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Kalibrasyon - Validasyon

4. MODEL UYGULAMASI

4.2. Kalibrasyon - Validasyon

Abriu a roda, ô cio, Fechou a roda, ô cio, Essa roda é de namoro, ô cio, Vamos todas namorar, ô cio.

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Calu

Em meus labirintos e quintais começo esse desenho, sem saber que estou começando. Querendo recriar a vida, sou levada ao desejo. Desejo de intercessão. Encontro Calu em 2001, em Belém enquanto cursava mestrado. Ela estava merendando ao pôr do sol, na beira do Rio Guamá, dentro da UFPA, onde fazia graduação. No meio da conversa ela apresentou suas pinturas em cartões telefônicos reciclados. Reencontramo-nos em 2006, durante a experiência com o Núcleo de Arteducação da UFPA em Marabá. A experiência da Cooperativa de Ação Cultural Ubuntu, atuante em Arteducação em Marabá e Sul do Pará, ecoou até Belém, na fala de uma amiga, que nos apresentou. Ela - que já desenvolvia o Projeto Recicle, Pinte e Borde – interessou-se pela proposta da CAC Ubuntu.

“Estou acompanhando esse processo com a Marizete desde 2006, quando eu fui pra perto, foi por causa da Ubuntu, por causa dessa metodologia de arte. Quem me falou da Ubuntu foi a baiana (minha amiga). Ela falou: - Calu, o teu projeto parece com o de uma galera lá de Marabá. Quem é essa galera? Eu perguntei, ela falou de vocês. Ela me convidou pra ir conhecer. Ela até levou uns cartõezinhos meus pra vender lá (...) Então começou a rolar esse imã aí, esse contato. Eu me sentia só com o que eu pensava da minha arte. Eu continuava sozinha (...) e vocês já estavam fazendo em Marabá, estavam concretizando. Quando chegou ao ponto de eu ir pra Marabá conhecer a (Marizete) aconteceu uma mudança no que eu achava sobre arte. (...) A CAC Ubuntu era um projeto de arte-educação que rolou por dois anos no Sul e Sudeste do Pará, artistas e educadores que se reuniram pra fazer uma educação diferente. E eu pirei porque (...) o meu projeto o meu projeto ‘antes artes do que nunca’ era igual ao da Ubuntu.” (Calú)

Após a finalização das atividades da CAC UBUNTU, passamos a viajar juntas em muitas rodas, desafios e partilha. Da beira do rio Guamá, por muitos lugares. Nos fantasiando, cantando, dançando, compondo e recitando poesia. Intensa troca afetiva. Essa intensidade tem nos colocado encruzilhadas, ruas, cirandas e cantorias na lua. Em várias rodas, praticamos música, teatro, fotografias, instalações artísticas,...

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"É que o vento buliçoso balançava teus cabelos e eu ficava com ciúme do perfume ele tirar...(Papete)"

Criamos e desenvolvemos vivências arteducativas em 2007 e 2008, no projeto Oficina Itinerante de Formação de Arteducadores, do Núcleo de Arteducação da UFPA Sul e Sudeste do Pará. Durante esses anos de experiência atuamos juntas em vários projetos arteducativos e mantivemos parceria com a Associação Brasileira de Arteducadores – ABRA.

Fiz o convite inicialmente a Calu para prepararmos o primeiro encontro das Cirandeiras Lunáticas juntas, buscando partilhar cada função, nas rodas de música e

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outras viagens. Durante esse tempo, povoamos nossos dias com música das Meninas do Canapijó11 em cantorias pela cidade. Entre carimbós, afoxés e outras macumbas...

Na preparação dos encontros realizados entre novembro de 2010 e julho de 2013, nossos diálogos apontavam para a necessidade de ampliarmos essa troca afetiva, tentando fugir a rigidez de um ordenamento. Cuidando para que todas pudessem ir participando da criação do momento. Marcamos o primeiro encontro para ocorrer, durante a lua cheia, de novembro, na ilha de Cotijuba, na praia do Vai-quem-quer.

A e a po tei a e i a p a ve o oi e a tado"

Fizemos, eu e Calu, uma relação com quarenta e oito mulheres. Algumas haviam sido minhas professoras, amigas, colegas da universidade, amigas das notivagações, mulheres que haviam trabalhado comigo em projetos tais como PRONERA, CAC

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UBUNTU, UFPA. A proposta era que cinco delas aceitassem compor o grupo de contadoras de história. Das quinze que compareceram, seis participantes do encontro na ilha de Cotijuba, compuseram o grupo de contadoras de história a partir daí. O grupo que se formou não ficou assim tão heterogêneo quanto à idade, as mulheres que vieram para o encontro apresentavam entre 25 e 45 anos. Todas tiveram ou têm vínculo com a universidade.

O convite foi feito por e-mail, ou em conversas no MSN, a algumas o convite foi feito por telefone. Esse aspecto também produziu um recorte seletivo de mulheres que tem acesso a internet e telefone. O convite continha um vídeo-poema, acompanhado das informações de data e local para o primeiro encontro. A idéia inicial era compor o grupo com cinco contadoras de história, entre as quais eu estaria inclusa.

Qual seria um lugar em que estaríamos perto de coisas que gostávamos e lembrassem tempos bons em nossas vidas, a comida paraense, a música, a dança, a rua? Era pra um lugar assim nosso desejo. Inspiramo-nos para provocar essa troca afetiva, preparamos nosso corpo para receber cada uma. Encontramo-nos na pousada Quarto Crescente, em Cotijuba, em plena lua cheia. Havíamos combinado com Adriana, a dona da Pousada, a realização do encontro lá como possibilidade de trocar com participantes do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém, do qual ela faz parte. Sabíamos acima de tudo ser este um lugar inspirador e ainda mais na lua cheia. Daí em diante, muitas histórias aconteceram...

Para apresentar as demais cirandeiras, conto em seguida como cada uma delas foi entrando em minha vida e ofereço ainda apenas um trago de nossas apimentadas histórias, muitas outras vão sendo partilhadas na passagem, uma dose de textos entregues por correio eletrônico durante os anos em que convivemos nos tempos da pesquisa, ou feito à mão, rabiscado em papel e inserido neste corpo.

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As condições de produção de cada e-mail/manuscrito que insiro após a apresentação de cada cirandeira, dependeu da ciranda em rede que nos conectou/conecta continuamente. Os textos recebidos por e-mails foram muitos e o estímulo para a sua produção/coleta e envio foi a vontade de cada uma em tornar sua voz pública, compartilhando informação/opinião.

64 Foto: Auto-retrato – Tatiana (Guaramiranga-CE)

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Tatiana

Conheci Tatiana na universidade, em sala de aula no ano 2000, quando fui sua professora, depois pelas noites da cidade. Nossa amizade fluiu em várias direções. Juntamo-nos em almoços coletivos uma na casa da outra, muitas vezes. Estivemos juntas na Ubuntu12, desde o início. Ouvi muitas vezes a Tati dizer que a CAC Ubuntu

mudou sua vida. Mudou nossa vida, Tati! Nossos encontros nunca aceitaram restrições para acontecer. Nossa vivência educacional foi se matizando a partir daí. A alfabetização Cultural que nos chega através da ABRA13, coincidia com o que trazíamos

na nossa bagagem. Trazíamos também noss@sfilh@s. Muitas histórias nessa convivência fecunda hão de embalar muita conversa ainda. Histórias que entrelaçam nosso espaço-tempo. Compartilhamos em muito nossas histórias íntimas, sobre nossos amores e dissabores, e principalmente, sobre nossa condição educadora na cidade. Entre um careta e outra, tecemos vida cotidiana.

“Uma vez eu falei a uma grande amiga que me sentiria, mas realizada se tivesse uma máquina fotográfica digital, um pc com net, um carro e muito dinheiro no banco e por último sendo doutora ou minimamente mestra.... Putz! Sociedade alienada pelo consumo total, embora nessa época; quatro anos atrás; vivesse com o valor de 400 reais, dividindo uma linguiça no almoço e na janta, sem água nas torneiras, metade da casa no escuro por não ter como arrumar a fiação estourada, num estado de espirito lamurioso, sofrido e altamente "nicotinizado" e alcoolizado... (ainda não tenho dinheiro no banco mas também não divido, a menos que queira, uma linguiça no almoço e janta, já tenho água nas torneiras da casa que habito e quando vejo empréstimo disponível na minha conta faço mesmo kkkk. Briguei comigo mesma por essa estrutura excludente, metida da academia ao qual tanto almejava e nunca consegui entrar por falta de títulos, mas principalmente determinação em saber o que queria da vida.

E o que tu quer dizer com tudo isso? o que tu tá falando? onde tu quer chegar?

12 Cooperativa de Ação Cultural UBUNTU, entidade sem fins lucrativos voltada a ação cultural escolar e

de rua, que participamos como sócias fundadoras em Marabá entre 2006 e 2008.

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SEI LÁ.... Só deu vontade de escrever... é que nada tá acabado... tá tudo em construção... tudo em movimento.

Teve um momento na Bahia lá naquele ap embaixo do da Juliana naquele bairro que é perto da praia e que tem um circo e um grande parque que é o mesmo nome do bairro onde nunca me lembro o nome, que as lunáticas me colocaram na roda! Questionando meu comportamento e falta de comprometimento por não ter aceitado o grupo na minha casa em determinada período. Isso me causou revolta, invasão, falta de link entre postura e o que fala, sabe como é? Me senti julgada, gritei para todas: essa pesquisa é só para atestar cientificamente que nós mulheres somos fudidinhas? e mais alto gritava não se envolvam onde não devem, respeitem o limite de cada uma, respeitem meu MEDO, meus LIMITES!

Todas falavam algo e ao mesmo tempo e A mais lunática delas, se é que existe a mais, também gritou, berrou e disse com as entranhas fogueadas: não vou permitir que nenhum homem, nenhum homem me ampute, tire o meu direito de ir vir!

As cirandeiras lunáticas nem sabem o quanto me magoaram, o quanto as evitei por um tempo por achar que elas só viam seus interesses, revelei nos comportamentos: manipulação, interesse, inveja, ciúme, raiva, traição, falsidade, consentimento. Sim, isso que via era reflexo do que estava em mim também e me fazia mal, me faz mal e me afastei... Não só delas, mas de um monte de gente.

Ponto. Gravei isso, marcou, magoou, congelou, digeri resignifiquei comportamentos.

Por isso quero me permitir outros momentos de celebração com mulheres que de forma ou de outra estou conectadas por fios invisíveis e fortes, fios dourados (igual a bicha gosta, com glamour). Sem muitos empolgamentos ou julgamentos, mas sendo, estando resignificando, construindo nesse tortuoso conflito de respeito ao outro sem se desrespeitar.

E todas as cirandeiras lunáticas talvez tenham sim representações machistas ao seu lado que impedem ou tentam direcionar para onde vão e com quem vão, mas cabe a cada uma delas se propor viver outras experiências ao qual vão resignificando suas vidas e bailado!

...de Aruanda eu tenho saudade. Pra Aruanda eu quero voltar,

Só meu corpo é que tem vida calunga Meu coração morreu,

Só meu corpo é que tem vida calunga Meu coração morreu

tumtum.

E agora apresentamos o circo mais lindo de todos os tempos... UHHH!

67 Foto: Sil, de Tati (Guaramiranga-CE)

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Sil também entrou na minha vida nesse mesmo momento. A conheci em uma festa na universidade Foi a amiga Angélica que nos apresentou. Havia mudado há pouco para Marabá com Mateus, seu filho. Compusemos juntos esse grupo de amig@s que produziram artes e travessuras em Marabá e a Cooperativa de Ação Cultural UBUNTU foi nosso exercício de educação e amor nesses dias. Durante os anos que moramos em Marabá, nosso contato foi intenso. Organizamos encontros, almoços, rodas de rua, praças e quintais com muita música, muita festa. Experimentamos muitos jeitos de estar, misturamos muita poesia em tudo isso. Vivemos entre crianças, merendas, bichos, literatura, boemia,....

REFLEXÕES DE UMA CIRANDEIRA LUNÁTICA PÓS SALVA-DOR Desde o primeiro encontro a metamorfose sempre acontecia. Não logo, mas em poucas horas no calor do desejo de cirandar. Pois bem, íamos nos envolvendo, preparando-nos para a grande fogueira. Não, não para sermos novamente queimadas entre risos sádicos e macabros dos homens que não suportavam nossas vivências místicas e míticas. Mas na fogueira da ancestralidade, um fogo que aquecia nossa intersubjetividade, nossa coletividade. Era nossa dança coletiva, nosso cirandar por/entre luas, fortalecendo o eu afirmado, cheio de si e sem deixar de cultivar a amizade pela outra. Sim, cultivar o amor pela que está ao lado, porque o patriarcalismo junto com a igreja só concebia o amor através do matrimônio. O amor hetero, o legítimo segundo o que os homens ditavam e ditam e escrevem. Uma mulher amar outra mulher no mundo deles é estranhamento, até beirando o absurdo. A amizade sempre foi mais cultivada, mais desenhada como modelo nas experiências do tecer masculino. Uma fala que ainda ressoa, vindo da cozinha numa manhã nebulosa em Salvador, e que está me incomodando muito é: "por isso que não gosto de tá onde só tem mulheres”, ou algo parecido desse dizer. Dizer esse vindo de um coração feminino, pelo menos é o que meus olhos e ouvidos me diziam. Um corpo vestido de mulher, mas tendo como nudez o corpo masculino. ou ao contrário? Talvez a alma também... ecoa essa voz masculina que mostrou desejar mais cultivar a amizade entre homens e não entre mulheres cirandeiras...queria acreditar que estaria eu lunática na hora dessa fala.Nós cirandeiras, como nossas ancestrais amigas, exercitamos durante os encontros a coletividade, o ajuntamento, a partilha, a cumplicidade, a Resistência, o fogo...Cirandar nesses momentos de puro deleite, porque cirandamos sem o fantasma, em algumas de nós ainda bem mais vivo, do patriarcalismo. Andar

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sem a vergonha de se colocar no mundo e para o mundo, não mais deles, mas nosso também. Não mais de disputa entre mulheres, verdade essa construída pela hegemonia masculina que insiste em reforçar entre nós esse olhar negativo, de sempre disputa. No entanto, insistir na construção da amizade entre nós é quase uma questão de sobrevivência, de redes. Não é tão fácil essa amizade entre nós, é verdade. Tivemos que pular vários obstáculos, uns mais dolorosos outros nem tanto. Umas com mais facilidade, outras nem tanto. Mas no final lá estávamos juntas para mais uma metamorfose. Crisálida tornando-se borboleta. Voar,voar,voar até nos momentos de choque voávamos lindamente porque conseguíamos borboletar sem perder o voo da amizade, nossa direção de cirandeiras lunáticas.

ESTAMOS ACOSTUMADAS COM AS ORDENS ESTAMOS HABITUADAS COM O AUTORITARISMO ESTAMOS HABITUADAS COM O PATERNALISMO ESTAMOS HABITUADAS COM A TUTELA.

(...) SAIAMOS DO COMODISMO SAIAMOS DA ACEITAÇÃO PASSIVA RECUPEREMOS A REBELDIA! Micinete/vovó elza tavares

Aplausos pra nós que conseguimos ser cirandeiras lunáticas. Parabéns a nós se conseguirmos continuar sendo cirandeiras. Coragem pra nós pra continuarmos cirandando pela vida, reinventando sempre o cotidiano e fazendo nossas fogueiras ancestrais, mesmo que estejamos a sós. Valeu pelo fogo, meninas.” (Sil,hotmail 08.11.2011)

70 Foto: Auto-retrato II, de Aninha. (Guaramiranga-CE)

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Aninha

Conheci Aninha na rua, cirandando em Marabá. Havia chegado há pouco de Minas para experimentar o Norte. Estivemos em muitos encontros cirandeiros noturnos. Brincadeiras com fotografia e poesia, muita música de ciranda e capoeira. Ficou feliz em entrar para essa ciranda. Foi a primeira a manifestar por MSN esse desejo.Tem também na psicologia sua arte. Arte de Menina de Minas. Trouxe mais que o macramê. Trouxe alegria de cantora, de batuqueira que aprendeu ainda em Minas.

“Não sei por onde começar a reflexão deste texto, tantas coisas se doaram afetamentos de angústia, desencanto. Respiro, percebo o movimento da chuva, com suas águas ligeiras, nos ciclos com tempestades lindas, mesmo quanto traiçoeiras. Amo o inverno amazônico, o calor sufocante desaparece, o tempo fica mais largo, a vida caminha mais lenta. Aos fins de semana consigo entrar em contato com isso, tento me desligar da semana corrida de trabalho, e vivenciar novas sensações. Melhor dizendo, não consigo desligar totalmente. Tal como o texto de Eliane Brum será um desabafo e conteúdos de fundos vividos serão figura nesta narrativa.

A mulher e o homem buscam ajustamentos nos seus cotidianos, por uma busca constante de felicidade, de alegria de viver, de paz interior, procuram o prazer e fogem da dor se encontrando em momento de vazio como bem pontua Eliane Brum. Creio que há em nós a memória de um estado de plenitude sem obstáculos e de êxtase permanente.

Esta busca de autoconhecimento nos leva a procurar sensações agradáveis, que nos deixam felizes como por exemplo uma passeio, uma banho de rio ou mar com a pessoa amada(no momento), sentir o perfume de uma flor que acaba de desabrochar em seu jardim. Esta busca parece nunca ter fim, e por outro lado parece que uma barreira criada por nós mesmo nos impede de vivermos plenamente esta felicidade para a qual parecem existir e ela nos escapa, sem que tenhamos consciência da causa deste fracasso constante. Nenhum destes prazeres que vivenciamos dura, e lá no lugar onde havia felicidades, sobrevém a frustração de seu desaparecimento. Eu busco um

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estado permanente de algo que me dá certeza da existência de tal estado, no entanto, encontro apenas a impermanência.

Nos escritos de Eliane Brum percebi um sentimento muito profundo de insatisfação, um sentimento que há em mim também. Me dei conta que a satisfação é transitória e é justamente o caráter impermanente do prazer que me provoca um apego à memória destas vivências. É dolorido falar sobre isso, mas de fato a satisfação completa não existe. E estar no mundo não é fácil, um mundo que eu desconheço.

Este mundo que desconheço está marcado por contradições, basta-nos um pouco de sensibilidade e olhar atento para percebermos o sofrimento humano deflagrado por todas as partes. Em nosso trânsito diário pelos espaços, somos convidados a repensar a sociedade em que vivemos questionar essa forma de organização econômica e social que dita um processo de “exclusão” de parte majoritária da população. Caminhamos sobre este terreno que se desfaz e refaz, mas mantém sua máxima, onde algo sempre vai ficar de “fora”, e o mais duro é pensarmos que este “algo” é o homem. É nós Gestalt terapeutas estamos inseridos também neste contexto regido pela primeira e maior das necessidades, a de sobreviver. E, com efeito, somos produto dessa relação. “Essas relações não correspondem a nenhuma natureza humana e podem, portanto, ser modificados embora com muito trabalho e sofrimento. Sofrimentos que estamos sempre evitando e, com isso, mantendo o statusquo. Mas um paradoxo existencial: “evitar o sofrimento é saudável em situações emergenciais e muito perigoso como atitude geral e fixada” (Walter Ribeiro). Que ajustes conflitantes o ser humano poderá fazer? Walter Ribeiro reflete no seu Livro Existência-Essência que a nossa confiança adoeceu e que perdemos contato com o mais íntimo de nós e desenvolvemos essa miríade de papéis sociais estereotipados que está aí em praticamente todos nós. Concordo com Eliane Brum quanto ela fala que a busca da estabilidade nos da possibilidade e também nos tira possibilidades.

Enfim, correlacionando esta narrativa com as minhas vivências pessoais, fica para mim que o SELF possui uma mutabilidade, que permite a abertura para o novo, para a criação e novos desdobramentos. O ambiente sócio-cultural é constituído por um conjunto dinâmico de universos. Estes conjuntos afetam a subjetividade, que é constituída por uma composição singular de forças, Sendo que a cada novo universo que ela incorpora, novas sensações são produzidas, um novo campo de relações se estabelece. E como diria Chico Science “é me desorganizando que posso me organizar.” E me desconhecendo, saindo um pouco destes papéis sociais, pois na medida em que são criados modelos de um ideal de vida, a partir de territórios fixos ou

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cristalizados, ocorre uma limitação das possibilidades de ser no mundo. E muitas vezes permanecemos nestes modos estereotipados por medo de não lidar com o novo. Além disso, o modo de produção “capitalístico” norteado por um automatismo que nos impossibilita em entrar em contato com o mundo e consigo mesmo, com efeito dessensibilização do homem para com sua própria vida e saúde.” (Aninha,hotmail 15.06.2013)

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Micinete

É artista de rua. Quando cheguei pra morar em Fortaleza, me acolheu. Rodou comigo os bairros do Pici e Henrique Jorge à procura de casa. Sempre me desafia a experimentar sem culpa. Vive em trupes de teatro e música. “Maria das Vassouras”, “Coletivo Muquifo”, Coletivo de Culturas Juvenis”,... Abandonou a universidade por não suportá-la. É mãe de Evinha e filha da dona Nete e seu Messias. Compõe o coletivo muquifo no Pici. Voz afinada na roda de coco, na batida do pandeiro. Vive brincando boneca. Mamulengueira, anarcopoita de plantão. Melancólica de ocasião, um cão.

Pensando nessas questões de gênero (o que provocou mudanças na minha vida, considerando que sou uma mulher). Tudo começou assim...Tive na