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Cap. 1 – Um minhoto enjeitado na sociedade de Antigo Regime
Quando nasci veio um anjo safado O chato de um querubim
E decretou que eu estava predestinado A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou Mas vou até o fim
Até o fim, Chico Buarque
À biografia do minhoto Henrique Lopes de Araújo bem caberia a epígrafe acima. Já de saída, sua estrada entortou. Porque sua mãe, camponesa ou quem sabe plebeia habitante de Braga ou alhures – e a dúvida, no caso, vem de que o próprio filho jamais soube o ventre de onde saíra – submeteu-se às tentações do confessionário e acabou por entregar-se (como outras, aliás) aos galanteios do padre Tomas Lopes de Araújo. Dali a nove meses, talvez sem meios para suportar o ônus da criação, talvez receosa de assumir publicamente o sacrilégio, depositou o rebento no Hospital de São Marcos, em Braga, mantido pela Santa Casa de Misericórdia. Para nunca mais. Isso ocorreu em altura desconhecida da década de 1660.
Instituído em princípios do século XVI, o Hospital de São Marcos era administrado, desde 1559, pela Misericórdia de Braga, instituição que assumira o cuidado para com enjeitados e expostos costumeiramente abandonados à porta do estabelecimento. Ao provedor do Hospital cabia contratar amas dispostas aos trabalhos de aleitamento e de criação, recompensados monetariamente e concessores de regalias, como certas isenções fiscais.19
A exposição de filhos legítimos e ilegítimos constituiu mecanismo sistêmico de apoio à economia familiar, especialmente importante em regiões marcadas por escassez de recursos. O abandono desonerava pais incapazes da criação, fosse por impedimentos legais, fosse por penúria material, ao mesmo tempo em que conferia a famílias pobres, mas virtualmente interessadas no acolhimento de prole, diversos privilégios e incentivos concedidos às amas de leite, remuneradas pelo serviço de amamentação. As amas contratadas para o aleitamento de expostos eram recrutadas preferencialmente em zonas rurais, com baixa monetarização, onde a retribuição pelo trabalho, considerada pouco atrativa em núcleos urbanos, ainda interessava. Em Portugal, o receio quanto às diversas penalizações prescritas à ilegitimidade foi menor que as vantagens auferidas pelo
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PAIVA, J. P. (coord.) Portugaliae Monumenta Misericordiarum, Lisboa: União das Misericórdias Portuguesas, 2002, v. 3, p. 12 e 258.
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sistema de abandono.20
Essas tendências fizeram-se presentes no enjeitamento do pequeno Henrique Lopes, direcionado a uma família camponesa residente em paragem rural, como de costume. Na freguesia de Santo André de Gondizalves, lugarejo de origem proto- histórica, em cujos outeiros fixavam-se ruínas de castros romanos, o provedor do hospital encontrou Domingas Lopes, casada com o lavrador João Pereira da Ponte, franqueando-lhe a criação do exposto. O casal adequava-se bem ao sistema de apoio à economia familiar propiciado pelo abandono: recebia um bem (a criança), que havia circulado de um núcleo virtualmente hostil para outro onde o número deficitário de rebentos tornava desejável a recepção de prole.João Pereira e Domingas Lopes tinham, àquela altura, dois filhos biológicos, de tenra idade. Agregando a si outro membro masculino, o núcleo familiar podia engajá-lo na reprodução de meios materiais, além de auferir provento repassado pela Misericórdia.21
A freguesia de Santo André de Gondizalves situava-se a um quarto de légua da cidade de Braga e integrava importante área rural do Minho, formada por vasto conjunto de freguesias submetidas à influência do termo e da urbe bracarense. Até o século XIX, essa área pertenceu a senhorios eclesiásticos e nobres, entre os quais se destacavam a Mitra e o Cabido da Sé de Braga, a Congregação Beneditina (detentora de vários coutos atrelados a propriedades monásticas, como Tibães, Arentim, Pedralva e Vimieiro), e a Ordem de Cristo, administradora da extensa Comenda de Adaúfe, que contava, entre seus domínios, com casais e quintas agrícolas próximas a Gondizalves. Tais senhorios dispunham suas terras à exploração a partir de contratos travados com trabalhadores e famílias camponesas, através dos quais extraíam pensões, rendas ou foros – em gênero e/ou em dinheiro – e imprimiam dominação política e religiosa junto à numerosa classe laboral. Naquela região montanhosa, marcada por instabilidades climáticas, as terras minhotas eram consideradas de baixa fertilidade, dependentes de irrigação, com suas planícies mais lavradias e mais povoadas que seus cumes e vertentes, o que requeria intenso trabalho de semeadura.
Os casais constituíam a unidade fundiária fundamental, juridicamente reconhecida. Dotados de edifícios comuns, para fins de uso comunitário de trabalhadores ou para o abrigo de animais, eram áreas de média extensão que podiam
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SÁ, I. dos G. “Abandono de crianças, ilegitimidade e concepções pré-nupciais em Portugal: estudos recentes e perspectivas”, In: MOREDA, V. P. (org.) Expostos e ilegítimos na realidade ibérica: do século
XVI ao presente. Actas do III Congresso da ADEH. Lisboa: Biblioteca das Ciências do
Homem/Aforamentos, s/d, p. 37-58.
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ser contratadas por um ou mais rendeiros. Em termos práticos e no que importava ao trato entre senhorios e camponeses, o casal encerrava uma unidade de cobrança de renda, entendida essa como a porção fixa ou variável da produção, paga pelo rendeiro ao proprietário (ou senhor) pelo usufruto do domínio útil da terra. Conforme detectou Margarida Durães, tais casais, sob pressões várias, tenderam, ao logo da Época Moderna, à constante subdivisão ou fragmentação interna, segmentados em parcelas agricultáveis menores, chamadas prazos. O usufruto dessas parcelas fundiárias era adquirido por agregados ou famílias camponesas mediante diferentes tipos de acordo ou contrato, formais ou informais – aforamento, aprazamento, arrendamento, entre outros. O contrato de aprazamento, mais empregado, concedia a posse e o domínio útil do prazo, nos limites do casal senhorial, a um contratante ou camponês, explorador direto, obrigando-se esse ao pagamento de pensão ao senhorio. Dessa forma, um mesmo casal vinha a ser explorado por diversos camponeses, submetidos compulsoriamente à satisfação da renda estipulada em seu prazo específico. Ao mesmo tempo, trabalhadores rurais podiam contratar ou arrendar um ou mais prazos em casais diferentes, com senhorios distintos.22
Controlada hegemonicamente pelo clero e pela nobreza, a sociedade minhota reproduzia os interesses de dignitários eclesiásticos e fidalgos estabelecidos na urbe bracarense, cuja riqueza e sustento provinham das rendas obtidas a partir de propriedades rurais trabalhadas pela classe camponesa. A pressão e a influência exercida por esses senhorios na estrutura fundiária rural e na configuração das relações sociais de produção eram enormes. Apenas a Comenda de Adaúfe, por exemplo, possuía 158 casais, distribuídos por 59 freguesias minhotas distintas. Esse sistema, propiciador de notável acumulação rentista no topo, também forçava à pulverização de minifúndios na base, em fragmentações que ameaçavam a subsistência das comunidades camponesas, tornando-as ainda mais dependentes dos torrões ofertados por senhorios diretos ou – dramaticamente – por intermediários burgueses que sublocavam prazos ou arrendavam terras que haviam sido contratadas às dignidades eclesiásticas, especulando com o valor das terras e dos gêneros agrícolas.23
Para os camponeses, a quitação de rendas fundiárias era apenas um dos desafios, já que estavam submetidos a outros encargos onerosos, a exemplo dos dízimos. Daí
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DURÃES, M. “A posse da terra na região rural de Braga no século XVIII”, Ler História, n. 43, 2002, p. 57-83.
23
DURÃES, M. “Uma Comenda Nova. O Senhorio de Adaúfe: propriedade e exploração agrícola (sécs. XVI-XIX)”, III Congresso Histórico de Guimarães: D. Manuel e sua época. Guimarães: Câmara Municipal de Guimarães, 2004, p. 231-251.
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porque qualquer aumento no montante requerido por senhorios criasse conjuntura de virtual penúria econômica. Em grande parte, as pensões, contabilizadas por casal, eram pagas em gêneros, sobretudos cereais, vinho, aves, ovos e animais, além de outros tipos de exigência, como serviços pessoais, as geiras. Havia também senhorios que aceitavam percepções em dinheiro, em renda pré-fixada. Ainda conforme Margarida Durães, a pior situação para os trabalhadores, geradora de exploração mais abusiva, se dava quando parcelas em moeda eram combinadas ao repasse de gêneros. Foreiros e arrendadores que cultivavam pequeníssimos (1 a 5 alqueires) ou pequenos (6 a 10 alqueires) prazos estavam em condição desfavorável em relação a médios e grandes lavradores. Enquanto esses podiam sobreviver exclusivamente do amaino agrícola, aqueles se viam forçados a diversificar atividades, buscando fontes alternativas de renda. Por isso, nos meios rurais bracarenses, existiram em grande número membros de famílias camponesas a exercer ofícios artesanais, oferecidos na urbe onde se encontravam consumidores nobres e eclesiásticos. Em Gondizalves, predominaram oficiais de alfaiataria, carpintaria e sapataria, artes especialmente apreciadas nos estamentos superiores.24 E havia ainda camponeses desprovidos de qualquer acesso a terra, residentes em lotes com pequenas hortas ou quintais, de onde retiravam o que pudessem para a subsistência própria ou familiar, complementada por esporádicos jornais destinados à obtenção de saldo para o foro senhorial, os dízimos eclesiásticos e as décimas reais.25
De porte intermediário, a freguesia de Santo André de Gondizalves detinha população pouco numerosa, ocupada em pequenas e médias explorações agrícolas. Em fins do século XVII apenas trinta “vizinhos” distribuíam-se pelos casais e pelas quintas locais.26 Ao passo que freguesias limítrofes como São Pedro de Maximinos e Santa Maria de Ferreiros, a leste, e Santa Maria de Sequeira, a oeste, tinham, respectivamente, duzentos e quarenta (240) e cento e vinte (120) fogos, muito embora a freguesia de São João Batista de Semelhe, também fronteiriça, apresentasse apenas vinte e cinco
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Entre os pais de crianças batizadas na igreja de Santo André de Gondizalves (1618-1691) anotaram-se treze alfaiates, nove carpinteiros e dois pedreiros. Entre os padrinhos de batismo foram sete carpinteiros, cinco alfaiates, um sapateiro e um sombreiro. Dos noivos que ali se casaram (1619-1688), dois eram alfaiates e dois, sapateiros. E, entre os óbitos, houve um colchoeiro. LIVRO de batismos, 1618-1691. ADB, Paróquia de Gondizalves, B-550; LIVRO de Casamentos, ADB, Paróquia de Gondizalves, Livro B- 550, 1619-1688; LIVRO de óbitos 1619-1690. ADB, Paróquia de Gondizalves, Livro 550.
25
DURÃES, M. “A posse da terra na região... p. 73-80.
26
Segundo José Vicente Serrão, as quintas distinguiam-se por não estarem necessariamente atreladas à produção de cereais panificáveis. Vinculavam-se ao mercado de gêneros agrícolas e sua economia interna restringia a obtenção de recursos comunitários: “andavam normalmente associadas às culturas ricas, por vezes em regime de policultura, e ao individualismo agrário, sendo por isso mais frequentes nas proximidades de aglomerados urbanos e nas regiões de povoamento disperso.” SERRÃO, J. V. “O Quadro Econômico” In: MATTOSO, J. (dir.) História de Portugal. Volume 4, O Antigo Regime. Coordenação de Antônio Manuel Hespanha. Lisboa: Estampa, 1998, p. 67-109; p. 71.
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vizinhos.27 A envergadura mediana da economia local mede-se também noutras fontes. Em 1718, em listas de pagamento da décima, imposto proporcional aos bens dos contribuintes, que elencaram moradores de nove freguesias minhotas, dentre as quais Gondizalves, nenhum pagador dessa freguesia incluiu-se entre os mais ricos da região.28 Quatorze anos depois, em 1732, a localidade teria quarenta e cinco fogos e cento e oito (108) almas, população bastante modesta quando comparada aos duzentos e quarenta (240) fogos e mil e duzentos (1.200) habitantes de Maximinos; e mesmo aos cento e dezenove (119) fogos e trezentos e vinte (320) almas em Ferreiros.29 Nos meados da centúria, o pároco de Santo André calculava povoação formada por cento e trinta e quatro (134) moradores, grande parte dos quais viúvos e viúvas.30
Os fregueses esparramavam-se por pelo menos dezessete lugares: Assento (da igreja de Santo André), Cabrita, Carvalho, Casal (de Gondizalves), Cide, Cruz de Pedra, Ermida da Esperança, Fontainhas, Casal das Fontainhas, Lugarinho, Ponte, Quinta de Gondizalves, Quintão, Quinteiro, Residência e Trambelho. Existiam dois templos católicos, a igreja paroquial de Santo André, ao fundo do vale, e a pequena Ermida da Esperança, morro acima. No altar-mor da matriz repousavam imagens de Santo André, São Bento (epístola) e Santo Antônio (evangelho). Os altares colaterais ostentavam São Sebastião, de um lado, e Nossa Senhora do Rosário, de outro, em homenagem aos quais se reuniam duas confrarias, não congregadas em irmandade. Na Ermida, existiam imagens de São João (epístola) e de São Miguel Arcanjo (evangelho), orago que Henrique Lopes viria a escolher por “anjo da guarda”. A “apresentação” do vigário de Gondizalves, remunerado com côngrua de dez mil réis, cabia ao abade de São Pedro de Maximinos. Já a Ermida da Esperança pertencia ao morgado da família Sotto Maior, um dos senhorios nobres mais importantes de Braga. Em 1758, o administrador da capela e das terras que se estendiam da Esperança até o Assento da Igreja de Santo André era Francisco Bernardo de Sá Soto Maior, fidalgo da mais recente nobreza
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DAVID, H. M. P. R. As Crises de mortalidade no Concelho de Braga (1700-1880). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1992, v. 1. Tese de doutorado em História, p. 41. COSTA, A C. da.
Corografia Portugueza (...), Lisboa, Officina de Valentim da Costa Deslandes, 1706, 1708 e 1712, 2ª
edição, 3 vols., Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, 1868 a 1869.
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19,3% dos pagantes quitaram débito no valor entre 0-30 réis; outros 36%, entre 30-100 réis; 22,3% entre 100-200 réis; 13,4% entre 200-400 réis; 8% entre 400-750 réis; e apenas 1% dos contribuintes foi onerado acima de 750 réis. Em Gondizalves não houve indivíduo incluído no extrato superior. DURÃES, M. “A posse da terra na região... p. 81.
29
DAVID, H. M. P. R. As Crises de mortalidade no Concelho... p. 46-47.
30
“(...) quarenta e nove viúvos e viúvas, treze solteiros e solteiras, sete menores, vinte casados, vinte e seis absentes, nove pessoas de sacramento, [total] cento e trinta e quatro” GONDIZALVES, Braga. ANTT, Memórias paroquiais, v. 17, nº 74, fls. 395 a 402; fl. 395.
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bracarense.31 Todavia, não se notava em Gondizalves quaisquer “homens insignes por suas virtudes, letras ou armas” e, por isso, o pároco João de Araújo omitiu-se no décimo oitavo artigo do questionário proposto na memória paroquial.32
A profusão de lugares contrastada à população rala indica a inexistência de qualquer povoação ou aglomeração humana mais sistemática.33 Jamais houve em Gondizalves algo semelhante aos arraiais que proliferariam ulteriormente nas minas da América portuguesa. Tratava-se sem dúvida de área rural configurada por casais, quintas e prazos agrícolas, nos quais se fixavam plebeus e camponeses irregularmente distribuídos por edificações que pontilhavam, aqui e acolá, a verdura de campos semeados, de vales floridos e de montes recobertos por árvores ou pastagens – paisagem que identificava, por sinal, a geografia do Minho rural. Ali, predominavam pequenas parcelas fundiárias, delimitadas por árvores e uveiras, nas quais se alternavam, no verão, campos de policultura, semeados de milho, feijão e horta, e, no inverno, prados destinados ao pastoreio e ao cultivo de centeio. Constituíam os chamados “campos fechados” ou “campos-prados”, característicos do noroeste lusitano.34
Em Gondizalves, especificamente, milho, centeio e vinho eram os principais frutos da terra, requeridos como parte essencial e obrigatória das pensões senhoriais e das dietas camponesas. Plantavam-se ainda repolhos, melancias, melões, favas e ervilhas. Nos morros, criava-se gado e obtinham-se madeiras, sobretudo carvalhos e sobreiros, fornecedores de troncos usados na arquitetura vernácula e fontes da cortiça (matéria-prima de rolhas) e das célebres bolotas, frutos com que se alimentavam porcos e se fabricavam pães e licores. À beira do regato que nascia na freguesia, havia salgueiros e amieiros, dos quais se obtinham vinhos e preparados medicinais. Todos os recursos naturais eram essenciais na economia camponesa. Além deles, a freguesia contava com instrumentos ou estruturas hidráulicas: quatro moinhos, um lagar de azeite e duas levadas (canais de condução ou represamento de água). Os povos serviam-se livremente das águas para cultivo, desoneradas de pensão.35
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Francisco Bernardo de Sá Sotto Maior foi incluído por Ignácio José Peixoto entre a recente nobreza bracarense “que principia e que poderá vir a ser mais conhecida para o futuro, se as virtudes a ilustrarem e o seu comportamento”. Os “antepassados maternos” de Sotto Maior “eram gente honrada e nobre”; o próprio casara-se com “a filha de um bacharel que vive de seus bens [e de] sua casa no Campo da Vinha”, isto é, que se mantinha por meio de rendas, sem recurso ao comércio e tampouco ao trabalho manual. PEIXOTO, I. J. Memórias Particulares de Inácio José Peixoto. Braga e Portugal na Europa do Século
XVIII. Estudo Introdutório de L. A. Oliveira Ramos. Leitura de José Viriato Capela (coord.). Braga, 1992.
32
GONDIZALVES, Braga. ANTT, Memórias paroquiais, v. 17, nº 74, fls. 395 a 402.
33
Segundo o pároco João de Araújo, “não se descobre desta freguesia povoação nenhuma porque fica em uma baixa”. GONDIZALVES, Braga. ANTT, Memórias paroquiais, v. 17, nº 74, fl. 401.
34
SERRÃO, José Vicente “O Quadro Econômico... p. 71.
35
23
O número de casais, quintas e prazos situados em Gondizalves era incerto, variável e fluído, sobretudo no caso dos últimos. Na documentação paroquial de Santo André expedida ao longo do século XVII, topônimos indicados nos registros denunciaram a existência de pelo menos seis casais e de nove quintas, mas omitiu qualquer referência a prazos. Os casais mais importantes, com maior número de residentes, eram respectivamente Cide, Quinteiro, Carvalho, Fontainhas e o Casal de Santo André, conforme atesta o mapeamento das moradias de pais de filhos batizados na igreja local entre 1618-91.
Freguesias Lugares N°
Santo André de Gondizalves Assento da Igreja 7
Cabrita 9
Carvalho 21
Casal (de Santo André) 11
Casal de Cima das Fontainhas/Casal da Fontainha 2
Casal de São Gregório 2
Cide 58 Cruz de Pedra 1 Ermida da Esperança 8 Fontainhas 18 Igreja 2 Ponte 1 Quinta de Gondizalves 1 Quintão 8 Quinteiro 26 Rio 5 São Gregório 1 Trambelho 4
São João de Semelhe Quinta de Semelhe 2
São João de Semelhe 1
São Pedro de Maximinos Quinta da Freguesia de Maximinos 1
São João do Souto Braga 1
São João do Souto 1
Porto Porto 1
Desidentificada Seara 3
TOTAL 195
Quadro 1: Moradia dos pais de filhos batizados na igreja de S. A. Gondizalves (1618-91). Fonte: LIVRO
de batismos, 1618-1691. ADB, Paróquia de Gondizalves, B-550.
Quanto à omissão de prazos, não haja engano. Sem que constituíssem unidades fundiárias oficiais, os prazos, resultantes de concessões de porções variáveis e mutáveis de terra, não eram utilizados como referenciais geográficos ou toponímicos. Todavia, tinham existência prática comprovada. Ao longo do século XVIII, há diversos
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documentos no acervo da Casa de Avellar, nos quais constam cartas, transações e escrituras de emprazamento (e subemprazamento), de medição e de reconhecimento de prazos em Gondizalves, com destaque para propriedades situadas no lugar de Cide.36
João Pereira da Ponte e Domingas Lopes, pais de criação de Henrique Lopes, se casaram em data desconhecida, em freguesia distinta, pois os livros da Igreja de Santo André não acusaram o matrimônio. Nessa igreja, entretanto, batizaram o filho legítimo Francisco, em agosto de 1655, já moradores na Ermida da Esperança, em Gondizalves. O padrinho que, em respeito à tradição, emprestou nome à criança, Francisco Dinis, residente no lugar da Vitória, também próximo à Ermida, era senhor ou amo dotado de plebeus colocados a seu serviço. Entre 1670 e 1686, pelos menos quatro pessoas, três homens e uma mulher, apareceram como criados seus em registros de casamento e óbito expedidos na localidade. Além do menino nascido em 1655, sabe-se que João Pereira e Domingas Lopes tiveram pelo menos mais um filho, este homônimo do pai, João Pereira, “o novo”, a quem Henrique Lopes tinha por irmão de criação. Não há notícia, porém, de seu batismo.37
A questão relativa à extensão da família camponesa é crucial no entendimento dos elementos históricos colocados em jogo na criação de Henrique Lopes. Se, por um lado, urgia a obtenção de mão-de-obra suficiente à exploração agrícola, de outro, direitos senhoriais, religiosos e reais, combinados à exiguidade espacial dos prazos e das terras disponíveis para a lavoura, inviabilizavam a formação de núcleos familiares numerosos – e, acrescente-se, pressionavam fortemente na exposição de crianças e no
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RECONHECIMENTO e medição que fez o Reverendo Manuel de Barros, abade de Santa Eulália de Sande, termo do Pico de Regalados, ao casal de Side, sito na freguesia de Gondizalves, termo da cidade de Braga. Data 1711. ADB, ACA, 102-16. RECONHECIMENTO e medição do Casal de Side, sito no lugar de Side, freguesia de Gondizalves, termo da cidade de Braga, que faz o Reverendo Manuel de Barros de Távora, abade de Santa Eulália de Sande, do termo de Pico de Regalados. 1711-09-10. ADB, ACA 034. ESCRITURA de subemprazamento do Cortelho de Side, sito na freguesia de Santo André de Gondizalves, feito à face do prazo principal, que fazem o Dr. Manuel Gomes da Costa e mulher Rosa Maria da Graça, a favor de Domingos Martins e sua mulher Antónia Pereira, moradores no lugar de Side