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Moses Mendelssohn – “Aydınlanma Nedir?” Sorusu Üzerine

3.2 Aydınlanma Çağına Eleştirel Bakış

3.2.2 Moses Mendelssohn – “Aydınlanma Nedir?” Sorusu Üzerine

Cabe ponderar que os bens culturais continuam sendo objeto de disputas sociais, uma vez que servem também como recurso para a reprodução de distinções, hegemonias e para a manutenção de relações de poder. Os bens culturais, aparentemente comuns, são apropriados pelos grupos sociais de maneiras distintas e desiguais, fato que evidencia muito mais a cisão, a diferenciação e o embate entre esses grupos, do que propriamente a sua unificação. 214

As políticas de valorização do patrimônio como elemento integrador da nacionalidade procuram incidir justamente no campo da apropriação, isto é, na forma pela qual os grupos se apoderam dos bens culturais, de modo a organizar e diluir as diferenças entre esses grupos. “A ideologia nacionalista é uma ideologia de exclusão das diferenças culturais.” 215 Ela pressupõe a continuidade histórica da nação a partir de um tempo vazio, homogêneo e sem conflitos.216 Contudo, determinados esforços de gestão da herança culturalcom vistas à promoção de uma

211

GONÇALVES, José Reginaldo. Monumentalidade e cotidiano... Op. cit. p.111. 212

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. 213

A noção de “campo” que utilizamos se refere basicamente a um espaço de disputa material e simbólica onde os agentes especializados entram em competição pelo poder de reconhecimento e legitimidade de suas representações, valores e esquemas de percepção do mundo social. Nessa perspectiva, procuramos pensar o patrimônio como um campo, um espaço de luta concorrencial onde se confrontam discursos, sentidos e projetos distintos de uso, apropriação e significação dos bens culturais. Para uma discussão sobre o conceito de “campo”, ver: BOUDIEU, Pierre. Op. cit.

214

CANCLINI, Néstor García. O patrimônio cultural e a construção imaginária do nacional. Revista do Patrimônio Histórico e Nacional. Brasília: Iphan, n. 23, 1994.

215

CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. 2. ed. Bauru: Edusc, 2002, p. 188. 216

BENJAMIM, Walter. Sobre o conceito da história. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

identidade nacional e legitimação de projetos do próprio Estado podem não obter ressonância no conjunto da sociedade e adquirir, inclusive, contornos distintos ou até mesmo diametralmente opostos àqueles esperados, apontando assim suas inflexões, fragilidades e limites na construção do nacional.

Os marcos culturais de pedra e cal, antigas estruturas arquitetônicas em paisagens urbanas, corporificam conflitos políticos e ideológicos mais do que acordos (...). Eles celebram realizações políticas e estéticas, sempre sujeitas à reelaboração pela cultura vernacular, conseguida na luta pela legitimação de interesses práticos, valores estéticos e visões de mundo. Eles são, além disso, resultados de processos que transformam “espaços” em “lugares”, isto é, em sítios habitados por pessoas que vivem de formas determinadas e que consideram como algo que lhes pertence ou no mínimo lhes diz respeito.217

A seleção dos itens a serem tombados e consagrados como patrimônio cultural é uma operação política que envolve sempre tensões, negociações e conflitos de interesses.218 Ela é necessariamente arbitrária, pois envolve algum nível de exercício de poder, uma vez que os bens culturais não são neutros, com sentidos fixos ou estáveis, mas são sempre interpretados com valor nas relações dos homens entre si.

Conforme salienta Gilberto Velho, “estamos lidando, ao examinarmos as políticas públicas de patrimônio, com complexas questões que envolvem emoções, afetos, interesses os mais variados, preferências, gostos e projetos hegemônicos e contraditórios.” 219 Dessa maneira, os conflitos são constitutivos das políticas de patrimônio. Eles evidenciam os modos distintos como os grupos sociais se auto-representam e narram sua trajetória, procurando no “espelho patrimonial” lugar de reconhecimento e também de distinção.

Na assertiva de Néstor García Canclini, o patrimônio entendido como um fato social configura-se essencialmente em um “campo”, isto é, um espaço de disputa material e simbólica onde os grupos sociais lutam pelo poder de definição, nomeação e classificação legítima da herança cultural. No campo do patrimônio, por exemplo, estão localizadas as disputas tanto pela consagração quanto pela rejeição dos bens simbólicos do passado. Mais do que isso, está em jogo, nesse espaço, a hegemonia e o monopólio do direito de dizer o

217

ARANTES, Antonio Augusto. Patrimônio cultural e nação. In: ARAÚJO, Ângela Maria (org.). Trabalho,

cultura e cidadania: um balanço da história social brasileira. São Paulo: Scritta, 1997, p. 288.

218

VELHO, Gilberto. Patrimônio, negociação e conflito. Maná, Rio de Janeiro, vol. 12, n° 1, 2006. 219

patrimônio. Do campo do patrimônio partem proposições acerca do passado-futuro, arte, identidade, memória nacional, etc. Nesse lugar os “agentes especializados” disputam o poder de nomear territorialidades e assegurar o domínio simbólico dos princípios da nomeação que construíram. Não obstante, é nesse espaço também que as diferenças se explicitam e se enfrentam.

O tombamento – ação específica do Estado no sentido de proteger os bens eleitos como documentos de identidade e memória nacionais – por exemplo, pode ser entendido, fundamentalmente, como um ato de territorialização, isto é, um empreendimento de definição e classificação do que deve ou não conter o espaço através da imposição de regras de uso e apropriações do mesmo. A prática do tombamento procura alterar, em um só tempo, as fronteiras do espaço e incidir nos próprios comportamentos sociais, criando um fato novo no universo cultural. O objeto tombado é então promovido “de simples objeto imerso no anonimato para objeto aurático” 220, monumentalizado. Aos seus usos cotidianos são acrescidos, portanto, novos valores.

Ainda assim, retomando as contribuições de Antônio Augusto Arantes, esses valores patrimoniais estão sempre sujeitos à reelaboração e deslocamento, podendo ser tanto integrados quanto recusados por seus usuários. Em síntese, não basta que o Estado proclame a importância de um bem para que ele seja inserido às práticas culturais. “A proteção oficial não lhe garante um lugar seguro no panteão institucional da cultura. Este é um desafio perene e estrutural que se coloca às instituições responsáveis pela proteção, conservação e uso desses tesouros oficialmente protegidos.” 221

Dito isso, reiteramos que a constituição de referências – espaciais e temporais – implica em lutas sociais e políticas, visões de mundo, exercício de poder e formas de negociação. Projetos de demarcação de fronteiras e de “semantização de lugares” – via construção, seleção e preservação de monumentos – expressam aindaos embates de memóriaspelo reconhecimento de subjetividades individuais e coletivasno espaço público. Como destaca Jacques Le Goff, a

220

SANTOS, Mariza Veloso Mota. Op. Cit. p. 82. 221

ARANTES, Antônio Augusto. Patrimônio cultural e cidade. In: FORTUNA, Carlos; LEITE, Rogério Proença (orgs.). Plural de cidade: novos léxicos urbanos. Coimbra: Almedina, 2009, p. 17.

memória é também instrumento e objeto de poder.222 Ela pode ser motivo de conflitos e opor grupos que disputam a hegemonia e o poder de arbitragem, consagração e manifestação pública de suas memórias.223 Nessa perspectiva, os patrimônios se constituem em peças- chave para a manifestação e afirmação de memórias, identidades e trajetórias no espaço público.

Os patrimônios culturais são estratégias por meio das quais grupos sociais e indivíduos narram sua memória e sua identidade, buscando para elas um lugar público de reconhecimento, na medida mesmo em que as transformam em “patrimônio”. (...) Os diálogos e as lutas em torno do que seja o verdadeiro patrimônio são lutas pela guarda de fronteiras, do que pode ou não pode receber o nome de “patrimônio”, uma metáfora que sugere unidade no espaço e continuidade no tempo no que se refere à identidade e memória de um indivíduo ou de um grupo. Os patrimônios são, assim, instrumentos de constituição de subjetividades individuais e coletivas, um recurso à disposição de grupos sociais e seus representantes em sua luta por reconhecimento social e político no espaço público.224