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De acordo com ENGESTRÖM (1987), existiram ao longo da história três gerações da teoria da atividade, sendo considerada a primeira geração focada na ação individual, a segunda representada pela valorização da atividade coletiva e, por fim, a terceira geração, considerada por meio dos sistemas de atividades em colaboração.

2.1.1 Primeira geração

A primeira geração é representada por Vygotsky e Leontiev, que efetivamente sistematizaram o conceito de atividade, em que toda a atividade do homem é uma ação mediada. Pode ser representada pelo triângulo de mediação criado por Vygotsky, em que o sujeito interage com o objeto a partir de um elemento mediador:

Figura 2 - Relação entre sujeito e objeto sendo mediada por artefatos

Fonte: Daniels (2003, p. 114).

O diagrama representa a formulação de Vygotsky centrada na ideia de mediação; a unidade de análise é o indivíduo não levando em conta o contexto em que ele se coloca. Um estímulo pode desempenhar o papel de objeto visando o ato de comportamento, a mediação acontece a partir das ferramentas físicas ou psicológicas para resolver um problema.

Estes pesquisadores se interessaram no ensino e no aprendizado, visando descobrir como os conceitos são formados na escola. Apresentam como unidade de análise a ação mediada, considerando que a realidade externa é mediadora entre o sujeito e sua ação.

A partir da experiência do indivíduo podemos ter dois canais de interação entre o sujeito e o objeto, um imediato e outro mediado pensando na formação de conceitos. Os instrumentos mediadores são usados como ferramentas e sinais para transformar a realidade, para controlar a colaboração, para controlar o próprio comportamento e o próprio processo psicológico.

2.1.2 Segunda geração

A primeira geração, partindo do trabalho de Vygotsky, era voltada ao desenvolvimento da atividade a partir das funções psicológicas; já a segunda geração desenvolveu-se com os estudos de Engeström (1999), que agrupa os seguintes componentes como resultado da necessidade de considerar o significado partilhado da atividade: sujeito, objeto, comunidade, os mediadores da atividade humana – instrumentos, regras e a divisão do trabalho –, ou seja, tanto o nível individual quanto o social em uma só representação completando o que limitava a

primeira geração, na qual o foco era somente na ação individual, passando agora para o coletivo.

Leontiev (1981) teve um papel importante distinguindo entre as atividades sociais e individuais, destacando o conceito da divisão do trabalho, reforçando o conceito de atividade como interações entre seres humanos e o seu meio ambiente, além da noção dos níveis hierárquicos da atividade. Para ele, a atividade é um sistema estruturado.

Engeström (1987) acrescenta na representação de atividade do triângulo original a ação coletiva com o objetivo de representar os elementos sociais e grupais. Como proposta, o pesquisador (1987) coloca que a expressão sistema de atividade surge para mencionar os elementos da organização social na análise da consciência humana. A insuficiência da ação individual gera as ações conjuntas dentro do contexto da atividade coletiva (ENGESTRÖM, 1987).

Figura 3 - Segunda geração da Teoria da Atividade

Fonte: Engeström (1987).

O Center for Activity Theory and Developmental Work Research do Departamento de Educação da Universidade de Helsínquia apresenta os elementos do sistema de atividade da seguinte maneira:

No modelo, o assunto refere-se ao indivíduo ou subgrupo, cuja ação é escolhida como enfoque na análise. O objeto trata da matéria-prima ou “espaço do problema” em que a atividade é dirigida e que é modelada e transformada em resultados com ajuda física ou simbólica, mediação de instrumentos externos ou internos, incluindo ferramentas e sinais. A comunidade compreende indivíduos múltiplos e/ou subgrupos que compartilham um objeto comum e que se constroem diferente do que os de outras comunidades. A divisão do trabalho refere-se a ambos, à divisão horizontal de tarefas entre os membros da comunidade e à divisão vertical de poder e posição (status). Por fim, as regras tratam dos regulamentos internos e externos, das normas e convenções que obrigam ações e interações dentro do sistema da atividade.

O sujeito é o indivíduo ou grupo de indivíduos; representam a natureza coletiva e individual da atividade humana por meio do uso de ferramentas em um contexto social para satisfazer os objetivos desejados. A relação entre os sujeitos com o objeto ou objetivo da atividade é mediado pelo uso de uma ferramenta.

O objeto representa objetivo da atividade humana que permite que os indivíduos controlem seus próprios motivos e comportamento ao realizar a atividade visando a satisfação.

Artefatos são ferramentas físicas e simbólicas, externas e internas (instrumentos mediadores). Uma ferramenta pode ser algo físico – um martelo, um computador – ou algo abstrato – a linguagem. As ferramentas físicas são usadas para manipular o objeto, enquanto que as psicológicas são usadas para influenciar o comportamento. As ferramentas físicas podem ampliar as habilidades do ser humano para atingir uma meta, ou mesmo limitá-las.

A comunidade situa a atividade em estudo dentro do contexto sócio- cultural daqueles sujeitos que compartilham o mesmo objeto da atividade. O relacionamento entre os sujeitos e a comunidade é mediado por regras.

A divisão do trabalho considera igualmente a divisão horizontal das tarefas entre os membros da comunidade e a divisão vertical relacionada com poder e status; é a distribuição de responsabilidades e a variação de papéis entre os sujeitos envolvidos na execução de uma atividade dentro de uma comunidade. A divisão do trabalho intercede o relacionamento entre a comunidade e o objeto, buscando transformar este objeto em resultado.

As regras são regulamentos implícitos e explícitos, normas e convenções que restringem ações no interior do sistema de atividade que de uma forma afetam a maneira como a atividade está sendo desenvolvida.

O motivo é o que leva uma pessoa ou grupo de pessoas à execução de uma atividade; para tanto, as atividades estão ligadas a uma ou mais ações, as quais satisfazem algumas metas no plano racional. Por sua vez, para serem executadas são necessárias uma ou mais operações, que são tarefas automatizadas, já internalizadas, que independem do plano racional, porém necessitam das condições necessárias para que aconteçam.

Aos poucos a teoria da atividade revelou um conjunto de conceitos para unificar o entendimento da atividade humana. A importância do contexto na TA é

referida por Kuutti (1996) ao mencionar que uma atividade nunca pode ser vista fora do contexto:

Ações são sempre situadas em um contexto e, por isso, sempre impossíveis de serem compreendidas sem o mesmo. (...) Porque o contexto é incluído na unidade de análise, o objeto da nossa pesquisa é sempre essencialmente coletivo mesmo se nosso principal interesse seja em ações individuais. Um indivíduo pode e normalmente participa em diversas atividades simultaneamente.

2.1.3 Terceira geração

Com a evolução da teoria da atividade, as questões de diversidade e diálogo entre diferentes conhecimentos ou perspectivas geraram novos desafios: saber estabelecer redes de sistemas de atividade e analisar tanto as relações internas dos sistemas, como as interações e interdependências entre os mesmos. Engeström (2001) considera que esta geração deve desenvolver ferramentas conceituais capazes de interagir nas redes de sistemas incorporando o trabalho colaborativo.

Esses desenvolvimentos indicam a formação da terceira geração de teoria da atividade. Nesse modo de pesquisa, o modelo básico é expandido para incluir minimamente dois sistemas de atividade em interação como mostra a Figura 4:

Figura 4 - Dois sistemas de atividade como modelos mínimos para a 3ª geração

Fonte: Engeström (2002). Traduzido pelo autor.

A divisão de trabalho e as regras das comunidades apresentam o aspecto coletivo da atividade, estão inter-relacionados, influenciando mutuamente, o que implica que não estamos olhando apenas para um simples sistema de atividade,

mas para a inter-relação entre os múltiplos sistemas que, de alguma forma, estejam focados parcialmente no mesmo objeto.

Neste modelo o espaço do problema direciona-se de um estado inicial de “matéria prima” para um objeto coletivamente significante construído pelo sistema de atividade (ENGESTRÖM, 2001). O objeto da atividade é um alvo móvel, não redutível aos objetivos conscientes de curto prazo.

Engeström (2006) vê a atividade e a prática juntas, não apenas uma atividade individual, ela abrange a estrutura social tendo em conta a natureza conflitual das práticas sociais, tanto o sujeito como o meio devem ser modificados a partir da atividade desenvolvida.

A terceira geração da teoria da atividade desenvolve ferramentas conceituais para compreender o diálogo, perspectivas múltiplas e redes de interação dos sistemas e redes de atividades, uma discussão entre a teoria da atividade e a teoria ator-rede proposta por Latour (1993) foi iniciada (ENGESTRÖM, 2001). O conceito de transposição de limite está sendo elaborado dentro da Teoria da Atividade (ENGESTRÖM; ENGESTRÖM et al, 1995). Por exemplo, Gutierrez e seus co-autores (GUTIÉRREZ; RYMES et al, 1995; GUTIÉRREZ; BANQUEDANO-LOPEZ et al, 1999) sugerem o conceito de “terceiro espaço” para explicar situações de discursos em sala de aula, onde os mundos aparentemente autossuficientes e os scripts dos professores e dos estudantes ocasionalmente se encontram e interagem para formar novos significados que vão além dos limites evidentes de ambos.

Benzer Belgeler