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HEC-HMS modelinde örnek bir havza şeması

Inserida na pesquisa (auto)biográfica, esta investigação construiu e interpretou as histórias de vida de mulheres romeiras participantes da Reunião das Três Horas, em Juazeiro do Norte, com foco nas experiências fundadoras e formadoras de sua expressão sociorreligiosa e no fato de como essas contribuem para um empoderamento individual e coletivo. As histórias de vida podem ser compreendidas como “busca e construção de sentido, a partir de fatos temporais pessoais e envolvem um processo de expressão da experiência” (PINEAU; LE GRAND, 2012, p.15), elaboradas a partir de um trabalho de construção biográfica, efetuada por intermédio de narrativas orais ou escritas.

Delory-Momberger (2014, p. 316) chama a atenção para o fato de que “a vida narrada, não é a vida” e que as histórias de vida não preexistem às narrativas, pois há necessidade de um trabalho de elaboração e de interpretação, feito por um pesquisador em

17 A fundamentação dessa discussão será desenvolvida, no decorrer da análise teórica e empírica, principalmente

colaboração com o narrador. Nessa relação de interação e coprodução, a história de vida instala um movimento dinâmico “entre-dois” (grifo da autora) numa “dupla relação de completude”. A autora avança dizendo:

[...] a história de vida ocupa, alimenta, satura o espaço da relação ou então vem preencher-lhe o abismo, ela é o que eu tenho em comum com o outro e o que ele tem em comum comigo, ela estabelece de maneira real ou representada a possibilidade de um futuro da relação; de outro, ela me resume, ela se dá para minha totalidade, ela é o ato de uma completude de mim mesmo no momento da relação (DELORY-MOMBERGER, 2014, p. 338).

A diferenciação entre narrativa de vida e história de vida é fundamental para a compreensão de um processo de pesquisa, que se propõe a trabalhar com histórias de vida. Alex Lainé (1998), citado por Delory-Momberger (2014, p. 317), propõe uma definição que esclarece essa diferenciação; em suas palavras:

[...] a narrativa de vida é um momento no processo de produção de uma história de vida. É o da enunciação oral e/ou escrita de sua vida passada pelo narrador. A história de vida começa plenamente com o trabalho desse material, a identificação das estruturas, segundo as quais a vida e a narrativa podem ser organizadas, a divulgação do sentido de que são portadoras a vida e a narrativa.

Por conseguinte, o processo de investigação proposto focalizou as narrativas biográficas das mulheres romeiras intentando, a partir desse procedimento, construir as suas histórias de vida. Desse modo, os elementos centrais da pesquisa giraram em torno dos saberes da experiência, da relação entre o vivido e os processos de autoformação que constituem a identidade e a subjetividade dessas mulheres.

Segundo Delory-Momberger (2008, p. 37), a narrativa de si proporciona um recapitular-se que cria enredos para o vivido, pois “os seres humanos não têm uma relação direta, transparente com o vivido e com o desenrolar de suas vidas; essa relação é mediatizada pela linguagem e por suas formas simbólicas”, ou seja, é através da narrativa dos fatos vividos, ou como colocado pela autora, “fato biográfico primordial”, que produzimos nossa história de vida.

Conforme essa autora, “é a narrativa que faz de nós o próprio personagem de nossa vida; é ela, enfim, que dá uma história a nossa vida: não fazemos a narrativa de nossa vida

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porque temos uma história; temos uma história porque fazemos a narrativa de nossa vida” (DELORY-MOMBERGER, 2008, p.37).

Dessa forma, ao narrar-se, a pessoa fala de suas experiências e vivências, pois, “é a narrativa que confere papéis aos personagens de nossas vidas, que define posições e valores entre eles; [...] que polariza as linhas de nossos enredos entre um começo e um fim e os leva para sua conclusão”, ou seja, é a narrativa que “faz de nós o próprio personagem de nossa vida” (DELORY-MOMBERGER, 2014, p.35-36). Esse processo coloca em movimento o questionamento do que se é, do que se vive, do que se projeta, enquanto intenções futuras, de forma consciente ou inconsciente.

A partir desse entendimento, compreendo que a identidade de uma pessoa não fica pronta e acabada, em nenhuma etapa da vida, pois está em movimento contínuo, devido à influência que recebe dos fatos e tempos vividos; também não é algo que se aprende ou descobre, mas algo que é construído, social e culturalmente, por meio dos diversos acontecimentos vivenciados e das interações que estabelece consigo mesmo, com os ambientes e as coisas; é através das narrativas que nos acessam, sejam elas elaboradas, contadas e ouvidas, como pontuado por Larrosa (1996 apud SAMPAIO; WORTMANN, 2014, p. 230). Portanto, constrói-se narrativamente uma identidade ou, melhor, identidades, pois, assim como se vivenciam muitos papéis em uma existência, também é passível experienciar múltiplas identidades, que são construídas e reconstruídas, ao longo da vida.

Seguindo essa abordagem e corroborando o pensamento de Silva, Hall e Woodward, em Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais, ao aproximar o conceito de identidade e diferença, em articulação com o entendimento de representação, estes autores afirmam que as identidades são construídas simbólica e socialmente. Nas palavras de Woodward (2012, p.17):

A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos, por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeito. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simbólicos tornam possível aquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar. [...] Os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares, a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar.

Tomaz Tadeu, nessa mesma obra, defende que identidade e diferença são criações da linguagem, ou seja, são representações. Os signos da linguagem têm significação apenas quando em relação a um conjunto de outros signos que lhe são opostos. Ele avança antevendo que é no universo social que a identidade e a diferença são reconhecidas e que sua definição discursiva e linguística “está sujeita a vetores de força e relações de poder” (SILVA, T., 2012, p. 81).

Stuart Hall, por sua fez, destaca, através da pergunta “Quem precisa da identidade”, que as identidades, estabelecidas pelas diferenças, constituem posições que os indivíduos precisam assumir; “como todas as práticas de significação, elas estão sujeitas ao ‘jogo’ da différance” (grifos do autor). Ele também afirma que a identidade é construída por meio da diferença e não fora dela. “Para consolidar o processo, ela requer aquilo que é deixado de fora – o exterior que a constitui” (HALL, 2012, p.106).

Dessa forma, a pesquisa que desenvolvi abordou as narrativas de vida das romeiras, como representações dos fatos biográficos vividos, das mudanças e permanências operadas pelas experiências sociorreligiosas vivenciadas, como também das diferenças e semelhanças que marcam as identidades de cada uma, enquanto romeiras devotas e engajadas.

Nesse sentido, considerei as dimensões internas e externas que configuram suas subjetividades, pois os materiais biográficos possibilitam trabalhar com essa dimensão do indivíduo, a partir de sua própria representação do vivido, da “temporalidade da experiência e da existência”. Por meio da narrativa do que é contado sobre si mesmo, sobre a relação com os outros e mundo vivido, o indivíduo adentra o tempo biográfico pessoal (DELORY- MOMBERGER, 2012, p.524). Trabalhar com esses instrumentais permitiu-me captar os sentidos dados às experiências romeiras vividas pelas interlocutoras da pesquisa.

Entendo a subjetividade neste estudo, como os aspectos correlatos a sentimentos, emoções, pensamentos, valores, crenças e representações definidores da individualidade do ser, ou seja, como o espaço íntimo do individuo (mundo interno) que, por sua vez, é influenciado pelo espaço social (mundo externo). Essa articulação entre interno e externo, mediada pelas narrativas, constitui as identidades e subjetividades. De acordo com Delory-Momberger (2014, p. 74):

Esse modo de conduta, pelo qual os atores ‘experimentam’ o social, engaja sua subjetividade e sua reflexividade. Em sua capacidade de gerir lógicas de

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ação heterogêneas e aplicar-lhes procedimentos de seleção, combinação e negação, os atores se constroem como sujeitos sociais (grifos da autora). Essa dimensão da subjetividade [...] é socialmente construída e remete à autonomia relativa de um ator social, a quem cabe experimentar os dispositivos de sua ação.

Considerei essas dimensões no processo de análise das experiências sociorreligiosas, quando busquei evidenciar o que foi formador de suas identidades e subjetividades.