O intervalo desmama-cio (IDC) correspon de ao período entre o dia da desmama (dia 0) e a nova manifestação do cio. Cerca de 85 a 90% das fêmeas manifestam cio em até 8 dias após a desmama, embora diversos fatores possam interferir na duração deste intervalo (Poleze, 2004).
Além disso, o IDC é um dos principais componentes dos “dias não produtivos” (Dial et al., 1992), o qual tem sido reduzido ao longo do tempo. Na década de 1980, o IDC tinha uma duração de 11,5 a 20,5 dias (Vesseur, 1997, citado por Poleze 2004); no início da década de 1990, era de 7 a 9 dias (Wilson e Dewey, 1993); sendo ao final da mesma década, de 6 a 8 dias (Koutsotheodoros et al., 1998). Atualmente, o IDC está entre 4 e 6 dias, na maioria das granjas tecnificadas (Kummer et al., 2003), embora Asdell (1938, citado por Burger, 1952), já relatasse IDC de 3 a 5 dias. Esta redução do IDC permitiu, por sua vez, diminuir o intervalo entre partos e, conseqüentemente, aumentar o número de partos, por fêmea, por ano.
Os principais fatores que contribuíram para a redução no IDC foram o aprimoramento da seleção genética, com aumento da heterose, e os avanços no manejo nutricio nal, nos sistemas de alojamento e na utilização de hormônios indutores de estro (Vesseur et al., 1997 citado por Poleze, 2004).
Wilson e Dewey (1993) realizaram dois estudos retrospectivos, o primeiro com um
banco de dados de uma granja com 2.800 matrizes com ordem de parto ≥ 2, e o segundo envolvendo 23.439 dados de partos de 112 granjas canadenses. Os auto res observaram que, no primeiro estudo, 70% das fêmeas manifestaram cio até 6 dias pós-desmama, 12,6% entre 7 e 10 dias e o restante com mais de 11 dias. No segundo estudo, 77% de todas as cobrições foram realizados até 6 dias pós-desmama e 11% entre 7 e 10 dias.
Durante um período de cinco anos, Vesseur et al. (1994) analisaram dados de IDC de diferentes granjas suínas, totalizando 2.317 cobrições de fêmeas primíparas e multípa ras, de diferentes raças. Cerca de 67,9% delas manifestaram cio entre 4 e 5 dias pós- desmame, 11,8% entre 7 e 12 dias e 0,60% entre zero e 3 dias.
Fêmeas multíparas entre a 2ª e 9ª ordens de parto, oriundas de cruzamento Landrace e Yorkshire, apresentaram intervalo desma ma-cio de 92,13 ± 13 horas, em média, variando de 64 a 134 horas (Nissen et al., 1997). Viana et al. (1999) avaliaram 236 fêmeas das raças Landrace e Large White entre a 1ª e 10ª ordens de parto e encontraram intervalo desmama-cio de 106,73 ± 19,6 horas (4,45 dias), em média, variando de 78 a 180 horas. Estas médias são semelhantes às observadas por Kemp e Soede (1996) e Weitze et al. (1994), anteriormente.
Diferenças regionais causadas por sazonalidade podem influenciar o desem penho reprodutivo de suínos, alterando, por exemplo, o IDC (Hurtgen e Leman, 1980). Um estudo realizado no Brasil por Castagna et al. (2001) foi conduzido em duas granjas comerciais que utilizavam a mesma linha gem (Cambourough 22®), sendo que a Granja A, localizada em Santa Catarina, teve os dados de 509 porcas multíparas (2ª a 8ª ordens de parto) coletados de janeiro a abril de 1999, na primeira avaliação, e de 660 fêmeas coletados de maio a julho de
1999 na segunda avaliação; a Granja B, localizada no Mato Grosso do Sul, teve os dados de 187 fêmeas multíparas (2ª a 8ª ordens de parto) coletados de agosto a setembro de 1998, na primeira avaliação, e de 748 fêmeas (2ª a 12ª ordens de parto) coletados de agosto a outubro de 1999 na segunda avaliação. O IDC foi dividido conforme sua duração em (a) curto, com
menos de 3 dias, (b) médio, com 3 a 4 dias, e (c) longo, com mais de 4 dias. Conforme consta da tabela 12, houve maior freqüência de porcas apresentando o IDC no período de 3 a 4 dias após a desmama, independentemente da granja. No entanto, houve grande variabilidade dentro da mesma categoria e influência da estação do ano na Granja A.
Tabela 12. Freqüência dos intervalos desmama-cio (IDC) em porcas
Granja A Granja B
1ª Avaliação 2ª Avaliação 1ª Avaliação 2ª Avaliação
Categoria IDC n % n % n % N % < 3 dias 125 24,55 13 1,97 9 4,80 27 3,60 3 a 4 dias 352 69,15 417 63,18 109 58,28 459 61,36 > 4 dias 32 6,28 230 34,85 69 36,89 262 35,02 Fonte: Castagna et al (2001).
Entretanto, Corrêa et al. (2002) avaliaram o IDC de 184 fêmeas de 1ª a 4ª ordens de parto, classificando o IDC em curto (<100 horas), médio (100 a 120 horas) ou longo (>120 horas), e encontraram maior freqüência de intervalos curtos (46% das fêmeas), seguido de 29% e 25% de intervalos médios e longos, respectivamen te, sendo a média de 124,5 ± 53,4 horas (5,2 dias). Estes dados diferem dos de Alvarenga et al. (2005), que analisando 152 fêmeas entre a 1ª e 8ª ordens de parto, observaram um IDC médio de 86,6 ± 30 horas, talvez em função da ordem de parto. No Brasil, Poleze et al. (2003) selecionaram dados de 7.223 fêmeas cobertas entre a 1ª e 5ª ordens de parto, durante um período de nove meses, encontrando 2,9%, 1,9%, 2,4%, 9,1%, 64,1%, 11,4% e 1,1% das fêmeas com IDC de 0, 1, 2, 3, 4-5, 6-7 e 8 dias (figura 1), respectivamente, com média de 5,8 dias e 91,8% das fêmeas manifestando cio dentro de 7 dias após a desmama, como mostra a Fig. 1. Além disso, os autores relacionaram o IDC com
as taxas de parto e a repetição de cio, observando que, nos intervalos de 0, 1 e 2 dias, houve maior percentagem de retorno ao cio (46,92%, 23,91%, 14,77%, respecti vamente) em relação aos intervalos de 3, 4 e 5 dias (6,54%, 4,93%, 6,15%, respectivamente). As taxas de parto para IDC de 0, 1 e 2 dias apresentaram valores de 47,87%, 72,46% e 81,25%, respectiva mente, enquanto que, para IDC de 3, 4 e 5 dias foram, respectivamente, de 91,93%, 93,52% e 92,23%.
Quando as fêmeas suínas são detectadas em cio no dia do desmame, a identificação do início do cio pode ter sido imprecisa, levando ao erro no momento da insemina ção com maior taxa de repetição do cio e menor taxa de parto. Soede et al. (1994) destacam que diferenças na fertilidade em porcas com diferentes IDC podem resultar do catabolismo lactacional e de distúrbios no desenvolvimento folicular durante a lactação.
Figura 1. Distribuição da freqüência do intervalo desmama-cio (Poleze et al., 2003)
Kummer et al (2003) realizaram um trabalho em uma granja comercial localizada na região Centro-Oeste do Brasil. Através de um programa de gerenciamento, avaliaram 7.223 fêmeas cobertas, que apresentaram um IDC médio de 4,9 dias, acompanhando uma duração de lactação de 18,3 dias. Das fêmeas avaliadas, 81,6% apresentaram estro entre 3 e 6 dias após a desmama e 7,2 % entraram em cio dentro de dois dias da sua ocorrência. Este último dado contrasta com os apresentados por Vesseur et al. (1997) citados por Poleze et al (2003).
Cavalcante et al. (2006) observaram IDC em 943 fêmeas da linhagem Dalland em dois diferentes rebanhos localizados nos estados de São Paulo e Minas Gerais. A média e o desvio padrão encontrados para a variável foi de 5,2 ± 3,7 dias, dados similares aos relatados por Carregaro et al. (2005), que observaram uma média de 5,0 ± 2,7 dias em fêmeas da linhagem Camborough 22®, na região Centro-Oeste do Brasil.
Diante do exposto, verifica-se uma grande variabilidade de IDC na literatura envolvendo várias ordens de parto e diferentes linhagens, além de outros fatores
que podem influenciá-lo. Destes trabalhos, pode-se inferir que cerca de 70% das fêmeas de granjas tecnificadas manifestam um IDC médio de 3 a 5 dias.
2.2.1.3 Fatores capazes de influenciar o