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Para Unger “conhecimento” é um termo absoluto. Isto quer dizer que sua aplicação demanda condições muito exigentes. Tomando conhecimento como um tipo de crença justificada não acidentalmente verdadeira não é tão fácil inferir o que torna o “conhecimento” um termo absoluto. Para Unger a justificação é o elemento absoluto do conhecimento. Para este filósofo, estar justificado é ter certeza. Conhecer para Unger acarreta um estado extremamente forte de justificação, isto é, implica certeza absoluta. Certeza absoluta é a ausência total de dúvidas. Unger sugere que há uma conexão analítica entre conhecer e ter certeza.

Estar absolutamente certo de alguma coisa, entretanto, devido à característica da certeza pessoal, é ser dogmático32 em relação a essa coisa. Uma

vez que se tem certeza absoluta de que p não há qualquer evidência em contrário que possa fazer com que se mude de ideia. Unger acredita que temos uma inconsistência quando se diz que “S está absolutamente certo de que há automóveis, mas sua atitude é tal que ele pode mudar seu pensamento em virtude de certas evidências.” (Unger 1975 p, 110).

Unger considera a atitude de quem tem certeza como segue: “Se S está certo de que p, então segue-se que S não está de modo algum aberto a considerar qualquer nova experiência ou informação como relevante para o seu posicionamento ou pensamento na questão de que p” (1975, p. 116). O problema da atitude de certeza é que ela enseja uma atitude dogmática e “este dogmatismo é intrínseco a toda alegação de certeza e conhecimento” (STROUD 2000, p 47). Dogmáticos são aqueles que sempre desmerecem qualquer evidência contrária como enganadora ou irrelevante. Quanto mais dogmática uma pessoa é menos evidência ela considera como relevante. A atitude de certeza é sempre dogmática. Se estar certo, no sentido forte do termo, é ter uma atitude dogmática de certeza, então Unger conclui que “estar certo é sempre errado” (1975 p. 135). A análise realizada por este filósofo

32 Lembremos que o que caracteriza o dogmático para Unger aqui é a recusa em aceitar qualquer

evidência em contrário. A atitude do dogmático é a de quem já atingiu o limiar absoluto do conhecimento. Isso não implica na ausência total de evidências pelo sujeito, mas que de posse de evidências parciais ele se pretende absolutamente justificado.

mostra que conhecimento é uma posição, condição ou estado de justificação absoluta. E uma vez que conhecer é um termo absoluto ele é um conceito inaplicável. Por esta razão todas as vezes que dizemos ‘s sabe que p’ dizemos algo falso. Unger enfatiza que utilizou em todo o seu texto os termos “saber” e “certeza” em seus sentidos ordinários. Não houve qualquer manobra semântica. Se sua tese estiver correta e a própria estrutura da nossa linguagem ensejar, através da semântica dos termos absolutos, um ceticismo tão radical, então devemos concordar que tal ceticismo implica uma ignorância que é tanto necessária e inevitável quanto universal e completa.

O ceticismo de Unger, como vimos, consegue se esquivar parcialmente das acusações de que as hipóteses céticas são absurdas ou que infringem a linguagem comum. Contudo, apesar de defender que o ceticismo é uma teoria correta isso não acarreta, necessariamente, qualquer consequência prática, pois a vitória do ceticismo, reconhece Unger, “é tão sem importância quanto isolada” (Unger 1975 p.151). O ceticismo pode não ter qualquer consequência prática, mas sua importância teórica deve estar sempre presente para aqueles de nós para quem a verdade importa.

2.4.3. Avaliando a Teoria

Uma das vantagens da abordagem cética de Peter Unger é que seu ceticismo não é derivado de qualquer hipótese extravagante, mas da natureza semântica dos nossos termos epistêmicos em seu uso comum. Sua teoria defende, como resumiu Stroud (2000 p. 49) que “nossa prática linguística é perfeitamente compatível com a falsidade literal de toda asserção de conhecimento ou certeza em qualquer circunstância”. Conhecimento implica certeza. Certeza implica eliminação de toda dúvida, por mais irrelevante que seja. Por esta razão nunca conseguimos satisfazer as condições de verdade requeridas para o conhecimento33.

Se nos focarmos apenas na exigência de certeza para o conhecimento e da eliminação de todas as alternativas concorrentes observaremos que o ceticismo de

33 Contudo, o termo “conhecimento” e todos os demais termos absolutos possuem grande utilidade

prática. Quando dizemos que ‘S sabe que p’ enquanto ‘S* não sabe que p’, estamos, em realidade, avaliando práticas epistêmicas dentro de um espectro que vai desde a ignorância total, o caso de S*, até patamares próximos ao conhecimento. A falsidade literal do termo conhecimento, contudo, não representa qualquer impedimento para o uso significativo e útil dos mesmos.

Unger é semelhante ao de Descartes. A diferença entre ambos é a motivação. O que motiva o ceticismo de Unger não é a dúvida acerca da confiabilidade das nossas faculdades cognitivas em distinguir o mundo real de hipóteses céticas logicamente possíveis, mas a própria estrutura semântica da nossa linguagem ordinária que é repleta de termos absolutos. O que torna a teoria dos termos absolutos inovadora e poderosa, na realidade, é que o ceticismo que dela emana está vinculado a uma determinada concepção de significado e uso da linguagem e isso diferencia Unger de Descartes. O ceticismo de Unger é parasitário de certa concepção semântica. Concordamos com Stroud quando ele diz que,

Se o significado do que é dito em uma ocasião particular pode ser explicado completamente em termo de condições sob as quais seria verdade, e independentemente da posição epistêmica daqueles que poderiam dizer isso ou compreendê-lo, então parecerá possível sempre para todas as nossas alegações de conhecimento serem falsas, mesmo que algumas delas sejam feitas na melhor posição em que seres humanos pudessem se encontrar. [...] O mérito distintivo do trabalho dele é chamar atenção para uma forte, mas geralmente desconsiderada, pressão para o ceticismo inerente nesta concepção de significado. E deve-se admitir que é uma concepção muito poderosa. (STROUD, 2000 p. 49-50)

Os críticos de Unger buscam atacar sua teoria em dois flancos. No primeiro deles está a tese, já presente em Austin, de que o modo como utilizamos/atribuímos o termo “conhecimento” requer tão somente que nossa evidência exclua/elimine alternativas que se afigurem como relevantes para o caso. Em outro flanco temos uma crítica à concepção semântica invariantista de Unger e tudo o que ela implica. Para essa segunda frente os termos epistêmicos sofrem variação contextual e o significado desses termos respondem a um tipo particular de dialética entre as intenções e propósitos do agente e certa estrutura, padrão, contraste ou regras contextualmente estabelecidas. Desse modo, buscam responder ao ceticismo invariantista apelando para a dimensão pragmática do conhecimento. É o que veremos no capítulo a seguir com a Teoria das Alternativas Relevantes do filósofo Fred Dretske34.

3. CAPÍTULO II - FRED DRETSKE: ALTERNATIVAS RELEVANTES e