3.3 Üçüncü Alt Problem
3.3.1 Birinci Bölüm: Impetuoso
O texto que nos chegou dos primeiros discursos educacionais de Dehon é o publicado em 1887: L’Éducation et L’Enseignement selon l’idéal chrétien23. São oito discursos, sendo os sete primeiros especificamente voltados à educação e o oitavo, sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus24. Cobrem o período que vai de agosto de 1877 a julho de 188625. Em março de 1887 já havia um texto para a apreciação do bispo26. O próprio Dehon, no prefácio, indica qual a estrutura de texto que tinha em mente ao publicar a coletânea de discursos que formariam uma espécie de “plano determinado”:
Estes discursos formam juntos parte de um plano determinado. No primeiro traçamos as grandes linhas de um programa educacional e indicamos o que nos parece ser o ideal do mestre cristão. Nos seguintes, mostramos sucessivamente o que a educação, nas suas distintas partes, deve de perfeição e força à fé cristã; no segundo discurso pretendemos mostrar o quanto as letras devem à religião; no terceiro, o que o patriotismo deve ao ardor da fé; no quarto, o que a religião acrescenta às amáveis virtudes da infância; no quinto, a estreita relação com as ciências positivas; enfim, tratamos do mesmo ponto de vista, no sexto e sétimo, a história e a geografia. Acrescentamos um discurso sobre o culto ao Sagrado Coração de Jesus, o qual nos esforçamos por fazer reinar, em nossa obra de educação, a amável e fortificante influência27.
O primeiro e o último discursos exprimem, por assim dizer, o princípio e o fim da educação segundo a compreensão de Léon Dehon, ao final dos primeiros dez anos de
23 OSC IV, pp. 265-394.
24 Este é o único discurso que não foi pronunciado no Colégio São João, mas na Basílica de Saint-Quentin,
por ocasião da festa do Coração de Jesus, em 12.06.1885. OSC IV, p. 379.
25 O sétimo discurso, sobre o estudo da geografia, foi pronunciado em 31.07.1886. OSC IV, p. 365. No
entanto, Dehon preferiu fechar sua publicação com o discurso sobre o Coração de Jesus, pronunciado no ano anterior.
26 NHV XV, p. 65. 27 OSC IV, p. 370.
atividades educacionais no Colégio São João e no Patronato São José. A maioria das idéias- força estão presentes no primeiro discurso, do qual possuímos um resumo autógrafo de Dehon em suas Memórias, escritas ao mesmo tempo em que revisava os textos do livro para a publicação28. Portanto, podemos afirmar, com bastante segurança, o caráter autoral deste primeiro e programático discurso.
O gênero literário é marcado pela oralidade. São escritos feitos para serem lidos diante de um público específico. A quase totalidade dos discursos educacionais de Dehon são pronunciados no Colégio São João. Este é o ambiente onde se desenvolve sua reflexão sobre educação. Seu público é formado por pais e alunos, professores e sacerdotes envolvidos no projeto, autoridades eclesiásticas e civis. Fala para uma elite eclesial e burguesa. Não é uma obra especulativa ou sistemática. O estilo lembra a formação jurídica de Dehon, pois se assemelham a peças de defesa preparadas por um advogado para serem pronunciadas diante de um tribunal, onde o réu é o sistema educativo das Igreja Católica, acusado por republicanos, como Jules Ferry. Dehon se refere ao público que o assistia como membros do júri, que deveriam proferir a sentença para o julgamento. Isto aparece claramente, por exemplo, no prólogo do livro, quando diz: “Depois de alguns anos, o ataque dos nossos inimigos dobrou de intensidade; parece que ano após ano se acrescenta uma nova acusação à extensa requisitória [réquisitoire] com a qual se quer prejudicar o ensino religioso”29.
O discurso jurídico adotado por Dehon possui suas leis clássicas que os formados em Direito conhecem bem. É preciso sempre ater-se aos fatos, comparando-os com a forma da lei. O resultado pode ser uma convincente defesa ou acusação. Advogados de defesa e promotores devem utilizar da retórica, movendo-se entre estes dois pólos: a lei e a realidade. Um recurso dos advogados de defesa é reconstruir os argumentos da acusação, utilizando novos fatos e uma nova hermenêutica da lei, mostrando a inocência do réu. No discurso jurídico nunca são muito eficientes argumentos de autoridade buscados em instâncias externas ao universo em questão. Por isso, Dehon raramente os utiliza em seus discursos, nem mesmo
28 NHV XII, pp. 174-181. Não existem registros do texto original do discurso pronunciado por Dehon em
1877. Ele mesmo afirma que “somente” modificou os dois primeiros discursos para a publicação.
29 OSC IV, p. 373. Grifo nosso. A palavra Réquisitoire é típica do direito francês, e significa o ato pelo qual o
ministério público formula sua acusação no processo penal. Dehon utiliza o termo para indicar sua atuação como advogado de defesa, diante de uma série de acusações feitas ao ensino católico.
textos do Magistério da Igreja. Não seria uma boa defesa utilizar o depoimento do réu para concluir sua inocência.
Dehon identifica, de um modo sintético, logo no prólogo de seu livro, a lista de “acusações” ao ensino cristão, das quais pretende empreender sua defesa. Elas coincidem com a estrutura de seu texto, ou seja, para cada acusação, um discurso de defesa. Elencamos sistematicamente, com frases do próprio Dehon, estas acusações de modo que possamos perceber melhor a dinâmica jurídica de seus discursos:
Acusação Defesa
Dizem que a religião é ignorância. Será necessário demonstrar quão maravilhosos são
os frutos da religião no âmbito das Letras.
Dizem que não somos patriotas. É necessário, e nosso dever, protestar como
católicos e como franceses, e demonstrar com fatos da história que a religião é a melhor escola de patriotismo.
Evocam as Cartas Provinciais para atacar a
moral do cristianismo. É para nós um dever sagrado demonstrar o modo radiante com que a religião faz brilhar as virtudes da infância.
Dizem que a ciência é incompatível com a religião.
Acreditamos ser necessário afirmar e provar que ciência e religião estão estreitamente relacionadas, e que, segundo uma frase célebre, se é certo que a pseudo-ciência afasta da religião, não é menos certo que a verdadeira ciência leva até a religião30. Sabemos que a maioria destas críticas ao ensino “congregacionista” católico faziam parte dos discursos de Ferry, na Câmara, para justificar seus projetos de lei, especialmente o famoso “artigo 7”31. Porém, percebemos que os discursos de Dehon são mais do que uma simples defesa jurídica do ensino católico. Ele sabe qual a importância de educar as novas gerações e afirma expressamente:
As questões relativas ao ensino estão agora, mais do que nunca, na ordem do dia. Entendemos que o futuro pertence àqueles que tenham nas mãos a educação das novas gerações e é precisamente isto que, em nosso caso,
30 OSC IV, p. 273. As “Cartas Provinciais”, ou Les Provinciales, referem-se ao conjunto de 18 cartas escritas
por Blaise Pascal entre 1656 e 1657, para defender o jansenista Antoine Arnauld, adversário dos jesuítas, que estava em julgamento pelos teólogos de Paris. Estas cartas eram evocadas pela Terceira República no conjunto de críticas feitas ao método educacional dos jesuítas.
31 Uma monografia contemporânea a estes fatos ajuda a recapitular os argumentos de Ferry: E. LABOULAYE,
explica a ardorosa luta entre os católicos e os representantes da incredulidade32.
Há algumas teses de fundo por trás dos discursos. A primeira, de natureza social, é que a “liberdade de ensino” possibilitou o surgimento de uma “juventude católica” ao longo do século 19. A presença de universidades católicas teria acelerado este movimento. Isto provocou uma “transformação nas idéias e no espírito” das classes dirigentes e na classe média. Dehon é um otimista e acredita que os decretos laicisantes de 1880 não seriam um golpe mortal nesta conquista da fé. Seus discursos são uma permanente reivindicação de liberdade. Neste sentido, toca em um ponto onde a política da República era contraditória: em nome da liberdade restringia a liberdade.
A segunda tese, de natureza político-epistemológica, é que não existe contradição entre conhecimento humano e religião: “Hoje, mais do que nunca, é preciso infundir o espírito cristão às ciências e letras, história e filosofia, enfim, ao ensino em sua plenitude”33. Outra expressão desta mesma relação pode ser encontrada na iminente separação entre Igreja e Estado34. Para Dehon, esta separação política denota uma ruptura epistemológica. Aos poucos ele aceitará a separação política, porém não a epistemológica. Pode-se separar a Igreja do Estado, porém não o humano do Divino.
A terceira tese, de natureza teológica, aparece expressa na frase que Dehon escolheu para ilustrar a capa do seu livro e que também aparece em seu prólogo: “A graça de nosso divino Salvador veio aperfeiçoar em nós a educação”35. Sua interpretação deste texto é que a
32 OSC IV, pp. 270-271. 33 OSC IV, pp. 271-272.
34 Dehon havia presenciado a perda dos Estados Pontifícios, em 1870 e, no momento em que escreve, em
1886, observa o avanço das idéias republicanas que levariam à separação entre Igreja e Estado na França, em 1905. Neste momento, idealiza a Idade Média “que via as ciências não como pontos separados e isoladas umas das outras em que todas as ciências não estavam isoladas entre si, mas reunidas em torno da Teologia, ciência de Deus, que reina sobre todas como uma rainha”. OSC IV, p. 271. Mesmo que este conceito não seja aceitável hoje, é curioso que Dehon já nesta época tenha percebido a framentação do saber que o positivismo estava promovendo entre as ciências.
35 OSC IV, 271. “La grâce de notre Sauveur divin est venue perfectionner, parmi nous, l’éducation” (cf. Tt
2,11-12). Na capa do livro Dehon cita ainda o texto da Vulgata da seguinte forma: “Apparuit gratia Dei salvatoris nostri erudiens nos (græce paideu,ousa)”. O texto grego completo destes versículos seria: “VEpefa,nh ga.r h` ca,rij tou/ qeou/ swth,rioj pa/sin avnqrw,poij paideu,ousa h`ma/j( i[na avrnhsa,menoi th.n avse,beian kai. ta.j kosmika.j evpiqumi,aj swfro,nwj kai. dikai,wj kai. euvsebw/j zh,swmen evn tw/| nu/n aivw/ni.”. A tradução atual da Vulgata: “Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus erudiens nos ut abnegantes impietatem et sæcularia desideria sobrie et iuste et pie vivamus in hoc sæculo”. Poderia se traduzir literalmente: “Manifestou-se também a graça de Deus salvadora para todos os homens, educando-nos para que,
Divina Graça aperfeiçoa a natureza humana. O uso do verbo paideu,ousa tem sua raiz semântica no conceito de “pedagogia”. Assim, sua primeira grande tese é a existência de uma “Pedagogia da Graça”. Deus educa. Os educadores que quiserem educar integralmente devem considerar esta ação pedagógica de Deus que restaura, no ser humano, a sua identidade original. Dehon está convencido de que “tudo deve ser restaurado em Cristo”36. Esta “recuperação da identidade original do ser humano” é uma elaboração do conceito de Educação Integral fortemente presente na obra de Léon Dehon.
Esta última tese da, aparentemente “teológica demais”, pode ser uma contribuição para aprofundar o significado daquilo que hoje começa ser conhecido como Pedagogia da Dádiva. Graça e Dádiva pertencem ao mesmo campo semântico. Deste modo, a teologia tem uma palava a dizer à pedagogia. Dehon já intuiu isso no século 19.