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Diante da morte do sujeito pontual, ou desengajado, proclamada pelo pensamento pós-moderno, Taylor reage construindo a imagem de um self positivo. Essa reação se constitui pelo diálogo, mesmo conflituoso, com as identidades que o outro reconhece (TAYLOR, 2000b, p. 33). A resposta para a questão “Quem sou eu?” só pode ser encontrada se definido o lugar de onde falo, na rede familiar, no espaço social e, sobretudo, “no espaço de orientação moral e espiritual dentro das quais minhas relações definidoras mais relevantes estão sendo vividas” (TAYLOR, 2000a, p.35). Em poucas palavras, um self só existe numa rede de interlocução, por referência a uma comunidade (Idem, p. 36). Não nos esqueçamos, todavia, que para cada comunidade a um conjunto de mediações e aspectos intersubjetivos a serem considerados.

Mesmo porque cada identidade vai se transformando ao longo da vida. Logo, a integridade de cada povo, integrado a essa rede de self, depende do modo como vai sendo narrada. Sobre esse assunto, o filósofo inglês Alasdair MacIntyre72 (1929-) possui

algumas considerações que ajuda-nos a dimensionar até que ponto Taylor quer transmitir na abordagem da narrativa de cada sociedade. Em After virtue, MacIntyre (1984, p. 205.) trata deste assunto de forma muito cuidadosa. Se somos contadores de histórias, sustenta ele, não as criamos a partir do nada; elas são parte de um relato que nos antecede. Entramos na sociedade com um personagem já preparado, cujos papéis teremos que aprender a desempenhar para compreender o que os outros esperam de nós.

Essa socialização não está transmitindo apenas normas, leis mas definindo também quem devemos ser. Tal perspectiva contrasta fortemente com o esforço feito por Locke para dar conta da identidade pessoal apenas pelo exame de situações ou eventos psicológicos.73 Pois o que um conceito de selfhood, enquanto narrativa, requer

72 Considerado por alguns comentadores como autor que defende o aspecto liberal, Alasdair MacIntyre

tenta, assim como Honneth, reatualizar um autor clássico da filosofia. O filósofo escolhido pelo autor inglês é Aristóteles. A abordagem de Macintyre se restringe ao âmbito da filosofia moral. Segundo ele, esta forma de filosofia possui uma série de características complexas nas sociedades contemporâneas. A fim de mudar essa situação, o autor inglês postula uma reformulação dos preceitos éticos que foram baseados na universalização abstrata. Para tanto, MacIntyre faz uma espécie de “genealogia” dos principais autores da filosofia que trabalharam a universalidade da ética a níveis abstratos. Como proposta, defende a retomada da noção aristotélica de teleologia. C.f CARVALHO, H, B. A. d. Tradição e

racionalidade na filosofia de Alasdair MacIntyre. São Paulo: Unimarco, 1999.

73 John Locke (1632-1704) ao analisar a relação entre ideia e impressão no mundo percebera a

necessidade da mente apreender as sensações por meio da “tabula rasa”. Ou seja, a mente humana não possui nada ao nascermos; adquirimos conhecimento a partir das impressões dos objetos do mundo. Com o passar do tempo, tais eventos se repetem sucessivamente até que a mente humana esteja preenchida com os fenômenos externos ao sujeito. Por esse motivo, alguns consideram que Locke, ao lado de Hume e

é, de um lado, a admissão de que eu sou o sujeito de minha história e de que esta história tem um significado peculiar; e, de outro, o reconhecimento de que sou um sujeito da história dos outros.

Ser o sujeito da própria história equivale a responder pelas ações e experiências que compõem essa vida narrável. A identidade pessoal pressupõe, portanto, a unidade do caráter que a narrativa requer. Sem isso, não há história para contar. Por outro lado, se sou parte da história dos que comigo vivem, por exemplo, minha narrativa tem uma coautoria. É isso que me leva a perguntar ao outro por que agiu desta ou daquela forma, pois que sou parte dessa história que o outro fez. A narrativa individual é, portanto, parte de um conjunto de narrativas interconectadas. Assim, qualquer tentativa de elucidar a noção de identidade pessoal independente e isoladamente das noções de narrativa, inteligibilidade, dentre outras, está fadada ao fracasso.

Tal como MacIntyre, Taylor está introduzindo dois aspectos inexistentes na concepção liberal do sujeito: o da interlocução, pelo qual ele se constitui, e a referência a uma ordem normativa. A construção dialógica do self não apresenta maior novidade, mas a postulação da ordem normativa traz consigo questões complexas.

A primeira delas concerne ao status a ser conferido ao campo valorativo: vivemos referenciados a uma normatividade objetiva ou, alternativamente, nosso diálogo revela a troca e o eventual acordo entre nossas subjetividades? A segunda hipótese é a seguinte: se refere ao teor de verdade a ser atribuído a estas normas que constrangem o exercício de nossa vontade. Finalmente, vem à tona a questão do grau de liberdade conferido ao sujeito num contexto normativo objetivamente estruturado.

Apesar de tais questões, percebe-se as contribuições de Charles Taylor ao debate atual acerca do reconhecimento. Sua proposta de reconhecimento atinge a esferas de várias sociedades, culturas ao mesmo tempo: o reconhecimento a partir do multiculturalismo. Tal proposta parte das mediações do real. Não é a toa que ele e Honneth receberam influência da filosofia hegeliana a partir dos escritos juvenis.74 O

debate, contudo, não se resume ao aspecto multicultural do ato de reconhecer pura e simplesmente.

Hobbes, ajudou no desenvolvimento da psicologia na modernidade.

74 A influência hegeliana é tão forte para a construção sistemática para uma filosofia do reconhecimento

que Taylor desenvolve todo um debate acerca de quais contribuições Hegel possui para o mundo atual. Além de analisar os aspectos políticos de sua filosofia, Hegel é trabalhado por Taylor como autor que trabalha a intersubjetividade sob à luz da especulação intersubjetiva que pautam os movimentos políticos atualmente. Cf. TAYLOR, C. Hegel e a Sociedade Moderna. Loyola. SP. 2005.

O papel da justiça como elemento que ora media os conflitos, ora trabalha as mediações a nível do reconhecimento jurídico não podem ser deixadas de lado nesta discussão. Mesmo porque ela trabalhada isoladamente não garante aos grupos políticos a efetividade de seus direitos. Distribuir o que é justo ou mesmo a quem é devido possui implicações sérias ao mundo de hoje. Por esse motivo, destaca-se nessa problemática Nancy Fraser (1949-).

Filósofa aliada à Teoria Critica, ela é uma pensadora preocupada com as questões de justiça. Mais especificamente, como as mulheres terão seus direitos garantidos, reconhecidos em uma sociedade pautada pela forte presença da desigualdade entre homens e mulheres? Ao lado de Honneth desenvolve um diálogo filosófico bastante frutífero em relação às questões de gênero na filosofia. Aliás, a questão dos “movimentos feministas”75 é um assunto bastante pertinente nos dias de hoje. Fraser é

ativista em defesa aos direitos das mulheres. Nesse sentido, o debate a seguir propiciará um diálogo mais forte, próximo com as ideias propostas por Honneth sobre o tema desta tese.