato proibido porque imprescindível à sobrevivência. O verbo, porém, desaparece na tradução brasileira como termo do jargão: “Todos os detentores ilegais de segundas camisas, roubadas ou arranjadas ou até honestamente compradas em troca de

pão” 329

. Compare-se com o original: “Tutti i detentori abusivi di seconde camicie, rubate od organizzate, o magari onestamente comperate con pane” 330. Consideramos de alguma importância apontar para a omissão semântica da tradução, pois o tema do jargão do Lager é de absoluta pregnância no texto de Levi e a precisão das palavras uma característica primordial do escritor. Outros exemplos:

Da sei mesi dividevamo la cuccetta, e ogni grammo di cibo organizzato extra-razione.331

apresenta-se como inversão do uso da palavra sistema, demasiadamente associada à razão e à inteligência, e, portanto, foi abolida e substituída pela primeira.

328 Ibid., p. 133-134

329 LEVI, p. 79 (o grifo é nosso)

330 LEVI, SQU, p. 97. Apresentamos o trecho ampliado: “em questão de minutos do Campo soube da

iminência da Wäschentauschen e, de mais a mais, que desta vez tratava-se de camisas novas, provenientes de um transporte de húngaros chegado três dias antes. A notícia teve imediata repercussão. Todos os detentores ilegais de segundas camisas, roubadas ou arranjadas ou até honestamente compradas em troca de pão para abrigar-se do frio ou para investir capital num momento de prosperidade, precipitaram-se até a Bolsa, esperando chegar a tempo para trocar camisa de reserva por gêneros alimentícios, antes que a avalancha de camisas novas, ou a certeza da sua chegada, fizessem cair irreparavelmente a cotação do artigo. A Bolsa é sempre muito ativa. Embora cada troca (aliás, cada espécie de posse) seja expressamente proibida [...]” (LEVI, p. 79)

Note-se a ironia, que, seja dito de passagem, permeia o inteiro capítulo “Aquém do bem e do mal”, e que permite a Levi descrever as atividades de trocas de bens (linhas, botões, pão, camisas, papel, colheres e

qualquer outro mínimo pedaço de qualquer coisa) como uma “Bolsa” com regras próprias, cotações e

alterações de preços. Sobre a ironia de Levi vide pp. 167-169deste trabalho.

Fazia seis meses que compartilhávamos a cama e cada grama de comida extra que conseguíamos.332

Através do verbo “organizar” é possível manter o múltiplo sentido do deslocamento de significados gerado pelo jargão do Lager numa das questões principais: a sobrevivência. Acreditamos que a expressão estimula algumas considerações, pois o fato do furto

pertencer a uma idéia de “organização” reflete pelo menos três aspectos mais específicos:

roubar faz parte das atividades consideradas pelas SS ilegais, mas corriqueiras e vitais pelos prisioneiros, e, portanto, roubar, encontrar, trocar se tornam sinônimos do verbo

organizar e também entre si; em segunda instância, o verbo evoca uma função humana e social, um quase-trabalho, o controle do habitat pelo ser humano; enfim, reflete, no nível dos prisioneiros, o valor que o Terceiro Reich dava ao espírito da organização, em todas suas formas. Nos primeiros dois casos, a linguagem eleva eticamente o sentido da ação, a nobilita segundo a alteração comportamental que ocorre no Campo.

George Steiner alerta sobre a variação semântica em tempos de ideologias:

A polissemia, a capacidade de uma mesma palavra de indicar coisas diferentes, onde esta diferença vai da nuance à antítese, caracteriza a linguagem da ideologia. Maquiavel observou que o significado podia ser deslocado na linguagem comum de maneira a criar confusão política. Ideologias competitivas raramente criam novas terminologias. Como demonstraram Kenneth Burke e George Orwell relativamente ao nazismo e ao stalinismo, as ideologias saqueiam e decompõem a língua da comunidade.[...] Quando são impostos significados antitéticos à mesma palavra (o newspeak ou a Neolíngua de Orwell), quando o valor conceitual e a avaliação de uma palavra podem ser modificadas com um decreto político, a linguagem então perde a credibilidade.333

A alteração de significados, porém, surge também da condição de “não-vida” dos prisioneiros, de sua percepção direta sobre um mundo disforme. Tomemos a noção de tempo: sua medida é determinada pela presença da ameaça de morte constante, das seleções para cámara de gás e pela arbitrariedade absoluta dos nazistas sobre a vida e a

332

LEVI, p. 157. Todos os grifos são nossos

morte, além das condições de subvida. “Sabem como se diz ´nunca´: Morgen früh

(Amanhã de manhã)”334

. O tempo alterado, estagnado, parado num eterno presente

miserável, distante do passado da vida de “antes” e distante de um futuro incerto a tal

ponto que o futuro deixa de existir, este tempo pertencente a um mundo outro, ao avesso, também se manifesta na língua. A língua do Lager desloca os significados refletindo um universo revirado, absurdo, onde as coordenadas éticas, comportamentais e linguísticas não possuem o mesmo valor que conhecemos e são completamente abaladas, onde até a noção de espaço-tempo segue critérios inimagináveis.

Primo Levi conheceu a obra de Klemperer e falou dela em seu último livro, onde, no capítulo “Comunicar”, analisou sua experiência da LTI. Ele sublinha (como já fez em

SQU) a necessidade vital para um italiano de entender as ordens e as informações corretas, sem as quais a sobrevivência em Auschwitz seria impossível. O escritor volta ao episódio no qual propôs a um companheiro alsaciano o inusitado escambo: rápidas aulas de alemão em troca de pão. Este idioma não mais era o de Goethe e Heine, mas sim a linguagem do Lager:

Assim, pude observar que o alemão do Lager, descarnado, gritado, coalhado de obscenidades e de imprecações, tinha somente um vago parentesco com a linguagem precisa e austera dos meus textos de química e com o alemão melodioso e refinado das poesias de Heine que me recitava Clara, uma de minhas companheiras de estudo.335

Para Levi a possibilidade de aprimorar a análise da língua do nazismo ocorre após muitos anos, talvez graças também ao encontro com o ensaio de Klemperer, do qual assume a definição de LTI:

Não me dava conta e percebi isso somente muito mais tarde, que o alemão do Lager era uma língua à parte: como se diria em alemão, era „orts-und zeitgebunden ‟, ligada ao lugar e ao tempo. Era uma variante, particularmente barbarizada, daquela língua que um filólogo judeu alemão, Klemperer, tinha batizado Língua Tertii Imperii, a língua do Terceiro Reich, propondo, aliás, o acróstico LTI em

334

LEVI, p.135

analogia irônica com outros cem (NSDAP, SS, AS, SD, KZ, RKPA, WVHA, RSHA, BDM...) caros à Alemanha de então.336

Aqui, as palavras de Levi somam-se à explicação de Klemperer sobre a razão da escolha da sigla LTI: “Havia as BDM, e a HJ e a DAF e outras inúmeras siglas. Em meu diário a sigla LTI aparece num primeiro momento como brincadeira paródica”.337 As siglas se impuseram pela grandiosidade de suas letras maiúsculas através das quais o poder se apresentava sólido e compacto.

O filólogo alemãoidentifica uma primeira característica de base, herdada do Romantismo e da tradição cultural de seu país, expressa numa frase de Schiller, que volta à sua memória e em suas anotações; uma frase conhecida e antes apreciada sob outra luz e que, no contexto do Terceiro Reich, parece assumir um sentido mais específico e mais inquietante por definir a língua como uma força superior e dominadora: “língua culta que

cria e que pensa no seu lugar” 338

.

A vontade de esmagar a individualidade é reforçada pelo papel que as palavras podem revestir na formação não apenas de opiniões sobre fatos, mas de uma visão completa da sociedade ao redor. Isso é possível quando se atinge o inconsciente dos indivíduos e do inconsciente se consegue fazer brotar as palavras impostas como se fossem próprias; de maneira que até as pessoas menos envolvidas com o nazismo acabaram compactuando com discursos nazistas e reproduzindo palavras, discursos, atitudes racistas e antissemitas ou pro - regime. “O nazismo penetrou na carne e no sangue da maioria por meio de palavras isoladas, expressões, formas sintáticas repetidas bilhões de vezes, que se impuseram e que foram adotadas de maneira mecânica e inconsciente.”339

336 Ibidem

337 KLEMPERER, LTI, p.25, trad. nossa da ed. italiana 338

SCHILLER apud KLEMPERER, p. 32

Segundo Klemperer, quando a língua age através do inconsciente influencia atitudes e emoções, pois “a língua [...] guia também meus sentimentos, rege todo meu ser moral de maneira tanto mais natural, quanto mais a ela me remeto inconscientemente.” 340

O poder da linguagem sobre o pensamento, percebido também pelos sobreviventes, se deve à sua natureza complexa, que não se limita à finalidade comunicativa, mas a

antecede na estruturação simbólica das experiências. “A linguagem antes de ser

mensagem, é construção do pensamento; e antes de servir para transmitir sentimentos,

idéias, emoções, é um processo criador, no qual se organizam experiências. ” 341

Os significados, portanto, se transformam à medida que os significantes são usados e repetidos sem que o contexto e as finalidades do poder sejam percebidos ou reconhecidos pelos falantes. Um procedimento que terá mais sucesso quando os significantes forem suscetíveis de projeções emocionais potentes, como é o caso de termos como pátria, estado, nação, liberdade, paz etc.

O fervor nacionalista foi um terreno absolutamente propício para implantar os discursos nazistas sem que a maioria percebesse suas consequências desastrosas, de tal maneira que, entre os próprios judeus, muitos demoraram a distinguir entre o próprio sentido de