5.2. Önerilen Model
5.2.2. Model analizi
Em Observações Adicionais sobre as Neuropsicoses de Defesa, Freud (1896/1996), ao abordar o papel da recriminação das experiências infantis sentidas de maneira prazerosa na neurose obsessiva, já insinua o lugar que será atribuído ao sentimento de culpa nesta categoria clínica. Neste momento da teorização freudiana, a etiologia da neurose obsessiva se refere à experiência traumática, que é vivida ativamente e de maneira prazerosa. Em virtude do fracasso da defesa do Eu contra o trauma, se instala a neurose.
Alguns anos depois, em Atos Obsessivos e Práticas Religiosas, Freud (1907/1996) declara que a origem do sentimento de culpa decorre de determinados eventos mentais primitivos, relacionados ao complexo de Édipo. Neste ensaio, ao descrever a religião privada do obsessivo, o autor nos diz também que o sentimento inconsciente de culpa nos neuróticos corresponde à convicção que os religiosos possuem de serem apenas pecadores miseráveis, já as práticas devotas utilizadas por esses indivíduos antes dos atos cotidianos funcionam como uma espécie de medida protetora. As semelhanças estabelecidas entre as práticas religiosas e os atos obsessivos nos mostram que eles possuem o mesmo objetivo, qual seja, afastar o sentimento de culpa através de uma compensação ritualística. Por meio dessas elaborações, Freud (1907/1996) estabelece uma vinculação estrutural entre a neurose obsessiva e o sentimento inconsciente de culpa. Em outras palavras,
(...) aquele que sofre de compulsões e proibições comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual, entretanto, nada sabe, de modo que podemos denominá-lo de sentimento inconsciente de culpa (...). Esse sentimento de culpa (...) acarreta um furtivo sentimento de ansiedade expectante, uma expectativa de infortúnio ligada, através da idéia de punição, à percepção interna da tentação. (FREUD, 1907/1996, p.113-114).
Vemos que a atividade compulsiva é oriunda de uma instância moral responsável por submeter o sujeito a um sentimento de culpa, que agencia a expectativa ansiosa, de maneira que só lhe resta a obediência diante da severidade que a consciência moral impõe, a fim de evitar os castigos e punições que podem advir da mesma.
Como pudemos observar, no caso do Homem dos Ratos, o sentimento de culpa é oriundo da ambivalência afetiva sentida pelo paciente em relação ao seu pai e à dama. Essa coexistência de sentimentos de afeição juntamente com uma corrente de hostilidade, faz surgir o sintoma, mantendo sob efeito do recalque o sentimento contrário, impelindo à realização de atos que visem atenuar a culpa sentida e impedir a realização dos desejos hostis. Um modelo como esse foi reconstruído miticamente por Freud (1913/1996) a propósito de Totem e Tabu: os sentimentos de amor e ódio para com o pai tirano são acompanhados do arrependimento e da culpa, que inscrevem uma dívida simbólica, a qual os filhos devem obediência. Contudo, com o advento da segunda tópica freudiana do aparelho psíquico, o sentimento de culpa deixa de ser relativo exclusivamente a um conflito
de sentimentos contrários e passa a ser resultante de um conflito entre instâncias, o Eu e a instância censora que recebe o nome de Supereu, acrescentando novos elementos para a compreensão da neurose obsessiva.
Em 1923, com a formulação das três instâncias que compõem o aparelho psíquico, Freud (1923/2007) nos indica que o Supereu é tanto o herdeiro do Complexo de Édipo, quanto o herdeiro do Isso, trazendo consigo a marca da autoridade parental, do Supereu parental. Essa autoridade, que originalmente era externa, é internalizada pelo sujeito e impulsiona a criança a renunciar às satisfações pulsionais para não perder o amor dos pais. Para o autor, a forte relação que o sujeito estabelece com o pai é uma das especificidades da neurose obsessiva. E o estabelecimento desta relação só é possível pelo viés da identificação, mecanismo que permite o afastamento das figuras parentais externamente, sua incorporação sob a forma de Supereu27 e, consequentemente, a dissolução do Complexo de Édipo. A identificação que funda a neurose é denominada de identificação simbólica, pois o indivíduo se identifica a um traço tomado do pai, que se trata de um traço simbólico e não de um traço imaginário, remetido ao eixo especular, como vimos no caso das paranoias. Por essa razão Freud (1923/2007) nos diz que a instância superegoica conserva o caráter do pai.
Na Conferência XXXI, Freud (1933/1996) lança um olhar mais aprofundado sobre essa questão. Refere-se ao Supereu como “o advogado de um esforço tendente à perfeição” (FREUD, 1933/1996, p. 72) e o designa também como o resultado bem- sucedido do processo de identificação com a instância parental. A partir disso, podemos observar que a formação do Supereu não se dá por uma identificação à imagem dos pais, mas, sim, do Supereu parental, numa via de transmissão, através das gerações, das tradições e valores culturais. Vemos aqui uma transposição para o psiquismo humano do que Freud (1939/1996) abordou em Moisés e o Monoteísmo acerca da transmissão de uma mensagem que contém as tradições, comunicadas e herdadas, alicerçadas sob o trauma e responsáveis pela fundação da religião monoteísta, ainda que comportem um não saber fundamental.
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Essa identificação parental que fornece lugar para o surgimento do Supereu quando da dissolução do complexo de Édipo comporta não somente uma identificação paterna, mas também uma identificação materna. Sendo assim, haveria um imperativo materno no processo de formação do Supereu nos indivíduos. No entanto, em decorrência dos objetivos de nossa pesquisa, não abordaremos essa questão no momento, nos atendo apenas à influência da identificação paterna.
Nas neuroses obsessivas observamos que o pai é totalmente internalizado e despersonalizado sob a forma do Supereu, a partir da identificação com o seu traço simbólico. Sabemos que, como resultado do declínio do Édipo, essa instância comporta uma lei imperativa e categórica, a lei da proibição ao incesto, do interdito, cujo porta-voz é a figura paterna presente na operação da castração. Considerando esses fatores, Freud (1926/1996), em Inibições, Sintomas e Angústia, afirma que na neurose obsessiva o Supereu é particularmente cruel. É a voz que adverte e o olhar que vigia, sempre dispostos a torturar o sujeito. Em outras palavras,
Nas neuroses obsessivas esses processos [dissolução do Complexo de Édipo, consolidação do Supereu e edificação de barreiras éticas e estéticas no Eu] são levados mais longe que o normal. Além da destruição do Complexo de Édipo (...), o superego [Supereu] torna-se excepcionalmente severo e rude, e o ego [Eu], em obediência ao superego [Supereu] produz fortes formações reativas de consciência, piedade e asseio (FREUD, 1926/1996, p. 116).
A relação entre o Supereu e o Eu na neurose obsessiva é de conflito. Enquanto o primeiro age como um juiz severo, em decorrência da internalização no próprio Eu da agressividade que não foi direcionada para os outros no mundo externo, o segundo, em suas tentativas defensivas, desenvolve formações reativas, incluindo a culpabilidade. Vemos, então, que apesar de serem correlatos, o sentimento de culpa e o Supereu não possuem o mesmo significado. Embora nem sempre bem-sucedida, a severidade com que o Supereu – conhecedor dos desejos recalcados do sujeito – incide sobre o Eu, exercendo contra este uma força punitiva, faz com que o sentimento de culpa se manifeste com uma intensidade exacerbada no obsessivo, como consequência da tensão entre essas duas instâncias.
Tendo visto a importância da figura paterna para a compreensão dos fenômenos obsessivos, a incidência castradora do pai para formação do Supereu, bem como o caráter mítico e religioso presentes na sintomatologia das neuroses obsessivas, passaremos agora a algumas considerações lacanianas sobre os mecanismos desta estrutura clínica, a partir de sua leitura do caso freudiano.