3.4 Dördüncü Alt Problem
3.4.3 Morpheus
Discurso pronunciado no Colégio São João, no dia 1º de agosto de 188240. É a celebração dos cinco anos do colégio. Avançava o projeto da Kulturkampf na França, sempre sob a coordenação de Jules Ferry. Em 29 de março de 1882, havia sido votada a lei sobre o ensino primário. Inicialmente o governo admitia o ensino religioso por sacerdotes, mas os deputados católicos se uniram à extrema esquerda e recusaram uma simples “concessão”. Com isso a legislação se radicalizou e praticamente o ensino religioso foi suprimido na escola. Dehon acompanha atentamente os fatos e os registra em suas Memórias. Critica a reação pouco determinante do episcopado francês frente ao avanço do projeto educacional da Maçonaria41.
Após recordar a tragédia de um incêndio que consumira parte do Colégio São João na noite de 29 de dezembro de 188142, Dehon abre seu discurso pontuando a situação político- educacional daquele momento:
Um projeto de lei nos trouxe o temor de ameaça à liberdade de ensino, mas a estas alturas já tomou uma forma menos ameaçadora a partir das deliberações de uma de nossas assembléias políticas, e, ainda que alguns pontos precisem ser mais de acordo com a equidade, já não contêm nada que nos possa inquietar no futuro43.
Para Dehon, o momento solene da “Distribuição dos Prêmios” representa uma “festa de família, onde os mestres, intimamente unidos aos pais, os representam junto aos filhos para lhes dar, junto com a cultura do espírito, a educação do coração”44. Neste ano, em seu discurso, ele demonstra a “estreita relação da fé com as ciências positivas”45. A grande
40 Em 1881, pela primeira vez, Dehon não fez o discurso, deixando-o a cargo do sacerdote e professor de
retórica, Hector Rigault. O discurso foi publicado na íntegra em L’Aigle de Saint-Jean, n. 139 (1881) pp. 289- 296. É uma defesa da educação cristã, principalmente da atuação do sacerdote como professor. A Cerimônia de “Distribuição de Prêmios” aconteceu no dia 03 de agosto, e foi presidida por Pe. Hautcœur, Reitor das Faculdades Católicas de Lille. Cf. NHV XIV, p. 51.
41 Cf. NHV XIV, p. 96.
42 Este incêndio está descrito, com detalhes, em NHV XIV, pp. 85-87. Dehon interpreta como um sinal
providencial que a imagem do Sagrado Coração de Jesus não tenha sido atingida pelo fogo. Além desta prova, o pai de Léon Dehon morrera no dia 11 de fevereiro de 1882. NHV XIV, pp. 93-95. Aumentavam, neste período, os problemas internos da Congregação que terminariam por provocar sua supressão pela Santa Sé.
43 OSC IV, p. 336. Este “projeto de lei” se referia ao ensino secundário. 44 OSC IV, p. 337.
acusação do momento era de que a religião é uma ficção, um conjunto de mitos e de superstição sem fundamento “científico”. Somente a ciência teria poder e autoridade “positiva”. Dehon faz sua defesa citando nominalmente os ataques do positivismo de Augusto Comte, em particular ao ensino cristão. Compara esta “nova ciência” com um “novo rico” que pensa ter toda a “autoridade social”. Usando o testemunho de uma lista de cientistas célebres, procura demonstrar que não existe incompatibilidade entre ciência e fé.
Nosso objetivo é mostrar, na medida em que permite a brevidade de um discurso, o verdadeiro papel da ciência, que é de trabalhar sob o olhar da fé, como uma irmã respeitosa, e de ajudar a Revelação, de quem ela própria
recebe um poderoso auxílio46.
Inicia mostrando que o positivismo não ataca apenas e religião ou o estatuto científico da teologia, mas também outras ciências que não têm por objeto a matéria ou o mundo dos sentidos, como seriam a filosofia, especificamente a metafísica e a moral. Sob seu ponto de vista, a “pretensão do positivismo é ridícula” e seus erros evidentes, até mesmo ao senso comum, pois este percebe que além do conhecimento da matéria, é possível conhecer as coisas da alma. O materialismo positivista pretenderia negar os dogmas da fé em seus fundamentos bíblicos.
Começando pela aritmética, passando pela álgebra e física e invocando o conhecimento de Copérnico, Euler, Newton, Kepler, Pascal, Buffon, Ampère e outros, Dehon procura demonstrar que aquilo que a ciência lê nas entranhas do solo, se pode ler na Palavra de Deus, corretamente interpretada. Porém, o que chama atenção em seu discurso é que em nenhum momento cita textos da Sagrada Escritura ou do Magistério para fundamentar sua defesa. Seus argumentos são construídos basicamente sobre a vida dos próprios cientistas. Dehon destaca o modo como a experiência de fé fecundou o autêntico conhecimento científico. Mostra, por exemplo, como Ozanam, aos dezoito anos, ficou tocado ao ver Ampère rezar o Rosário, ou como Cauchy − grande matemático do século 19 − foi membro ativo das Conferências de São Vicente de Paulo. Exemplos deste tipo ocupam a maior parte de seu discurso, que termina com a história emocionante de um médico convertido pelo exemplo de fé, força espiritual, bondade e generosidade de seu paciente sacerdote. Assim, a relação harmônica entre fé e ciência ultrapassa o nível das verdades positivas e verificáveis para atingir o nível
experiencial, onde a constatação é que o conhecimento científico ajuda a crer com mais qualidade e a religião auxilia o cientista a ir mais longe em suas pesquisas. Esta seria a contribuição da educação cristã à ciência.
Como homens de educação, cremos que as amáveis e fortes virtudes que propomos diariamente a vossos filhos, tanto no exemplo perfeito do Coração do Homem-DEUS [sic] como nas vidas admiráveis dos santos, são mais
adequadas para formar seus corações que os preceitos da moral cívica47.
Esta afirmação final tinha uma força especial naquele momento em que a reforma educacional de Ferry acabara de substituir o ensino religioso pela Educação Moral e Cívica nas escolas francesas. Como nos discursos anteriores, Dehon não nega os valores, mas os coloca em íntima relação com a fé.