A formação profissional de Serviço Social no país tem início com o Centro de Es- tudos e Ação Católica (CEAS), em 1932, com um Curso de Formação Social, que preparava pessoas para atuar na ação social e difundir os princípios da doutrina social da igreja. Con- forme relata Yasbeck (1977), Maria Kiehl e Albertina Ferreira Ramos, duas sócias do CEAS e alunas do curso intensivo de seis semanas, ministrado por aquele Centro, considerando a for- mação insuficiente, seguiram para a Europa para realizar o curso de três anos, na Escola Cató- lica de Serviço Social. No período em que lá estiveram, estudaram as estruturas e organização de escolas sociais na Bélgica, em Londres, em Paris e em Genebra.
De volta ao Brasil, em fins de 1935, já no ano seguinte, iniciaram os preparativos para a criação da Escola de Serviço Social de São Paulo, mantida pelo Centro de Estudos e Ação Social. Em 1946, o curso de Serviço Social passou a ser agregado à Fundação São Pau-
10 Não é objetivo deste capítulo, fazer uma análise exaustiva sobre a historiografia do Serviço Social, haja vista
sua finalidade de situar o debate sobre as competências e habilidades na formação profissional contemporânea. Para um maior rigor desse aspecto, indica-se a leitura de Yasbeck (1977), Iamamoto (1992, 1996), Netto (1991), Castro (1993) e Verdès-Leroux (1986).
lo, mantenedora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em 1972 incorporou-se definitivamente a PUC-SP. O segundo curso de Serviço Social brasileiro é de 1937, fundado por Stella di Faro no Rio de Janeiro, integrado à Escola Ana Nery, que em 1946, foi agregada à Faculdade Católica, elevada naquele mesmo ano, à categoria de universidade11.
O objetivo do curso de Serviço Social de São Paulo, segundo Yasbeck, (1977, p. 40), era formar a personalidade das assistentes sociais, técnica e moralmente, propondo-se a ―desenvolver ao lado de uma formação técnica (teórica e prática) uma formação ‗doutrinária‘, que dará ao futuro assistente social uma concepção de vida, de homem e de mundo fundamen- tada em princípios cristãos‖ (p. 41).
A proposta curricular dos primeiros cursos de Serviço Social estava direcionada para a formação moral, com forte base doutrinária e técnica. Conforme mostra Sá (1995), a proposta pretendia formar profissionais com uma sólida formação moral, aptidão para apreen- der os problemas sociais, senso de responsabilidade, espírito de sacrifício, e tenacidade, ou seja, na formação profissional deveria ser assegurada a vocação do assistente social incorpo- rada à sua personalidade, ao seu conhecimento dos problemas sociais e à técnica adequada ao trabalho a ser desenvolvido.
Naquele momento, a questão da vocação era importante na opção pela profissão, o mesmo não se pode dizer em relação ao pagamento pelo trabalho realizado, que Yasbeck (1977, p. 41) destaca, ―a remuneração aparece como aspecto secundário do trabalho e justifi- ca-se apenas pelo fato de que sem ela a carreira ficaria impossibilitada a todos que devem viver do seu trabalho‖. A carreira profissional exigia dedicação e desinteresse.
Pela urgência em formar profissionais brasileiros, o primeiro curso de Serviço So- cial em São Paulo, teve a duração de dois anos. Em 1939, o curso foi reconhecido pelo gover- no do Estado e passou a ter três anos de duração. Esse curso foi essencial para a ampliação na formação de Serviço Social no país, seja por receber estudantes de outras localidades, seja por assessorar a formação de novos cursos.
Os primeiros cursos de Serviço social no Brasil tinham como referência os cursos europeus, com a característica de intensificar e aperfeiçoar o trabalho social católico. Com os conflitos da Segunda Guerra mundial, que dificultava o intercâmbio com a Europa, e um con- vite do governo dos Estados Unidos, para que diretores de cursos de Serviço Social partici- passem em Atlantic City da Conferência Nacional de Serviço Social, há uma aproximação com as instituições de formação e profissionais americanos. Em 1941, o Governo Americano
oferece bolsas de estudos para assistentes sociais da América do Sul. Das 17 bolsas ofereci- das, quatro foram utilizadas por brasileiras, que fizeram a aproximação do Serviço Social bra- sileiro com o Norte Americano.
A influência do Serviço Social Norte Americano se fez sentir especialmente no que diz respeito aos aspectos de técnicas e instrumentação, introduzindo as disciplinas de ca- sos individuais, de grupo e de organização social de comunidade.
No final da década de 1940, havia 14 cursos de Serviço Social distribuídos em se- te estados brasileiros. Destas, sete eram públicas e sete privadas/filantrópicas. Com o passar do tempo, surgiu à necessidade de regulamentar a profissão de assistente social e sua forma- ção. Assim, em fevereiro de 1946, foi organizada a ABESS12 – Associação Brasileira de En- sino de Serviço Social – na época era constituída por unidades de ensino do Serviço Social em nível de graduação, com o objetivo de ―promover intercâmbio e colaboração entre seus mem- bros; promover a adoção de um padrão mínimo de ensino e representar os interesses coletivos das escolas‖ (SÁ, 1995, p. 71-72).
Devido à complexidade dos problemas que a profissão enfrentava e pela natureza dos recursos técnicos e científicos empregados, a terceira Convenção da ABESS, em 1953, teve como foco a formação superior em Serviço Social. Neste mesmo ano, em maio de 1953, a presidente da ABESS, Odila Cintra Ferreira, foi ao Congresso Nacional argumentar sobre a necessidade de preparo de nível superior para o Serviço Social, pois mesmo não existindo um currículo mínimo oficial, as instituições formadoras discutiam o assunto e buscavam soluções comuns, nos diferentes espaços de discussão como congressos e nas convenções da ABESS.
O Curso de Serviço Social foi regulamentado pela Lei n.º 1889, de julho de 1953, que dispõe sobre os objetivos do ensino do Serviço Social, sua estruturação, e ainda, sobre as prerrogativas dos portadores de diplomas de assistentes sociais e agentes sociais. Em seu arti- go 2º, a Lei prevê que o ensino do Serviço Social seja feito em nível superior em três séries, no mínimo, com duração de um ano cada uma. A Lei n. 1889, de julho de 1953, em seu artigo 3º, propõe um currículo mínimo.
Art. 3º Dentro da orientação metodológica compatível com o nível superior do cur- so, a formação teórica e prática de Assistentes Sociais compreenderá o estudo das seguintes disciplinas, no mínimo:
I - Sociologia e Economia Social;
12 Em dezembro de 1998, o estatuto da Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABESS) sofreu re-
formulações e a entidade passou a ser denominada de Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), a partir do redimensionamento institucional que congrega o Centro de Documentação e Pes- quisa em Políticas Sociais e Serviço Social (CEDEPSS) criado em 1987.
Direito e Legislação Social;
Higiene e Medicina Social;
Psicologia e Higiene Mental;
Ética Geral e Profissional;
II - Introdução e fundamentos do Serviço Social; Métodos do Serviço Social;
Serviço Social de Casos - de Grupo - Organização Social da Comunidade:
Serviço Social em suas especializações;
Família - Menores - Trabalho – Médico; III - Pesquisa Social.
A Lei n. 1889 estabelece que, no primeiro ano do curso, predominem as discipli- nas teóricas, no segundo ano, haja equilíbrio entre a teoria e prática e, no terceiro ano, preva- leça a prática. Esta Lei foi regulamentada pelo Decreto DEC. 35311, de 02/04/1954.
Ainda na década de 1950, foi sancionada a Lei n. 252, de agosto de 1957, que re- gulamentou o exercício profissional e definiu as atribuições dos assistentes sociais.
Art. 3º - São atribuições dos assistentes sociais: a) direção de escolas de Serviço Social;
b) ensino das cadeiras ou disciplinas de serviço social;
c) direção e execução do serviço social em estabelecimentos públicos e particulares; d) aplicação dos métodos e técnicas específicas do serviço social na solução de pro- blemas sociais.
Art. 4º - Só assistentes sociais poderão ser admitidos para chefia e execução do ser- viço social em estabelecimentos públicos, paraestatais, autárquicos e de economia mista.
A Lei n. 252 foi regulamentada pelo Decreto 994, de 15 de maio de 1962. No de- creto há algumas mudanças em relação às atribuições dos assistentes sociais; é excluído o item ―d‖ do Art. 3º e o Art. 4º da Lei 252 e são feitas algumas modificações como:
Art. 5º - São prerrogativas do Assistente Social:
I - Dirigir Escolas de Serviço Social;
II - Ensinar as cadeiras ou disciplinas de Serviço Social e supervisionar profissionais e alunos em trabalhos teóricos e práticos de Serviço Social;
III - Planejar e dirigir o Serviço Social, bem como executá-lo em órgão e estabele- cimentos públicos autárquicos paraestatais, de economia mista e particulares;
IV- Assessorar tecnicamente assuntos de Serviço Social nos órgão e estabelecimen- tos públicos, autárquicos, paraestatais, de economia mista e particulares;
V - Realizar perícias, judiciais ou não, e elaborar pareceres sobre matéria de Serviço Social.
Parágrafo único. Além do disposto no artigo, constituem atribuições do Assistente Social:
a) integrar comissão examinadora de concursos e provas em cadeiras ou disciplinas específicas de Serviço Social, assim como representar congregação ou corpo de pro- fessores em conselho universitário.
b) Participar de comissões, congressos, seminários e outras reuniões específicas de Serviço Social, como representante dos poderes públicos, da classe de órgãos e esta- belecimentos de Serviço Social públicos, autárquicos, paraestatais, de economia mista e particulares.
Nos anos de 1960, o Serviço Social já não foi mais visto como apostolado ou vo- cação, mas como uma profissão, com base conceitual técnica. O artigo primeiro do Decreto de Regulamentação da Profissão deixa claro que o Serviço Social constitui o objeto da profissão liberal de Assistente Social, de natureza técnica científica.
Em 1965, o curso de Serviço Social passou a ter quatro anos de duração, confor- me Portaria Ministerial 519, de 14/06/1965 e confirma a laicização da profissão e a necessi- dades dos cursos de Serviço Social se submeterem à fiscalização do Estado por meio das dire- trizes do Ministério de Educação.
Entre 1962 e 1969, foram criados 11 cursos de serviço social: um curso privado na região sul, dois cursos públicos na região nordeste, um curso público na região sudeste e sete cursos privados na região sudeste. Ao todo, em 1969, havia 36 cursos de Serviço Social no país.
O ensino superior brasileiro passou por grandes mudanças na década de 1960. O golpe militar de 1964 instaurou a ditadura, provocando por um lado, o afastamento de muitos professores, alguns foram forçados à aposentadoria, outros foram expulsos ou exilados, estu- dantes foram presos, a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi incendiada e a UNE foi extinta. Por outro lado, houve visível expansão do ensino superior, as Universidades pú- blicas receberam recursos e apoio para construção de novos prédios, equipamentos e bolsas de estudos no exterior. De acordo com os anais ―Educação superior: reforma, mudança e interna- cionalização‖ (2003), a reforma foi financiada pelos americanos. Com o patrocínio do regime militar e a tutela da tecnocracia norte-americana, a universidade brasileira, mesmo sem liber- dade, ampliou o número de instituições, de professores e alunos.
A reforma do ensino superior brasileiro de 1968 determinou que as universidades se consubstanciassem num espaço para a formação de profissionais que respondessem às exi- gências do mercado de trabalho, foram inseridos o regime de créditos, a departamentalização, o vestibular classificatório e o incentivo formal à pesquisa. Trindade (2004, p. 832) argumenta que a reforma de 1968 modernizou e profissionalizou as universidades públicas, porém tor- nou-a burocratizada. Uma das estratégias do setor da educação da época foi o investimento no sistema de pós-graduação, que foi um avanço para a época, porém trouxe um efeito perverso, que é a privatização da educação superior. Não mais o ensino privado filantrópico e confes- sional, mas o ensino superior ―estruturado nos moldes de empresas educacionais voltadas para a obtenção do lucro econômico e para o rápido atendimento de demandas do mercado educa- cional‖ (MATINS, 2009, p. 17). Essas instituições concentraram-se na oferta de cursos de graduação de baixo custo e sem produção de pesquisa e de extensão.
As mudanças refletiram-se no currículo do curso de Serviço Social. Através do Parecer 242/70 do Conselho Federal de Educação, o curso passou a ter 2.500 horas/aula, com no mínimo três anos, e no máximo cinco de anos de duração; foi divido em ciclo básico e ci- clo profissional, e refletia a ideologia desenvolvimentista, expressando uma preocupação com a cientificidade profissional, caracterizado pelo metodologismo que marcava as profissões de natureza interventiva. Este ―Parecer deixou a categoria insatisfeita, pois eliminou disciplinas consideradas imprescindíveis à formação teórica-prática, como: ética geral, estatística, pes- quisa social, administração de obras sociais, atividade de grupo, família e menor, além de reduzir o tempo do curso‖ (FRANCO, 2003, p. 85).
É importante destacar que esta mudança curricular ocorreu em um período de di- tadura Latino Americana. Neste mesmo período, ocorreu o movimento de reconceituação do Serviço Social Latino Americano, inclusive do Serviço Social brasileiro. A proposta era rom- per com a influência europeia e norte-americana, e a partir de uma leitura política da profissão com base marxista, revisar o aparato teórico-metodológico e denunciar a ação profissional realizada em função dos interesses das classes dominantes.
É difícil precisar com exatidão a origem no tempo e espaço do movimento de re- conceituação. Junqueira (1980, p.9) considera como ―primeira manifestação grupal de crítica ao Serviço Social tradicional e ensaio de reconceituação‖ o Encontro Regional de Escolas de Serviço Social do Nordeste em janeiro de 1964. Na ocasião, foram questionados os métodos tradicionais frente à realidade e ao engajamento do Serviço Social nos planos desenvolvimen- tistas. Para Netto (2005, p. 9), ―o marco inicial da reconceituação foi o ‗I Seminário Regional Latino-Americano de Serviço Social‘, em maio de 1965, em Porto Alegre‖, com o tema ―a ruptura com o Serviço Social tradicional‖. Participaram do seminário 415 profissionais do Brasil, Argentina e Uruguai.
A perspectiva de reconceituação do Serviço Social no Brasil se firmou em dois Seminários de Teorização, organizados pelo CBCISS – Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais. O I Seminário de Teorização de Serviço Social reuniu 38 assistentes sociais entre 19 e 26 de março de 1967, em Araxá, Minas Gerais. A maioria dos participantes teve formação em cursos de fundação e orientação católica. Do Seminário resul- tou o ―Documento de Araxá‖, que caracterizou o Serviço Social pela sua atuação junto aos indivíduos com desajustamentos familiares e sociais, desajustamentos geralmente decorrentes de estruturas sócio-econômicas inadequadas.
O Documento de Araxá divulgou alguns componentes básicos do Serviço Social, aspectos de sua metodologia de ação e adequação de sua dinâmica operacional à realidade
brasileira. O Documento enfatizou a técnica, como um elemento que se constitui no modelo de atuação do Serviço Social, na perspectiva de desenvolvimento, com a utilização dos pro- cessos de Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade.
Ao analisar o Documento de Araxá, Aguiar (1989, p.127), argumentou que ele tem uma perspectiva liberal, em que, ―o Serviço Social aceita, justifica e legitima, na prática e na teoria, uma sociedade capitalista; reconhece as imperfeições da ordem social vigente, tanto que pretende melhorá-la‖, entretanto a proposta continua com a referência ideológica do neo- tomismo e no desenvolvimentismo. Para Netto (1991, p. 177), o movimento de Araxá não conseguiu romper com o tradicionalismo da profissão, ―a ausência de uma explicitação teóri- co-metodológica rigorosa não equivale à ausência de uma dada orientação teórica e metodo- lógica‖.
Em 1970, em Teresópolis, Rio de Janeiro, ocorreu o II seminário de Teorização do Serviço Social, com o tema central a ―metodologia do Serviço Social frente à realidade brasileira‖, o evento reuniu 35 assistentes sociais. A partir deste seminário, construiu-se o ―Documento de Teresópolis‖, que não apresentou um texto orgânico como foi o de Araxá. Foi construído com a justaposição dos relatórios dos dois grupos que participaram do encontro. Para o seminário, os participantes receberam previamente, três textos sobre a temática do en- contro ―necessidade de um estudo sobre a metodologia do Serviço Social frente à realidade brasileira‖ e um roteiro de trabalho. Os grupos concentraram-se em dois temas, ―concepção científica da prática do Serviço Social‖ e ―aplicação da metodologia do Serviço Social‖.
O documento de Teresópolis propôs uma nova formação para o Serviço Social, em que o profissional seja ―capaz de se mover com uma familiaridade mínima entre discipli- nas acadêmicas como o Planejamento, a Administração, a Estatística, a Política Social, a Eco- nomia, os mais diversos ramos da Sociologia, etc.‖ (NETTO, 1991, p. 192). O documento ambienta o Serviço Social à modernização conservadora.
Outros dois seminários foram promovidos pelo CBCISS. Em novembro de 1978, ocorreu o Seminário de Sumaré, com 25 participantes, o foco da discussão foi o objeto do Serviço Social, o encontro refletiu sobre as três vertentes do Serviço Social, o neopositivismo, a fenomenologia e o marxismo. Segundo Faleiros (2005, p. 24), o documento de Sumaré ―as- sume uma posição funcionalista e considera que a reconceituação possa ter um caráter funcio- nalista sistêmico. Discute as possibilidades de um Serviço Social na ótica dialética e na ótica da fenomenologia, abrindo-se ao pluralismo‖. Em 1984, aconteceu o Seminário do Alto da Boa Vista com 24 participantes. Estes dois seminários já não tiveram a repercussão dos ante- riores, pois a realidade do país e do Serviço Social era outra e haviam surgido novos organis-
mos de expressão e representação, como a ABESS, os Congressos Brasileiros de Assistentes Sociais (CBAS) e os grupos acadêmicos, especialmente os de pós-graduação.
Para Netto (1991), o movimento de reconceituação se opôs à herança intelectual conservadora e cultural da profissão, acenando para novas concepções teóricas, ideológicas e políticas. O autor identificou três direções distintas do Serviço Social: a perspectiva moderni- zadora, a perspectiva de reatualização do conservadorismo e a perspectiva de intenção de rup- tura. As duas primeiras perspectivas não pretendiam romper com o conservadorismo herdado pela profissão, mas trouxeram maior consistência científica com o respaldo de um referencial teórico-metodológico apropriado das ciências sociais. Respaldaram-se em correntes sistêmi- cas e na fenomenologia, não conseguindo romper com o conservadorismo.
A vertente denominada por Netto (1991) de Reatualização do Conservadorismo emergiu nos seminários de Sumaré e Alto da Boa Vista, e se evidenciou no período de 1975 a fins da década de 1980. Essa vertente se apoiou na perspectiva fenomenológica e entendeu a prática profissional como ajuda, e conforme Guedes (2005), preocupavam-se em oferecer aportes teóricos aos assistentes sociais para que pudessem interpretar adequadamente e com- preender as necessidades da pessoa (o cliente), de forma a ajudá-la (o) a descobrir as possibi- lidades de realização de seus propósitos humanos. O Serviço Social é posto como uma inter- venção que se inscreve rigorosamente nas fronteiras da ajuda psicossocial e o diálogo é en- tendido como uma forma de ajuda psicossocial. Os profissionais repudiaram as práticas ajus- tadoras e priorizaram as chamadas de transformação social.
A partir da metade da década de 1970, ocorreu a abertura política e o fortaleci- mento dos movimentos sociais. Esse contexto de redemocratização e politização da sociedade brasileira possibilitou aos profissionais e estudantes de Serviço Social a manifestação em re- lação a outras perspectivas profissionais. O compromisso com a classe trabalhadora ficou evi- dente com o Movimento de Reconceituação do Serviço Social, não só no Brasil, mas na Amé- rica Latina.
A abertura política no Brasil começa a ser gestada com a eleição do Presidente General Ernesto Geisel em 1973, que iniciou o processo de abertura como forma de sobrevi- vência do autoritarismo. A partir de 1974, se evidenciou a crise do chamado Milagre Econô- mico, com aumento do desemprego, da inflação e da recessão econômica, além da crise ener- gética, situações que forçaram o reaparecimento dos movimentos sociais pró-democracia. Movimento como o das donas de casa, sindicatos, parte da igreja católica, trabalhadores rurais e entidades da sociedade civil.
Nesse cenário, o movimento de reconceituação do Serviço Social fez críticas às ações profissionais institucionais, acreditando que atuar em instituição é cooperar com a clas- se dominante. A opção, segundo Wanderley (1998, p. 44), era buscar projetos alternativos fora das instituições, o que foi materializado por algumas instituições de ensino latino- americanas, por meio de projetos de investigação e prática, e projetos pilotos voltadas a gru- pos engajados, ou interessados em se engajar, em lutas populares.
A perspectiva de intenção de ruptura, que havia sido freada pela ditadura militar, ressurgiu em meio à crise do milagre econômico, junto com a transição para a democracia. Critica o Serviço Social tradicional e tem base na teoria marxista. Pelas adversidades políticas da época, encontrou nas universidades o espaço propício para se desenvolver. Um dos desta- ques foi a elaboração do ―Método BH‖13 por um grupo de professores na Universidade Cató-
lica de Minas Gerais, que propuseram romper com o conservadorismo, com a herança positi-