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O conceito de coping religioso/espiritual (CRE) está inserido nas áreas da psicologia cognitivo-comportamental, psicologia da religião, psicologia positiva, psicologia da saúde, nos estudos sobre religião, saúde, medicina e espiritualidade. Na perspectiva de Pargament (1997); Pargament, et al. (1998), para se chegar a uma compreensão acerca do conceito do CRE, torna-se necessário retomar as tentativas de definições sobre religião e as diferenças entre religiosidade e espiritualidade.

O autor expõe que a religião constitui-se num processo de “busca de significado” através de caminhos relacionados ao sagrado, sendo assim quando os indivíduos se voltam para ela com o intuito de lidar com o estresse, acontece o Coping Religioso. Em muitos dos textos utiliza-se apenas este termo: coping Religioso, contudo, ocorreram algumas discussões para modificar a nomenclatura para Coping Religioso / Espiritual (CRE) por levar em consideração as diferenças entre espiritualidade e religiosidade que foram discutidas anteriormente.

Panzini e Bandeira (2005) ressaltam que os textos mais antigos, referem-se somente a coping religioso, embora muitas vezes estejam se referindo também a coping / espiritual (ambos complementares e frequentemente usados em conjunto). Contudo, Pargament (1997) fundamentando-se na estrutura conceitual de Lazarus e Folkman (1984) emprega o conceito de Coping Religioso Espiritual (CRE) para referir-se ao processo pelo qual o indivíduo, por meio da sua espiritualidade, crença ou comportamentos religiosos tenta entender e/ou lidar com importantes exigências pessoais ou situacionais em sua vida.

O autor pontua várias razões que justificam a associação entre religiosidade/espiritualidade e enfrentamento. Primeiro constatou que o estudo da religiosidade e do enfrentamento traria significativas contribuições à vida das pessoas, por possuir um importante papel na solução de problemas; em segundo, porque tal estudo oferece oportunidades para aprender mais sobre religiosidade, parte integrante do ser humano e em terceiro, o estudo da religiosidade e do enfrentamento possui implicações práticas, pois ambos se fazem presentes em momentos difíceis, e possuem elementos significativos em muitas fases de resolução de problemas, ou seja, a religião pode afetar a maneira como a pessoa percebe o sentido de suas dificuldades.

A partir desta compreensão, a noção de CRE tem os seguintes pressupostos: 1. A existência de uma situação estressora; 2. A avaliação que a pessoa faz da situação (ameaça ou desafio); 3. Os recursos disponíveis para lidar com determinada experiência.

Panzini (2004) concordando com Pargament (1997) no uso do termo Coping Religioso Espiritual (CRE) o define como o uso de crenças, comportamentos religiosos para facilitar a solução de problemas e prevenir ou aliviar as consequências negativas de circunstâncias de vida estressantes. Os objetivos do coping religioso são: busca de significado, controle, conforto espiritual, intimidade com Deus e com os membros da sociedade, transformação de

vida, bem estar físico, psicológico e emocional (PARGAMENT, 1997; PARGAMENT, 2001b; PANZINI, 2004).

De acordo com Panzini e Bandeira (2007) há vários meios pelos quais a religião pode estar envolvida no coping. Primeiro, ela pode ser parte de cada um dos elementos do processo (avaliações, atividades, propósitos e resultados de coping); segundo, a religião pode contribuir moldando o caráter dos eventos da vida e terceiro, a religião pode ser um produto do coping.

No que se refere à estratégia do CRE, a religião oferece uma variedade de métodos que se mostram cobrindo toda uma série de comportamentos, emoções, cognições e reações, possuindo vários atributos, contrapondo assim o estereótipo de que seriam estratégias passivas, focadas na emoção ou em formas de negação (PARGAMENT, 1997; PARGAMENT; KOENING; PEREZ, 2000).

As pesquisas apontam que as estratégias religiosas de coping foram verificadas a partir de evidências quanto à importância da religião diante de situações de crise, problemas relacionados à saúde e ao envelhecimento, como doenças, incapacidades e morte (KOENING, et al., 1995; SAVOIA, 1999; RABELO; NERI, 2005).

Quanto aos resultados, o CRE pode ser eficiente, suceder bem em algumas dimensões afetadas pela crise e fracassar ou mesmo agravar em outras. Para descobrir a chave do bom resultado do processo de coping religioso é importante aprender mais sobre os fatores que determinam o modelo de religião e, mais especificamente, se toma formas efetivas ou não (PARGAMENT, 1997). Eles podem ser classificados em estratégias positivas (CREP) e negativas (CREN).

Nesta perspectiva, o CREP abrange estratégias que proporcionem efeito benéfico / positivo ao praticante, como procurar amor/proteção de Deus ou maior conexão com forças transcendentais, buscar ajuda/conforto na literatura religiosa, buscar perdoar e ser perdoado, orar pelo bem-estar de outros, resolver problemas em colaboração com Deus, redefinir o estressor como benéfico, etc. O CREN por sua vez, pode envolver estratégias que geram consequências prejudiciais/negativas ao indivíduo, como questionar existência, amor ou atos de Deus, delegar a Deus a resolução dos problemas ou sentir insatisfação/descontentamento em relação a Deus (PANZINI; BANDEIRA, 2005).

Evidências apontam um uso consideravelmente maior de estratégias de CREP que de CREN, para diferentes amostras, em diferentes situações estressantes e, que as pessoas

utilizam o CRE especialmente em situações de crise (PARGAMENT; KOENIG; PEREZ, 2000; KOENIG; LARSON; LARSON, 2001; PEREIRA, 2012; VEIT; CASTRO, 2013c).

Pargament, Smith et al. (1998a); Pargament, Taraskeswar, et al. (2001) e Panzini (2004), trazem uma esquematização das estratégias positivas e negativas do CRE:

Coping positivo: Reavaliação benevolente; coping religioso de colaboração; foco religioso; ajuda através da religião; apoio espiritual; apoio de membros da instituição religiosa; perdão religioso e conexão espiritual.

Coping negativo: Reavaliação de Deus como punitivo; reavaliação demoníaca ou malévola; reavaliação dos poderes de Deus; coping religioso por delegação; descontentamento religioso espiritual e intervenção divina.

Koenig, Pargament e Nielsen (1998), em pesquisa realizada sobre enfrentamento religioso e estado de saúde em idosos hospitalizados, verificaram que as estratégias positivas de CRE apresentaram correlação positiva com melhor saúde mental (menos sintomas depressivos e melhor qualidade de vida), crescimento relacionado ao estresse, crescimento espiritual e cooperatividade. Estratégias negativas de CRE tiveram correlação negativa com saúde física, depressão e qualidade de vida.

Em linhas gerais, considera-se que o que define se uma estratégia de coping será positiva ou negativa, é saber em que medida essa estratégia dispõe a religião como meio e recurso de se enfrentar ou aliviar um problema, ou se a religião deixa de ser um recurso ou uma fonte de proteção para se tornar um encargo, ou mesmo um agente estressor (PARGAMENT et al., 1998). A relevância de conhecer tais estratégias, como Pereira (2012) ressalta, está em perceber como elas se manifestam, sobretudo, para profissionais de saúde que lidam diretamente com pessoas com fortes crenças religiosas, já que estas podem influenciar todo o processo de estabelecimento da relação terapêutica.

No presente trabalho será adotado o termo Coping Religioso Espiritual - CRE, fundamentando-se em Pargament (1997); Panzini (2004) e Panzini; Bandeira (2005) os quais concordam com o conceito do CRE ao entender o uso da religião, espiritualidade ou fé para lidar com o estresse e as consequências negativas dos problemas de vida.