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O ensino da Língua Portuguesa, na atualidade, está pautado no uso dos gêneros discursivos. Eles são instrumentos que possibilitam o estudo da língua a partir de dados concretos, já que são realizações textuais com forma e função. Além disso, possibilitam conhecer e compreender o funcionamento da sociedade, pois os gêneros surgem, transmutam- se e até desaparecem em função das mudanças ocorridas no meio social.

3.1 Os gêneros discursivos e o ensino da Língua Portuguesa

Quando dominamos um gênero, segundo Marcuschi (2008, p.154), “não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais particulares”. O gênero excede a simples forma de realização textual, ele é um meio para se alcançar objetivos em um contexto social específico. Sendo assim, através do aprendizado de múltiplos gêneros, o sujeito pode inserir-se nos mais variados contextos sociodiscursivos, usando a língua a seu favor para expressar-se e agir nesses espaços, porque

desde que nos constituímos como seres sociais, nos achamos envolvidos numa máquina sociodiscursiva. E um dos instrumentos mais poderosos dessa máquina são os gêneros textuais, sendo que de seu domínio e manipulação depende boa parte da forma de nossa inserção social (MARCUSCHI, 2008, p.162).

Dominar os aspectos composicionais dos gêneros e manipulá-los nas circunstâncias da vida é inserir-se socialmente; logo, sem seu domínio, o sujeito pode ficar afastado de certos contextos ou, quando neles inserido, pode não saber usar a língua de modo eficiente. Diante disso, nas aulas de Língua Portuguesa, os alunos devem ter acesso aos mais variados gêneros discursivos a fim de que manipulem a língua de diferentes maneiras, o que proporcionará o desenvolvimento de suas competências linguísticas; pois, como afirma Biasi-Rodrigues (2008, p. 46), “é responsabilidade da escola ‘instrumentalizar’ os seus alunos para usos autênticos da linguagem”. Se à escola cabe a responsabilidade de ensinar a Língua Portuguesa conscientizando sobre seus fenômenos linguísticos, ela deve também, por meio de variados gêneros, proporcionar a inserção dos discentes em situações comunicativas várias, envolvendo- os em situações de uso da língua que sejam reais. Marcuschi (2008), então, defende um ensino que se fundamente em contextos reais da vida cotidiana, isso porque

a aula de língua materna é um tipo de ação que transcende o aspecto meramente interno ao sistema da língua e vai além da atividade comunicativa e informacional. [...] A vivência cultural humana está sempre envolta em linguagem e todos os textos situam-se nessas vivências estabilizadas simbolicamente (p.173).

A língua não é apenas um sistema cujo funcionamento interno basta por si só. A língua é interação, e seus sentidos só se constroem com a participação do outro. Para que um texto adquira significado, “é necessário mobilizar conhecimentos, não apenas linguísticos, mas também todos os outros conhecimentos adquiridos com a convivência social, que nos informam e nos tornam aptos a agir nas diversas situações e eventos da vida cotidiana” (CAVALCANTE, 2013, p.18). Em concordância com o pensamento de Marcuschi, Biasi (2008) argumenta que as aulas de Língua Portuguesa devem ter por base a realidade. É preciso que os alunos estejam o mais próximo possível do evento comunicativo em que o gênero discursivo se realiza. A autora afirma que

As atividades com gêneros em sala de aula podem simular a realidade e propiciar um exercício que permita imaginar um público ouvinte ou leitor potencial que não inclua o professor, e este público pode ser constituído dos próprios colegas de classe ou de outras, até mesmo de escolas diferentes da sua” (p. 43-44).

Essa ação é fundamental para a qualidade dos textos a serem produzidos e para dar um significado ao ato de ler e de escrever na escola, fugindo de uma abstração e obrigação, de um fazer mecânico e desmotivador, para algo que, tendo uma finalidade e uma audiência, torna-se motivador e emancipador. As aulas ministradas devem ser planejadas com vistas a simular as circunstâncias comunicativas que envolvem um gênero, pois,

Muitas vezes, as atividades propostas nos livros didáticos não exploram as condições de produção ou instâncias comunicativas em que os gêneros são construídos e praticados, seus propósitos comunicativos e as relações que estabelecem em função desses propósitos entre os interlocutores (falante/escritor e ouvinte/leitor), os participantes da ação comunicativa, que interagem na conversação face-a-face ou através do texto escrito.” (BIASI, 2008, p.44)

A língua, envolta por condições postas pelo contexto, pelos participantes e pelos objetivos, deve ser ensinada dentro de um evento comunicativo real. Nesse contexto, ensinar Língua Portuguesa a partir dos gêneros discursivos é possibilitar que os alunos tenham seu repertório sociocomunicativo ampliado de modo que saibam fazer uso adequado da língua nos diversos contextos sociais em que se encontrarem. E não apenas fazer uso, mas agir através deles de forma eficaz, consciente e crítica. O desenvolvimento pleno dos discentes está na

obtenção de uma educação que oportunize experiências com gêneros discursivos com os quais eles já convivem e com aqueles que lhes parecem inatingíveis.

Deve-se ensinar o gênero em uso, dentro de um contexto de produção que se aproxime do real para que os alunos entendam seu funcionamento como atividade de interação social, como ferramenta discursiva e como meio de agir no mundo. Fora disso, o ensino se prestará a permanente explanação das características metafísicas estruturais dos gêneros discursivos. Dessa forma, para que estudar os gêneros, então? Por que tê-los como objeto de ensino da Língua Portuguesa? Apenas para serem decorados e produzidos de forma mecânica? É preciso potencializar o uso dos gêneros discursivos. Saber usá-los de forma eficaz e precisa será fruto de uma análise e produção em contextos de uso.

3.2 A constelação de gêneros na escola

Refletindo a respeito do conceito de constelação de gêneros e suas implicações para o ensino da Língua Portuguesa, Araújo & Zanotto (2009 argumentam que

o estudo de cadeia de gêneros dentro de uma tarefa escolar maior pode proporcionar aos estudantes uma visão mais ampla da função social dos gêneros, não limitando a compreensão acerca dos modos como a sociedade organiza seus processos comunicativos nos diversos tipos de constelação que podem existir. (p.1)

Para eles, estudar uma constelação de gêneros no contexto escolar é importante para o desenvolvimento da competência sociodiscursiva dos alunos, por propiciar acesso a variados gêneros e por exercitar seu domínio em uma situação comunicativa planejada e real. Esse trabalho pode ser realizado a partir de “um elemento motivador (projeto/unidade didática/evento/tema) proposto por um professor” (p.2). A proposta dos autores é um exercício com a constelação de gêneros por cadeia, em que um gênero sucede ao outro numa ordem cronológica, em que cada gênero é um antecedente necessário para o outro. Nessa cadeia, todos os gêneros têm importância a seu tempo para a conclusão do que foi traçado. A sugestão dada pelos autores tem por base a elaboração de um roteiro de ações a serem executadas.

Figura 5: Roteiro básico para planejamento de atividade didática com base na constelação de gêneros

Fonte: ARAÚJO; ZANOTTO, 2009, p.9.

Na primeira coluna, define-se o evento comunicativo que se pretende realizar. Dentro desse evento, selecionam-se os objetivos a serem alcançados. Depois de definidos os objetivos, escolhem-se os gêneros que correspondam aos propósitos pretendidos. Essa atividade pode ser realizada por um único professor ou por um grupo. Contudo, para que esse planejamento tenha sucesso, alguns principios norteadores devem ser considerados:

a) As atividades devem contemplar as diversas etapas do trabalho com gêneros de texto, como o estudo do gênero, incluindo a leitura e a análise das características, a produção e a análise das produções, podendo-se tomar como base as “sequências didáticas para o oral e a escrita” propostas por Schneuwly & Dolz (2004, p. 95-128).

b) O estudo dos gêneros não pode ser confundido com a “gramaticalização” (classificações, estudo de metalinguagens, etc.) dos gêneros, em detrimento da leitura, produção e análise de textos.

c) É o aluno que precisa se envolver na realização das tarefas, lendo, pesquisando, sugerindo, errando, recebendo orientações, evitando-se, assim, que o professor se limite a transmitir informação. (ARAÚJO; ZANOTTO, 2009, p.9)

Essa atividade é um modo de integrar diferentes conteúdos e de conferir ao aluno a chance de manipular diferentes gêneros que se constelam, ampliando seu leque de textos e trabalhando seu repertório sociodiscursivo.

Benzer Belgeler