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De acordo com a Organização Mundial de Saúde – OMS (1986), a saúde é definida como um estado de bem-estar físico, espiritual e social, despojando-se da ideia de que saúde é apenas a ausência de patologias. Sobre esta concepção vários pesquisadores lançaram suas críticas: para Terrin (1998) este conceito jamais deveria ter sido alcançado, pois em virtude das adversidades da vida, há certo impedimento de se atingir uma situação de bem estar físico que seja, ao mesmo tempo, social e espiritual, estando todos doentes em maior ou menor grau.

O mesmo autor descreve o conceito de doença como sendo o lado obscuro da vida, levando a todas as consequências e à perda da integridade e identidade pessoal.

Silva (2010) explana em seus estudos sobre religiosidade e qualidade de vida que as situações relacionadas à saúde ou à doença, resultantes do acaso ou da postura do indivíduo, podem apresentar distintos significados de amor, vontade ou ira divina.

A variedade de significados atribuídos ao adoecer, no viés religioso, se multiplica ao longo da história do cristianismo, e a visão do processo saúde-doença, vista por este aspecto, ultrapassa a esfera biopsíquica investigada pelo médico (MELLAGI, 2009). Observa-se assim que desde os primórdios da medicina, é possível identificar que antigas práticas terapêuticas se embasavam no mundo religioso, sendo fácil constatar através da história, uma relação essencial, inegável e antiga entre religião e saúde.

Corroborando com o exposto, através de um software para pesquisa teológica bíblica denominada The Word, foram encontradas, no Antigo Testamento 167 episódios, em que se entende a cura de doenças como um fato ligado à ação ou vontade divina. No Novo Testamento há 165 ocorrências concebendo a cura de enfermidades como um milagre, a exemplo do que se segue:

Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todos os tipos de doenças e enfermidades entre o povo. (...) traziam-lhes os enfermos acometidos de várias doenças e tormentos e Ele os curava. (EVANGELHO DE MATEUS 4:23,24).

Para exemplificar a influência da religião no processo de doença e cura, Stroppa e Moreira-Almeida (2008), expõem que da Idade Média ao século passado, ordens religiosas criaram e mantiveram uma parcela dos hospitais da Europa e da América. O primeiro hospital destinado aos cuidados de enfermos mentais foi construído em Valência, na Espanha em 1409, dirigido por religiosos. No Brasil, a grande maioria das casas de saúde foram construídas e mantidas por grupos religiosos.

Segundo Botelho (1991) o envolvimento das Instituições religiosas com a cura tem raízes histórico-culturais, segundo ele, deve-se à prática dos princípios que permeiam algumas religiões como doação, compaixão, cuidado, hospitalidade e o desconhecimento sobre as enfermidades em determinado momento da história da humanidade. Este fato contribuiu para o processo de divinização em que se acreditava que os deuses tinham o poder de interferir no processo saúde-doença ou vida-morte, podendo causar ou curar enfermidades,

Nos estudos realizados por Santos (2008), a religião pode oferecer formas de apoio que são agrupadas em dois tipos, sendo o primeiro denominado apoio espiritual, que se refere a aspectos teológicos propriamente ditos, e o segundo referente ao apoio institucional, que pode ser caracterizado a partir de serviços oferecidos à comunidade ou pela formação de uma rede de apoio social. Em situações de crise, como é o caso do diagnóstico e tratamento do câncer de mama, a religião enquanto fonte de apoio social tem sido referida como importante fator protetor e recuperador, sendo cada vez mais ressaltadas por sua influência sobre a saúde e prevenção de doenças, favorecendo o comportamento resiliente (HOLFFMANN; MULLER; FRASSON, 2006; SILVA, 2010).

Paiva (2007) traz discussões que evidenciam conexões acerca do que está sendo exposto, relatando que há numerosos estudos a respeito da correlação entre religião e cura, religião e doença, religião e saúde.

Outra associação encontra-se no fato de que as crenças religiosas oferecem uma visão de mundo que proporciona sentido às experiências e adversidades da vida, podem ativar emoções positivas; fornece rituais que facilitam e santificam maiores transições (adolescência, casamento, morte) e, além de atuarem como agentes de controle social dão direcionamento e estrutura para os tipos de comportamento socialmente desejáveis. Para Koening; Mclloug e Larson (2001) as práticas e crenças religiosas estão associadas à melhor saúde física, evidenciando resultados positivos do envolvimento religioso em relação à dor, fragilidade física, doenças cardíacas, função imune, função endócrina, câncer e mortalidade.

A título de exemplo, Hummer et al. (1999) investigaram através de uma amostra de 21.204 adultos saudáveis, a associação entre mortalidade por câncer e prática religiosa semanal; após ajustar resultados para sexo, idade e etnia constataram que a religiosidade poderia diminuir o risco de câncer pela adoção de hábitos de vida mais saudáveis (menos tabagismo e etilismo).

Também Farias (2009) ao estudar os efeitos da crença religiosa na percepção da dor numa perspectiva neuropsicológica, ele comparou dois grupos: religiosos representados pelos católicos e não religiosos. Fora solicitado aos participantes que fixassem os olhos na imagem da Virgem Maria, e ao olharem para a imagem, os participantes recebiam estímulos dolorosos. Sendo assim, o autor verificou que o primeiro grupo ao receber o estímulo olhando para a imagem, sentiu menos dor que o grupo não religioso. Observou-se ainda que enquanto os religiosos fixavam o olhar na Virgem, havia um maior afluxo sanguíneo na área do córtex

pré-frontal ventro lateral direito, uma zona que está associada com a forma de pensar a dor de modo à recontextualizá-la.

2.3 ESPIRITUALIDADE E RELIGIOSIDADE: ASPECTOS DIFERENCIAIS E A