Dentre as formas de organização do Grupo Focal está o grupo com objetivo exploratório, que tem como centro a produção de conteúdos. Sua orientação teórica está voltada para a geração de hipóteses e sua prática tem como alvo a produção de novas ideias, entendimentos e identificação de necessidades, além da expectativa da descoberta de respostas a questões que tenham se feito presentes. Esta teoria está fundamentada na captura e interpretação dos dados.
De acordo com Gatti (2005) o desenvolvimento dos procedimentos de análise requer o estabelecimento de vínculos entre a realização da técnica de coleta dos dados e os interesses da pesquisa.
Estando claros os objetivos e as pretensões do objeto deste estudo, pode-se, então, proceder com as análises. No caso da coleta de dados realizada por meio de grupo focal, o foco de análise é, antes de mais nada, o próprio grupo em suas interações para que seja possível buscar as representações expressas no discurso das participantes.
O ponto de partida para se levar a termo um projeto de pesquisa que esteja apoiado no uso de grupos focais é a clareza de propósito. As decisões metodológicas dependem dos objetivos traçados. Isto irá influenciar na composição dos grupos, no número de elementos, na homogeneidade ou heterogeneidade dos participantes (cultura, idade, gênero, status social, etc.), no recurso tecnológico empregado (face- a-face ou mediados por tecnologias de informação), na decisão dos locais de realização (naturais, contexto onde ocorre, ou artificiais, realizados em laboratórios), nas características que o moderador venha a assumir (diretividade ou não- diretividade) e no tipo de análise dos resultados (de processos e de conteúdo: oposições, convergências, temas centrais de argumentação intra e intergrupal, análises de discurso, linguísticas etc.) (GONDIM, 2002 p.153)
A ciência contemporânea permite considerar que sujeitos e objetos se relacionam dialeticamente, levando em conta as condições objetivas e subjetivas da realidade. A relação entre sujeito e objeto é holística e não se separam.
Qualquer entendimento diferente desse certamente afetaria a qualidade das análises realizadas.
Será preciso esquadrinhar a relação dialética entre objeto e método, a fim de tornar evidente o fato de que o principal critério da cientificidade do método de pesquisa é a capacidade dele de alimentar e fecundar seu objeto de estudo, apontando caminhos de desvelamento e autoconhecimento oxigenadores do processo de transformação desse objeto, que deve cada vez mais adequar-se aos desafios constantes da mutabilidade da realidade social. (FRANCO, 2012, p.67)
Alguns cuidados foram considerados no processo de análise dos dados coletados, tais como: a pesquisadora não pode se deixar influenciar pelos seus interesses, acarretando uma seleção das informações e desprezando o que não é de interesse; o cuidado em não realizar uma análise reducionista que enfoque isoladamente algumas das participantes em detrimento de outras e, embora a centralidade do Grupo Focal recaia sobre as interações entre os indivíduos participantes do grupo faz-se necessário evidenciar vozes individuais, percebendo razões implícitas no discurso e na sequência das falas/conversas, além de olhar atentamente aos comportamento não verbais, tais como gestos e expressões dos participantes.
Existem diferente técnicas de organização e análise dos dados na pesquisa qualitativa, sendo a Análise de Conteúdo uma destas possibilidades nas ciências sociais aplicadas. Partindo do pressuposto de que a pesquisa qualitativa é aquela capaz de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais, tomadas estas como processos de construções humanas (BARDIN, 1995), e apoiada no entendimento de que o foco da estratégia da Análise do Conteúdo é qualificar as vivências dos sujeitos, bem como suas percepções sobre determinado objeto e seus fenômenos, esta técnica apresentou-se como uma alternativa coerente para a análise dos dados empíricos da presente pesquisa, posto que ela intenciona um entendimento aprofundado das percepções, entendimentos e opiniões das professoras participantes dos encontros de Grupo Focal realizados no ínterim desta investigação.
Por definição, a análise de conteúdo “é uma técnica de investigação que tem por finalidade a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação” (BARDIN, 1995, p.18). Compreendendo que o conteúdo de uma comunicação é rico e polissêmico, ela invariavelmente oferece margem para interpretações variadas. E essas interpretações foram cuidadosamente desenvolvidas durante a utilização do referido método acerca das comunicações dos sujeitos que balizam as análises empíricas desta investigação. Assim, a Análise de Conteúdo compõe-se de técnicas de pesquisa que permitem, de forma sistemática, a descrição das mensagens e das atitudes associadas ao contexto da enunciação, bem como as inferências produzidas a partir e sobre os dados coletados.
Para o contexto do presente estudo, vale esclarecer que a Análise de Conteúdo tem por finalidade a produção de inferências feitas a partir da mensagem analisada. “O ato de inferir significa a realização de uma operação lógica, pela qual se admite uma proposição em virtude de sua ligação com outras proposições já aceitas como verdadeiras” (BARDIN, 1995, p.39). Produzir inferências, portanto, é a razão de ser da análise de conteúdos e, numa visão mais ampliada da questão, é a razão de ser desta investigação acerca da prática pedagógica polivalente das professoras participantes deste estudo.
De acordo com Minayo (2007), em termos procedimentais, a referida técnica desdobra-se nas etapas de pré-análise, exploração do material ou codificação e tratamento dos resultados, ou seja, a interpretação dos resultados.
Fundamentando-se nessas recomendações, as transcrições das gravações dos encontros de Grupo Focal realizados foram feitas de maneira literal, ou seja, refletindo exatamente o que foi dito pelas professoras participantes, na medida em que importa, para este estudo, todas as
intervenções feitas, o que foi dito por elas e, também, o que ficou implícito, mas que deve ser percebido pela pesquisadora durante o momento das análises.
Com base nessa orientação, foi realizada leitura flutuante, sistemática, exaustiva e objetiva das falas das professoras polivalentes participantes do Grupo Focal para, assim, encontrar as categorias de análise que serão trabalhadas na interpretação dos resultados e na produção das inferências. Tudo isso, entretanto, será detalhadamente demonstrado no capítulo terceiro dessa dissertação.
A presente pesquisa apresenta-se dividida em três capítulos. O primeiro, propõe uma reflexão sobre a educação, mais especificamente sobre a educação escolar e a necessária qualidade do trabalho docente no Ensino Fundamental nas escolas públicas, perpassando a questão do trabalho docente e suas mediações e culminando na discussão sobre polivalência enquanto perspectiva inerente à prática docente das professoras dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
O segundo capítulo intenta discutir o ensino superior brasileiro e a formação inicial de professores, da década de 1960 até os dias atuais, focalizando o percurso dos cursos oficiais de formação de professores dos Anos Inicias do Ensino Fundamental para, essencialmente, destacar a privatização das IES na atualidade que, de modo preocupante, ocupam a primazia da formação das professoras polivalentes que estão atuando nas escolas públicas estaduais da cidade de São Paulo.
Por fim, o terceiro e último capítulo se ocupa das análises empíricas do conteúdo das falas das professoras participantes da pesquisa.