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A storyline tem como uma de suas funções apresentar o conflito-matriz da história que se quer transformar em vídeo. Algo acontece, algo precisa ser feito, algo é feito. Esses três elementos correspondem ao início, ao meio e ao fim do resumo apresentado nesse gênero. Isto se dá porque a história, desde o princípio, precisa ser mostrada em sua completude para que, posteriormente, cada uma dessas partes possa ser desenvolvida com segurança, sem que se perca o foco do que se quer contar.

6.1.1 O processo de produção da storyline

Para o desenvolvimento da habilidade de dizer muito com poucas palavras, gerando a storyline, os alunos selecionados para esta pesquisa tiveram acesso a esse gênero através da leitura de alguns exemplares. Durante essa ação, íamos identificando as partes que compunham o conflito-matriz para que os alunos se apropriassem da estrutura do gênero estudado. Começo, meio e fim precisam estar presentes na storyline. No primeiro exemplo lido (Anexo A), verificamos que o texto estava inadequado, não havia clareza quanto ao conflito nem completude das ações a serem realizadas. Apesar dessa constatação, pela pressa em ministrar o conteúdo, eu não me detive na análise dessas falhas, frisando que elas deveriam ser evitadas. Identifiquei as inadequações, mas não as avaliei como era preciso.

Após a leitura, partimos para a produção das storylines de três curtas-metragens assistidos em sala. Essa ação foi relevante, pois proporcionou aos alunos a possibilidade de se exercitarem e de trocarem informações sobre a história dos filmes. Ao fim da aula, eles foram motivados a construir a storyline de seus próprios filmes ancorados em um tema, assunto sobre o que gostariam de falar, e uma premissa, conceito ideológico a partir do qual a narrativa seria interpretada e organizada. Os textos produzidos em sala foram recolhidos e por mim corrigidos a fim de que um retorno fosse dado aos alunos.

Estudo do gênero realizado em sala, chegou o momento de os alunos escreverem suas storylines sozinhos e me enviarem por e-mail. Aqui a primeira dificuldade surgiu: alguns alunos não tinham e-mail e muitos que tinham não o sabiam utilizar. A princípio, isso me gerou estranheza, pois fui acreditando que os alunos, por terem nascido em um mundo tecnológico, possuíam maior domínio sobre essas ferramentas. Contudo, não é bem assim. Eles só utilizam o e-mail uma vez, para criar o Facebook, depois o esquecem completamente porque não têm o hábito de usá-lo. O que fazer, então, para solucionar essa questão? Um

grupo no WhatsApp foi criado para que pudéssemos sanar dúvidas e buscar soluções para os problemas encontrados. Os próprios alunos se ofereceram para ajudar os colegas no envio de seus textos ou davam dicas de como criar ou usar o e-mail.

Depois de corrigidas, um retorno foi dado a cada aluno durante o atendimento em laboratório. Por meio da correção, percebi que a maioria dos alunos não tinha conseguido atender ao que o gênero pedia. A premissa não vinha clara em seus textos ou a história estava incompleta. A indefinição da premissa foi gerada pela má construção do texto, que não possibilitava clareza quanto ao que se pretendia defender. A incompletude dos textos foi gerada pelo pensamento dos alunos de que apresentar começo, meio e fim era dar “spoiler” de seu filme, era destruir o suspense que se queria criar, isso fez com que eles resistissem em apresentar uma narrativa completa. Foi preciso muita conversa com cada um deles para que isso fosse superado. Dadas às orientações em laboratório, reenviei os textos para que os alunos fizessem sua correção e me reenviassem novamente até a storyline estar adequada. O retorno a essas correções posteriores foi feito sempre via e-mail ou WhatsApp. Isso viabilizou o trabalho e facilitou nossa interação, porque, em qualquer horário disponível, podíamos nos comunicar. 6.1.2 A storyline em sua versão final

Ao analisar cada texto, busquei identificar tema e premissa, que respondem ao questionamento “O que se quer dizer com essa storyline?”. Essas respostas foram confirmadas ou reformuladas durante o atendimento individual feito em laboratório. Na conversa com os alunos, pude verificar se, de fato, meus apontamentos estavam corretos. Definidas essas primeiras questões, foi o momento de analisar o conflito-matriz, que se relaciona com as seguintes questões:

 Qual o conflito?  Qual seu resultado?  Como ele é resolvido?

Cada uma dessas perguntas corresponde a um momento da narrativa (começo, meio e fim). Elas foram fundamentais para verificar a integridade do conflito-matriz. Sendo a

O texto do aluno 1 apresenta “inteligência artificial” como o tema de seu filme. Sua premissa é a de que a criatura pode se voltar contra seu criador. O conflito gira em torno de crimes temporais cometidos por um androide. Diante disso, um homem indefinido e um orgulhoso policial são contratados para detê-lo. Contudo, esse homem descobre que também é um androide. Ao fim, o homem elimina o primeiro androide, mas precisa ser desligado para evitar possíveis problemas.

O aluno 2 resolveu abordar o tema “busca por popularidade”, trazendo a premissa de que não se deve agir procurando a aprovação dos outros e perdendo sua identidade. A história se desenvolve a partir do desejo de Lance de se tornar popular. Essa vontade faz com

Aluno 1

Um homem e um orgulhoso policial são chamados para deter um androide que se rebelou aos humanos após ver sua história. Ele está cometendo vários crimes temporais. É revelado que o homem é um androide que foi usado para impedir esse criminoso, o homem elimina o androide. No retorno, o homem é desligado e desmontado para evitar outro desastre.

Aluno 2

Depois de entrar no Ensino Médio, Lance começa uma busca para se tornar alguém popular: faz canal no YouTube, tenta achar o amor de sua vida na internet, entre outras loucuras. Depois de tanto tentar, ele percebe que tudo isso não é importante e acaba desistindo dessa busca.

Aluno 3

Vlad, um adolescente com sede de vingança, acaba entrando para uma máfia escolar, a Máfia Geek. Vlad, junto com o seu amigo de trabalho, Franky, acaba tendo de sequestrar um de seus melhores amigos e matá-lo a mando de seu chefe, mas, para não fazer isso e não ser castigado por seu chefe, elabora um plano para pensarem que havia cumprido a ordem.

Aluno 4

O maior cafajeste da escola tem um caso com uma garota de sua sala, mas o fato de o garoto não assumir o lance deles, irrita-a completamente. Por esse motivo, eles têm uma briga feia, e o garoto precisa provar seu amor de alguma forma para conseguir sua amada de volta. Certo dia, ele lhe faz uma surpresa e reconquista-a.

Aluno 5

Uma garota se muda após o desaparecimento de sua mãe. Ao receber uma encomenda de uma pessoa misteriosa, ela descobre o real motivo de seu desaparecimento. Após uma série de traições, mortes e perigosas ameaças, mãe e filha se encontram, mas as pessoas que perseguiam sua mãe acham-nas, iniciando uma nova caçada, que resulta na morte da garota.

que ele faça vídeos para o YouTube, procure um amor pela internet, entre outras ações. Mas, ao final, ele desiste ao perceber que tudo era apenas frivolidade.

Para desenvolver sua narrativa, o aluno 3 resolveu tratar do tema “amizade”. Como premissa, ele defendeu a ideia de que a verdadeira amizade supera qualquer desafio. Para comprovar essa concepção, apresentou como problema a ordem dada a Vlad e a Franky para sequestrar e matar um amigo. Entretanto, eles não podiam executar essa ordem nem a descumprir, porque seriam castigados. Para solucionar essa questão, os dois armam um plano que livra a todos de possíveis complicações.

O tema “amor juvenil” foi trabalhado pelo aluno 4, apresentando como premissa que o amor vence tudo. O conflito inicia com a irritação da garota ao ver que seu namorado não assumia o relacionamento que tinham. Isso gera uma briga que culmina no término do namoro. O rapaz precisa, então, provar seu amor. Para isso, ele faz uma surpresa e reconquista a garota.

Abordando o tema “segredos”, o aluno 5 defendeu a premissa de que algumas coisas são melhores escondidas. A trama começa quando a filha descobre que sua mãe está viva e qual foi a razão de ela ter sumido. Isso gera traições, ameaças, mortes e perseguição. A mãe precisa ser eliminada. Uma caçada se estabelece. Contudo, ao final, a filha acaba morrendo.

As cinco storylines observadas trazem em seu corpo o conflito-matriz definido. Há um começo, em que se apresenta a complicação; um meio, em que ações e possíveis reações são demonstradas; e um fim, em que se indica o que será feito ao final da narrativa para resolver o problema. Em poucas palavras, o cerne da história que se quer desenvolver é apresentado. Os alunos conseguiram atender à função e aos aspectos composicionais desse gênero textual de forma proveitosa após muitas refacções, pois, sendo um gênero curto, exige- se precisão, clareza, atratividade e completude, atributos essenciais para que o texto produzido alcance seu propósito, mas que não eram apresentados, a princípio, nos seus textos por falta mesmo de prática no manejo desse gênero. Após muitas tentativas, eles lograram êxito, vencendo a dificuldade apresentada no início. Para mim, também houve uma transformação nesse processo, aprendi que se deve insistir na repetição das informações de maneiras diferentes para que os alunos, em sua individualidade, possam compreendê-las.

No âmbito escolar, dando continuidade aos trabalhos empreendidos com os alunos em 2017, as storylines serão utilizadas, no ano de 2018, em uma votação para a escolha das narrativas a serem transformadas em filmes. A conquista não será de um produtor, mas de um público que queira ver o texto transposto para imagens. Desse modo, as qualidades necessárias

para uma boa storyline devem compor o texto dos alunos, o que é possível verificar nas produções textuais analisadas. Há precisão no que se quer contar, há clareza quanto aos acontecimentos e atratividade acerca dos temas e premissas tratados.

Em sua composição, a storyline possui alguns aspectos estruturais necessários para que ela alcance o objetivo a que se propõe. Ela deve ser escrita no presente, para dar vivacidade ao texto e realçar os acontecimentos descritos; deve ser escrita na 3ª pessoa do discurso, fazendo com que o leitor se torne um observador da trama que se desenvolve; não deve apresentar tempo, lugar ou perfil dos personagens definidos, já que, nesse gênero, o autor deve se concentrar na elaboração do conflito. A maior dificuldade encontrada com relação aos padrões do gênero foi o uso do pretérito perfeito. Muitos discentes usaram esse tempo verbal como se estivessem narrando uma história já gravada. Foi preciso que eu marcasse cada um dos verbos no texto e sinalizasse com um comentário a fim de que a correção fosse feita. Depois de muita insistência, os textos produzidos pelos alunos atenderam aos parâmetros exigidos: são curtos, escritos em um único parágrafo; usam a 3ª pessoa do discurso e verbos no presente; não apresentam tempo, espaço ou personagens aprofundados, concentram-se na apresentação do conflito-matriz.

Benzer Belgeler