Etimologicamente, a palavra educação tem origem em termos latinos que derivam dos verbos e-ducare ou ainda e-ducere, significando conduzir, levar para fora, ou ainda, amamentar, alimentar, criar. Conceitualmente, educação está sempre ligada à noção de ação, de prática, de movimento, revelada num processo que deve envolver consciência de um conhecimento, teorização e reflexão.
A educação, de maneira mais ampla, pode ser entendida como o processo de transmissão de valores, costumes e conhecimentos de uma geração para a seguinte, intencionalmente, através de situações presenciadas ou experiências compartilhadas. Ou seja, constitui-se como um princípio comunicativo, utilizado pelas sociedades, para desenvolver no individuo a consciência de suas potencialidades e favorecer a criação de comportamentos de indivíduos em seu grupo social e no meio em que vivem.
Na expectativa de evitar equívocos acerca das concepções ou mesmo simplificações, cabe aqui uma relevante diferenciação entre os conceitos de educação e educação escolar. Para tanto, a educação necessita ser compreendida a partir de um alargamento de seu próprio conceito.
De acordo com Libâneo (2002a), as práticas educativas não são exclusivas à família ou à escola, mas ocorrem em todos os contextos da existência individual e social humana, de modo institucionalizado ou não. Dentre essas práticas, existem as que acontecem de maneira difusa, não intencional ou tampouco institucionalizada, o que se denomina de educação
informal. Existem, porém, as práticas educativas realizadas em instituições, embora não
convencionais/formais de educação, que apresentam algum nível de intencionalidade e sistematização. A essas, dá-se o nome de educação não-formal. Todavia, a educação que, de fato, se faz relevante para esta pesquisa é aquela denominada educação formal, na qual as práticas educativas são caracterizadas pela intencionalidade e sistematização, e ocorrem em ambientes institucionalizados como escolas e outros estabelecimentos congêneres.
Sobre a educação formal, há muitas questões a serem debatidas, especialmente no que diz respeito a sua qualidade, reconhecendo, entretanto, que o conceito de qualidade está
invariavelmente ligado aos interesses e às mediações estabelecidas nas Instituições estabelecidas para esse fim.
A prioridade em se olhar diligentemente para a educação escolar como uma das ações, estratégica e factível, para ancorar a evolução social encontra-se no eixo das discussões sobre o desenvolvimento da nação brasileira ao menos desde 1932, com o advento do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. As discussões naquela época tangiam sobre a conquista de uma escola pública, de qualidade, universalizada, laica e democrática e, embora tenham transcorridos mais de 80 anos, ainda é possível atribuir sua atualidade e debater a educação pública que vem sendo oferecida no presente.
É verdadeiro afirmar que o processo educacional é basilar no desenvolvimento das pessoas e, consequentemente, da humanidade. Em qualquer uma das modalidades – informal, não-formal ou formal – a educação, quando realizada com qualidade e voltada para ideais humanizadores, produz significativos avanços na direção de proporcionar melhores condições de vida para todos e todas.
Historicamente, é possível perceber que durante os anos de 1980 e 1990, o Brasil deu significativos passos no sentido de universalizar e democratizar o acesso ao ensino fundamental obrigatório, melhorando o fluxo de matrículas e investindo na qualidade da aprendizagem desse nível escolar. Mais recentemente, agregaram-se aos esforços de democratização do ensino o aumento da quantidade de crianças de 6 anos ao sistema educacional e também a expansão do ensino médio.
Todavia, relevante se faz destacar que essas mudanças, ainda que existam e estejam sendo feitas, estão deveras aquém do ideal ou daquilo que foi idealizado por uma esquerda incipiente do passado. A evolução do magistério e suas implicações ainda é lenta, tardia, arrastada e amarrada a inúmeras variáveis, especialmente àquelas de ordem política e econômica balizadas pelo pensamento neoliberal, o qual vem garantindo seu espaço numa sociedade esperançosa por desenvolvimento, mas sem bases sólidas educacionais escolares, o que dificulta a análise da própria sociedade sobre os rumos necessários e os enfrentamentos inevitáveis.
Oliveira (2007) aponta a clara relação entre os interesses econômicos das políticas neoliberais atuais e a morosidade do processo de universalização e democratização da educação básica do Brasil, o que nos faz crer que as contradições presentes na sociedade brasileira são estruturais, e não apenas conjunturais.
Retomando-se a dinâmica histórica, nos últimos 80 anos, expandiram-se significativamente as oportunidades de acesso e permanência no sistema escolar
para amplas camadas da população, fazendo com que, ao final do século XX, o ensino fundamental obrigatório estivesse praticamente universalizado no que diz respeito ao acesso. Ainda que com atraso de quase um século em relação aos países desenvolvidos, esta expansão, de evidente característica democratizadora, confronta- se com uma perspectiva política de redução do investimento público em educação, decorrente das opções macroeconômicas do ajuste fiscal e da geração de superávits primários. (OLIVEIRA, 2007, p.666)
Atualmente, para além da questão da democratização do acesso ao ensino regular, ouve-se a voz que declara necessária e urgente a busca pela qualidade na educação escolar, em todos os níveis e modalidades de ensino, no sentido de atribuir à escola o lugar privilegiado de formação de sujeitos que sejam, idealmente, emancipados e capazes de responder aos desafios da sociedade contemporânea, além de serem competentes para traçar metas e decidir rumos para a sua vida e para a coletividade.
Almeja-se garantir uma escola que possa participar da formação de indivíduos- cidadãos alfabetizados, letrados, autônomos na busca de novos conhecimentos, com capacidade de refletir criticamente sobre o presente, e que possam ser autores de um futuro construído com bases e em princípios como ética, humanidade, fraternidade, igualdade, amorosidade, dentre outros tantos valores essenciais, imprescindíveis. Uma escola pública que seja um mecanismo eficaz e efetivo na construção de uma sociedade melhor e de um mundo mais justo, desoprimido, com igualdade de oportunidades e de condições individuais para todos os seres humanos.
O Brasil é marcado, historicamente, por profundas contradições que culminam, na atualidade, na dicotomia entre um país que vivencia possibilidades de desenvolvimento econômico, mas que vem se submetendo ao efeito devastador da globalização econômica. No entanto, manifesta sua expectativa de desenvolvimento com base em uma sólida consciência de cidadania e democracia que, num ideal coletivo, podem ser projetadas pela escolarização da população num ambiente que garanta qualidade e inspire, assim, as urgentes e necessárias mudanças.
A Constituição Federal de 1988 estabelece a Educação como um direito subjetivo do cidadão sendo dever do Estado garanti-la, não permitindo ser um direito relativizado nem colocado em segundo plano.
Isso demanda decisões políticas, especialmente a criação de um Sistema Nacional de Educação, como também reivindica garantir a democratização do acesso e da permanência, posto que o fenômeno da evasão ainda persiste8 em todo o sistema educacional brasileiro e,
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De acordo com dados divulgados no Relatório de Desenvolvimento 2013 do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), um a cada quatro alunos que inicia o Ensino Fundamental no Brasil abandona
mais do que isso, oferecer qualidade de ensino nas Instituições públicas. Na esteira da reflexão histórica sobre a busca da qualidade da educação, é possível destacar a Lei nº. 9.394/96 - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL-LDBEN,1996) que ampliou a garantia do direito à educação e estabeleceu como dever da família e do Estado o educar, estabelecendo o ensino fundamental obrigatório e gratuito. A Educação Infantil é manifestada nesta lei como direito de todas as crianças de até 5 anos de idade, sob a responsabilidade precípua dos Municípios.
Nos artigos 29, 30 e 31, a Educação Infantil é definida como a primeira etapa da educação básica, tendo a finalidade de promover o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, cuja oferta é complementar à ação da família e da comunidade.
Determina ainda que a Educação Fundamental (artigo 32) tem por objetivo a formação básica do cidadão mediante o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores, a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta uma sociedade mais igualitária.
A referida lei aponta expressamente que a função primeira da educação é preparar o educando para o exercício da cidadania e garantir a sua qualificação para o trabalho.
A educação é elevada ao patamar de direito social, em consonância ao artigo 6º da Constituição Federal, que deverá ser garantida para todos e de forma equânime e, por isso, os princípios do direito à educação constam na LDBEN (1996), nos artigos 2º e 3º:
Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância;
V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
a escola antes de completar o último ano. Com a taxa de 24,3%, o Brasil tem a terceira maior taxa de abandono
escolar entre os 100 países com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), só atrás da Bósnia Herzegovina (26,8%) e das ilhas de São Cristovam e Névis, no Caribe (26,5%). Ainda, segundo o Censo Escolar de 2013, no Estado de São Paulo o Ensino Fundamental apresentou índice de 1,6% de taxa anual de evasão, enquanto o Ensino Médio exibia números da ordem de 5,6%. Vale ainda pontuar que as esferas estadual e municipal são as maiores responsáveis pelos números da evasão no estado de SP, seguidos pela esfera municipal (Ensino Fundamental com 0,6% e o Ensino Médio, com 5,1%) e com quase nenhuma evasão apontada, em nenhum dos níveis, nas esferas federal e particular.
VII - valorização do profissional da educação escolar;
VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;
IX - garantia de padrão de qualidade; X - valorização da experiência extraescolar;
XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.
XII - consideração com a diversidade étnico-racial. (Incluído pela Lei nº 12.796, de 2013) (LDBEN, 1996)
Destaca a Constituição da República Federativa do Brasil (1988):
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 64, de 2010, da Constituição da República Federativa do Brasil). (BRASIL, 1988)
Partindo do reconhecimento das referidas Leis, um questionamento precisa ser registrado, embora não tenha a pretensão de ser respondido no momento, mas que, certamente, é uma das inquietações que provocou a realização deste trabalho de pesquisa: como é possível viabilizarmos o “pleno desenvolvimento do educando”, no sentido mais profundo do que as leis preceituam, dadas as condições objetivas da realidade brasileira que precarizam e proletarizam a profissão docente, com excessiva carga de trabalho para professores e professoras, com escolas funcionando em dois ou três turnos sem restar margem para a necessária preparação e reflexão de todos os atores envolvidos no processo educativo e com educandos abandonando a escola para inserir-se no mercado de trabalho, formal ou não, numa clara menção à descontextualizacão da educação escolar atual que não representa significado para os partícipes do processo?
Assim, munidos da crença de que a educação básica se constitui como estratégica para a realização do projeto da Nação brasileira, devendo contribuir para a formação de pessoas críticas, reflexivas e emancipadas, assume-se o compromisso de olhar cuidadosamente para seus diversos vieses na intenção de avaliar e repensar suas finalidades com base em sua própria trajetória.
Compreendendo a importância da educação nas fases iniciais da vida de um cidadão é que se torna relevante o estudo acerca da formação dos professores polivalentes responsáveis pela Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental.