Segundo Fraser, a questão do reconhecimento cultural de grupos minoritários não é uma questão ética, mas sim moral. Ela não diz respeito à busca pessoal pela felicidade e autorrealização, mas sim ao desenho institucional justo. O desenho institucional, isto é, as normas e regras que organizam as instituições públicas, quaisquer que elas sejam, só será justo na medida em que todos os segmentos da sociedade, tenham a possibilidade de participar de maneira igualitária na formulação dessas regras. Não importa se fazem parte da ala majoritária ou é o componente de algum grupo minoritário: a participação é algo fundamental neste processo. Essa é a única forma de combater os padrões culturais excludentes que perpassam as regras das instituições.
Não compete aos formuladores de política pública interferir nas crenças e no imaginário dos indivíduos; eles podem ser tão homofóbicos, racistas ou sexistas quanto queiram, no entanto os padrões culturais excludentes devem ser banidos das instituições. Esse banimento dos padrões culturais excludentes não se dará apenas por sabedoria e benevolência dos dirigentes e gestores públicos. Na medida em que os cargos públicos de representação sejam ocupados exclusivamente pelos segmentos hegemônicos da população, a tendência é que não haja a moralização das regras institucionais.
A autora deixa claro que seu modelo moral de reconhecimento não invalida as reivindicações de justiça econômica. Assim, ela estabelece que para que seja possível criar um regime de paridade participativa é necessário “tanto que certas condições objetivas, quanto certas condições intersubjetivas, sejam satisfeitas” (FRASER, 2007, p. 36).
As condições objetivas são aquelas que excluem níveis de dependência econômica e desigualdade que impeçam a igualdade de participação. Dito de outro modo são ações que excluem arranjos sociais institucionalizadas pela privação da pessoa. Como exemplo dessa situação, as grandes disparidades de renda, riqueza, tempo de lazer. Tais situações impossibilitam a algumas pessoas de interagirem com outras como iguais. A condição subjetiva para a igualdade de participação requer que os padrões institucionalizados de valores culturais expressem igual respeito por todos os participantes e garanta a oportunidade igual para que cada qual alcance a estima social.
Ambas as condições são necessárias para a paridade de participação. A satisfação de apenas uma delas não é suficiente. Fraser defende uma concepção bidimensional da justiça orientada para a norma da paridade de participação, que leve em consideração tanto o aspecto econômico, quanto o cultural da justiça, mas sem reduzir um ao outro. Aliás esse tipo de paridade participativa é central em sua teoria. Dito de outro modo, conceber uma forma paritária de participação é exigir uma “igual condição de participação para todos os indivíduos, em todos os contextos da vida social” (MATOS, 2014, p. 173).
Nesse sentido, a proposta da autora norte-americana se constitui uma espécie de “indicador” para avaliar possíveis reivindicações, sendo justas ou não. Contudo, não podemos esquecer que nem todos serão contemplados, ocasionando os momentos de não-reconhecimento, ou seja, os atos injustos que são cometidos diariamente. Mesmo porque as injustiças ocorrem gerando a não paridade, a não efetividade das condições objetivas de reconhecimento. Tais situações geram situações de colapso teórico naqueles que estão inseridos nesses movimentos.
Os remédios para solucionar esses problemas parecem, em alguns casos, contraditórios. O remédio para a injustiça econômica, por exemplo, diz respeito a algum tipo de mudança na estrutura político-econômica. Como medidas para isso, pode-se pensar na redistribuição de renda, numa reorganização do trabalho, na sujeição de investimentos à tomada de decisões democráticas.
Já o remédio para a injustiça cultural (FRASER, 2001, p. 252) por sua vez, implica algum tipo de mudança cultural como, por exemplo, reavaliação positiva de identidades discriminadas e estereotipadas, bem como dos produtos culturais de grupos marginalizados. Pode ser pensada ainda, a valorização da diversidade cultural, ou ainda, a desconstrução e transformação dos padrões societárias de representação. A análise das lutas de gênero e raça pode ilustrar bem como esses remédios podem ser contraditórios, já que esses grupos sofrem tanto de injustiça econômica quanto de injustiça cultural.
No caso das lutas envolvendo questões de gênero e raça tem-se que afirmar tanto o princípio da igualdade quanto o da diferença. O movimento feminista teve de lutar para desconstruir a injustiça econômica através da denúncia de que o gênero estrutura a divisão fundamental entre trabalho produtivo e assalariado e trabalho reprodutivos, doméstico e não-assalariado, típico de mulher.81 Além disso, o gênero
81 Neste ponto, percebe-se a influência marxista de Nancy Fraser acerca da visão da luta de classes como
também estrutura a divisão de trabalho entre ocupações profissionais e bem pagas dominadas por homens e o trabalho doméstico, mal pago, dominado por mulheres. Como solução para isso, a transformação da economia política deveria eliminar a exploração, a marginalização e a privação específica do gênero, o que significa eliminar as diferenças de gênero, a especificidade do gênero.
Se a questão do gênero envolvesse somente isso, estaria resolvida. Contudo, gênero não é só uma diferenciação baseada na política econômica, mas também em padrões culturais. Dito de outro modo, existe uma especificidade em ser mulher que não deveria ser subsumida a um padrão cultural que privilegia as práticas, as formas de comunicação e interpretação masculinas.82 Para combater a injustiça cultural é
necessária uma desconstrução do androcentrismo (padrões culturais que privilegiam as características da masculinidade) que caminha junto com o sexismo cultural (a desvalorização e depreciação de coisas vistas como “femininas” tomadas como emotivas e irracionais). A solução aqui está baseada na afirmação das diferenças de gênero, na valorização das práticas ligadas ao feminino.
A mesma análise é feita com o movimento negro. De um lado, o movimento negro deve lutar contra a divisão do trabalho assalariado entre ocupações mal pagas, domésticas, corporais ocupadas pelas pessoas de cor e, as ocupações técnicas, administrativas e bem pagas ocupadas pelas pessoas brancas. Por outro lado, o movimento negro deve lutar contra o eurocentrismo e enfatizar a especificidade da cultura negra.
Como se pode perceber os remédios parecem contraditórios, uma vez que devem enfatizar, ao mesmo tempo, a igualdade e a diferença. Como alternativa a dilemas desse tipo, Fraser analisa as estratégias, chamadas por ela, de afirmação ou de transformação. Para vencer os dilemas entre redistribuição e reconhecimento, pode-se adotar medidas afirmativas ou transformativas. As medidas afirmativas têm por objetivo a correção de resultados indesejados sem mexer na estrutura que os forma. Já os necessidade de reatualizar o pensamento do filósofo do século XIX. Em seu texto, Um futuro para o
marxismo, ela faz a seguinte pergunta: o marxismo tem futuro nesta era que se apresenta como pós- socialista? Sua resposta é positiva e negativa, ao mesmo tempo. “Enquanto discurso totalizante metanarrativo da sociedade capitalista como referência para a política de oposição, o marxismo acabou. Por outro lado, muitas contribuições do pensamento de Marx permanecem sendo de grande valia para uma política de superação das injustiças do mundo contemporâneo.”Cf FRASER. N. Um Futuro para o Marxismo. Revista Novos Rumos, ano 14, n. 29, 1999, p. 4.
82 A respeito desse assunto, Iris Young possui algumas contribuições interessantes a esse debate. Ela
denuncia os perigos da absolutização das formas de comunicação baseadas no discurso racional, não- emotivo e distanciado, tidas como características típicas do universo masculino. YOUNG, Í. Comunicação e o outro: além da democracia deliberativa, In: Democracia Hoje, p. 365-386.
remédios transformativos têm por fim a correção dos resultados indesejados pela reestruturação da estrutura que os produz. Mesmo com essas diferenças, Fraser enxerga uma saída para esse impasse: a paridade participativa.
Uma paridade que consiste em possibilitar o reconhecimento das minorias em seus direitos, colocando-se enquanto uma condição ideal. Em Nancy Fraser, portanto, a paridade deve ser a meta das lutas políticas de reconhecimento. O desenvolvimento dessa noção apresenta ainda a identificação de condições mínimas e simultâneas para sua efetivação.
Primeiro, a distribuição dos recursos materiais deve dar-se de modo que assegure a independência e voz dos participantes. Essa eu denomino a condição objetiva de participação. (…) Ao contrário a segunda condição requer que os padrões institucionalizados de valoração cultural expressem igual respeito a todos os participantes e assegurem igual oportunidade para alcançar estima social. Essa eu denomino condição intersubjetiva de paridade participativa (FRASER, 2007, p.119).
Essa tentativa de efetivar a paridade participativa em Fraser segue caminhos tortuosos. Dentre eles, as medidas afirmativas e as transformativas. Nas duas situações, o que os aproxima é o caráter intersubjetivo, conciliador do reconhecimento. Tal proposta poderá garantir a tão almejada paridade de condições entre os grupos? As diferenças entre os grupos permanecerão? O tópico a seguir detalhará como funciona este mecanismo.