A religião desempenha um papel relevante na vida social, espiritual e política das pessoas. Além disso, o estudo das religiões favorece o desenvolvimento pessoal dos indivíduos, visto que possibilita resposta às questões existenciais que vem incomodando a humanidade desde os tempos mais remotos (GAARDER; HELLERN e NOTAKER, 2005).
O termo religião pode ser visto por diferentes ângulos, pode se considerar o conceito, a cerimônia, a organização e a experiência vivenciada no ritual religioso. Leva-se em conta também que a religião não está vinculada apenas ao intelecto, uma vez que além desse aspecto cognitivo, está envolvida a dimensão afetiva e a comportamental, presentes na maioria delas, como por exemplo, o ato de exteriorizar emoções pela música ou pelo canto consideradas formas de expressão da religiosidade (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2005).
Vários são os pesquisadores que se debruçam em torno do estudo do conceito de religião (ELIADE, 1999; DURKHEIM, 2001; WEBER, 2006) e, diante dos inúmeros conceitos existentes sobre o termo, encontra-se a definição de Durkheim (2001) que abrange a religiosidade em suas várias dimensões. Para ele, a religião é concebida como um sistema de crenças, ritos e símbolos que têm como função ajudar o indivíduo a se aproximar do sagrado e organizar a vida comunitária. Ainda segundo este autor, todas as crenças religiosas apresentam o caráter de dividir o mundo em dois domínios: o sagrado e o profano. Entre as coisas sagradas não se deve avaliar apenas os seres chamados deuses ou espíritos, mas qualquer objeto, uma pedra, um elemento da natureza que seja venerado, pode ser visto como sagrado.
Eliade (1999) apresenta concepção semelhante na distinção entre o sagrado e o profano, afirmando que a religião organiza um espaço, que é denominado sagrado,
compreendendo assim o local onde são realizadas cerimônias de culto e são feitas preces com pedidos à divindade e em qualquer elemento pode ser vista a manifestação divina (hierofania) variando de acordo com as religiões. Quando um espaço é considerado santificado, passa a ser descontínuo, adquire um significado mais forte que corresponde à presença de uma força maior que deve ser reverenciada, este aspecto difere do espaço profano que por sua vez, significa o que está fora do templo.
Ainda segundo os estudos do autor supracitado, destaca-se que desde os tempos mais remotos já havia discussões acerca da definição de religião. Na perspectiva de Cícero (106 -43 a C), o termo religião significa reler, se recolher para ler os textos sagrados, Lactâncio (240 – 320 a C) por sua vez, mostra a origem do termo no latim religio formado pelo prefixo re (outra vez) e o verbo ligare (ligar, unir). Desta forma, a religião é considerada como uma ligação entre o sagrado e o profano, onde o primeiro é considerado elemento fundamental para se tentar compreender o fenômeno religioso e suas diversas formas de manifestação.
Na visão de Gaarder; Hellern e Notaker (2005) a religião é compreendida como a relação entre o homem e o poder sobre-humano no qual ele acredita ou se sente dependente. Essa relação se expressa em emoções especiais (confiança, medo), conceitos (crenças) e ações (culto e ética). Nos estudos de Panzini (2007) a religião é conceituada como a crença na existência de um poder sobrenatural, criador e controlador do universo, que deu ao homem uma natureza espiritual a qual continua a existir depois da morte do corpo.
Já para Koenig; Larson e Larson (2001) religião é um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos destinados a facilitar a proximidade com o sagrado e o transcendente (Deus, força superior ou verdade absoluta). Hufford (2001) concorda com os autores ao afirmar que religião “é o aspecto institucional da espiritualidade e que religiões são instituições organizadas em torno da ideia de espírito”.
Na perspectiva de religião como sistema organizado, alguns autores (KOENING; MCLLOUG; LARSON, 2001) destacam os seguintes agrupamentos: (1) crenças religiosas, que são as bases de todas as religiões; (2) afiliação religiosa, referindo-se à identificação do indivíduo com determinada crença; (3) religião organizacional, que corresponde à dimensão social e se refere à participação em igrejas; (4) religião não-organizacional onde envolve a prece privada e o comportamento individual; (5) religião subjetiva, que é o quanto o indivíduo se sente religioso; (6) compromisso religioso, que indica o nível de religiosidade do indivíduo; (7) religiosidade como busca, que se refere à utilização da religião na tentativa de
compreender conflitos e tragédias; (8) experiência religiosa, referindo-se as experiências místicas e transcendência; (9) bem-estar religioso, seria a satisfação com a vida; (10) o coping religioso, correspondendo a utilização de componentes cognitivos/comportamentais no enfrentamento de situações estressantes da vida; (11) conhecimento religioso; (12) consequências religiosas, são comportamentos decorrentes da religiosidade do indivíduo, tais como pagamento de dízimo, trabalho voluntário, entre outros.
No que se trata das formas de entendimento sobre a origem da religião, percebe-se que ela surgiu mediante a necessidade que a mente humana tem de explicações ontológicas, pela busca de conforto e para assegurar a ordem social, dando suporte à moralidade (BOYER, 2001). De acordo com Chauí (2001), entre as principais finalidades da experiência e da instituição social religiosa, foram destacadas: proteger os seres humanos contra o medo da natureza; dar aos homens um acesso à verdade do mundo; oferecer a esperança de vida após a morte; proporcionar consolo aos aflitos e garantir o respeito às normas e valores morais estabelecidos pela sociedade.
De acordo com Terrin (1998) e Mellagi (2009) a religião no seu percurso ofereceu explicações para os sofrimentos humanos, como a doença, conforme ilustrado em várias passagens do Antigo e Novo Testamento do Livro Sagrado dos Cristãos (Bíblia) que asseguram a doença como maldição aos pecadores e a saúde como benção aos justos, estando à veracidade da promessa do reino vinculada à cura dos doentes.
Na civilização ocidental, por exemplo, os cuidados às pessoas enfermas surgiram dentro dos mosteiros medievais e as organizações religiosas proveram alguns dos primeiros e melhores cuidados aos portadores de sofrimento mental (MOREIRA-ALMEIDA; NETO; KOENING, 2006).