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Milli Mücadele’de Konya Basını

O paradigma kitsch do escritor recluso ao fim da vida; | Lugares-comuns; | Funcionalidade da linguagem; | Contra o lugar-comum; | Cristo tem poder; | Retorno a si; | O escritor reunido.

O lugar-comum é "a glorificação histórica de tudo o que se aprova."

Flaubert426

Em 1986, na cinzenta manhã de uma quinta-feira carioca, o jornalista José Castello reuniria Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino no apartamento de Sabino em Ipanema, que fica ali na altura do Posto 8, na rua Canning. O mote era o aniversário de trinta anos de O encontro marcado: pautado por Humberto Werneck, Castello entrevistaria conjuntamente os quatro para produzir uma reportagem para a revista

Istoé.

Nesse encontro, enquanto os "mosqueteiros da mineiridade"427 discutiam "o sentido de suas vidas"428 sob a perspectiva do encontro que a vida marcou entre eles, Sabino parecera cabisbaixo, e postara-se um tanto retraído; a Castello, o escritor se mostrara como um homem mal resolvido.

Eu via o Hélio consagrado, psicanalista vitorioso, homem de esquerda respeitado, figura mítica, excessivo em seus discursos. Otto pragmático, figura mítica, bem- sucedido profissionalmente, personalidade contagiante, embora depressiva. Paulo, prestigiadíssimo como cronista e poeta, às vezes incomunicável de tão bêbado. Os três, radicais, cheios de imperfeições, idiossincráticos, cada um a seu modo. Só Fernando parecia não ter completado ainda o seu ciclo, como se não tivesse lutado sua última batalha, e sem pender para nenhum dos lados. Um retrato com pouco contraste, granulado, em meio à cintilância transparente e iracunda dos três companheiros429.

O ano era 1986, e Fernando estava a menos de dois meses de completar sessenta e três anos de idade: ainda assim, Castello vai demarcar que o escritor aparentava ser um homem e um artista ainda em formação; um homem e um artista que, diferentemente dos demais da sua geração, ainda alimentava a expectativa de lutar a "sua última batalha"430 — uma batalha interna entre suas múltiplas e contraditórias possibilidades de existência, quais o escritor não conseguia conciliar.

O ano era 1986: ali, Sabino já havia alcançado o auge da sua carreira. Ainda assim, por dentro, em ânimo (ou seja, em espírito, em alma, em gênio), o escritor ainda fazia de si o

426 SABINO, 1984, p. 41. 427 CASTELLO, 1986, p. 44. 428 CASTELLO, 1986, p. 44. 429

BLOCH, p. 48, grifo nosso. 430

mesmo jovem escritor que, mal saído da adolescência, fora tocado por uma irrevogável sina, fora marcado por uma inabdicável demanda, um estigma que o pautaria por toda uma vida.

O ano era 1986, e o dia, 21 de agosto: uma manhã cinza no Rio de Janeiro. A esse tempo, Sabino já havia alcançado a maturidade dos sessenta anos de idade. Mesmo assim, por dentro, o escritor ainda buscava, em si, a precisa e definitiva forma de honrar o seu primeiro e maior mestre e de cumprir com o seu inegado destino de artista — cumprir com a convicção que um dia abraçara para nunca mais abdicar: fazer, de vocação e talento, uma convicta realização da literatura.

Se o ano era 1986, desde os anos 1940 Fernando já entendia que a vocação do artista implica necessariamente na responsabilidade do artista: este fora o legado que Mário de Andrade deixara para o pupilo, e que Sabino abraçara completamente. Sabino sentia que precisava, de alguma forma, dedicar-se ainda a cumprir essa sua responsabilidade.

O ano era 1986, mas Sabino ainda sentia faltar algo para que sua vocação se fizesse satisfeita. Em 1986, faltava a Sabino escrever Zélia, uma paixão.

Lugar-comum e equívoco

Arnaldo Bloch, biógrafo de Sabino, também percebe que, nesta entrevista, Castello antevira traços do ensimesmamento431 que dos anos 1990 em diante se tornaria um dos maiores lugares-comuns a serem repetidos sobre os últimos anos de vida do escritor mineiro.432 Ora, mas nada mais redutor e propício ao equívoco que o lugar-comum repetido à exaustão.

O dicionário433 reporta o termo como uma ideia vulgar, um dito trivial, uma frase batida: algo que não contém originalidade. Uma banalidade, um chavão, um estereótipo; um clichê, afinal.

Como teria colocado Henry Louis Mencken, aqui parafraseado por Humberto Werneck, "os clichês têm origem no 'medo do desconhecido', no conforto medíocre de quem, preferindo não arriscar, se basta com fórmulas prontas."434 Lugar-comum: o confortável sofá em que se assenta a preguiça — e, não raro, a covardia.

Para Werneck, que escreveu um dicionário sobre o tema, os lugares-comuns estão intimamente ligados à funcionalidade da linguagem, essa "necessidade de que cada palavra,

431

"O jornalista José Castello, na ocasião, viu em Fernando possíveis traços do encerramento que o dominaria anos depois." (BLOCH, 2005, p. 48).

432 BLOCH, 2005, p. 48. 433 HOUAISS, 2009. 434 WERNECK, 2009, p. 9.

esse precário instrumento de comunicação, chegue o mais perto possível daquilo que se quer dizer"435. Nesse sentido, para Humberto, "se escrever vale a pena, deve ser para enunciar algo que se pretende novo"436; assim, os lugares-comuns seriam como "detritos verbais"437 a colaborar para o distanciamento entre o que se diz e o que se quer, de fato, comunicar.

Nessa perspectiva, os lugares-comuns colaboram para que a linguagem não seja funcional, ou ao menos para que se limite a sua potencialidade comunicativa. Desconstruir o lugar-comum é colaborar para que o dito signifique mais precisamente o referencial.

O sentido e o semblante

O lugar-comum, por sua própria natureza, reitera um entendimento que, na medida de sua repetição, tende a ir se afastando gradativamente do referencial a que conferia sentido. Quanto mais se consolida, mais o lugar-comum perde a sintonia com a realidade a que inicialmente significava. Com o lugar-comum "Fernando Sabino foi um homem e artista recluso no fim de sua vida", não foi diferente438: de tanto ser repetida, a ideia contida na frase tornou-se autônoma, uma "verdade" para além de sua conexão com a realidade; um entendimento apartado da realidade que o ensejou.

Falamos aqui de algo próprio dos lugares-comuns: em algum momento, o referencial empírico perde seu diálogo com o signo que o significa; em algum momento, a significação rompe com a realidade a que haveria de conferir o preciso sentido. Ao fim, sobra um semblante e um sentido completamente autônomos em relação à realidade que os ensejou.

O objeto e/é a metodologia (outra vez)

De objeto, Fernando Sabino já foi mobilizado aqui também como método: convoquei as elucubrações que o escritor faz sobre o potencial que a imaginação tem de ser recurso para se acessar alguma verdade que se esconda por trás da realidade (daquilo que chamamos de realidade). Agora, o escritor é mais uma vez deslocado de objeto para referencial metodológico em função de um compêndio seu sobre o tema dos Lugares-comuns439, escrito à moda flaubertiana. 435 WERNECK, 2009, p. 10. 436 WERNECK, 2009, p. 10. 437 WERNECK, 2009, p. 8. 438

Em que se pese a expressão "não foi diferente" agora já me parecer, ao tempo desta revisão, ela também um lugar-comum.

439

Em seu livro Lugares-comuns, Sabino lembra que "a trivialidade [do lugar-comum] nasce da sua repetição"440, e sugere

não misturar meios e fins, não fazer da palavra um símbolo da coisa expressa, em vez de seu veículo. Trata-se de não confundir, como observou Bergson, "o sentimento, que vive em perpétua mutação, com seu objeto exterior permanente, e sobretudo com a palavra que exprime este objeto".441

Sabino faz um alerta sobre o momento em que o signo adquire vida própria e passa a significar a si mesmo, e não mais a realidade que o embasou (ainda que mantenha uma relação kitsch, de mau gosto, com tal realidade). Nesses casos, a realidade segue simultaneamente se desprendendo de tal signo, já que este se fez estático enquanto a realidade (por sua natureza volátil), mantém-se na transformação constante que é própria da sua natureza.442

"À força de se repetir"443, diz Sabino, o lugar-comum "acaba por negar sua origem, impondo símbolos, conceitos ou juízos que emprestam ao todo atributos da parte, subordinam o essencial ao acidental, restringem, generalizam".444

Este é o momento em que é profícuo deter-se sobre o lugar-comum para desconstruí- lo: esta desconstrução possibilitará problematizar a assertiva "Fernando Sabino foi um homem e artista recluso no fim de sua vida" e entender como sua apreciação rasteira é contraproducente para uma percepção sofisticada da trajetória biográfica do escritor.

Como diria Fernando Sabino, "já que as ideias se impõem pela repetição, vamos repetir o que pretendemos impor"445: urge desconstruir o lugar-comum "Fernando Sabino foi um homem e artista recluso no fim de sua vida" para que se possa construir alguma biografia do escritor. O lugar-comum e o kitsch 440 SABINO, 1984, p. 11. 441 SABINO, 1984, p. 32. 442

Aqui, entende-se a realidade como instância passível de ser acessada de duas formas (ambas precárias). A primeira: acessada pela percepção, acesso que, exclusivo ao instante presente, se faz naturalmente obnubilado pelo escuro do contemporâneo de que nos fala Agamben (AGAMBEN, 2009b). A outra: acessada pela memória, acesso que se dá do instante seguinte ao instante presente, em diante. Esta segunda forma, além de precária, é volátil. Por que volátil: porque memória é processo contínuo, de reconstrução constante, e esta reconstrução ainda se dá em diálogo com a precária e obnubilada percepção que se tem da realidade presente. De forma que: o sentido da realidade, na medida em que a realidade já passou – e ela sempre já passou, pois o presente é passado já no instante em que o miramos (AGAMBEN, 2009b, p. 64-65) – é eternamente instável, sempre novo. O lugar- comum, por sua vez, cristaliza para toda a eternidade um olhar lançado para a realidade em um determinado instante. Aí o problema: o lugar-comum fica, enquanto seu referencial segue.

443 SABINO, 1984, p. 15. 444 SABINO, 1984, p. 15. 445 SABINO, 1984, p. 21.

"Fernando Sabino foi um homem e artista recluso no fim de sua vida". A frase, em dado momento de sua trajetória de frase, deixou de dialogar com a realidade que a embasou, com suas idiossincrasias e eternas possibilidades de (re)interpretação, para pôr sob o foco, como significado, um estrito paradigma kitsch: o do artista recluso — este que, pela natureza do seu mito, é necessariamente amargurado446. "Não há verdade que resista a este massacre de vulgaridade, fomentado pela presunção. Tudo se confunde"447, acusa Sabino.

Mas que fique claro: não é que o mito, por via de regra, proceda ou não proceda. A questão não é – ao menos não de antemão – essa. A questão é que ele, agora, já não remete – mais – a uma realidade específica, particular, mas a um ideal estético. Como diz Léon Bloy, parafraseado por Sabino, "o lugar-comum, mesmo nascendo de uma verdade, é 'o mal de que se morre'."448 Em outras palavras: o lugar-comum mata a verdade de dentro para fora — e assume seu lugar.

Vale repetir: não é que o mito proceda ou não proceda: a questão é justamente que ele procede, sim, e necessariamente — mas procede, também necessariamente, mal. Trata-se de "ideias que só se impõem pelo fato de ser repetidas; hábitos que se formam pelo fato de ser impostos; palavras cuja significação original há muito se perdeu e que são usadas como rebanhos pacíficos"449, como Sabino vai argumentar.

Como também observou Sabino, agora parafraseando Vossler, o lugar-comum tem uma função muito particular: o de facilitar a vida dos mentecaptos. "[Por meio do lugar- comum], o conhecimento científico, os conceitos e verdades eternas se tornam palavras- chaves, fórmulas e terminologias que qualquer idiota pode manejar."450

A ideia aqui, pois, é escaparmos de cumprir a sina de Geraldo Viramundo451, o maior de todos os mentecaptos, e conseguirmos lançar um olhar biográfico para Fernando Sabino para além de fórmulas-chave452.

A pedra no meio do caminho

446

Não escapo de vislumbrar esse paradigma com a imagem de um Sabino com a barba rala por fazer, os olhos fundos de quem não dormiu mais que três horas na noite anterior, o pijama cinza por trocar, a cama desarrumada, a mantinha jogada de lado, parte ao chão, o cabelo ainda por pentear, e uma profundidade resignada nos olhos, minutos contados à espera do fim.

447 SABINO, 1984, p. 15. 448 SABINO, 1984, p. 13. 449 SABINO, 1984, p. 35. 450 SABINO, 1984, p. 15. 451

Protagonista de O grande mentecapto. 452

Curiosamente, Zélia, uma paixão acabaria por se fazer o maior lugar-comum da obra de um crítico do lugar- comum: com o livro, Sabino caía no lugar-comum da busca pelo best-seller.

A realidade é uma rocha bruta, com suas arestas e imperfeições, a dar trabalho para a interpretação: exige a sofisticação do pensamento; pensar nem dentro nem fora da caixa, mas para além da perspectiva que contempla a existência de uma caixa. O lugar-comum, em contrapartida, na medida de seu caráter kitsch, é o astigmatismo que possibilita a qualquer idiota enxergar, na pedra, uma rocha razoavelmente comum, razoavelmente uniforme, de contornos razoavelmente definidos, e perfeitamente compreensível (aquela que o mentecapto – cismado a esperto – dispõe "fora da caixa" para, em seguida, se condecorar pelo grande feito).

A realidade é uma rocha bruta, com suas arestas e imperfeições, sendo lapidada incessantemente pelo vento histórico da memória, e inalcançável: sua compreensão, sempre precária, exige reflexões sincrônicas e diacrônicas, todas ainda assim fadadas à obsolescência imediata a partir do instante em que são proferidas. O lugar-comum, em contrapartida, na medida de sua perspectiva kitsch, é o mísero e instantâneo olhar que nosso amigo "ruim das vistas" lança para esta rocha dentro de um quarto fechado, sem ventilador ou janela, em absorto soslaio.

A realidade tem formas indetermináveis, e sua verdade é inacessível pelo pensamento objetivo. O que leva a pensar, com Sabino, que a verdade dessa realidade só pode ser tocada por meio da imaginação, como num sopro. O lugar-comum é a pedra desenhada por uma descompromissada criança de três anos no auge de sua "criatividade". A verdade da realidade é a pedra que oblitera o caminho até do desenhista mais experto.

Crisálida

Para Humberto Werneck, os lugares-comuns são como "antiborboletas": "não são nada bonitas, mas, de certa forma, voam — e como proliferam!"453. Para ele, essas ideias prontas fazem percurso inverso ao dos insetos no decorrer do tempo histórico: enquanto na metamorfose original a lagarta rompe o casulo como algo novo, inédito e belo, nos lugares- comuns "o que foi uma linda borboleta regride à condição de nada atraente lagarta".454

Em função disso, Humberto recomenda certa "desconfiança diante de tudo aquilo que, no ato de escrever, saia pelos dedos com demasiada facilidade".455 Para o escritor, "nada de verdadeiramente bom costuma vir nesse automatismo".456 Positivamente, nada é mais fácil de se escrever sobre Fernando Sabino hoje que a sugestão de ele ter sido "um homem e artista

453 WERNECK, 2009, p. 7. 454 WERNECK, 2009, p. 7. 455 WERNECK, 2009, p. 10. 456 WERNECK, 2009, p. 11.

recluso no fim de sua vida". Nenhum entendimento sobre sua trajetória se nos apresentou mais pacífico de ser pastoreado que este.

De alguma forma, este trabalho, em constante estado de preparação, recolhido como uma crisálida, lateja latente a expectativa de alguma rebelião, alguma revelação contra esse entendimento comum.

Um lugar-comum para não pensar

Em seu irônico relicário das ideias prontas, o que Sabino diz é que, para muitos, o pensamento independente é totalmente impossível, e para a grande maioria é bastante penoso.457 Nesse sentido, "os lugares-comuns são antes de tudo um pequeno número de fórmulas usadas pelo homem que não exerce a sua faculdade de pensar, aquele que jamais foi tentado a compreender o que quer que seja, 'o autêntico e indiscutível burguês'"458 — diz, parafraseando Léon Bloy.

O lugar-comum, a ideia pronta, o clichê estão diretamente ligados à ideia de preconceito, especialmente no sentido mais etimológico da palavra: a do conceito pré- concebido, que insiste em se afirmar e reafirmar à revelia da realidade e de sua transformação constante. O lugar-comum, em suma, é estado da arte do conforto cerebral.

O que nos diz Hannah Arendt:

Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo tempo a esta exigência, logo estaríamos exaustos.459

Mas é preciso dizer não a este tipo de conforto.

Um lugar-comum clássico: reduzir personalidades históricas a lugares-comuns

Na introdução de Lugares-comuns, Fernando Sabino recupera algumas das várias ideias prontas que se consolidaram sobre as personalidades históricas mais famosas. O que Sabino comenta é que "a ideia original, assim castigada, acaba completamente perdida e estará no lugar-comum como Pilatos no Credo — porque Pilatos ficou sendo apenas uma figura que entrou no Credo por acaso. Depois de ter lavado as mãos."460

457 SABINO, 1984, p. 13. 458 SABINO, 1984, p. 24. 459 ARENDT, 2000, p. 6. 460 SABINO, 1984, p. 15.

Com ironia, lista Sabino:

Assim, "penso, logo existo" se tornou a única razão de Descartes ter existido, ante a qual melhor fora não ter pensado. "Ser ou não ser" — eis a questão a que o lugar- comum reduziu toda a obra de Shakespeare, com a dúvida de ter sido ele mesmo o seu autor, ou Bacon — ao que se acrescenta o lugar-comum de afirmar: quem quer que tenha sido, foi um poeta genial a quem chamamos de Shakespeare. Nero nasceu, viveu e aconteceu, para tanger a lira diante do incêndio de Roma e depois se matar dizendo que o mundo ia perder um grande artista. Napoleão será sempre um homem com dois dedos enfiados entre os botões do colete, com representante em quase todos os hospícios do mundo. Waterloo passou a ser a batalha que todo general tem de enfrentar mais dia menos dia, e Santa Helena uma ilha conhecida pelo seu rochedo. Arquimedes poderia ter levado o resto da vida sem tomar banho e não deixaria de ser um homem que saltou da banheira e saiu despido a gritar "Eureka!" pelas ruas. Diógenes foi aquele que viveu dentro de um tonel, pediu a Alexandre que não lhe tapasse o sol e um dia (ou uma noite) saiu com uma lanterna na mão à procura de um homem. César, o mesmo a quem se deve dar o que é dele, foi um imperador romano que, ao ser apunhalado, exclamou: "Tu também, Brutus?" Antes, porém, já tinha dito, ao cruzar um rio chamado Rubicão, não se sabe bem a propósito de que, alea jacta est [a sorte está lançada], pouco antes de chegar, ver e vencer.461

À exemplar lista de Sabino, pois, acrescento eu um último nome — o dele mesmo, "Fernando Sabino". Ao modo irônico do nosso escritor, digo que

tornar-se um homem e um artista recluso no fim da vida por causa de Zélia, uma paixão tornou-se a única razão de Fernando Sabino ter existido, ante a qual melhor fora nem tê-lo sido.

Segundo o lugar-comum, Sabino nasceu, viveu e aconteceu para escrever Zélia, uma paixão, frustrar-se com a má recepção obtida pela obra, sofrer a morte de seu último melhor amigo, Otto Lara Resende, separar-se em seguida de sua esposa Lygia e então, por tudo isso somado, recolher-se como um clássico em si mesmo, aguardando o fim da vida.

Assim desenhado em sua obviedade, o clichê nos surpreende por seu aspecto caricato. Assusta-nos, também, pensar na nossa incapacidade de resistir à sua sedução.

Para além da aprovação

Segundo Sabino, Flaubert entendia o lugar-comum como "a glorificação histórica de tudo o que se aprova"462. Sua enunciação, destarte, seria a reiteração da ideia de que as maiorias têm sempre razão, e as minorias, nunca.

O francês tão apreciado pelo mineiro rascunhara ele mesmo um dos primeiros, se não o primeiro dicionário a compilar essas ideias prontas, obra que Sabino verteu para o português

461

SABINO, 1984, p. 15-16. 462

e equipou com um instigante ensaio introdutório, texto do qual são oriundas as citações feitas neste capítulo. Equipou, também, de um dicionário de sua autoria, a que chamou de Esboço de um dicionário brasileiro de lugares-comuns e de ideias convencionais. (No qual consta o verbete "X - Do problema"463, quando nesta dissertação a letra problemática é obviamente o Z).

Com seu dicionário, Sabino sugere formas de se (tentar) escapar do lugar-comum (ainda que no posfácio da obra ele mesmo venha a sacramentar que ninguém é capaz de escapar completamente dele464). Nas saídas que sugere, Sabino afirma que "é preciso reabilitar para a literatura as ideias cuja expressão a frase feita consumiu. Surpreender o lugar- comum como a um inimigo e libertar a verdade que possa encerrar".465

Sabino diz que "é preciso antes de mais nada fazer de cada palavra escrita um elemento permeável à expressão de uma ideia. Não deixar que se corrompam na justaposição"466, e também diz que "escrever bem não é repetir o que já foi bem escrito: é revalorizar os meios de expressão, juntar ou separar palavras para fazê-las reagir, servir-se do que já foi dito para dizer pela primeira vez"467.

"Fernando Sabino foi um homem e artista recluso no fim de sua vida": seguindo os